terça-feira, março 01, 2016

Nova Casa em Remodelações

Caros Leitores,

Encontramo-nos, neste momento, em remodelações para um novo espaço que substituirá este. Poderão começar a seguir-nos em Paisagem Suplente.

Esperemos ir de encontro a uma nova forma de olhar e estar; regidos pela Poesia e Arte nas suas mais diversas atuações. Desde já nos despedimos deste Parafilias que continuará online devido ao volume e para que permaneça online o passado de muitas outras coisas que se escreveram aqui e se tornaram independentes dos seus criadores.

Desde já nos despedimos deste lugar com a certeza de uma certa nostalgia branda e trazida com carinho.




sábado, fevereiro 20, 2016

Sylvia Plath

I love to gaze into the abyss
while reading Sylvia
and about her suicide.

She never killed her children
but she killed every poetry to come,
this seems to me
spiritual abortion.

I love to gaze into the abyss
I love to gaze like Sylvia did,
Madly in love.

If I only could stop
the same way Sylvia stopped,
just to relieve something
that I won't write.

sábado, fevereiro 13, 2016

O Darma dos Livros

"Antes de se ir embora distribuiu todos os seus livros pelos amigos e a mim, quase sem querer, calhou-me o “Delfim” do José Cardoso Pires. Uma edição raríssima como o seu anterior dono, que alguém já aproveitou pra roubar da minha estante. Também não me posso queixar desse Darma que todos os livros compõem, quantos livros roubados não estão na minha estante. Principalmente quando vou a casa de alguém que deteste e levo uma preciosidade dessas comigo. Risco o nome do anterior dono e ponho o meu por baixo – e fico à espera que se me acalme a briga e torne realmente meu aquilo que levei com raiva e sem perguntar. Às vezes é muito difícil essa leitura porque necessita de um perdão e sei que é imbecilidade achar que isso é coisa imediata; ou que livros assim me enriquecerão. Não deixa de ser vontade de ter um pouco a mão de Deus e fazer uma justiça da maneira que mais me aprouver. Realizando que a justiça divina, igualmente silenciosa como um ladrão, consegue ser mais original e regida de verdadeira eficácia: roubam-me os livros roubados."

quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Astronauta

Anda comigo, quero mostrar-te
O lugar onde todas as coisas se transformam,
Dançando, suspensas, numa só metamorfose.
Redesenhemos as constelações, quero construir castelos
Feitos de estrelas,
Para que os possamos contemplar
Um dia,
Deitados na relva.

E quando o mundo adormecer,
Calado,
Como se calam os mortos nos caixões,
Escutaremos a sinfonia que nos cantam
Todas as galáxias do Universo,
Enquanto nos banhamos nos brancos oceanos
Da Via Láctea.



Ana Caeiro

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Noite Punk


Hoje em dia sentamo-nos nas escadas dos edifícios que dão para a rua e já não nos perturbam os deleites intelectuais uma da outra. Tínhamos ficado alguns anos sem nos vermos, cada uma na sua vida. Foi por acaso que a vislumbrei no metro a corri de imediato ao seu nome e de volta, ela no meu, num abraço que parecia de ontem. Tinha-se dedicado à música por completo, assim como eu me tinha dedicado à lavoura intelectual da existência – usando a forma simétrica da harmonia musical, a poesia. Saímos no Rossio, com tempo para um café que durou noite fora. Fomos até junto do Tejo, viradas para o cais das colunas, onde partilhámos uma litrosa que desbocou uma paixão incessante de parte a parte. Incessantes, mas igualmente condenadas a um fim que não queríamos ver perder em nós.  Ela, que se deixara levar pelos encantos de um homem casado; e eu, que relegava no amor de alguém a responsabilidade de ser feliz. Coisas de catraias, mas que no momento faziam suster a respiração perante a infelicidade perene dos primeiros amores. Decidimos naquele momento que devíamos pelo menos brindar as memórias aguadas dos tempos do colégio. Fomos até ao Indiano e comprámos uma garrafa de vinho carrascão –  não importava o sabor do álcool naquela idade.
Era Janeiro e a ameaça da noite trazia consigo o relento húmido do Inverno lisboeta, o que nos fez caminhar durante quarenta minutos à procura do lugar mais resguardado para a nossa pequena celebração; até chegarmos ao Regueirão dos Anjos. Por lá havia uma daquelas tascas lúgubres geridas por idosos que já pouco ligam às leis de higiene, suas e dos seus estabelecimentos de restauração. Entrámos e pedimos ao velho que estava atrás do balcão se nos poderia abrir a garrafa de vinho; e ele fez um sorriso maroto a Helena, dizendo, “só se as meninas consumirem alguma coisa na casa” e pisca-lhe o olho enquanto já abre o vinho. Era Helena quem mais provocava os homens anónimos; e apesar de ser uma beleza renascentista, demasiado geométrica, como se tivesse sido concebida por noções de estética; mesmo assim a maioria era capaz de compreender essa sua expressão de Arte, totalmente criada por Deus – ou pelos seus acasos.
Como haveria de ser assim em diante, sentámo-nos na rua a beber, fazendo de conta a indigência que já persistia no espirito. Chamávamos-lhe “noites Punk”, porque eram sempre às segundas-feiras, nas noites dos adictos, dos loucos, dos punks – e só nos faltava um cão pulguento e co dependente na existência das nossas deambulações sem oriente. Tínhamos tanto para conversar como de boca para beijar e os diálogos discorriam sempre em torno dessa característica. A luminosidade da cidade obscurecia o céu noturno, cheio de estrelas que conseguíamos vislumbrar. Naqueles momentos inventávamos uma festa louca em Berlim para ir e chegamos lá com a memória de todas as festas, de todas as viagens, de alguém deixado num país estrangeiro – e riamo-nos perdidamente com pequenas reviravoltas que nunca aconteceram, pedaços do que imaginávamos, rapidamente saltando para a realidade na medida da embriaguez. A euforia também permitia que nos deslocássemos com facilidade entre memórias e pendências racionais, fazendo movimentos quase bailarinos entre as nossas palavras. Havendo sempre um momento em que abandonávamos juntas essa loucura fantástica e só queríamos, por um momento que seja, estar em alexanderplatz, prontas para seguir uma nova viagem.

domingo, fevereiro 07, 2016

Fenómeno Principezinho


Nunca acabei de ler “O Principezinho”. Tive uma edição em 2001 da qual só recordo a capa ilustrando um menino a voar com balões. Nas primeiras páginas de leitura achei-o de imediato demasiado óbvio. A cena do chapéu e do elefante dentro de uma jibóia não foi o meu primeiro confronto com a linearidade entre a produção do imaginário, propulso na solidão, e a grande espectativa de mostrar, de me aproximar de alguém, um adulto que fosse, e fazê-lo compreender de imediato que havia algo mais por inteligir num pedaço de papel. Lembro-me da professora da escola primária a pedir que desenhássemos chuva sobre uma fotocópia de um homem a segurar um chapéu de chuva. Todas as crianças desenharam gotas de água nos espaço brancos que rodeavam aquela figura tristonha de chapéu aberto. Olhei para ele imaginando chuva caindo rispidamente e com turbulência, por isso limitei-me a fazer pequenos riscos na vertical do seu corpo. Fui a primeira a acabar, orgulhosa da simplicidade do conceito. A professora torceu o nariz e fez uma cara triste a vermelho no meu trabalho; mas no placard, ao lado de todas as chuvas, talvez a minha se aproximasse mais da realidade e por isso fosse a mais feia. Ou então produzira-se o fenómeno principezinho e ninguém teve vontade de compreender a importância da liberdade criativa, de ser naturalmente à parte do pré-estabelecido. Talvez seja esta a razão pela qual ainda hoje não me atrevo a acabar esse livro tão pequeno e à partida, tão simples. Para mim ainda é uma leitura pesada, mais que qualquer outro Autor; mais pesado ainda que as dolorosas perturbações de Raskólnikov.
Dos tempo das leituras juvenis talvez a mais marcante tenha sido “O meu pé de laranja-lima” do José Mauro de Vasconcelos. Lembro-me de uma euforia quase infantil em devorar cada palavra e pela primeira vez, devo ter ficado até de madrugada à espera de um final que me iria provocar a primeira catarse literária sentida. Ali, alumiada pelo candeeiro da mesinha de cabeceira, quieta como qualquer animal pequeno, chorei lágrimas grossas para cima das últimas páginas. Fui também capaz de ir com o Tom Sawyer e Huckleberry Finn para as margens do rio Mississipi e só ali fui capaz de esquecer o infortúnio do pequeno pé de laranja-lima; mas só para logo me deixar emocionar pelo Oliver Twist – tudo miúdos abandonados, até aqueles que eram felizes na sua liberdade deixada.

