sábado, fevereiro 06, 2016

Rochelle

O fumo ganhou volume depois de ter tomado o papel, o nosso sujeito encontra-se claramente intranquilo, uma nádega no sofá e outra a acompanhar.
Olhou para o palhaço no tecto, nunca ninguém teve surtos destes nesta casa e este estava claramente farto de
adultos. A sala desdobrou-se para o corredor, corrido para a rua. Há que fazer tempo e os melhores transes não são dignos de festas. Venha a brisa fresca.
Foi portanto comprar pão (as tarefas mais mundanas tornam-se fenómenos dignos de registo quando há um filtro externo ao nosso corpo). Claro que
isto só é perceptível ao próprio, a âncora da experiência. Felizmente os outros tomam-nos por tolos, dão o pão, consideram enganar o troco e
mudam o canal da televisão. A padaria encontrava-se junto a uma falésia com bancos, onde ele se sentou a ver o sol nascer. E aí veio a ideia, por
entre a magnificência do nascer do dia, as vagas de ácido recortando a luz por entre as núvens, cores mais intensas que um exercício de pintura surrealista. Este é o
primeiro dia depois de ter recebido uma rescisão amigável, 1500 euros a pesar no bolso, a trip começou logo a torcer-se de entusiasmo. 30 anos soltos
"Estás a chegar a uma fase perigosa da tua vida". Duas horas depois
estava a comprar um bilhete de avião numa e-shop indiana, rumo ao reino da Tailândia. Avisada a família, comprou uma mala no chinês, sete pares de meias,
t-shirts pretas e uns óculos escuros. Meio dia depois fazia escala em Amsterdão. Não tendo vontade de correr caminhos já percorridos nem chegou a sair de
Schippol. A turbolência agoirava um bom porto de destino, o avião aterrava em Banguecoque. registando o calor e a humidade pendentes no ar quando a cabine
universal, pressurizada e climatizada se abriu e os passageiros foram sugados para a realidade tailandesa. Na verdade tinha escolhido Banguecoque porque um
amigo já lá estava, a fazer uma fortuna com apostas múltiplas em jogos de póquer online, colhendo cêntimos em simultâneo, somando um belo estilo de vida do
qual se gabava pela internet. Dizia-se em Lisboa que estava a viver com uma tranny chamada Rochelle. A passagem pela fronteira foi inconspícua, um homem com uma folha de ácidos repartida entre vários esconderijos, um funcionário
de alfândega a dormitar e outro a fazer sinal de passagem por cima de uma revista.


por, Jonas Valente

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