quinta-feira, dezembro 31, 2015

quarta-feira, dezembro 30, 2015




Excerto I

Elise inclina-se sobre o espelho nos últimos dias;
a traição devolve-lhe uma beleza que já não encontrava,
a beleza que é só reconhecimento masculino
e o seu narcisismo do qual nunca se curará;
através do qual peregrina e que ainda
é um traço expressivo mimicando o afeto inexistente
do pai, da mãe, dos irmãos, de toda a gente
que não conhece, refletindo a sua longa estranheza
num corpo que admira e que quer igual ao seu.

Ela diz que a culpa é minha e esta
"É a minha divida Kármica para contigo",
rindo-se descontroladamente; pela primeira vez
senti vontade real de lhe fazer mal;
estava em meu poder e a minha posição assim o exigia:
amarrar para que se previna a letalidade da perturbação;
impor um coma insulínico para que durma
quanto tempo eu a queira anestesiada.

Elise, histérica e maníaca vai tornar-me um homem mau
e a nossa casa será para sempre um Sanatorium
e que amanhã, quando acordar, não me vai perdoar;
e se for eu quem duvide, minha Elise,
voltarei a procurar-te noutro lugar distante
no qual existas sobre a forma de outro alguém
que me arranje um indulto segundo a tua fé.

terça-feira, dezembro 29, 2015

Hypnagogia

Devo dormir o teu lado frio e só assim
a noite se desfaz em terras estrangeiras,
lugares onde é impossível a lassidão
e os nossos pés tocando-se pela madrugada fora
tocam a verdade longínqua do inconsciente
e agora tenho os sonhos trocados com o teu corpo,
sem saber se finalmente acordei ou se já
começámos uma nova viagem - guiando-nos
num grito teu que acomodarei com a roupa de cama,
sem saber se devo olhar para o escuro
ou escreva a incerteza do Lítio;
ou se deva viver, repetindo-me e repetindo
toda a arte caótica que existiu antes de nós.

Há mais alguém entre nós; Hypnagogia tenho a certeza,
mas às vezes parece-me só vontade de falar com os mortos
e mandar certa gente para o nono anel de Dante,
todos os que já foram a vida lúcida,
incapazes como Ugolino cheio da fome virtual
com que comerá todos os seus filhos:
somos o seu banquete, aterrados no conforto da cama,
sem notar o mal-estar de certos dias, trazendo
certas imagens oníricas que nos tornam transversais,
caídos um sobre o outro como se fossemos um só irmão,
apertados na realidade simples de todos os leitos,
pedindo perdão noutras divisões apartadas do inconsciente inferno
onde tendemos para errar no amor e onde o resto
é apenas o prazer bélico de invadir, destruir
e possuir, a fronteira límbica da inocência.

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Versos a Santa Dinfna

A minha bela Dinfna passeia pelas ruas de Geel;
em cada caminho tracejado, ouvindo sermões acerca
da estúpida beleza com que nasceu - porque
ela deixou de falar coisa com coisa
mesmo quando as coisas lhe concernem.
A realidade absoluta desmanchou-lhe o rosto
incapaz, que mutilou em frente de um espelho
e agora as cicatrizes, capazes de maior encanto,
distraem os homens viúvos dos amores já mortos.

Dinfna conversa sozinha ao meu lado,
deitada no divã como se estivesse dentro de um berço
para o qual eu sou o único a olhar
e para o qual me apetece demasiada ternura;
e a minha voz irrompe como se fosse
toda a gente que a esqueceu, de todas as pessoas
que, felizmente, ela nunca será.
Ouço-lhe a batida cardíaca molestada
contando-me acerca dos homens que não posso ser
e na medida dos diálogos, sou eu ainda mais só
que a gaveta de certos poetas.

Dinfna, já conheço o teu abismo
e o contexto da morte que pareces sempre avizinhar
e tudo isso também a mim me parece demasiado belo;
porque outro motivo as tuas fantasias brilhavam
um brilho que a mim já me é distante,
trazendo-te para tão perto de mim?
Sinto duas solidões luminosas que se parecem demasiado
e podia também falar-te acerca da beleza que vejo,
quando voltas à rua, fumando como os homens fumam;
caminhando pesarosa os vestidos que não escolheste,
falando com estranhos acerca do Darma e do Karma
e toda a gente sorri porque no fundo, sofres de loucura;
e toda a gente sorri o sorriso triste de quem Geel
é incapaz de curar - toda a vila enterra  lugares à mesa,
o conforto de uma cama, um nome a menos
nas orações que te são dedicadas, Dinfna.

sábado, dezembro 26, 2015

Milagre do Sol

O jornal pousado na mesa de pequeno almoço anuncia hieróglifos
e sinto uma quietude maior entre os naturais;
implodindo um arrebatamento impronunciável
desfeito sobre a atmosfera daquela manhã particular.

