quinta-feira, janeiro 28, 2016

Mão Humana


Pouco interessa a vida como é
quanto mais a um poema,

excluindo todo o espaço-temporal
que indaga e causa estranheza
em qualquer homem.

Tenho um sonho que não é nada disto,

reservo-o ao aprisionamento
da palavra, ao lugar do que ainda
não existe, mas é necessário
a qualquer natureza.

Assim se perdem demasiadas coisas
importantes a qualquer linguagem,

enquanto não exista uma forma eficaz
que nos aproxime, humanidade.

Pouco interessa a convenção utilizada
se é a arte quem descreve verdade

mesmo quando a literatura é borderline
e mente a todos os amantes,

mesmo quando alguém resiste
em escrever na mais absoluta
das pobrezas.

Tenho um sonho que não é nada disto,
e eles só pretendem outro

conforme o pré-estabelecido na normalidade
que não assino nem com um pseudónimo
e recuso porque é defeito de fabrico

numa engrenagem que já age
com uma réstia de mão humana.

terça-feira, janeiro 26, 2016

Fortune–tell


Na medida que a noite vai
pelo caminho desaprendo alguém,
desculpa, não era eu quem procurava
cedendo à mais perversa da solidão.

Não era intermédio de Deus falando
através de sinais intermitentes na realidade,
ensinando construções de abstração tridimensional
poemas exaltados sobre a nossa condição humana,

mas frágil e de beleza vulnerável:
se ao menos nenhuma palavra minha
te ferisse, como poderia aspirar
essa felicidade simples, mas
sem ti.

Vejo o presságio aproximando-se
da mão feminina que não me pertence
e vibra as coisas que se apagam
demasiado cedo, demasiado febris
para o entendimento lasso do tempo.

Uma senhora disse-me que era assim mesmo,
estamos no final dos tempos:

quando as mulheres usarem calças,
as terras forem repartidas
e os homens falarem sozinhos.


O aviso cabia numa mensagem
que estou sempre a reescrever e a apagar,
como se devesse eloquência
à vida,

porque outra razão haveria de trabalhar
debruçada na contemplação?

Ou terei encontrado a fracção correcta
saindo-me uma decisão na rifa
que me recuso a comprar ao cego do Campo Grande,

num número infinito perseguindo-me
como se corresse da boa sorte de modo
a livrar-me da ignorância.


segunda-feira, janeiro 25, 2016

Lunáticos


A mulher indiana apertava-me a mão
dizendo, "karma não, bom darma";
abandonava a clínica cinco deixando-me
uma rosa que conversava sem parar
um amor platónico por um amigo de infância.

A doença aproximava-se como fogo
ardendo o coração como se fosse
a ponta de um cigarro na epiderme.

Não sou eu quem está lá e há
uma grande tristeza entre os camaradas,
esperando com ansiedade
o primeiro cigarro da manhã.

Ou a noite quente de Setembro
sobre uma lua única olhando para nós
cheios de uma conversa que lhe parece,
como se fosse casa de um êxtase

e o meu amigo dizendo "preciso de uma namorada
maníaco-depressiva"
e dava-me uma vontade de rir
e toda a gente se ria daquela infelicidade.

Trocava-se um breve carinho, ainda a tempo
de ler um breve poema finalmente livre,

aprender uma frase num dialeto Africano
porque ali sou bem-vinda a qualquer casa.

domingo, janeiro 24, 2016

Fotogramas


Descaracterizar o brilho da fotografia de 1992;
sei-me já a viver cores inventadas
para carregar de expressividade
a mais primária melancolia.

Outras crianças parecem sorrir a mesma tragédia;
brincando alegremente a vidas possíveis
e a ficção seja uma breve lembrança do que é a morte

talvez o meu olhar indique algo longínquo,
demasiado grande para os anos contados.

Abraço com força a árvore-mãe da Quinta;
chorando uma espécie de compromisso,
para as pessoas que nunca deixam de pertencer

não vale meter só a conversa em dia
se os dias refletem  a ambiguidade
do tempo presente.

