sexta-feira, janeiro 22, 2016

Feminine Elation

Nancy

Julgo passar ao lado do abandono;
ficou na rua alguém a acenar de longe
finjo que não me diz respeito
e não importam os versos escritos
nas madrugadas de paixão invisível.

Tentei Deus e a sua atenção
é mais uma provação resiliente
que quer em mim uma mulher
longe da inspiração platónica.

Talvez seja o disfarce da minha condição,
a condição feminina no seu
devido lugar
quieta como se nascera pássaro ferido
cuidando a vida doméstica de asa partida.

Sangrando uma dor silente que é lunar,
mas também societária,
dominada por bravos caçadores,
homens decidindo segundo a sua biologia
um ideal de fragilidade dedicado à arte
e ao que parece, à vida de igual forma.

Teimo tropeçar numa ignorância inventada;
parece condizer com um vestido belo
e os lábios pintados de pêssego
como frescas primaveras sobre um campo macieiras
numa maçã que a minha sensibilidade dá a provar
e torna escravo o desejo.

Ao lado do nada estou um todo;
num corpo súbtil arranjado para
nenhuma ocasião
e a perfeição caminhando
na breve companhia da semelhança,
chorando ombro a ombro a moral castrada
das que continuam a nascer.

Vazios iguais padecem junto ao Regueirão;
nenhuma de nós foi feita para a claridade
e só uma rua noite fora é suficiência
do brilho que molesta toda
a sensibilidade do amor largado.

O mundo chuta o erro em perdões estúpidas;
quando valem mais as pessoas
e menos este estereótipo em que
somos musas, sem o devido crédito
pela dimensão fascinante de determinada natureza.

Sem que haja valor num individuo só;
principalmente determinado em dotar de alma
naquilo que deixou de ser animal
e agora é um sistema robótico,

sem dar conta de um olhar perdido
na turbulência nefasta da contemporaneidade.

Como eram fáceis os dias no Claustro,
deitadas entre a solidão das pedras,
congeminando uma liberdade que já era possível,
mas que está por realizar.

A vida cerceou o padrão da infelicidade;
excepto quando cabe mais amor
que aquele que se mendiga e, na verdade,
o coração só está já a diminuir.

Este é o tempo errado, no lugar errado;
estamos todas erradas e só o erro
poderá ser perdão numa madrugada
com alguém em desnorte.

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