O meu pai, qual Rei Salomão, revelava-me os clássicos da infância, os olhos brilhavam-lhe qualquer coisa de especial com o Kipling na mão, levando-me, sem saber, para as aventuras mais extraordinárias da vida: as primeiras leituras. Só aos vinte anos chegaria a um pequeno ensaio de Proust contando-me exatamente isto. De como eram fáceis as palavras lidas através da infância, desaparecendo, subitamente toda essa mente maravilhosa perante os livros. O espaço que mediou esse final e aquele em que se deve registar a leitura noutra maneira foi muito grande e confuso. Sem saber exatamente como quantificar quanto tempo foi e que terei lido nesse espaço. A única coisa que me parece ajudar a apaziguar essa altura é precisamente: a releitura a espaços de torrenciais divinos batendo contra a portada da janela, enquanto escrevo.

sábado, fevereiro 06, 2016

Rochelle

O fumo ganhou volume depois de ter tomado o papel, o nosso sujeito encontra-se claramente intranquilo, uma nádega no sofá e outra a acompanhar.
Olhou para o palhaço no tecto, nunca ninguém teve surtos destes nesta casa e este estava claramente farto de
adultos. A sala desdobrou-se para o corredor, corrido para a rua. Há que fazer tempo e os melhores transes não são dignos de festas. Venha a brisa fresca.
Foi portanto comprar pão (as tarefas mais mundanas tornam-se fenómenos dignos de registo quando há um filtro externo ao nosso corpo). Claro que
isto só é perceptível ao próprio, a âncora da experiência. Felizmente os outros tomam-nos por tolos, dão o pão, consideram enganar o troco e
mudam o canal da televisão. A padaria encontrava-se junto a uma falésia com bancos, onde ele se sentou a ver o sol nascer. E aí veio a ideia, por
entre a magnificência do nascer do dia, as vagas de ácido recortando a luz por entre as núvens, cores mais intensas que um exercício de pintura surrealista. Este é o
primeiro dia depois de ter recebido uma rescisão amigável, 1500 euros a pesar no bolso, a trip começou logo a torcer-se de entusiasmo. 30 anos soltos
"Estás a chegar a uma fase perigosa da tua vida". Duas horas depois
estava a comprar um bilhete de avião numa e-shop indiana, rumo ao reino da Tailândia. Avisada a família, comprou uma mala no chinês, sete pares de meias,
t-shirts pretas e uns óculos escuros. Meio dia depois fazia escala em Amsterdão. Não tendo vontade de correr caminhos já percorridos nem chegou a sair de
Schippol. A turbolência agoirava um bom porto de destino, o avião aterrava em Banguecoque. registando o calor e a humidade pendentes no ar quando a cabine
universal, pressurizada e climatizada se abriu e os passageiros foram sugados para a realidade tailandesa. Na verdade tinha escolhido Banguecoque porque um
amigo já lá estava, a fazer uma fortuna com apostas múltiplas em jogos de póquer online, colhendo cêntimos em simultâneo, somando um belo estilo de vida do
qual se gabava pela internet. Dizia-se em Lisboa que estava a viver com uma tranny chamada Rochelle. A passagem pela fronteira foi inconspícua, um homem com uma folha de ácidos repartida entre vários esconderijos, um funcionário
de alfândega a dormitar e outro a fazer sinal de passagem por cima de uma revista.


por, Jonas Valente

Momentos de Hypnagogia


No momento que mediou a entrada na vida de jovem adulto ocorreram toda uma série de transfigurações que muito se assemelham a uma puberdade existencial. O corpo subitamente deixou de crescer, mas por antítese, a vida não. Todo o tempo que passa é um movimento que se escapa e se deixa por viver. Como se entrasse de repente numa cabeça que costumava ser oca, deixando lá dentro o primeiro traço cronológico. O primeiro dentro muitos que daí em diante serão marcos cronológicos que vão compassando o dia em que se seja demasiado e a morte esteja próxima. Por enquanto é só um traço sobre essa linha que está por existir; que ainda assim, neste caso em particular, parece fazer despertar para uma consciência translúcida e subitamente quieta – brincando com uma moeda de um euro, cara ou coroa? Calhando o lado qualquer um das hipóteses, aquela que eu queira, mas que mais nada me diz acerca do futuro das escolhas. Talvez seja por isso que durante a noite me assaltem figuras de anjos e outras entidades alienígenas. Grito o nome do homem que dorme ao meu lado, que desperta abrupto, que me diz que sou demasiado suscetível, envolvendo-me o corpo de volta à tranquilidade. Outras vezes explodem aparelhos domésticos a meio de um quase sono que rodopiava ainda em volta do Álvaro de Campos. Julguei por momentos que morreríamos os dois numa terrível explosão de gás. Só quando sou devolvida à luz do dia é que me ocorre uma espécie de arrepio medular. Se são espíritos vagueando, como uma visão que acompanha naturalmente esta idade, se é uma força maior que o tempo que vive no interior do espirito. Se não estamos, de todo, a sós.  

Parecem-se a avisos quando é uma sombra inclinada e parece murmurar as coisas pensadas no instante em que se adormece. Outras vezes são como duros presságio, preparando a mente para algo de sublime ou trágico. Também já foi a explicação do mundo, quando pela primeira vez, aos vinte e cinco anos surgiu uma cabeça humanoide olhando para o centro do meu rosto, no seio da escuridão dos olhos fechados. Julguei durante muitas semanas que algo de extraordinário estaria prestes a acontecer; comecei a notar nos juntinhos de relva entre as pedras da calçada, uma flor crescendo entre o betão: como todos os homens contemporâneos. Apesar de qualquer efeito borboleta, era um presságio que apenas me concernia e do qual foi impeditivo escapar. Sem querer, fui capaz de notar uma transição que é humana e que riscou duramente a parte que lhe cabia riscar – e que agora é como um traço de giz, fazendo ruído dentro do peito. Eu sei que é um caso particular, mas quem mais não se esquece de ouvir o barulho da sua própria respiração. Quem não terá passado a vida inteira desligado da sua própria vida onírica, sem saber que ali está o corpo produzindo uma resposta autêntica e bussola do que mete medo e é futuro. Quem sabe, toda a hypnagogia, criação mais ou menos alucinatória, é um dever sobre a contemplação do principio e do fim para que seja poesia – um novo recomeço. Uma esperança renovada acerca da, em particular, missão espiritual. Da qual tudo o resto é impossibilidade de desencriptar as mensagens subliminares que algo divino inscreveu na natureza. Ou esta capacidade para observar longamente um ponto no horizonte que é coincidente com todas as restantes partículas que compõem os campos de visão. Não é mero olho estagnado, são todos os sentidos, em especial aquele que é fé, rasgando a realidade que padece em torno de qualquer corpo. Tratando-se de um pedaço singular entre o espaço e o tempo que nunca mais se repetirá e que o espero junto de uma folha branca.