Se nos parecemos tanto e estamos tão distantes;
não vai servir olhar para trás
e procurar o que ficou por dizer,

a minha história é literatura de cordel
para senhoras ociosas e solitárias.

Tento contar de perto uma desilusão essencial
aproximando-me de um entendimento,

regra geral, um modo de convenção social
teimando rir a imbecilidade de gestos desaprendidos.

Onde ficou o rosto de mentiras honestas,
traindo a realidade com uma moral
própria dos contos de fada

notando-se o pequeno rasgo de loucura
dançando o Vinil no repeat.

Sou uma criança que só desarruma,
não brinca, não joga, não gosta de coisas,

sente feição pelo que já está partido
e quer cuidar qualquer coração,
exceto o seu.

sábado, janeiro 23, 2016

Postal Cansado Que Perdeu Todas As Cores Pelo Caminho



Penso que fiquei naquele dia em Julho, numa tasca vindo do Palácio do Freixo,
Senti que a cada ilustração, um pouco de mim lá ficava, nas manchas dos teus olhos,
Cada vez mais monocromático, debaixo das folhas de videira na esplanada
Ainda sentia o verde, das folhas, dos nossos olhos, do futuro que tão longe
E ali perto as mil cores de Dali e o rio, tão imprevisíveis como o horizonte
Com a distância subtraída, na manhã seguinte ainda vi a cor do pão,
Comprado na mercearia do lado, e o cemitério de Paranhos ainda tinha flores
Coloridas e chamas vermelhas apesar da tristeza que se levava para casa,
Devo ter ficado todo no cheiro do café, à noite já tive que te perseguir rua acima,
Não sei bem onde querias ir por aquela rua escura daquela cidade que não conhecias,
Daí marcares cada passo com lágrimas que te enxuguei nos lençóis,
Fiquei por lá de certeza, mas ainda há madrugadas em que recebo um amanhecer azul,
Como um postal cansado que perdeu todas as cores pelo caminho até mim.

22.01.2016

Turku


João Bosco da Silva

S. José

O que poderia a escrever, de facto:
uma arruaça às portas de S. José
e um estranho nevoeiro invadindo
a luminosidade quando chegava grave.

Lá dentro vinha um novo medo:
uma paixão incurável chegando ao sistema
pedindo-lhe ajuda para a inquietude

alguém parece conhecer a partícula da felicidade
e os outros, somos cobaias da normalidade.

O que poderia escrever de facto:
o cansaço na sala de espera
enquanto alguém perde humanidade,
dormindo a ressaca no chão
de S. José.

Amor, só, nunca será suficiente:
o aleatório não escolhe ninguém
e todos os contextos são viáveis
até nos momentos que não desejamos ser.

Escrevendo de facto,
os nossos motivos parecem-se
na dimensão mais crua da realidade,
como corpos estirados ao carinho
cansado da sua busca.

Nesse estranho desencontro o tempo passa
encaminhando da saúde para a incapacidade;
e alguém morre como um passarinho
rezando, entre os queixumes alheios
de mártires dolorosamente vivos.

De facto,
pousei a minha cabeça sobre o teu ombro
na esperança de curar
como só as mulheres curam,
adormecendo a vida
dentro da casa de Hipócrates.

sexta-feira, janeiro 22, 2016

Feminine Elation

Nancy

Julgo passar ao lado do abandono;
ficou na rua alguém a acenar de longe
finjo que não me diz respeito
e não importam os versos escritos
nas madrugadas de paixão invisível.

Tentei Deus e a sua atenção
é mais uma provação resiliente
que quer em mim uma mulher
longe da inspiração platónica.

Talvez seja o disfarce da minha condição,
a condição feminina no seu
devido lugar
quieta como se nascera pássaro ferido
cuidando a vida doméstica de asa partida.

Sangrando uma dor silente que é lunar,
mas também societária,
dominada por bravos caçadores,
homens decidindo segundo a sua biologia
um ideal de fragilidade dedicado à arte
e ao que parece, à vida de igual forma.