O jornal pousado em cima da mesa, ninguém lhe toca,
ninguém parece estar realmente presente
e as crianças mastigam o pão da manhã
como se comungassem,
como se fossem bizarras iluminuras,
como se já temessem
a data anunciada por João, o apóstolo.

Eu era o único estrangeiro presente na sala,
inerte e com medo de incomodar, de não ter respeito,
sem saber como pegar naquele sacro-pedaço-de-papel,
intrigando-me um acontecimento que mudaria para sempre
o curso dos portugueses e do resto da humanidade -
e só eles tinham a chave da maior das revelações modernas.

Estávamos no dia 14 de Outubro de 1917
e provavelmente já toda a Europa saberia,
fazendo de mim um estrangeiro em qualquer papado;
só até ao momento em que me levantei para sair
inclinando-me para cima da parangona "Milagre".
"Milagre" de miraculum, miracle em todas as minhas línguas;
e docilmente se aproximou um português,
falando-me um francês quase bilingue:

"Ontem, num lugar perdido em Portugal o sol dançou.
Centenas de pessoas afirmam que estava nublado
e choviam as primeiras águas de Outubro, quando, subitamente
o céu se abriu sobre eles, secando as roupas húmidas
de quem já estava à espera de ver a Santa Virgem;
três crianças camponesas revelaram as palavras de Nossa Senhora
anunciando a data e o lugar sua vinda -
e em todos cuja fé pôde mais que qualquer terra
ali se curaram de todas as maleitas,
incluindo o medo da morte."

sexta-feira, dezembro 25, 2015

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Fräulein

A minha Fräulein deixou-nos.
Sinto as vontades alteradas, embalando com pressa
tudo aquilo que me pertence
e só as peúgas nos estendal ficaram esquecidas;
prevendo a mulher que perdeu o seu valor
e sou incapaz de embalar, esquartejada,
para dentro da mala onde só os livros se vão salvar.
"Costumavas ser tão meigo, Alexis",
a culpa é do desleixo quotidiano, digo-me,
tentando fazer sobreviver a má-personalidade
e as gentilezas bizarras que lhe ofereci
na esperança de a impressionar com este intelecto singular;
e todas essas pequenas coisas atiraram-me
para a solidão apartada dessa mulher
cujo ser humano era a minha última ligação com o mundo.
A Fräulein dedicava-se aos meus pertences todos,
o mundo era-me caótico e só ela me salvava
das coisas mundanas, a companhia dos raros amigos,
o jeito da casa: pousando o estranho abat-jour
no lugar onde pudesse conviver alegremente
com o resto de toda a decoração inerte,
cuja solidão histórica não permitiu as
a mais agradável das conversas entre as coisas.
Quando trancávamos a porta e seguíamos dispersos
a vulgaridade das horas, do salário prometendo
todas as coisas ainda por vir,
onde já todos os objetos pareciam carecer de atenção.
O lar é então um grande campo de guerra silencioso,
distante de toda a negligencia das mulheres acostumadas
à vaidade da casa, tal como vinha anunciado
no catálogo de Henry van der Velde.
Tudo a propósito de outras pequenas maravilhas,
maravilhas que até o mais miserável homem pode comprar;
capazes de nos enganar com a garantia da posterioridade,
como se os filhos fossem adereços preciosos e vulneráveis
condizentes com o gosto requintado da Fräulein.
Teimava todas as noites nas minhas qualidades genéticas,
sem saber que as crianças serão demasiado sós
conversando com as decorações que um dia serão Kitsch,
cheias de ódio daquele mundo quase-perfeito
onde o espaço que devia confortar apenas torna a ligação maternal
em ridículos sonhos por concretizar 

Linha de Montagem

Vejo as máquinas reproduzirem-se, interligadas,
como se ainda fossemos donos da industrialização
e em nós ainda mandasse o quotidiano errático
de todas as coisas que nos fazem perder a noção;
e ao perde-la só faço sentido no intermédio
de todos os lugares em que já fomos uno
e dos quais só quero a parte que te toca:
a metade da pessoa que não sou.

Às vezes o acaso tecnológico publicita alguém novo, 
fingindo um homem melhor que o anterior
ouvindo este pedido íntimo de seguir a moda,
de pertencer ao resto do rebanho, consumindo
todas as produções finitas do afeto.