Lembro-me de teres dito que existia uma constelação, muito longínqua, onde existia um corpo celeste com condições de sobrevivência muito parecidas às do nosso planeta. Pouco me interessou naquele momento, pois não existe uma lei acerca da morte por inteligir. Se tudo, no fundo, é composto do mesmo, então também esses seres extraterrestres pouco saberão de tal coisa, temendo, como qualquer homem, o último sopro de vida. Agora que me lembro de ti ganho uma ideia nova para um projeto literário que nunca começarei. Seria uma ficção cientifica baseada na ideia de um grupo de entidades que devido às condições ambientais da sua zona do Universo, seriam capazes de viver por mais de quinhentos anos, passando durante toda a sua vida por igualmente longos períodos de luto. Seriam assim uma espécie melancólica e ligeiramente curvada, a única, no Universo inteiro que não cede ao suicídio porque esse é um gesto demasiado súbito para a sua natureza demasiado inerte e pensadora. Por outro lado, as crianças seriam crianças por um período de cento e cinquenta anos; ocupando-se longamente com a inocência no seu tempo devido, mas já comprometidas aos cinquenta em tomar as rédeas do mundo e fazer dele um lugar melhor para a sua vida adulta. Um ficção cientifica que nunca escreverei porque se parecerá sempre ao mundo que condiciona o humano.



sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Sexta, à noite

Hoje correm as horas sem procurarem
um rosto que se distinga na feia luminosidade
da cidade levada pela mão
bêbeda de sinais de trânsito e
cores diversas, mascarando os homens
com uma semi-obscuridade inventada.

Vou atrás de uma mão familiar,
caso contrário será essa a sombra
ébria de intermitente vazio
que me levará a uma festa em Berlim -
da qual nunca mais regressarei
da qual faço intenções nunca ir.

Faço por não recordar Sexta, à noite;
quando era incessante e tinha que ser
vinho mal-digerido de imaturos divertimentos
deixado ao serviço de limpeza da Câmara Municipal,
o 207 apinhado de mitras até Fetais
e às vezes
beijos sôfregos a gente desconhecida.

A mesma gente escondendo uma expressão
que não aprecia,
mas que a noite fez por cobrir
num rosto que em realidade
não sabe exatamente como se é.

Tento apertar a mão familiar
apertando de volta um balãozinho a hélio
inalando uma voz de timbre anedótico
enquanto conta tragédias sem importância

num corpo que só apetece
dançar a música do Bowie
e não voltar nunca mais.

Num corpo que se decide o resguardo
de todas, tantas memórias
e fica escrevendo-se.

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Mãe Preta


Tenho uma memória de infância que é como uma vaga sensação de conforto que, sem saber, é fonte de uma vida ligeiramente esquecida. Ligeiramente porque todas as memórias situadas na travessia da infância são muitas vezes um gesto automático na personalidade – e se agora dedico algumas palavras à minha pessoa, esquecendo qualquer das personas usadas,  sou uma mescla de carinhos encontrados; de cada vez que encontro um novo, florescendo, sei apenas que é mais uma dessas sensações estreitas e que, desta vez sim, interessam à escrita, por serem outra memória encontrada, mas mais longínqua e perdida. Deste pequeno pormenor que surge ponho-me à procura, desenfreadamente, de um álbum especifico de Madonna. Sei apenas que a música tinha determinado timbre, fazendo-me adormecer coisas que demoraria demasiado tempo a entender. Dou-me conta que é como encontrar uma agulha num palheiro, mesmo com toda a rede funcionando linearmente qualquer que seja a informação procurada. Sem saber era daquelas coisas que acontecem no inicio de uma longa contemplação, Something to Remember de 1995.

Desse tempo relembro a música a dar na penumbra do quarto partilhado com a empregada. Ao que parece ela só conseguia adormecer assim, com o volume no mínimo possível. A Madonna sussurrava a minha ingénua inocência, guardada pelas lágrimas que ninguém naquela casa alguma vez ouviu. Para trás tinha ficado muita gente, a família em Cabo-Verde e outra família, em especial uma menina que conheci numa foto, a Joana que vira nascer. Quatro anos depois já estava em Lisboa com todos os seus pertences, contratada pela minha mãe para ser a sua substituta na tradicional vida doméstica das mulheres - prévias à sua geração. Trazia um rosto de feições ocidentais, nariz pequeno, lábios finos, mas com a bela tez do tom de pele preto. A partir do momento em que começámos a falar apenas lhe fiz perguntas. Estava assustada sem saber, mas na medida das questões o tempo foi passando complexificando todas as suas respostas. Agora tento especificar algum desses diálogos e dou-me conta que não serviram pela sua estética, mas porque são vida e pouco conseguem caber nestas linhas.

A cozinha cheirava sempre a algo que estava a ser cozinhado, mexendo-se entre as panelas e a rádio África que passava funaná. Como se dançasse uma vida sonhada, com a alegria de quem se vê livre da pior pobreza de todas: ignorância. Convivendo no seio doméstico que lhe começou a ser família. De manhã dava-nos o pequeno almoço e levava-nos até à escola primária no bairro prazenteiro de Benfica. Atravessávamos um pequeno túnel, assustador, mas que encurtava o caminho até à escola. Quando chegou o tempo de aprender a voltar sozinha dizia-me sempre, “não faças o caminho do túnel, é muito escondido” e eu ignorava-lhe sempre o conselho. Afinal de contas, não me era ninguém e estava a ser paga para cuidar de mim. Ignorei-lhe todos os conselhos sem lhes saber o preço real e agora, tudo o que parece sobrar é um breve instante de aconchego que nunca partirá dentro de mim.
Ensina-me ela, para toda a gente que não volta, música em voz baixa noite fora. Fazendo por acalmar as decisões que nunca são certas ou erradas; que se tratam de um sentido dizendo-lhe que deverá amar incondicionalmente todas as crianças a quem dirá adeus – sem se saber retratada nas coisas que são demasiado importantes para caírem no esquecimento. Sem saber como são hoje os seus filhos, de mim em particular quando predestinava uma criança com demasiado mau temperamento para a vida. Olhando-me desgostos que fazia por atenuar com a simplicidade do seu quotidiano. Falando-me coisas que terá que repetir ao bebé que embrulhava às costas com um pano étnico. O bebé bem seguro que nunca será entregue a uma mãe preta, mas que verá através dela, como qualquer outro seu filho.

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Purple Wave

O relógio pendurado na cozinha aponta as duas da manhã. João volta a despertar de mais uma experiência psicadélica embrulhado num estranho torpor que não é sono, nem fome, nem solidão; mas sim qualquer coisa no meio que parece fazer mentir o seu corpo. Arrasta-se até à casa-de-banho evitando olhar-se no espelho, a medo de ficar colado tempo demais na indagação da sua própria imagem. Sabe que não tarda muito para ser engolido numa ressaca que o vai deixar a pensar. Talvez seja por isso que já há duas semanas se mantém num nível ótimo de químicos a correr as sinapses, evitando o dia em que terá que enfrentar uma realidade quase demoníaca acerca da sua própria existência. Sente, principalmente, movimentos intestinais súbitos e uma pequena febre que atesta os dias passados ao relento divertindo-se sem fim. O telemóvel ainda não parou de vibrar um número desconhecido. Sabe que àquela hora da noite só pode ser alguém à procura de coca. Tenta lembrar-se de algum rosto e a probabilidade de ser uma mulher é grande. Tenta lembrar-se, mas foram demasiadas as ligações biológicas produzidas pelos químicos. Não sabe sequer nomear um encontro fascinante e neste preciso momento a única coisa que tem é uma folha de ácidos, umas poucas gramas de MD e três quilos de haxixe escondido debaixo da cama que não estão para venda – que servem para ser consumido como se fossem ar.