Teimo tropeçar numa ignorância inventada;
parece condizer com um vestido belo
e os lábios pintados de pêssego
como frescas primaveras sobre um campo macieiras
numa maçã que a minha sensibilidade dá a provar
e torna escravo o desejo.

Ao lado do nada estou um todo;
num corpo súbtil arranjado para
nenhuma ocasião
e a perfeição caminhando
na breve companhia da semelhança,
chorando ombro a ombro a moral castrada
das que continuam a nascer.

Vazios iguais padecem junto ao Regueirão;
nenhuma de nós foi feita para a claridade
e só uma rua noite fora é suficiência
do brilho que molesta toda
a sensibilidade do amor largado.

O mundo chuta o erro em perdões estúpidas;
quando valem mais as pessoas
e menos este estereótipo em que
somos musas, sem o devido crédito
pela dimensão fascinante de determinada natureza.

Sem que haja valor num individuo só;
principalmente determinado em dotar de alma
naquilo que deixou de ser animal
e agora é um sistema robótico,

sem dar conta de um olhar perdido
na turbulência nefasta da contemporaneidade.

Como eram fáceis os dias no Claustro,
deitadas entre a solidão das pedras,
congeminando uma liberdade que já era possível,
mas que está por realizar.

A vida cerceou o padrão da infelicidade;
excepto quando cabe mais amor
que aquele que se mendiga e, na verdade,
o coração só está já a diminuir.

Este é o tempo errado, no lugar errado;
estamos todas erradas e só o erro
poderá ser perdão numa madrugada
com alguém em desnorte.

Uma moeda

vejo-te todas as manhãs à chuva,
o esquecimento a rondar-te a vida,
nos olhos as palavras inclinadas e a fuga
para vidas em províncias inteiras de sol.
o céu colhe sempre os seus filhos mais absolutos,
pelas nuvens repartem-se as ausências,
pelas ausências curvam-se sombras afogadas,
uma rua ergue-se em direção a junho,
quando tudo for simples.

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Geografia secreta

a linguagem assume a distância entre o fôlego e a sílaba.
uso os verbos que se apaixonam pela noite,
são eles que conjugam o teu nome
para sempre.
os versos são lábios em ruína
parados na geografia secreta da pele.
no rés-do-chão remoto das galáxias,
as raízes dos poemas celebram a perda.
falta-nos o sangue marítimo dos pássaros,
um país-cicatriz, um osso macio
entre cada pausa eterna.

LFO - Freak


Viver correndo o tempo até ao seu final;
para que nada seja demasiado cedo
ou se torne pavio curto de uma carta última.

O tempo no seu próprio final;
não aquele redigido a partir do presente,
encurtando a vida com uma ninharia.

Ligar o mapa de navegação automática;
e calhar a falha humana no engenho
ou uma tragédia familiar a bordo da sociedade.

Rasgar o mapa com as mãos no peito;
acrescentar mais um linha
no intangível.

Atingir os limites da além-super-vivência;
irmos a qualquer lado
não importa onde.

O Livro Tibetano dos Mortos largado na cabeceira;
curando o medo da hypnagogia,
aliviando sobretudo a insónia.

Devolver alguma dignidade ao feio;
porque o há em qualquer homem
morrendo pela estrada.

***

Um interesse súbito no vazio de alguém;
o anúncio publicitário brilhando
a cidade noite fora.

This isn't Paris, nem nada se lhe parece;
não somos só coisas belas
e predestinadas.

A realidade ofusca o futuro desnecessário;
é um padrão desenhado no interior
do quotidiano doméstico.

Não somos só a biologia ausente de si mesma;
também há amor para dar,
daquele que é feio e sofre.

quarta-feira, janeiro 20, 2016

Forma Vívida


Vai, é velocidade para escrever;
se as coisas que não queres incomodam
ou quando a prescrição é literatura
plastificada - e resolves não voltar
às primeiras leituras da juventude;
mas é herança esse rasgo de brilho
sobretudo com a forma da macro-poesia,

inventando-se para esconder o fogo
de uma epiderme a sentir outro lugar.