Mas eu anseio estar livre de tudo que não posso ter
e se o acaso encontrar alguém em desuso e na solidão,
fingirei esta metade robótica capaz de produzir
a ilusão de toda a literatura, como se fosse
um rasgo de loucura no rasgão de um coração integral.

domingo, dezembro 20, 2015

Crónica

Tinha as impressões erradas da gente
e a gente, farta de se ver no espelho honesto
onde somos todos transversalmente violentos,
pôs-me a voz no prontuário médico,
fazendo de conta que o mal dos homens
seria a propensão para a loucura;
e se pudessem também sedariam o ditador
cheio de delírios e grandezas bélicas,
anunciando o fim da guerra com a hegemonia do medo.
Agora chega a pior das primaveras, o meu carinho
afagando tudo aquilo que a ciência desconhece,
tudo aquilo que Deus também faz por não saber;
abraçando o vazio do homem que me dá tesão
no único momento intimo em que vale a agressão -
onde todos os homens fazem equivaler a brutalidade
na esperança física de que só este amor nos livre
de toda a crueldade anunciada pelos anais.

sábado, dezembro 19, 2015

Joalheiro

II

Do tempo em que andava pela rua espreitando ourivesarias,
imaginando desposar a mulher no anel que ela queria,
no preço que equaciona todos os anos por vir,
para sempre unidos na certeza absoluta
de que os anéis não caiem nas horas mais frágeis.
Invade-me uma gargalhada contra a montra exibindo
a funesta maquia do amor e o lojista à porta
enxotou-me o riso idiota,
reservando o direito de admissão à minoria ociosa, 
tomando-me por um inimputável invejando
o brilho das coisas que a certidão de nascimento
não pode comprar; e furioso gritei-lhe,
"judeu de merda, volte para o campo de concentração".
Subitamente a pobre criatura sentiu medo,
medo e nostalgia de um tempo que nunca viveu,
que lhe afagava o espirito e cuja pátria
são os bons modos livrescos dos vendedores;
e em vez de se pôr ofendido entendeu que a insanidade
era o preço da minha paixão, abrindo-me a porta da loja
onde a parca luz incidia sobre as riqueza,
escondendo na lugubridade o artista que solda
as mentiras de uma vida inteira.

Tateio a obscuridade procurando uma pedra invulgar;
"só as mulheres gostam destas coisas", tentando
desfazer-se na simpatia genética do dinheiro.
A minha iludida Fräulein  sonha desde a infância
com os cisnes brancos no lago, o coro de Natal na Igreja,
um vestido difícil de tirar e que, ainda por cima,
não posso estropiar como se fosse neve caindo no sótão.
A perfeição de uma aliança é a utopia do amor
cumprimentando o futuro maravilhoso
que o mau-gosto é incapaz de escolher.
De ombros descaídos senti a tristeza dessa mão vazia
empunhando o horror social da procriação burguesa -
e porque é raro o cliente à procura da verdade
caiu-lhe a máscara de trapaceiro, surgindo o artista
na sombra da sua oficina, esquecido das horas,
de todas as noites e dias que se interpunham
à criação humilde dos enfeites,
como se as mulheres fossem Natal o ano inteiro.

"Talvez a sua Senhora tenha um gosto realmente difícil
e eu tenha para si algo melhor do que qualquer diamante".

Ingenuamente guiado até ao porão escuro
do trabalhador-operário meticuloso e míope,
convidado pelas sensível sombra-luz pendurada
entre a claridade quente do Abat-Jour
e o teto sujo como uma mina de carvão.
"Se realmente a Ama, ofereça-lhe algo que já é importante",
e ele olha, apontando para a semiobscuridade,
mas eu só pretendia o anel vulgar
que um dia o tempo tornará valioso. 
"Um candeeiro só é importante na escuridão"
e  de repente reconheci o seu olhar vidrado,
a retina desconfigurada da superfície do mundo,
o meu pai conduzindo o disperso pensamento veloz
fazendo-me rir a morte no banco detrás;
sou o espelho do seu corpo quadriculado e tenso
onde a vingança rasurou a equação exata do medo,
assinando a preto a única herança que me deixou:
as trevas do quarto de núpcias assegurando
a descendência de todos os desgraçados por vir.
"Não existe beleza na primeira de todas as noites,
mas prometo-lhe a claridade honesta do fim",
enquanto subia o perliquitante escadote infinito,
debruçado no cuidado das coisas velhas
segura o abat-jour como se tivesse conquistado a lua -
poisando nas minhas mãos o estranho satélite
capaz de envergonhar o tempo-presente,
com todas as lições que os livros de História esqueceram.
Ao tocar-lhe senti a mão de uma amante fria
e a nostalgia do seu sopro distante
encheu-me a epiderme de um frio que nunca vivi;
maravilhavam-me todas as possibilidades longínquas
capazes de iluminar todas as decisões permanentes
com a sua lenta companhia pousada sobre o napperon feio:
para olhar a minha mulher quando fizermos amor
ou quando as núpcias contem mais gente na cama
e eu volte à solidão das leituras noite-fora -
e de repente perdi a cara de estúpido com que nasci
disposto a mexer no dinheiro do carniceiro.