O tempo passa desagradavelmente lento, enquanto se deixa estendido no sofá a fazer zapping sem parar, como se a profusão de imagens, rostos e vozes fosse uma só cantilena de embalar; e há momentos em que se deixa cair num estado próximo do sono que vai durando de quinze minutos a meia-hora. Acorda aos abruptos, como se fosse uma descarga de pânico largada na corrente sanguínea. Sabe que é o corpo a desiludir-se sem a sua melhor amante, mas mesmo assim sente medo e julga, por um segundo que seja, que vai morrer; e que morre na falsidade do brilho encenado num backstage. Precisa de mais um risco, mas não se deixa dizer isso a si próprio. O telemóvel continua a insistir, devolvendo-lhe a realidade com a mesma formulação de sempre. Quantas horas já se terão passado? Será que sou eu quem disca o número à procura de mim mesmo? E não se atreve a mostrar interesse por aquilo que pode ser só mais uma partida inconsciente do seu estado anímico. Vai até à cozinha, retirando um pouco de tudo no seu frigorifico, lançando para a frigideira uma mescla de carnes e ovo que comerá com pão rijo. Logo depois de comer a psicose provocada pelos ácidos começa a desaparecer e a lucidez começa a devolver-lhe aos poucos uma letargia que já conhece e da qual sabe, nunca retirará o suicídio; mas foi só depois de pensar nisto que decidiu abrir as persianas da divisão onde já se mantinha há várias horas mergulhado no nada.

De lá fora começou a escorrer o sol na penumbra das paredes pálidas, fazendo por habituar os olhos à manhã desperta. Ainda não é esta a noite em que dormirei; e assim, como que renovado pela estrutura intensa da luz do dia, decide ocupar-se com alguma coisa, a única coisa da qual entende realmente, drogas. Como qualquer homem convencional, precisa de uma fonte de rendimento. Não necessariamente segura, mas lucrativa e que lhe permitisse acesso a um estilo de vida fácil. Volta outra vez a fechar-se, desta vez no pequeno quarto interior onde entre quatro paredes só existe uma porta. Aquele lugar é o seu principal posto de trabalho. Dotado de parafernália tecnológica topo de gama. Os adictos, regra geral, nunca têm uma droga só – essencialmente, misturam virtualidades, nomeadamente aquelas que permitem sermos qualquer coisa, em qualquer tempo, em qualquer lugar.

Senta-se à secretária e de imediato define as suas opções de segurança e anonimato na rede. Já sabe qual o domínio utilizado para contactar o fornecedor principal que lhe dará as coordenadas de GPS para uma casa. Uma casa que muda de cada vez que surge este contacto, deslocando-se entre as fronteiras europeias à procura dela. Quando chega o pagamento é feito automaticamente entre contas bancárias na América Latina. Poucos minutos depois de aceder, recebe a mensagem que agenda uma nova viagem para dali a três meses. João quebra um pouco. Três meses é muito, tenho que me agarrar a qualquer coisa até lá, deixando-se parado, inerte perante o contratempo. Não era só ele que estava em causa, mas também toda a sua rede de intermediários e clientes. Só precisava de um cheiro para ter uma ideia genial e por causa disto dignou-se finalmente a voltar ao mundo, procurando o telemóvel que ficara esquecido entre as duas da manhã e as três da tarde. Tinha doze chamadas não atendidas, todas do mesmo número. Não lhe passou pela cabeça que pudesse ser uma urgência pois quase sempre o procuram urgentemente. O número era indicativo do Egipto, o que o inquietou por largos segundos. Poderia ser o seu contacto ou alguém ligado a ele, ou as autoridades, a Interpol disfarçada à espera que o número seja remarcado para entrarem dentro de casa dele. A única coisa que o comprometia era o Haxixe e não pretendia livrar-se do seu último reduto por causa de uma paranoia. Saiu de casa como estava, ligou a ignição do carro e foi até à periferia de Lisboa para fazer uma chamada de uma cabine telefónica. Mal chamou atendeu de imediato um gravador com a voz de uma mulher dizendo repetidamente: don’t use it, don’t sell it, it’s purple wave.

(...)

terça-feira, fevereiro 02, 2016


Leituras

Adormeces perto de todas as minhas leituras;
quieto na cama enquanto a madrugada
invade com as palavras do Manuel António Pina
e todos os textos mais que a leitura te perturbará,
sem que a desconsideres, fazendo-lhe um lar
que um dia será tempo dessa liberdade cronológica.

Espero, quando vais para longe e sou eu quem fica;
interrogando-me acerca de um ponto numa verso
ou a verdade das coisas escritas, sem saber
a importância de tudo aquilo que se decide não tear:
os teus pés enleados nos meus, quotidiano em quadricula
formulando a irrelevância de toda a literatura.

Nunca as noites foram tão profundas
ou a sensação do silêncio num ensurdecedor poema
que tu, ao meu lado, confortas
respirando profundamente cada abismo
em que a leitura quieta se detém, intercedendo
pelo sono errante em que esta cama nos dispõe.

Tu ao lado de todas as questões Universais,
sonhando-lhes uma vida de respostas simples
para a ansiedade de um sono frugal
que morre na manhã seguinte. Onde descansa
em paz o livro, à cabeceira de todas as noites.

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Mão Humana


Pouco interessa a vida como é
quanto mais a um poema,

excluindo todo o espaço-temporal
que indaga e causa estranheza
em qualquer homem.

Tenho um sonho que não é nada disto,

reservo-o ao aprisionamento
da palavra, ao lugar do que ainda
não existe, mas é necessário
a qualquer natureza.

Assim se perdem demasiadas coisas
importantes a qualquer linguagem,

enquanto não exista uma forma eficaz
que nos aproxime, humanidade.

Pouco interessa a convenção utilizada
se é a arte quem descreve verdade

mesmo quando a literatura é borderline
e mente a todos os amantes,

mesmo quando alguém resiste
em escrever na mais absoluta
das pobrezas.

Tenho um sonho que não é nada disto,
e eles só pretendem outro

conforme o pré-estabelecido na normalidade
que não assino nem com um pseudónimo
e recuso porque é defeito de fabrico

numa engrenagem que já age
com uma réstia de mão humana.

terça-feira, janeiro 26, 2016

Fortune–tell


Na medida que a noite vai
pelo caminho desaprendo alguém,
desculpa, não era eu quem procurava
cedendo à mais perversa da solidão.

Não era intermédio de Deus falando
através de sinais intermitentes na realidade,
ensinando construções de abstração tridimensional
poemas exaltados sobre a nossa condição humana,

mas frágil e de beleza vulnerável:
se ao menos nenhuma palavra minha
te ferisse, como poderia aspirar
essa felicidade simples, mas
sem ti.

Vejo o presságio aproximando-se
da mão feminina que não me pertence
e vibra as coisas que se apagam
demasiado cedo, demasiado febris
para o entendimento lasso do tempo.