Vais fechando as janelas porque vês
melhor na escuridão, sem notares
como todo o espaço lhe pertence
e o mundo é uma divisão apertada,
povoado de espíritos tateando-se;

onde todo o deslumbramento cego
é a urgência de palavras
para compor uma primavera impressionista.

Ficas caído num corpo invisível,
sobre a farta cabeleira da natureza
alumiada pelo fingimento solar
que ofereces aos dias impossíveis:

como as flores colhidas da infância,
morrentes de carinho longínquo.
 
Vai, é sempre o último verso;
se a vida roda primeiro em ti
e só depois o sentido preenche
um livro de mandalas por colorir,

se viver é já uma arte apurada
contida numa forma finita.

terça-feira, janeiro 19, 2016

Regresso a casa

o caminho esgota-se nos passos
e o reflexo dos dias atropela o inverno da cidade.
limito a minha visão
ao movimento líquido das horas,
ao silêncio poluído de fim do dia.
um metro desliza pelos pensamentos,
fere o tendão urbano.
ergue-se uma corrida feroz contra o entendimento
a identidade destas mãos desperta
quando a chuva para.

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Máquina do Tempo

A necessidade urgente de apalavrar
substitui-se por um conceito menor
inutilizando diálogos.

Fala-se para o esquecimento
sem o cuidado futuro
de um ideal nobre.

Só às vezes somos um gesto
atirando o corpo
para uma conversa distante.

Time dialogue machine
memorizou a paixão
contida na linguagem.

Não há que reiterar a palavra:
a memória física é finita
como qualquer biologia humana.

No silêncio reproduz-se
a sistemática do essencial
onde a forma interessa à sensação.

Amor como se diz
não vale a pena,
nenhum poema é suficiente.

quinta-feira, janeiro 14, 2016

Circunstância

Interrogo a fachada pelo seu conteúdo;
se há uma janela por abrir, se um homem
adormeceu no sofá.

O que ficou esquecido na divisão arrendada;
se a folha de uma aula, se a vontade
caída como pó pelo chão.

Vejo um intruso a querer saltar do 4º andar;
do quarto onde é possível contemplar estações
e as pessoas na rua.

Alguém parece demasiado preocupado;
pode ser um pormenor na sociedade,
mas é intrínseco do vulgar.

O pormenor adormece ao teu lado todas as noites;
tropeça na mesma questão, troca-se
num valor que não parece importante.

Podemos fazer de conta que não está lá:
não está um ninho de baratas
na casa de uma mulher cega.

Ninguém vai ouvir, nenhum vizinho
precisa de gritar a dor
de uma cidade inteira.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Life on Mars?

Como falar das coisas às palavras
se a vida se intromete tanto
e a forma começa a ficar aquém
e o tema vai ser sempre uma menina de 13 anos.

É o Bowie quem canta, morrendo a inocência
do primeiro rock. Partindo para longe,
eu e o meu discman a caminho do primeiro amor -
e não sabia como chegaria atrasado.

Parecem-me que todos dançam no Palácio
e são como o século XVIII reinventado
por um artista deslocado; Como se alguém
me tivesse entregue a este planeta
para finalidades cíclicas e irónicas.

Parecia que alguém insistia em não crescer
distraindo-me com uma certa vida em Marte;
dos tempos em que o Físico urgia
atrás de um arco-íris, acreditando
que venceria as leis da natureza
correndo atrás de uma suposta felicidade.

Como estava certo acerca da velocidade,
até para chegar ao intangível.

domingo, janeiro 10, 2016

Entre a Chuva

O vento urge as palavras, deixando-as sobre
amenas folhas outonais. Ficaste como esquecido
na rua, a pisar poças, encharcando a memória
no desconforto da sede salobra.

Lembro às vezes como queria tudo e camadas de mim
se sobrepunham à descontinuidade das paixões;
como era fácil o sabor tóxico da juventude
onde o tempo mimicava o primeiro afecto materno
querendo voltar-lhe.

Revisito a estação da chuva
e é como se todas as chuvas fossem diferentes.

Só o frio é transverso a qualquer tempo
agasalha a cavidade da razão e é
escudo contra a recordação do vazio primário.

