terça-feira, fevereiro 09, 2016

Noite Punk


Hoje em dia sentamo-nos nas escadas dos edifícios que dão para a rua e já não nos perturbam os deleites intelectuais uma da outra. Tínhamos ficado alguns anos sem nos vermos, cada uma na sua vida. Foi por acaso que a vislumbrei no metro a corri de imediato ao seu nome e de volta, ela no meu, num abraço que parecia de ontem. Tinha-se dedicado à música por completo, assim como eu me tinha dedicado à lavoura intelectual da existência – usando a forma simétrica da harmonia musical, a poesia. Saímos no Rossio, com tempo para um café que durou noite fora. Fomos até junto do Tejo, viradas para o cais das colunas, onde partilhámos uma litrosa que desbocou uma paixão incessante de parte a parte. Incessantes, mas igualmente condenadas a um fim que não queríamos ver perder em nós.  Ela, que se deixara levar pelos encantos de um homem casado; e eu, que relegava no amor de alguém a responsabilidade de ser feliz. Coisas de catraias, mas que no momento faziam suster a respiração perante a infelicidade perene dos primeiros amores. Decidimos naquele momento que devíamos pelo menos brindar as memórias aguadas dos tempos do colégio. Fomos até ao Indiano e comprámos uma garrafa de vinho carrascão –  não importava o sabor do álcool naquela idade.
Era Janeiro e a ameaça da noite trazia consigo o relento húmido do Inverno lisboeta, o que nos fez caminhar durante quarenta minutos à procura do lugar mais resguardado para a nossa pequena celebração; até chegarmos ao Regueirão dos Anjos. Por lá havia uma daquelas tascas lúgubres geridas por idosos que já pouco ligam às leis de higiene, suas e dos seus estabelecimentos de restauração. Entrámos e pedimos ao velho que estava atrás do balcão se nos poderia abrir a garrafa de vinho; e ele fez um sorriso maroto a Helena, dizendo, “só se as meninas consumirem alguma coisa na casa” e pisca-lhe o olho enquanto já abre o vinho. Era Helena quem mais provocava os homens anónimos; e apesar de ser uma beleza renascentista, demasiado geométrica, como se tivesse sido concebida por noções de estética; mesmo assim a maioria era capaz de compreender essa sua expressão de Arte, totalmente criada por Deus – ou pelos seus acasos.
Como haveria de ser assim em diante, sentámo-nos na rua a beber, fazendo de conta a indigência que já persistia no espirito. Chamávamos-lhe “noites Punk”, porque eram sempre às segundas-feiras, nas noites dos adictos, dos loucos, dos punks – e só nos faltava um cão pulguento e co dependente na existência das nossas deambulações sem oriente. Tínhamos tanto para conversar como de boca para beijar e os diálogos discorriam sempre em torno dessa característica. A luminosidade da cidade obscurecia o céu noturno, cheio de estrelas que conseguíamos vislumbrar. Naqueles momentos inventávamos uma festa louca em Berlim para ir e chegamos lá com a memória de todas as festas, de todas as viagens, de alguém deixado num país estrangeiro – e riamo-nos perdidamente com pequenas reviravoltas que nunca aconteceram, pedaços do que imaginávamos, rapidamente saltando para a realidade na medida da embriaguez. A euforia também permitia que nos deslocássemos com facilidade entre memórias e pendências racionais, fazendo movimentos quase bailarinos entre as nossas palavras. Havendo sempre um momento em que abandonávamos juntas essa loucura fantástica e só queríamos, por um momento que seja, estar em alexanderplatz, prontas para seguir uma nova viagem.

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