Uma senhora disse-me que era assim mesmo,
estamos no final dos tempos:

quando as mulheres usarem calças,
as terras forem repartidas
e os homens falarem sozinhos.


O aviso cabia numa mensagem
que estou sempre a reescrever e a apagar,
como se devesse eloquência
à vida,

porque outra razão haveria de trabalhar
debruçada na contemplação?

Ou terei encontrado a fracção correcta
saindo-me uma decisão na rifa
que me recuso a comprar ao cego do Campo Grande,

num número infinito perseguindo-me
como se corresse da boa sorte de modo
a livrar-me da ignorância.


segunda-feira, janeiro 25, 2016

Lunáticos


A mulher indiana apertava-me a mão
dizendo, "karma não, bom darma";
abandonava a clínica cinco deixando-me
uma rosa que conversava sem parar
um amor platónico por um amigo de infância.

A doença aproximava-se como fogo
ardendo o coração como se fosse
a ponta de um cigarro na epiderme.

Não sou eu quem está lá e há
uma grande tristeza entre os camaradas,
esperando com ansiedade
o primeiro cigarro da manhã.

Ou a noite quente de Setembro
sobre uma lua única olhando para nós
cheios de uma conversa que lhe parece,
como se fosse casa de um êxtase

e o meu amigo dizendo "preciso de uma namorada
maníaco-depressiva"
e dava-me uma vontade de rir
e toda a gente se ria daquela infelicidade.

Trocava-se um breve carinho, ainda a tempo
de ler um breve poema finalmente livre,

aprender uma frase num dialeto Africano
porque ali sou bem-vinda a qualquer casa.

domingo, janeiro 24, 2016

Fotogramas


Descaracterizar o brilho da fotografia de 1992;
sei-me já a viver cores inventadas
para carregar de expressividade
a mais primária melancolia.

Outras crianças parecem sorrir a mesma tragédia;
brincando alegremente a vidas possíveis
e a ficção seja uma breve lembrança do que é a morte

talvez o meu olhar indique algo longínquo,
demasiado grande para os anos contados.

Abraço com força a árvore-mãe da Quinta;
chorando uma espécie de compromisso,
para as pessoas que nunca deixam de pertencer

não vale meter só a conversa em dia
se os dias refletem  a ambiguidade
do tempo presente.

Se nos parecemos tanto e estamos tão distantes;
não vai servir olhar para trás
e procurar o que ficou por dizer,

a minha história é literatura de cordel
para senhoras ociosas e solitárias.

Tento contar de perto uma desilusão essencial
aproximando-me de um entendimento,

regra geral, um modo de convenção social
teimando rir a imbecilidade de gestos desaprendidos.

Onde ficou o rosto de mentiras honestas,
traindo a realidade com uma moral
própria dos contos de fada

notando-se o pequeno rasgo de loucura
dançando o Vinil no repeat.

Sou uma criança que só desarruma,
não brinca, não joga, não gosta de coisas,

sente feição pelo que já está partido
e quer cuidar qualquer coração,
exceto o seu.

sábado, janeiro 23, 2016

Postal Cansado Que Perdeu Todas As Cores Pelo Caminho



Penso que fiquei naquele dia em Julho, numa tasca vindo do Palácio do Freixo,
Senti que a cada ilustração, um pouco de mim lá ficava, nas manchas dos teus olhos,
Cada vez mais monocromático, debaixo das folhas de videira na esplanada
Ainda sentia o verde, das folhas, dos nossos olhos, do futuro que tão longe
E ali perto as mil cores de Dali e o rio, tão imprevisíveis como o horizonte
Com a distância subtraída, na manhã seguinte ainda vi a cor do pão,
Comprado na mercearia do lado, e o cemitério de Paranhos ainda tinha flores
Coloridas e chamas vermelhas apesar da tristeza que se levava para casa,
Devo ter ficado todo no cheiro do café, à noite já tive que te perseguir rua acima,
Não sei bem onde querias ir por aquela rua escura daquela cidade que não conhecias,
Daí marcares cada passo com lágrimas que te enxuguei nos lençóis,
Fiquei por lá de certeza, mas ainda há madrugadas em que recebo um amanhecer azul,
Como um postal cansado que perdeu todas as cores pelo caminho até mim.

22.01.2016

Turku


João Bosco da Silva

S. José

O que poderia a escrever, de facto:
uma arruaça às portas de S. José
e um estranho nevoeiro invadindo
a luminosidade quando chegava grave.

Lá dentro vinha um novo medo:
uma paixão incurável chegando ao sistema
pedindo-lhe ajuda para a inquietude

alguém parece conhecer a partícula da felicidade
e os outros, somos cobaias da normalidade.

O que poderia escrever de facto:
o cansaço na sala de espera
enquanto alguém perde humanidade,
dormindo a ressaca no chão
de S. José.

Amor, só, nunca será suficiente:
o aleatório não escolhe ninguém
e todos os contextos são viáveis
até nos momentos que não desejamos ser.

Escrevendo de facto,
os nossos motivos parecem-se
na dimensão mais crua da realidade,
como corpos estirados ao carinho
cansado da sua busca.

Nesse estranho desencontro o tempo passa
encaminhando da saúde para a incapacidade;
e alguém morre como um passarinho
rezando, entre os queixumes alheios
de mártires dolorosamente vivos.

De facto,
pousei a minha cabeça sobre o teu ombro
na esperança de curar
como só as mulheres curam,
adormecendo a vida
dentro da casa de Hipócrates.

sexta-feira, janeiro 22, 2016

Feminine Elation

Nancy

Julgo passar ao lado do abandono;
ficou na rua alguém a acenar de longe
finjo que não me diz respeito
e não importam os versos escritos
nas madrugadas de paixão invisível.

Tentei Deus e a sua atenção
é mais uma provação resiliente
que quer em mim uma mulher
longe da inspiração platónica.

Talvez seja o disfarce da minha condição,
a condição feminina no seu
devido lugar
quieta como se nascera pássaro ferido
cuidando a vida doméstica de asa partida.

Sangrando uma dor silente que é lunar,
mas também societária,
dominada por bravos caçadores,
homens decidindo segundo a sua biologia
um ideal de fragilidade dedicado à arte
e ao que parece, à vida de igual forma.

Teimo tropeçar numa ignorância inventada;
parece condizer com um vestido belo
e os lábios pintados de pêssego
como frescas primaveras sobre um campo macieiras
numa maçã que a minha sensibilidade dá a provar
e torna escravo o desejo.

Ao lado do nada estou um todo;
num corpo súbtil arranjado para
nenhuma ocasião
e a perfeição caminhando
na breve companhia da semelhança,
chorando ombro a ombro a moral castrada
das que continuam a nascer.

Vazios iguais padecem junto ao Regueirão;
nenhuma de nós foi feita para a claridade
e só uma rua noite fora é suficiência
do brilho que molesta toda
a sensibilidade do amor largado.

O mundo chuta o erro em perdões estúpidas;
quando valem mais as pessoas
e menos este estereótipo em que
somos musas, sem o devido crédito
pela dimensão fascinante de determinada natureza.

Sem que haja valor num individuo só;
principalmente determinado em dotar de alma
naquilo que deixou de ser animal
e agora é um sistema robótico,

sem dar conta de um olhar perdido
na turbulência nefasta da contemporaneidade.

Como eram fáceis os dias no Claustro,
deitadas entre a solidão das pedras,
congeminando uma liberdade que já era possível,
mas que está por realizar.

A vida cerceou o padrão da infelicidade;
excepto quando cabe mais amor
que aquele que se mendiga e, na verdade,
o coração só está já a diminuir.