A proteção era uma personalidade tendente
à morte. Esquivando-se dos temporais com
a mesma astúcia de certo afeto inconstante:
como eu.

Como qualquer prisioneiro
das coisas que não almeja.

sábado, janeiro 09, 2016

Geel

Chego a Geel numa manhã de extraordinária escuridão;
entendi que estava em casa, mas numa casa que habilmente
me contem dentro do homem que sou. Consideremos Geel
como uma estância termal para a loucura, de onde
em toda a parte surgem os mais diversos Indivíduos
acometidos de infernos distintos. Geel é o
paradeiro de muitos filhos nobres e como tal,
na sua maioria, possuidores de educação e boas-maneiras.

Aqui posso tratar porque aqui me encontro e nunca
nenhum destino me foi errático, até mesmo quando errava
curando-me da vida jovem. Esta é uma casa nova
construída e melhorada por cima da decrépita infância,
onde ainda me posso esconder nos lugares de antigamente
e as coisas só mudaram o suficiente dentro de mim.

Abro a janela do Hospital contemplando Geel
e percebi de imediato que não seria para sempre
e como estive sempre errado, até este momento.
Nunca houve mais ninguém além de mim e,
na verdade, são as pessoas que nos prendem aos lugares.

Enquanto vejo uma mulher a fumar à janela.

Deveria ceder ao padrão biológico e penso nisso,
sinto que corro o risco de estar errado acerca de tudo
porque tudo é tangível nas escolhas que tecemos,
julgando os melhores momentos para...
ao invés de deixar entrar logo um intruso na vida.

E é ela um intruso fumando ao meu lado.
Discutindo coisas de casal sempre com o cigarro
entre os dedos a apontar ninharias em ouvidos de mouco.
Sorrir a parvoíce dela, os bebés, os dramas
e quantas coisas de parecido interesse:
uma vida doméstica é a única coisa que pretendo.

(...)

1928

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Os Outros

É criminoso o deleite provocado pela finitude;
o desaparecimento é vulgar nas mentes vagueando,
vão-se embora predizendo o fim do ciclo
confundindo-se a estação gestante, prenha
de uma novidade singular para este tempo.

Ninguém deveria provar demasiadas paixões;
são caminhos em aberto por concretizar,
mentindo acerca de um lugar solitário
onde, em certa medida, só cabe uma pessoa.

A vontade estende-se ao outro;
se tiver vontade de a agarrar e tornar
a voltar sempre à mesma divisão, quantas vezes
forem possíveis para esquecer a efémera desarrumação
do invisível transbordando pelo peito.

Espera-se alguém do outro lado das palavras;
são lugares perdidos, um presságio acerca do Messias,
mas a única salvação possível é a interjeição interior
através da qual outra mão parece escrever

Passam anónimos e às vezes entendem a beleza correta;
aldrabam certos olhos de espanto, sem o cuidado
de assustar aquele determinado Universo desconhecido,
e quando uma mulher teme a rua, a Persona abraça com
a curiosidade natural das primeiras palavras.

Só assim os outros podem ser beleza;
quando finalmente seguram a linha estreita da vida
mantendo-a segura e reta numa folha de papel,
sobre a qual espelharei a forma como caminham
e como a pressa constante nos levará
à novidade formal.

quinta-feira, janeiro 07, 2016

Anti-Capitalista

O maior valor de certas palavras é o seu desânimo monetário;
toda a diletância socorre-se na obstinação
embalando um tom messiânico livre
cheio de versos caminhando sem sapatos.

A Persona não vende, a Persona ocupa-se da mudança;
intriga o sistema muitas vezes de barriga vazia,
preocupando-se com um selo no seio de uma sociedade
totalmente filatelizada.

A Grande Engrenagem funciona com peças partidas;
uma miopia miúda parece comprometer o corpo,
o alojamento permanente daquilo que produz
e que falha, como qualquer outra máquina.

A Visão confere Igualdade ao pormenor;
trata-se da mecanismo físico gerando especialistas
para o defeito, perpetuando-se a lacuna no engenho
que só a abstração individual é capaz de corrigir.

