quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Purple Wave

O relógio pendurado na cozinha aponta as duas da manhã. João volta a despertar de mais uma experiência psicadélica embrulhado num estranho torpor que não é sono, nem fome, nem solidão; mas sim qualquer coisa no meio que parece fazer mentir o seu corpo. Arrasta-se até à casa-de-banho evitando olhar-se no espelho, a medo de ficar colado tempo demais na indagação da sua própria imagem. Sabe que não tarda muito para ser engolido numa ressaca que o vai deixar a pensar. Talvez seja por isso que já há duas semanas se mantém num nível ótimo de químicos a correr as sinapses, evitando o dia em que terá que enfrentar uma realidade quase demoníaca acerca da sua própria existência. Sente, principalmente, movimentos intestinais súbitos e uma pequena febre que atesta os dias passados ao relento divertindo-se sem fim. O telemóvel ainda não parou de vibrar um número desconhecido. Sabe que àquela hora da noite só pode ser alguém à procura de coca. Tenta lembrar-se de algum rosto e a probabilidade de ser uma mulher é grande. Tenta lembrar-se, mas foram demasiadas as ligações biológicas produzidas pelos químicos. Não sabe sequer nomear um encontro fascinante e neste preciso momento a única coisa que tem é uma folha de ácidos, umas poucas gramas de MD e três quilos de haxixe escondido debaixo da cama que não estão para venda – que servem para ser consumido como se fossem ar.


O tempo passa desagradavelmente lento, enquanto se deixa estendido no sofá a fazer zapping sem parar, como se a profusão de imagens, rostos e vozes fosse uma só cantilena de embalar; e há momentos em que se deixa cair num estado próximo do sono que vai durando de quinze minutos a meia-hora. Acorda aos abruptos, como se fosse uma descarga de pânico largada na corrente sanguínea. Sabe que é o corpo a desiludir-se sem a sua melhor amante, mas mesmo assim sente medo e julga, por um segundo que seja, que vai morrer; e que morre na falsidade do brilho encenado num backstage. Precisa de mais um risco, mas não se deixa dizer isso a si próprio. O telemóvel continua a insistir, devolvendo-lhe a realidade com a mesma formulação de sempre. Quantas horas já se terão passado? Será que sou eu quem disca o número à procura de mim mesmo? E não se atreve a mostrar interesse por aquilo que pode ser só mais uma partida inconsciente do seu estado anímico. Vai até à cozinha, retirando um pouco de tudo no seu frigorifico, lançando para a frigideira uma mescla de carnes e ovo que comerá com pão rijo. Logo depois de comer a psicose provocada pelos ácidos começa a desaparecer e a lucidez começa a devolver-lhe aos poucos uma letargia que já conhece e da qual sabe, nunca retirará o suicídio; mas foi só depois de pensar nisto que decidiu abrir as persianas da divisão onde já se mantinha há várias horas mergulhado no nada.

De lá fora começou a escorrer o sol na penumbra das paredes pálidas, fazendo por habituar os olhos à manhã desperta. Ainda não é esta a noite em que dormirei; e assim, como que renovado pela estrutura intensa da luz do dia, decide ocupar-se com alguma coisa, a única coisa da qual entende realmente, drogas. Como qualquer homem convencional, precisa de uma fonte de rendimento. Não necessariamente segura, mas lucrativa e que lhe permitisse acesso a um estilo de vida fácil. Volta outra vez a fechar-se, desta vez no pequeno quarto interior onde entre quatro paredes só existe uma porta. Aquele lugar é o seu principal posto de trabalho. Dotado de parafernália tecnológica topo de gama. Os adictos, regra geral, nunca têm uma droga só – essencialmente, misturam virtualidades, nomeadamente aquelas que permitem sermos qualquer coisa, em qualquer tempo, em qualquer lugar.

Senta-se à secretária e de imediato define as suas opções de segurança e anonimato na rede. Já sabe qual o domínio utilizado para contactar o fornecedor principal que lhe dará as coordenadas de GPS para uma casa. Uma casa que muda de cada vez que surge este contacto, deslocando-se entre as fronteiras europeias à procura dela. Quando chega o pagamento é feito automaticamente entre contas bancárias na América Latina. Poucos minutos depois de aceder, recebe a mensagem que agenda uma nova viagem para dali a três meses. João quebra um pouco. Três meses é muito, tenho que me agarrar a qualquer coisa até lá, deixando-se parado, inerte perante o contratempo. Não era só ele que estava em causa, mas também toda a sua rede de intermediários e clientes. Só precisava de um cheiro para ter uma ideia genial e por causa disto dignou-se finalmente a voltar ao mundo, procurando o telemóvel que ficara esquecido entre as duas da manhã e as três da tarde. Tinha doze chamadas não atendidas, todas do mesmo número. Não lhe passou pela cabeça que pudesse ser uma urgência pois quase sempre o procuram urgentemente. O número era indicativo do Egipto, o que o inquietou por largos segundos. Poderia ser o seu contacto ou alguém ligado a ele, ou as autoridades, a Interpol disfarçada à espera que o número seja remarcado para entrarem dentro de casa dele. A única coisa que o comprometia era o Haxixe e não pretendia livrar-se do seu último reduto por causa de uma paranoia. Saiu de casa como estava, ligou a ignição do carro e foi até à periferia de Lisboa para fazer uma chamada de uma cabine telefónica. Mal chamou atendeu de imediato um gravador com a voz de uma mulher dizendo repetidamente: don’t use it, don’t sell it, it’s purple wave.

(...)

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