domingo, fevereiro 07, 2016

Fenómeno Principezinho


Nunca acabei de ler “O Principezinho”. Tive uma edição em 2001 da qual só recordo a capa ilustrando um menino a voar com balões. Nas primeiras páginas de leitura achei-o de imediato demasiado óbvio. A cena do chapéu e do elefante dentro de uma jibóia não foi o meu primeiro confronto com a linearidade entre a produção do imaginário, propulso na solidão, e a grande espectativa de mostrar, de me aproximar de alguém, um adulto que fosse, e fazê-lo compreender de imediato que havia algo mais por inteligir num pedaço de papel. Lembro-me da professora da escola primária a pedir que desenhássemos chuva sobre uma fotocópia de um homem a segurar um chapéu de chuva. Todas as crianças desenharam gotas de água nos espaço brancos que rodeavam aquela figura tristonha de chapéu aberto. Olhei para ele imaginando chuva caindo rispidamente e com turbulência, por isso limitei-me a fazer pequenos riscos na vertical do seu corpo. Fui a primeira a acabar, orgulhosa da simplicidade do conceito. A professora torceu o nariz e fez uma cara triste a vermelho no meu trabalho; mas no placard, ao lado de todas as chuvas, talvez a minha se aproximasse mais da realidade e por isso fosse a mais feia. Ou então produzira-se o fenómeno principezinho e ninguém teve vontade de compreender a importância da liberdade criativa, de ser naturalmente à parte do pré-estabelecido. Talvez seja esta a razão pela qual ainda hoje não me atrevo a acabar esse livro tão pequeno e à partida, tão simples. Para mim ainda é uma leitura pesada, mais que qualquer outro Autor; mais pesado ainda que as dolorosas perturbações de Raskólnikov.
Dos tempo das leituras juvenis talvez a mais marcante tenha sido “O meu pé de laranja-lima” do José Mauro de Vasconcelos. Lembro-me de uma euforia quase infantil em devorar cada palavra e pela primeira vez, devo ter ficado até de madrugada à espera de um final que me iria provocar a primeira catarse literária sentida. Ali, alumiada pelo candeeiro da mesinha de cabeceira, quieta como qualquer animal pequeno, chorei lágrimas grossas para cima das últimas páginas. Fui também capaz de ir com o Tom Sawyer e Huckleberry Finn para as margens do rio Mississipi e só ali fui capaz de esquecer o infortúnio do pequeno pé de laranja-lima; mas só para logo me deixar emocionar pelo Oliver Twist – tudo miúdos abandonados, até aqueles que eram felizes na sua liberdade deixada.

O meu pai, qual Rei Salomão, revelava-me os clássicos da infância, os olhos brilhavam-lhe qualquer coisa de especial com o Kipling na mão, levando-me, sem saber, para as aventuras mais extraordinárias da vida: as primeiras leituras. Só aos vinte anos chegaria a um pequeno ensaio de Proust contando-me exatamente isto. De como eram fáceis as palavras lidas através da infância, desaparecendo, subitamente toda essa mente maravilhosa perante os livros. O espaço que mediou esse final e aquele em que se deve registar a leitura noutra maneira foi muito grande e confuso. Sem saber exatamente como quantificar quanto tempo foi e que terei lido nesse espaço. A única coisa que me parece ajudar a apaziguar essa altura é precisamente: a releitura a espaços de torrenciais divinos batendo contra a portada da janela, enquanto escrevo.

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