Toda a poesia é um copo de água Ocidental;
deve acalmar a sede espiritual dos seus filhos,
regida no serviço público dotado de democracia
e proteção para os marginalizados pensadores.

Quando o sistema evolui através da morte;
metendo o rosto de certos poetas no marketing,
para que finalmente se vendam contra a sua vontade;
para que sejam lidos contra a vontade adolescente
e o ódio permaneça sobre estes sujeitos inertes.

quarta-feira, janeiro 06, 2016

Inverno

Não consigo deixar de pensar neste dias;
a chuva corre lá fora molhando a inércia
enquanto deixo de me parecer com um espectador
e a vida surge como uma tela rodando o pormenor.

Entendo as razões da lassidão,
cada Inverno é sempre como se fosse o primeiro;
nasci na escarpa de uma montanha, mas ninguém sabe,
devo ser oriunda do lado errado da encosta.

Lá do cimo guardo a luminosidade do primeiro berço
transportando de um lado para o outro o planeta
até que o principio se repita de novo na vetustez.

Não quero abrir a porta de casa neste temporal;
apenas o frio é bem-vindo na rua onde permanecem
os restos mortais da indigência, pedindo
com melancolia um cigarro em troca de amor.

Devia compreender esta languidez cosmopolita;
as pessoas atravessam a cidade debaixo de terra
parecendo-se vagamente a toupeiras resistentes,
encharcadas da realidade brilhante de qualquer manhã.
 
Se calhar quem bate na vidraça não é a chuva;
talvez alguém tenha perdido essa importância
e sem querer, ignore este incessante Inverno
dentro do meu peito.

Acerca da Violência

A violência reproduz-se com prazer;
restitui-se o desejo a quem por direito
se prepara para fazer cumprir o que deve até ao fim,
mesmo quando a finalidade é o singelo
e alguma humildade em certos versos.

(Só assim o poeta se atreve a cuspir
as arrelias fundamentais dos paradigmas alheios,
convencendo-se de certa culpa forasteira
quando a criação é imperfeita e tem dúvidas.)

A violência reproduz-se no grito;
caso o volume se exceda e seja tambor
para inofensivas baladas de amor. Caso
perturbe a real maneira de alguns anjos
e teime em deixar a sua forma carnal
que é implícita, sobretudo, na arte.

(Só posso escrever violentamente
na esperança de desgraçar as palavras,
devolvendo-lhes a forma benevolente.)

A violência reproduz-se e quer mais violência;
um chuto na pedra rija e no calceteiro
exigindo responsabilidades para dores domésticas.
Tropeçando no pé que cisma responsabilidade
na imperfeição do regime, da sociedade,
de todo o encarceramento inventado
contra as fúrias obstinadas da cegueira.

(Só não tenho como julgar atos transversais,
limitando-me aos apontamentos abstratos
que haverei de rasgar violentamente)

A violência reproduz-se na companhia;
é máquina geradora funcionando no seu todo
como um centro-universo onde, em verdade,
não existe exclusão, onde nenhum holocausto
é extraordinário - e onde o tempo histórico
é rede fina apanhando qualquer peixe.

(Só, escrevo a violência intrínseca,
amparando-me nas agressões perpetradas
esperando mais linguagem e
menos carne por lacerar.)

terça-feira, janeiro 05, 2016

Mad Girl's Love Song

I shut my eyes and all the world drops dead;
I lift my lids and all is born again.
(I think I made you up inside my head.)

The stars go waltzing out in blue and red,
And arbitrary blackness gallops in:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
(I think I made you up inside my head.)

God topples from the sky, hell's fires fade:
Exit seraphim and Satan's men:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
(I think I made you up inside my head.)

God topples from the sky, hell's fires fade:
Exit seraphim and Satan's men:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I fancied you'd return the way you said,
But I grow old and I forget your name.
(I think I made you up inside my head.)

I should have loved a thunderbird instead;
At least when spring comes they roar back again.
I shut my eyes and all the world drops dead.
(I think I made you up inside my head.)

