terça-feira, outubro 06, 2015

Long Gone Motherfuckers

A vida fode-nos tantas vezes, mas depois de engolirmos muita lama,
Lá regurgitamos tudo, desculpa, se calhar nunca o cheiraste, não sabes o que perdes,
Contudo, hoje deram um nome ao óbvio, a esses microcosmos de imitação,
Os ditadorzinhos ad infinitum, mas a minha sensibilidade social é
A de foder as empregadas dos ditadores em casa deles, sem pagar nada,
É que nem aprendi nada mais além de que para a próxima não devo trazer
Comigo aldeões esfomeados por mexilhões, que comam salpicão
No convencimento de que são os melhores caçadores de gambozinos da terra deles,
Que morram felizes contra uma oliveira qualquer como qualquer um que era bom rapaz,
Ui, mas aquele caralho, não gostava da gente, era um renegado, sim, é verdade,
A cada gole apagava-vos um pouco mais, é demasiado difícil trazer tanta gente contrariada
No coração, convencida que eu uma outra coisa qualquer que não aquela merda
Que me apresentei, descarnado, a alma à vista, juro, e o espanto do meu próprio erro,
Mas que fazer, quando engolem mais do que aquilo que podem sentir, não por fome,
Para mostrarem o estômago cheio de ar e de ridículo quando se vê desde uma distância
Segura e sim, ridículo, endurecimento, a arte de se tornarem pedras, para não dizer cepos,
Por minha culpa minha tão grande culpa, orgasmos nos erros cedidos de boa vontade.
30.09.2015
Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, outubro 02, 2015

Paisagem e Carvão

Carregar carvão em folha Canson
ou o ser decalcando os limites marginais
do corpo pousado na realidade;
entre a mão apertando o olhar,
depositando o ténue horizonte
na linha feia - no desenho rasgado,
procurando um traço esquecido
no contorno táctil que em tempos
foi outra epiderme.
Deposito falsidade na paisagem,
era beleza de outrora noutro
canto do mundo. Era a hora
que é sempre o mesmo presente,
arremessando a tua sombra contra
a textura sossegada de um acidente
que sou sempre eu - e nunca
uma falha de Deus sobre a natureza.

Éramos sobretudo um desígnio
criado à semelhança da morte.
Somos invenção cruzando-se no Metro
e o acaso mentindo às escuras:
o túnel de referências literárias
em que somos vivos, muito para além
da última página; do último toque
que nos cansámos de folhear.
É ternura contida esse abismo
onde o eco dos carris é o meu nome
gritando o teu - onde quer que esteja
vens soletrando ideias para poemas,
navegando esta Lisboa enxuta
de amizades distantes e
olhares de soslaio adivinhando
o amor anónimo.