quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Mãe Preta


Tenho uma memória de infância que é como uma vaga sensação de conforto que, sem saber, é fonte de uma vida ligeiramente esquecida. Ligeiramente porque todas as memórias situadas na travessia da infância são muitas vezes um gesto automático na personalidade – e se agora dedico algumas palavras à minha pessoa, esquecendo qualquer das personas usadas,  sou uma mescla de carinhos encontrados; de cada vez que encontro um novo, florescendo, sei apenas que é mais uma dessas sensações estreitas e que, desta vez sim, interessam à escrita, por serem outra memória encontrada, mas mais longínqua e perdida. Deste pequeno pormenor que surge ponho-me à procura, desenfreadamente, de um álbum especifico de Madonna. Sei apenas que a música tinha determinado timbre, fazendo-me adormecer coisas que demoraria demasiado tempo a entender. Dou-me conta que é como encontrar uma agulha num palheiro, mesmo com toda a rede funcionando linearmente qualquer que seja a informação procurada. Sem saber era daquelas coisas que acontecem no inicio de uma longa contemplação, Something to Remember de 1995.

Desse tempo relembro a música a dar na penumbra do quarto partilhado com a empregada. Ao que parece ela só conseguia adormecer assim, com o volume no mínimo possível. A Madonna sussurrava a minha ingénua inocência, guardada pelas lágrimas que ninguém naquela casa alguma vez ouviu. Para trás tinha ficado muita gente, a família em Cabo-Verde e outra família, em especial uma menina que conheci numa foto, a Joana que vira nascer. Quatro anos depois já estava em Lisboa com todos os seus pertences, contratada pela minha mãe para ser a sua substituta na tradicional vida doméstica das mulheres - prévias à sua geração. Trazia um rosto de feições ocidentais, nariz pequeno, lábios finos, mas com a bela tez do tom de pele preto. A partir do momento em que começámos a falar apenas lhe fiz perguntas. Estava assustada sem saber, mas na medida das questões o tempo foi passando complexificando todas as suas respostas. Agora tento especificar algum desses diálogos e dou-me conta que não serviram pela sua estética, mas porque são vida e pouco conseguem caber nestas linhas.

A cozinha cheirava sempre a algo que estava a ser cozinhado, mexendo-se entre as panelas e a rádio África que passava funaná. Como se dançasse uma vida sonhada, com a alegria de quem se vê livre da pior pobreza de todas: ignorância. Convivendo no seio doméstico que lhe começou a ser família. De manhã dava-nos o pequeno almoço e levava-nos até à escola primária no bairro prazenteiro de Benfica. Atravessávamos um pequeno túnel, assustador, mas que encurtava o caminho até à escola. Quando chegou o tempo de aprender a voltar sozinha dizia-me sempre, “não faças o caminho do túnel, é muito escondido” e eu ignorava-lhe sempre o conselho. Afinal de contas, não me era ninguém e estava a ser paga para cuidar de mim. Ignorei-lhe todos os conselhos sem lhes saber o preço real e agora, tudo o que parece sobrar é um breve instante de aconchego que nunca partirá dentro de mim.
Ensina-me ela, para toda a gente que não volta, música em voz baixa noite fora. Fazendo por acalmar as decisões que nunca são certas ou erradas; que se tratam de um sentido dizendo-lhe que deverá amar incondicionalmente todas as crianças a quem dirá adeus – sem se saber retratada nas coisas que são demasiado importantes para caírem no esquecimento. Sem saber como são hoje os seus filhos, de mim em particular quando predestinava uma criança com demasiado mau temperamento para a vida. Olhando-me desgostos que fazia por atenuar com a simplicidade do seu quotidiano. Falando-me coisas que terá que repetir ao bebé que embrulhava às costas com um pano étnico. O bebé bem seguro que nunca será entregue a uma mãe preta, mas que verá através dela, como qualquer outro seu filho.

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