terça-feira, novembro 10, 2015

Imagem de Nada

Guardo a raiva nos bolsos,
as mãos escondidas na gabardine
e o olhar soturno
de quem se aproxima para cravar um cigarro.
Fiz escola na arte de bem pedir,
porque sou pobre, mas também tenho vícios
e tudo o que aprendi foi a não pedir por ninguém
e tudo o que peço, eu não peço para mim,
peço pelo corpo em que me arrasto
de homem em homem por uma moeda
e há quem dê porque também é vicíado
ou porque desconfia e tem medo.

Olho-me ao espelho do banheiro público,
de facto eu sou um gajo feio,
marginalizado por expressões congénitas e sociais -
e mais alguém que me deixou a cair durante o berço.
Porque a vida é dura desde o momento em que saí da minha mãe
e permanece em mim a memória de ter sido amado algures.

Sou emocionalmente paralítico,
preso para sempre na afecção intra-uterina
como exclusivo direito que me foi dado
enquanto se preenchia à pressa
a certidão de nascimento.
Podia ter-me enchido de raiva para matar alguém,
mas ao invés, decidi enlouquecer -
e bebo porque também quero serenar
este corpo a carregar esta vida inteira.
Pocuro as priscas do chão e fumo compulsivamente
para não pensar em morrer e graças a Deus
que sou intelectualmente inferior aos restantes
e sou incapaz de fantasiar muito -
com o que me deram almejo tão só uma moeda
para ir comprar vinho ao Pingo Doce,
ou então um cigarrinho, ou uma refeição nos Anjos.
Ou ser-se brevemente sedado porque é verão em Lisboa
e o céu brilhante aquece o chão onde durmo
mais as ruas que frequento -
e como nunca tive uma mulher, finjo com força que é ela,
contra a calçada dura e suja.

Duro e sujo, esse é o reflexo
fixado num ponto estanque do olhar;
como se a realidade fosse uma brecha naquele homem
que também olha para mim
e do qual também desconfio e tenho medo.

quarta-feira, novembro 04, 2015

o meu dia

todas as memórias são
naufrágios.
vi uma foto da tua namorada quando me adicionaste
já não te via há 20 anos
mas agora conheço o teu facebook.
foi assim que numa notícia voltei à casa assombrada
da noiva morta em Ovar.
hoje vi vestidos de noiva,
estranha passagem para fora da infância.
a terra vai manter-se
na linha geográfica coincidente
com o nome do meu país
e continuarei a ter identidade.
quando o caos derrotar as consultas psiquiátricas  

volto para a China.