Este é o tempo errado, no lugar errado;
estamos todas erradas e só o erro
poderá ser perdão numa madrugada
com alguém em desnorte.

Uma moeda

vejo-te todas as manhãs à chuva,
o esquecimento a rondar-te a vida,
nos olhos as palavras inclinadas e a fuga
para vidas em províncias inteiras de sol.
o céu colhe sempre os seus filhos mais absolutos,
pelas nuvens repartem-se as ausências,
pelas ausências curvam-se sombras afogadas,
uma rua ergue-se em direção a junho,
quando tudo for simples.

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Geografia secreta

a linguagem assume a distância entre o fôlego e a sílaba.
uso os verbos que se apaixonam pela noite,
são eles que conjugam o teu nome
para sempre.
os versos são lábios em ruína
parados na geografia secreta da pele.
no rés-do-chão remoto das galáxias,
as raízes dos poemas celebram a perda.
falta-nos o sangue marítimo dos pássaros,
um país-cicatriz, um osso macio
entre cada pausa eterna.

LFO - Freak


Viver correndo o tempo até ao seu final;
para que nada seja demasiado cedo
ou se torne pavio curto de uma carta última.

O tempo no seu próprio final;
não aquele redigido a partir do presente,
encurtando a vida com uma ninharia.

Ligar o mapa de navegação automática;
e calhar a falha humana no engenho
ou uma tragédia familiar a bordo da sociedade.

Rasgar o mapa com as mãos no peito;
acrescentar mais um linha
no intangível.

Atingir os limites da além-super-vivência;
irmos a qualquer lado
não importa onde.

O Livro Tibetano dos Mortos largado na cabeceira;
curando o medo da hypnagogia,
aliviando sobretudo a insónia.

Devolver alguma dignidade ao feio;
porque o há em qualquer homem
morrendo pela estrada.

***

Um interesse súbito no vazio de alguém;
o anúncio publicitário brilhando
a cidade noite fora.

This isn't Paris, nem nada se lhe parece;
não somos só coisas belas
e predestinadas.

A realidade ofusca o futuro desnecessário;
é um padrão desenhado no interior
do quotidiano doméstico.

Não somos só a biologia ausente de si mesma;
também há amor para dar,
daquele que é feio e sofre.

quarta-feira, janeiro 20, 2016

Forma Vívida


Vai, é velocidade para escrever;
se as coisas que não queres incomodam
ou quando a prescrição é literatura
plastificada - e resolves não voltar
às primeiras leituras da juventude;
mas é herança esse rasgo de brilho
sobretudo com a forma da macro-poesia,

inventando-se para esconder o fogo
de uma epiderme a sentir outro lugar.

Vais fechando as janelas porque vês
melhor na escuridão, sem notares
como todo o espaço lhe pertence
e o mundo é uma divisão apertada,
povoado de espíritos tateando-se;

onde todo o deslumbramento cego
é a urgência de palavras
para compor uma primavera impressionista.

Ficas caído num corpo invisível,
sobre a farta cabeleira da natureza
alumiada pelo fingimento solar
que ofereces aos dias impossíveis:

como as flores colhidas da infância,
morrentes de carinho longínquo.
 
Vai, é sempre o último verso;
se a vida roda primeiro em ti
e só depois o sentido preenche
um livro de mandalas por colorir,

se viver é já uma arte apurada
contida numa forma finita.

terça-feira, janeiro 19, 2016

Regresso a casa

o caminho esgota-se nos passos
e o reflexo dos dias atropela o inverno da cidade.
limito a minha visão
ao movimento líquido das horas,
ao silêncio poluído de fim do dia.
um metro desliza pelos pensamentos,
fere o tendão urbano.
ergue-se uma corrida feroz contra o entendimento
a identidade destas mãos desperta
quando a chuva para.

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Máquina do Tempo

A necessidade urgente de apalavrar
substitui-se por um conceito menor
inutilizando diálogos.

Fala-se para o esquecimento
sem o cuidado futuro
de um ideal nobre.

Só às vezes somos um gesto
atirando o corpo
para uma conversa distante.

Time dialogue machine
memorizou a paixão
contida na linguagem.

Não há que reiterar a palavra:
a memória física é finita
como qualquer biologia humana.

No silêncio reproduz-se
a sistemática do essencial
onde a forma interessa à sensação.

Amor como se diz
não vale a pena,
nenhum poema é suficiente.

quinta-feira, janeiro 14, 2016

Circunstância

Interrogo a fachada pelo seu conteúdo;
se há uma janela por abrir, se um homem
adormeceu no sofá.

O que ficou esquecido na divisão arrendada;
se a folha de uma aula, se a vontade
caída como pó pelo chão.

Vejo um intruso a querer saltar do 4º andar;
do quarto onde é possível contemplar estações
e as pessoas na rua.

Alguém parece demasiado preocupado;
pode ser um pormenor na sociedade,
mas é intrínseco do vulgar.

O pormenor adormece ao teu lado todas as noites;
tropeça na mesma questão, troca-se
num valor que não parece importante.

Podemos fazer de conta que não está lá:
não está um ninho de baratas
na casa de uma mulher cega.

Ninguém vai ouvir, nenhum vizinho
precisa de gritar a dor
de uma cidade inteira.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Life on Mars?

Como falar das coisas às palavras
se a vida se intromete tanto
e a forma começa a ficar aquém
e o tema vai ser sempre uma menina de 13 anos.

É o Bowie quem canta, morrendo a inocência
do primeiro rock. Partindo para longe,
eu e o meu discman a caminho do primeiro amor -
e não sabia como chegaria atrasado.

Parecem-me que todos dançam no Palácio
e são como o século XVIII reinventado
por um artista deslocado; Como se alguém
me tivesse entregue a este planeta
para finalidades cíclicas e irónicas.

Parecia que alguém insistia em não crescer
distraindo-me com uma certa vida em Marte;
dos tempos em que o Físico urgia
atrás de um arco-íris, acreditando
que venceria as leis da natureza
correndo atrás de uma suposta felicidade.

Como estava certo acerca da velocidade,
até para chegar ao intangível.

domingo, janeiro 10, 2016

Entre a Chuva

O vento urge as palavras, deixando-as sobre
amenas folhas outonais. Ficaste como esquecido
na rua, a pisar poças, encharcando a memória
no desconforto da sede salobra.

Lembro às vezes como queria tudo e camadas de mim
se sobrepunham à descontinuidade das paixões;
como era fácil o sabor tóxico da juventude
onde o tempo mimicava o primeiro afecto materno
querendo voltar-lhe.

Revisito a estação da chuva
e é como se todas as chuvas fossem diferentes.

Só o frio é transverso a qualquer tempo
agasalha a cavidade da razão e é
escudo contra a recordação do vazio primário.

A proteção era uma personalidade tendente
à morte. Esquivando-se dos temporais com
a mesma astúcia de certo afeto inconstante:
como eu.

Como qualquer prisioneiro
das coisas que não almeja.

sábado, janeiro 09, 2016

Geel

Chego a Geel numa manhã de extraordinária escuridão;
entendi que estava em casa, mas numa casa que habilmente
me contem dentro do homem que sou. Consideremos Geel
como uma estância termal para a loucura, de onde
em toda a parte surgem os mais diversos Indivíduos
acometidos de infernos distintos. Geel é o
paradeiro de muitos filhos nobres e como tal,
na sua maioria, possuidores de educação e boas-maneiras.

Aqui posso tratar porque aqui me encontro e nunca
nenhum destino me foi errático, até mesmo quando errava
curando-me da vida jovem. Esta é uma casa nova
construída e melhorada por cima da decrépita infância,
onde ainda me posso esconder nos lugares de antigamente
e as coisas só mudaram o suficiente dentro de mim.

