sábado, fevereiro 06, 2016

Momentos de Hypnagogia


No momento que mediou a entrada na vida de jovem adulto ocorreram toda uma série de transfigurações que muito se assemelham a uma puberdade existencial. O corpo subitamente deixou de crescer, mas por antítese, a vida não. Todo o tempo que passa é um movimento que se escapa e se deixa por viver. Como se entrasse de repente numa cabeça que costumava ser oca, deixando lá dentro o primeiro traço cronológico. O primeiro dentro muitos que daí em diante serão marcos cronológicos que vão compassando o dia em que se seja demasiado e a morte esteja próxima. Por enquanto é só um traço sobre essa linha que está por existir; que ainda assim, neste caso em particular, parece fazer despertar para uma consciência translúcida e subitamente quieta – brincando com uma moeda de um euro, cara ou coroa? Calhando o lado qualquer um das hipóteses, aquela que eu queira, mas que mais nada me diz acerca do futuro das escolhas. Talvez seja por isso que durante a noite me assaltem figuras de anjos e outras entidades alienígenas. Grito o nome do homem que dorme ao meu lado, que desperta abrupto, que me diz que sou demasiado suscetível, envolvendo-me o corpo de volta à tranquilidade. Outras vezes explodem aparelhos domésticos a meio de um quase sono que rodopiava ainda em volta do Álvaro de Campos. Julguei por momentos que morreríamos os dois numa terrível explosão de gás. Só quando sou devolvida à luz do dia é que me ocorre uma espécie de arrepio medular. Se são espíritos vagueando, como uma visão que acompanha naturalmente esta idade, se é uma força maior que o tempo que vive no interior do espirito. Se não estamos, de todo, a sós.  

Parecem-se a avisos quando é uma sombra inclinada e parece murmurar as coisas pensadas no instante em que se adormece. Outras vezes são como duros presságio, preparando a mente para algo de sublime ou trágico. Também já foi a explicação do mundo, quando pela primeira vez, aos vinte e cinco anos surgiu uma cabeça humanoide olhando para o centro do meu rosto, no seio da escuridão dos olhos fechados. Julguei durante muitas semanas que algo de extraordinário estaria prestes a acontecer; comecei a notar nos juntinhos de relva entre as pedras da calçada, uma flor crescendo entre o betão: como todos os homens contemporâneos. Apesar de qualquer efeito borboleta, era um presságio que apenas me concernia e do qual foi impeditivo escapar. Sem querer, fui capaz de notar uma transição que é humana e que riscou duramente a parte que lhe cabia riscar – e que agora é como um traço de giz, fazendo ruído dentro do peito. Eu sei que é um caso particular, mas quem mais não se esquece de ouvir o barulho da sua própria respiração. Quem não terá passado a vida inteira desligado da sua própria vida onírica, sem saber que ali está o corpo produzindo uma resposta autêntica e bussola do que mete medo e é futuro. Quem sabe, toda a hypnagogia, criação mais ou menos alucinatória, é um dever sobre a contemplação do principio e do fim para que seja poesia – um novo recomeço. Uma esperança renovada acerca da, em particular, missão espiritual. Da qual tudo o resto é impossibilidade de desencriptar as mensagens subliminares que algo divino inscreveu na natureza. Ou esta capacidade para observar longamente um ponto no horizonte que é coincidente com todas as restantes partículas que compõem os campos de visão. Não é mero olho estagnado, são todos os sentidos, em especial aquele que é fé, rasgando a realidade que padece em torno de qualquer corpo. Tratando-se de um pedaço singular entre o espaço e o tempo que nunca mais se repetirá e que o espero junto de uma folha branca.

Lembro-me de teres dito que existia uma constelação, muito longínqua, onde existia um corpo celeste com condições de sobrevivência muito parecidas às do nosso planeta. Pouco me interessou naquele momento, pois não existe uma lei acerca da morte por inteligir. Se tudo, no fundo, é composto do mesmo, então também esses seres extraterrestres pouco saberão de tal coisa, temendo, como qualquer homem, o último sopro de vida. Agora que me lembro de ti ganho uma ideia nova para um projeto literário que nunca começarei. Seria uma ficção cientifica baseada na ideia de um grupo de entidades que devido às condições ambientais da sua zona do Universo, seriam capazes de viver por mais de quinhentos anos, passando durante toda a sua vida por igualmente longos períodos de luto. Seriam assim uma espécie melancólica e ligeiramente curvada, a única, no Universo inteiro que não cede ao suicídio porque esse é um gesto demasiado súbito para a sua natureza demasiado inerte e pensadora. Por outro lado, as crianças seriam crianças por um período de cento e cinquenta anos; ocupando-se longamente com a inocência no seu tempo devido, mas já comprometidas aos cinquenta em tomar as rédeas do mundo e fazer dele um lugar melhor para a sua vida adulta. Um ficção cientifica que nunca escreverei porque se parecerá sempre ao mundo que condiciona o humano.



Sem comentários:

Enviar um comentário