Sylvia Plath,

Borboletário

O esquecimento é um casulo por abrir;
um piar fino convencendo a voz implacável
da existência, redundante da igualdade
dos abrigo contra certos os Invernos.

Como voam certos espécimes, batendo as asas
contra quem voa na mesma altura; despassarados,
são assim os seres compatíveis com a consciência
da natureza errante.

Para trás deixam encostos suaves
pousados num ombro súbito, olvidados
das transparências em que os bichos frágeis
fazem por falecer no silêncio.

Ardemos como um bico de um fósforo
perpetuando ciclos infindáveis, batendo
os braços contra ninharias e um certo
mal-entendido acerca deste lugar.

Parece abandono e sem querer precisamos
de voltar ao ventre materno; dormimos
à procura de companhia, sem a lucidez
desta individualidade que acompanha
a solidão de todo o mundo animal.

Agitamos o pensamento que é asa
contra o corpóreo; um sorriso de madeira
encaixado numa floresta e a vertigem
de voar entre a composição da humanidade.

Circumambient

Escrever porque dói é diferente de doer;
faz diferente o uso da gramática
imitando uma mulher louca, rindo-se
com o sistema que impõe uma norma ridícula,
rindo-se porque já a conhece demasiado bem
a desimportância de certos erros na engrenagem.

Como um todo fazemos desconhecimento, sequer,
do nosso lugar numa inexistente hierarquia,
nem tão-pouco é percetível o afeto
que sem querer fica caído no chão da rua
e que alguém apanha e parece conservar.

Parece que não importa
porque se trata de um ponto num quadro;
mas é assim que o espírito de um homem
embrutece e fica feliz com a sua prisão.

Só assim serão suficientes os poemas,
invadindo o alheio, reclamando por justo
outras invisíveis tristezas dialogando com
todas as mulheres em qualquer um
dos ciclos lunares; pois qualquer uma
é já uma natureza que lhe precede.

segunda-feira, janeiro 04, 2016

A Convergência Do Esquecimento



De um salto no mar do norte de queixo para a ferida definitiva na carne tenra,
Fui desaguar no teu rio na companhia das constelações de beatas que te têm
Poupado os suspiros e o batom dos lábios, que se lambeu entre uma sobremesa e um café
Numa tasca invadida por poetas num baile de máscaras qualquer, onde quem mais
Fala e mais alto, assegura o ritmo cardíaco nas pupilas enganadas,
Pergunto-me se algum dia acendeste algum tipo de saudade fina com o isqueiro
Que me roubaste ao desejo, sei-o sepultado numa gaveta na companhia de moedas
Inúteis de outros países, estrangeiros como eu, fui realmente um miúdo em Tóquio,
Não nessa da tua cidade onde não voltei a encontrar olhares púrpura por cima
De uma sede a fuga, e sem ter acendido sequer um cigarro, trouxe-te até mim,
Entre um sake e outro, e foste a certeza da queda no ar, a porta aberta na casa de banho
Naquela festa à luz das velas, à sombra da eternidade que se ficou para trás.

Turku

30.12.2015


João Bosco da Silva

Estirpe

O teu olho estrábico torna o tempo em preguiça;
tomam por feios os dias alugados à poesia,
cheio de inércia do corpo físico quase-estelar,
transbordando a memória intrínseca de um homem vulgar.

Olhas para ali, mas não queres ficar preso no olho;
queres que te seja devolvida a tua vontade,
mas sem certas lunetas o mundo é uma
pintura impressionista em exposição permanente.

Revês um poema à espera de vislumbrar alguém;
és só tu, preso ao espelho em que te admiras
mantendo uma vírgula caída sobre o peito,
sobre um corpo tornado verso que julgas possuir.

Supões que todos os reflexos são infiéis,
presumindo a falta de verdade em qualquer visão;
no seio da realidade quiçá isso seja literatura
e o olho não seja ostensivamente cego.

É bela a mentira como as promessas eternas;
e assim se conservam as quimeras, apontadas
nos cantos dos livros, tecendo um linho fino
sobreposto na quadrícula que se limita a imitar,
sobre um lençol onde se adormece, sonhando
a lavanda natural que nenhum individuo emana.