Abro a janela do Hospital contemplando Geel
e percebi de imediato que não seria para sempre
e como estive sempre errado, até este momento.
Nunca houve mais ninguém além de mim e,
na verdade, são as pessoas que nos prendem aos lugares.

Enquanto vejo uma mulher a fumar à janela.

Deveria ceder ao padrão biológico e penso nisso,
sinto que corro o risco de estar errado acerca de tudo
porque tudo é tangível nas escolhas que tecemos,
julgando os melhores momentos para...
ao invés de deixar entrar logo um intruso na vida.

E é ela um intruso fumando ao meu lado.
Discutindo coisas de casal sempre com o cigarro
entre os dedos a apontar ninharias em ouvidos de mouco.
Sorrir a parvoíce dela, os bebés, os dramas
e quantas coisas de parecido interesse:
uma vida doméstica é a única coisa que pretendo.

(...)

1928

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Os Outros

É criminoso o deleite provocado pela finitude;
o desaparecimento é vulgar nas mentes vagueando,
vão-se embora predizendo o fim do ciclo
confundindo-se a estação gestante, prenha
de uma novidade singular para este tempo.

Ninguém deveria provar demasiadas paixões;
são caminhos em aberto por concretizar,
mentindo acerca de um lugar solitário
onde, em certa medida, só cabe uma pessoa.

A vontade estende-se ao outro;
se tiver vontade de a agarrar e tornar
a voltar sempre à mesma divisão, quantas vezes
forem possíveis para esquecer a efémera desarrumação
do invisível transbordando pelo peito.

Espera-se alguém do outro lado das palavras;
são lugares perdidos, um presságio acerca do Messias,
mas a única salvação possível é a interjeição interior
através da qual outra mão parece escrever

Passam anónimos e às vezes entendem a beleza correta;
aldrabam certos olhos de espanto, sem o cuidado
de assustar aquele determinado Universo desconhecido,
e quando uma mulher teme a rua, a Persona abraça com
a curiosidade natural das primeiras palavras.

Só assim os outros podem ser beleza;
quando finalmente seguram a linha estreita da vida
mantendo-a segura e reta numa folha de papel,
sobre a qual espelharei a forma como caminham
e como a pressa constante nos levará
à novidade formal.

quinta-feira, janeiro 07, 2016

Anti-Capitalista

O maior valor de certas palavras é o seu desânimo monetário;
toda a diletância socorre-se na obstinação
embalando um tom messiânico livre
cheio de versos caminhando sem sapatos.

A Persona não vende, a Persona ocupa-se da mudança;
intriga o sistema muitas vezes de barriga vazia,
preocupando-se com um selo no seio de uma sociedade
totalmente filatelizada.

A Grande Engrenagem funciona com peças partidas;
uma miopia miúda parece comprometer o corpo,
o alojamento permanente daquilo que produz
e que falha, como qualquer outra máquina.

A Visão confere Igualdade ao pormenor;
trata-se da mecanismo físico gerando especialistas
para o defeito, perpetuando-se a lacuna no engenho
que só a abstração individual é capaz de corrigir.

Toda a poesia é um copo de água Ocidental;
deve acalmar a sede espiritual dos seus filhos,
regida no serviço público dotado de democracia
e proteção para os marginalizados pensadores.

Quando o sistema evolui através da morte;
metendo o rosto de certos poetas no marketing,
para que finalmente se vendam contra a sua vontade;
para que sejam lidos contra a vontade adolescente
e o ódio permaneça sobre estes sujeitos inertes.

quarta-feira, janeiro 06, 2016

Inverno

Não consigo deixar de pensar neste dias;
a chuva corre lá fora molhando a inércia
enquanto deixo de me parecer com um espectador
e a vida surge como uma tela rodando o pormenor.

Entendo as razões da lassidão,
cada Inverno é sempre como se fosse o primeiro;
nasci na escarpa de uma montanha, mas ninguém sabe,
devo ser oriunda do lado errado da encosta.

Lá do cimo guardo a luminosidade do primeiro berço
transportando de um lado para o outro o planeta
até que o principio se repita de novo na vetustez.

Não quero abrir a porta de casa neste temporal;
apenas o frio é bem-vindo na rua onde permanecem
os restos mortais da indigência, pedindo
com melancolia um cigarro em troca de amor.

Devia compreender esta languidez cosmopolita;
as pessoas atravessam a cidade debaixo de terra
parecendo-se vagamente a toupeiras resistentes,
encharcadas da realidade brilhante de qualquer manhã.
 
Se calhar quem bate na vidraça não é a chuva;
talvez alguém tenha perdido essa importância
e sem querer, ignore este incessante Inverno
dentro do meu peito.

Acerca da Violência

A violência reproduz-se com prazer;
restitui-se o desejo a quem por direito
se prepara para fazer cumprir o que deve até ao fim,
mesmo quando a finalidade é o singelo
e alguma humildade em certos versos.

(Só assim o poeta se atreve a cuspir
as arrelias fundamentais dos paradigmas alheios,
convencendo-se de certa culpa forasteira
quando a criação é imperfeita e tem dúvidas.)

A violência reproduz-se no grito;
caso o volume se exceda e seja tambor
para inofensivas baladas de amor. Caso
perturbe a real maneira de alguns anjos
e teime em deixar a sua forma carnal
que é implícita, sobretudo, na arte.

(Só posso escrever violentamente
na esperança de desgraçar as palavras,
devolvendo-lhes a forma benevolente.)

A violência reproduz-se e quer mais violência;
um chuto na pedra rija e no calceteiro
exigindo responsabilidades para dores domésticas.
Tropeçando no pé que cisma responsabilidade
na imperfeição do regime, da sociedade,
de todo o encarceramento inventado
contra as fúrias obstinadas da cegueira.

(Só não tenho como julgar atos transversais,
limitando-me aos apontamentos abstratos
que haverei de rasgar violentamente)

A violência reproduz-se na companhia;
é máquina geradora funcionando no seu todo
como um centro-universo onde, em verdade,
não existe exclusão, onde nenhum holocausto
é extraordinário - e onde o tempo histórico
é rede fina apanhando qualquer peixe.

(Só, escrevo a violência intrínseca,
amparando-me nas agressões perpetradas
esperando mais linguagem e
menos carne por lacerar.)

terça-feira, janeiro 05, 2016

Mad Girl's Love Song

I shut my eyes and all the world drops dead;
I lift my lids and all is born again.
(I think I made you up inside my head.)

The stars go waltzing out in blue and red,
And arbitrary blackness gallops in:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
(I think I made you up inside my head.)

God topples from the sky, hell's fires fade:
Exit seraphim and Satan's men:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
(I think I made you up inside my head.)

God topples from the sky, hell's fires fade:
Exit seraphim and Satan's men:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I fancied you'd return the way you said,
But I grow old and I forget your name.
(I think I made you up inside my head.)

I should have loved a thunderbird instead;
At least when spring comes they roar back again.
I shut my eyes and all the world drops dead.
(I think I made you up inside my head.)

Sylvia Plath,

Borboletário

O esquecimento é um casulo por abrir;
um piar fino convencendo a voz implacável
da existência, redundante da igualdade
dos abrigo contra certos os Invernos.

Como voam certos espécimes, batendo as asas
contra quem voa na mesma altura; despassarados,
são assim os seres compatíveis com a consciência
da natureza errante.

Para trás deixam encostos suaves
pousados num ombro súbito, olvidados
das transparências em que os bichos frágeis
fazem por falecer no silêncio.

