quinta-feira, junho 11, 2015

Estudo Pequeno

Que mais podem as palavras falar,
que não poemas: como apanhar
frio em Gare du Nord. Ou ainda
tão simples, como ouvir a tua chave
no ferrolho - mas não é erostismo-
e o melhor momento
é um sorriso de rua.
Trazes esses rosto
nas multidões - e se um dia partires -
jamais serei tão só.

Que mais podem as palavras falar,
se até a prosa escarnece do amor,
è pouco comparado à intimidade
dos amantes; é ainda menor
na adversidades e nos sonhos:
Pousarmos deitados, ombro ombro
perseguindo o sol ao longo dos hemisférios.
Quantos poemas serão escritos
sobre a ténue memória
Deste R/C em Lisboa.

terça-feira, junho 09, 2015

12

Colho plurais de Papoula
Ofereço como se fossem flores
A poemas escritos em Kathmandu.
O oriente incestuoso
diluindo incenso na nuca humana.
Baptizado com tanta terra
que lhe soube a guerra.
Partilhámos o mesmo rasgo de olhos,
todas as mulheres são belas
à sombra da implacável natureza;
todas as mulheres são belas
de tecto descaido e chão partido,
qualquer mulher é bela no desespero
rezando contra o descalabro de deus
e a falta de peito para alimentar
filhos mortos.
Escrevo na esperança de colher
A mão mais fria, a única substituta
Do operário cansado, de tendinite
séria causada pelo trabalho siberiano -
Colhe-la para o homem incapaz de se mover
A poucos kilómetros, engorda com fartote
suando o trabalho escravo que
lhe afaga a fome contínua
por um hamburger e duas mulheres inferteis.
A carne perniciosa, onde mal tem jeito
para o amor e outras gulas infantis.
COME GORDO! Devora tua televisão,
embriaga-te nas lágrimas alheias,
Uma mulher chamada Esperança
Auxilia-te a digestao pesada,
Para tardar pouco em defecares a humanidade
no cheiro enjoado de quem perdeu uma perna
e quatro filhos baleados pela sociedade de consumo.
Mais à frente um banco descolorido
Atravessa beijos apaixonados
sob o céu cintilante de Lisboa.
A aragem que acaricia cabelos
é a mesma que se desespera num torrencial,
Por isso continuam a escrever cartas,
na esperança de que o avião de papel
Atravesse meio mundo dizendo:
Faço-te para meu destino
e o futuro projectado começa a correr
entre as lágrimas e promessas partidas,
entre pequenos bebés e novas promessas,
todas por destroçar, rasgadas
Como brinquedos estropiados
Na divisão mais desarrumada, ouvindo
O grito agudo da mãe - pois nada lhe pertence
e os bebés caminham sós no seu pensamento
(Como qualquer homem) - Num mundo
imperecivel, e vontades loucas de correr,
Experimentar o carro despenhado
e uma namorada morta no lugar do pendura.
Prometam-lhes tristeza
Essa é a única certeza dos que caminham libertos,
Caminhando de mochila pesada até à paragem do 48
e uma viagem quando Lisboa chove.
Segurando na mão o jornal do METRO.
Na primeira página Kathmandu -
E sem dar-se conta da tragédia que assola
a vida de cada um, compôs um avião de papel.
Escreve Maria a vermelho, sonha com beijos,
Quantas bocas mais terá que beijar
Para que lhe fique o gosto da língua,
Uma língua universal, pré-babel,
O suficiente pelo menos
para que lhe sirva uns poemas de amor
e no seio das palavras
Não sobrem mais bocas, diluindo o cheiro
púbere no papel rasurado.