É bela a poesia escrita sobre a folha;
tentar perpetuar as valências do corpo emocional,
fazer de conta que a morte não chegará
e é desconexa de qualquer criação.

Fazer sempre de conta um desígnio Universal
quando é sempre a propósito do singular;
que nenhum homem é uma ilha e na verdade,
nos parecemos todos com o anonimato.

domingo, janeiro 03, 2016

Elise

Desculpa, Elise por te perturbar com a tua vida,
mas já me preocupo demasiado contigo e na verdade
estamos os dois perdidos na sala do psicanalista;
e tudo o que dizes enche-me um espirito novo
e uma vontade obsoleta de escrever sobre ti;
de te esconder os versos todos, de os esconder
entre todos os outros que abandonei pelo caminho,
achando estupidamente que era dono do meu destino
e que importava mais continuar a escrever
e a vida era uma terra distante por concretizar.

Desculpa por finalmente te encontrar, Elise;
apetecem-me todos os teus universos duais
e as mortes consecutivas das tuas realidades paralelas.
Sinto-me um brilho na vida que te esqueces
e que me apetece apanhar do chão para te a oferecer
de volta; quero tanto trazer-te de volta
para te desposar e tratar-te finalmente
com a beleza feminina que te é devida.

Exalo o perfume cuidadoso da tua sensibilidade
permitindo a ligação invisível do desejo inerte,
onde nos vamos querer bem demais, onde vamos querer tudo
até o tempo que está para vir - e já sei
que o amor chega sempre atrasado e o nosso
ainda agora vai começar; Elise, deixa-me distrair-te
a voz que me inquieta, vamos os dois parar de sonhar
pois as palavras fraquejam e eu posso-te mais -
prometendo a eternidade e outras coisas estúpidas,
com Bombons pela manhã e a todas as horas do dia,
porque me apeteces em excesso e tenho que equivaler
a tua dose terapêutica comigo e os dois juntos,
curando a vida adulta de todos os amores envenenados
julgando, como dois parvos, que só o passado nos é tóxico.

Trazemos para o futuro um prisma e tudo que é uno
se liberta em múltiplas incandescências
que em tempo foram como brasa ardendo na pele.
Parecemo-nos sempre mais com eles e menos connosco;
e na tua forma já fomos outras tantas que me dás
esta certeza-sede de seres uma escolha
proveniente do caos que nos parece o acaso.

Dizes-me que se trata da mão de Deus fazendo o correto
e como quero, querida Elise, acreditar
nesse teu Deus; como quero ceder à sua biologia
e nos momentos extraordinários fazer o justo.

sábado, janeiro 02, 2016

Fado

Viajo ao longo dos sorrisos honestos deste povo
e toda a gente parece querer tentar o seu francês,
o seu alemão e até mesmo o Inglês.
Sinto-me um falso ideal de beleza: o eterno viajante
igualando-se aos feitos narrados por Camões;
e que também eu sou livre como todos esses heróis,
de uma liberdade imensa que jamais compreenderei.

Esta gente trocou a vida com a nacionalidade,
compreendendo-se na irracionalidade que é etérea
e da qual se libertam voando através deste condado
com as fronteiras mais antigas de todo o nosso Continente:
parecem-me tão antigos, cheios de salões vistosos
onde a nossa conversa contemporânea resiste
sobre a atmosfera pré-barroca que nunca passa de moda,
que para mim é Arte Kitsch rodeando certas mentes,
certos crentes na impossibilidade do original:
que tudo se repete e não existem acrescentos singulares.

Sem saberem como para mim são uma boa-nova
no bico de um corvo - e que esta gente conversando
é uma extensão única na vida de um poeta.
E o que noutros homens é resistência ao quotidiano,
para mim é entender aquilo que parece soar engraçado,
apaixonado ou triste; Porque é impressionante a forma
como se põem a olhar o mar e um navio partisse
levando uma carta sem resposta e a vida
daquele homem que já não abandona ninguém,
para sempre, à procura de um Novo Mundo.