Ardemos como um bico de um fósforo
perpetuando ciclos infindáveis, batendo
os braços contra ninharias e um certo
mal-entendido acerca deste lugar.

Parece abandono e sem querer precisamos
de voltar ao ventre materno; dormimos
à procura de companhia, sem a lucidez
desta individualidade que acompanha
a solidão de todo o mundo animal.

Agitamos o pensamento que é asa
contra o corpóreo; um sorriso de madeira
encaixado numa floresta e a vertigem
de voar entre a composição da humanidade.

Circumambient

Escrever porque dói é diferente de doer;
faz diferente o uso da gramática
imitando uma mulher louca, rindo-se
com o sistema que impõe uma norma ridícula,
rindo-se porque já a conhece demasiado bem
a desimportância de certos erros na engrenagem.

Como um todo fazemos desconhecimento, sequer,
do nosso lugar numa inexistente hierarquia,
nem tão-pouco é percetível o afeto
que sem querer fica caído no chão da rua
e que alguém apanha e parece conservar.

Parece que não importa
porque se trata de um ponto num quadro;
mas é assim que o espírito de um homem
embrutece e fica feliz com a sua prisão.

Só assim serão suficientes os poemas,
invadindo o alheio, reclamando por justo
outras invisíveis tristezas dialogando com
todas as mulheres em qualquer um
dos ciclos lunares; pois qualquer uma
é já uma natureza que lhe precede.

segunda-feira, janeiro 04, 2016

A Convergência Do Esquecimento



De um salto no mar do norte de queixo para a ferida definitiva na carne tenra,
Fui desaguar no teu rio na companhia das constelações de beatas que te têm
Poupado os suspiros e o batom dos lábios, que se lambeu entre uma sobremesa e um café
Numa tasca invadida por poetas num baile de máscaras qualquer, onde quem mais
Fala e mais alto, assegura o ritmo cardíaco nas pupilas enganadas,
Pergunto-me se algum dia acendeste algum tipo de saudade fina com o isqueiro
Que me roubaste ao desejo, sei-o sepultado numa gaveta na companhia de moedas
Inúteis de outros países, estrangeiros como eu, fui realmente um miúdo em Tóquio,
Não nessa da tua cidade onde não voltei a encontrar olhares púrpura por cima
De uma sede a fuga, e sem ter acendido sequer um cigarro, trouxe-te até mim,
Entre um sake e outro, e foste a certeza da queda no ar, a porta aberta na casa de banho
Naquela festa à luz das velas, à sombra da eternidade que se ficou para trás.

Turku

30.12.2015


João Bosco da Silva

Estirpe

O teu olho estrábico torna o tempo em preguiça;
tomam por feios os dias alugados à poesia,
cheio de inércia do corpo físico quase-estelar,
transbordando a memória intrínseca de um homem vulgar.

Olhas para ali, mas não queres ficar preso no olho;
queres que te seja devolvida a tua vontade,
mas sem certas lunetas o mundo é uma
pintura impressionista em exposição permanente.

Revês um poema à espera de vislumbrar alguém;
és só tu, preso ao espelho em que te admiras
mantendo uma vírgula caída sobre o peito,
sobre um corpo tornado verso que julgas possuir.

Supões que todos os reflexos são infiéis,
presumindo a falta de verdade em qualquer visão;
no seio da realidade quiçá isso seja literatura
e o olho não seja ostensivamente cego.

É bela a mentira como as promessas eternas;
e assim se conservam as quimeras, apontadas
nos cantos dos livros, tecendo um linho fino
sobreposto na quadrícula que se limita a imitar,
sobre um lençol onde se adormece, sonhando
a lavanda natural que nenhum individuo emana.

É bela a poesia escrita sobre a folha;
tentar perpetuar as valências do corpo emocional,
fazer de conta que a morte não chegará
e é desconexa de qualquer criação.

Fazer sempre de conta um desígnio Universal
quando é sempre a propósito do singular;
que nenhum homem é uma ilha e na verdade,
nos parecemos todos com o anonimato.

domingo, janeiro 03, 2016

Elise

Desculpa, Elise por te perturbar com a tua vida,
mas já me preocupo demasiado contigo e na verdade
estamos os dois perdidos na sala do psicanalista;
e tudo o que dizes enche-me um espirito novo
e uma vontade obsoleta de escrever sobre ti;
de te esconder os versos todos, de os esconder
entre todos os outros que abandonei pelo caminho,
achando estupidamente que era dono do meu destino
e que importava mais continuar a escrever
e a vida era uma terra distante por concretizar.

Desculpa por finalmente te encontrar, Elise;
apetecem-me todos os teus universos duais
e as mortes consecutivas das tuas realidades paralelas.
Sinto-me um brilho na vida que te esqueces
e que me apetece apanhar do chão para te a oferecer
de volta; quero tanto trazer-te de volta
para te desposar e tratar-te finalmente
com a beleza feminina que te é devida.

Exalo o perfume cuidadoso da tua sensibilidade
permitindo a ligação invisível do desejo inerte,
onde nos vamos querer bem demais, onde vamos querer tudo
até o tempo que está para vir - e já sei
que o amor chega sempre atrasado e o nosso
ainda agora vai começar; Elise, deixa-me distrair-te
a voz que me inquieta, vamos os dois parar de sonhar
pois as palavras fraquejam e eu posso-te mais -
prometendo a eternidade e outras coisas estúpidas,
com Bombons pela manhã e a todas as horas do dia,
porque me apeteces em excesso e tenho que equivaler
a tua dose terapêutica comigo e os dois juntos,
curando a vida adulta de todos os amores envenenados
julgando, como dois parvos, que só o passado nos é tóxico.

Trazemos para o futuro um prisma e tudo que é uno
se liberta em múltiplas incandescências
que em tempo foram como brasa ardendo na pele.
Parecemo-nos sempre mais com eles e menos connosco;
e na tua forma já fomos outras tantas que me dás
esta certeza-sede de seres uma escolha
proveniente do caos que nos parece o acaso.

Dizes-me que se trata da mão de Deus fazendo o correto
e como quero, querida Elise, acreditar
nesse teu Deus; como quero ceder à sua biologia
e nos momentos extraordinários fazer o justo.

sábado, janeiro 02, 2016

Fado

Viajo ao longo dos sorrisos honestos deste povo
e toda a gente parece querer tentar o seu francês,
o seu alemão e até mesmo o Inglês.
Sinto-me um falso ideal de beleza: o eterno viajante
igualando-se aos feitos narrados por Camões;
e que também eu sou livre como todos esses heróis,
de uma liberdade imensa que jamais compreenderei.

Esta gente trocou a vida com a nacionalidade,
compreendendo-se na irracionalidade que é etérea
e da qual se libertam voando através deste condado
com as fronteiras mais antigas de todo o nosso Continente:
parecem-me tão antigos, cheios de salões vistosos
onde a nossa conversa contemporânea resiste
sobre a atmosfera pré-barroca que nunca passa de moda,
que para mim é Arte Kitsch rodeando certas mentes,
certos crentes na impossibilidade do original:
que tudo se repete e não existem acrescentos singulares.

Sem saberem como para mim são uma boa-nova
no bico de um corvo - e que esta gente conversando
é uma extensão única na vida de um poeta.
E o que noutros homens é resistência ao quotidiano,
para mim é entender aquilo que parece soar engraçado,
apaixonado ou triste; Porque é impressionante a forma
como se põem a olhar o mar e um navio partisse
levando uma carta sem resposta e a vida
daquele homem que já não abandona ninguém,
para sempre, à procura de um Novo Mundo.