Porque agora, o vendedor tomava agora a forma unheimlich
do homem capaz de enxertar pele humana diretamente sobre o quotidiano,
pegando na carne compatriota, rindo-se, cheirando-lhe o sangue
como um meticuloso míope trabalhando sobre a joia dos gaseados -
aguardando a chegada de outro imbecil parecido
à espera de reconhecimento pelo seu trabalho artístico.

domingo, dezembro 13, 2015

Vício Poético

Escrevo a sobriedade por cima da mortalha:
envolvendo o corpo torpe de fantasias
desde a casa mortuária até ao incensário de ópio,
fumegando a viagem interminável
desde a Ásia até ao quarto em que te deixo a sós.
Escrevo à luz da lamparina sem génio:
esfregando o papel rasurado na esperança
de encontrar o desejo na mão vazia -
pois só a poesia permite doçura póstuma
como a pobreza inflamando o estômago de sonhos;
e a boca respirando o calor de uma mulher inexistente
cheio do cheiro quente da alcoolémia lúcida
onde só o ritmo cardíaco é a bomba térmica
do gás venoso chamado vida. Escrevo-lhe
porque sou adicta ao amor que não posso oferecer,
por todos os abraços contra o carente corpo anónimo
na forma feminina e lânguida do vinho;
cheirando um traço de sangue numa lâmina
como um agarrado à vida cuspindo versos para o chão
e restos de palavras sujas que alguém fumará
na esperança de aguentar a ressaca
do tempo que já foi e nunca mais voltará. 

domingo, dezembro 06, 2015

Erostimia

Arrancamos da vida o caule
cheio da seiva com que preencheste o meu desenho facial,
entre beijos, embrulhos de algodão sintético
e a honestidade crua que teimas em despir -
levando-me como uma flor pela mão
ou como uma lápide vertendo lágrimas
de um estranho sobre a pedra fria.
Foram-me fáceis todas as paixões do mundo
até a manhã ser apocalipse e o corpo ser só
o caos na divisão em que adormeces braços dados
à mulher que foi demasiada gente -
e também demasiados lugares à espera de calor.
Somos coincidentes astrológicos,
contíguos ao prazer e à dimensão vazia do espaço
que só as palavras são capazes de mediar.
Diálogos irrompendo madrugada fora
com a loucura interrompendo o fluxo seminal,
para sempre uma voz sujando o afecto -
para sempre uma ideia forjando um lar comum.
Corre o prazer na direção da morte
sobrevivendo apenas o corpo desintegrado
da sua melhor metade - e todas as tuas partes
que escondo nos lugares diários da sobrevivência:
quando estou só e a tua mão acaricia a lista de compras,
fumando um cigarro à espera do autocarro
com os mesmos lábios cansados da tragicomédia
em que somos nós dois representando a felicidade mundana.

quarta-feira, dezembro 02, 2015

Metalic Love

Dislexia emocional, embalada e em pó
para enrolar no cigarro ou o tempero
favorito de minha mãe, sempre zelosa
e com medo da temperatura do leite;
as gotas pingavam-lhe desde a mão até ao pulso,
contornando todas as cicatrizes
através das quais compreendi o sabor metálico da vida.
Da boca nasce o sopro distinto do inferno
até sermos o ponto de encontro das palavras,
de todos os bilhetes prometendo a morte
de todos os versos escritos na forma líquida do amor;
ou porque somos sangue e dói e dá prazer
ou porque nada nos corre dentro do corpo
e juntos nos reconhecemos na beleza do vazio.
Só tu compreendes os invernos desta casa
e só tu conheces todos os objetos que já se perderam:
um lenço de pano embrulhado em cima do piano,
esquecido como se existisse apatia nas coisas;
principalmente naquelas já endurecidas pelo tempo
e que o quotidiano fez por tornar carentes de uso.
Só o espelho grita por atenção até quando me debruço
para observar a pessoa que ali se mira,
imersa no ruído produzido pela realidade estanque do vidro;
do qual tudo o que é corpóreo se desfaz
e somos nós de novo entrelaçados em Gare du Nord.