domingo, janeiro 25, 2015

Love is a Dog from Hell *


Toco à campainha,
Ouvindo o cão latindo
horas a fio.
Parece que chora
de aflito
ouvindo o rosnar
do seu melhor amigo.
Ão para todas as portas
e um não, hoje não,
vais acordar o bebé.

Desço o quarteirão,
território hostil e
sujo de fezes;
Tanto bicho coabitando:
até escreveria da compaixão,
mas não chega a merda
para tudo aquilo que
anseio construir.

O gira-discos procria
pulgas
na música - Só nos
temos a nós,
bailando a sarna do
adeus. Um infinito de canções
e nem assim
nem sempre fornicamos;
Só o cão te vê nua,
só a o cão me faz companhia
noite fora
pornografia adentro.

Ouvir o animal é mais difícil
a reler-te
na caligrafia do quotidiano.
Pobre desgraçado
caindo no divórcio alheio.
parece a tua infância
numa foto; o álbum verde-feio
impossível de destruir,
pois a memória
também guarda a doçura.

Escondida debaixo da mesa a brincar
e um beijo desajeitado;
sete primaveras à procura do amor
E um 8º andar com vista
para o desespero - com vista
e asas universo fora;
Saltando no abismo glorioso
De mãos a Peter Pan:
Arcano maior do suicídio infantil.
É essa a criança que eu amo,
aquela trancada no WC,
escondida no escuro a chorar
habitando um amor infeliz,
ainda assim,
um amor.

A minha voz é silente
perturbo-a com meu fantasma,
Deixando em todas as divisões
objetos fora do sítio, quadros
em todas as paredes, uma beata escondida
debaixo da mesa. Aquela é a única
casa segura para enlouquecer.
Talvez seja por causa disso que a amo.
Pego no cão para o levar à rua,
tranco a porta comigo lá dentro -
Podia precisar de tudo
menos dela - Na falta dela
Escrevo.

Escrevo poesia intragável
Intoxicando as palavras de EU e
e para isso serviu
a juventude; pintava os
pés de Helena
pintava-os nas paredes do quarto.
O gira-discos bramia em exaltação
de êxtase divino
ao decorar a anatomia da perfeição
percebi:

Nunca mais voltarás a ser feliz.

Helena morreu,
o meu primeiro desgosto amoroso
naquele dia trágico.
 
Os pés de Helena pagaram uma puta à séria
Ass-to-mouth, golden shower,
chorar bêbado e amá-la.
Estive ali muitas vezes, mas já
não sabia viver.
Partilhávamos a cama
e o mundo girou
elipses suficientes no
afecto ternurento do
esquecimento.
Um dia ela chorou
e vê-la chorar provocou-me tesão.
O amor que fazia era só meu
e a puta chorava,
agarrando-se a um orgasmo cru.

e, para bem do cão, libertou-se de mim,
correndo à chuva,
para sempre correndo à chuva.



*Título retirado de uma livro de poesia de Charles Bukowski

domingo, janeiro 18, 2015

Objet Trouvé

Poemas são Leis cientificas:
linguística e comboios,
bicicletas e psicanálise;
Amantes caminhando junto ao Sena
mais a vida do Almeida lixeiro:
e uma Olinda há muito esquecida
nos papeis que sujam as ruas.

"Compram-se carros usados e em mau estado"
como quem consome mulheres destroçadas.
Não há tesão maior que a tristeza
e só a tristeza incinera
as resilientes palavras
dos apócrifos.

"Compram-se
livros usados e em mau estado".
Sábados às pechinchas
e a miúda encontra o T. S. Elliott
repousando lençóis ao meio-dia.
Sobra um livro que não lerá,
bocejando horas
como um cuco preso ao relógio.

Escrever são
beijos de adeus, a
tua boca, a boca dos homens,
cerrando mil línguas
o envelope vazio, contando
Palavras Universais
em todos os dialectos

Dich, -te, You.

É a miúda quem escreve
quinze anos e um punhado de letras.
Compõe em cima do alfabeto
a música fúnebre
para o dia em que -te encontrará.

Um dia, a miúda professará a verdade e
aí já será tarde demais: Porque
o amor guarda-se nos bolsos
em cartas por escrever.

sexta-feira, janeiro 09, 2015

O Peixe Amarelo


“O preto formava a insídia do real e abria um abismo
na primitiva fidelidade do pintor.”
Herberto Helder


O peixe, como o poeta, tende a morrer em circunstâncias bárbaras. No princípio da morte é observado por uma criança. O corpo ainda não decompôs, é capaz de nadar vários quilómetros dentro de um aquário como se fosse livre. A criança, curiosa como um leitor, segue-lhe os movimentos aleatórios, traçando um mapa com a geografia do quarto de estudo. Na estante acumulam-se vários volumes de Enciclopédias, um dicionário da Lello, livros avulso e a coleção inteira “Uma Aventura”. A completar a parcimónia, vive ali o peixe no seu aquário redondo, decorando o espaço como um livro por abrir.  É enquanto tudo se circunscreve à imutabilidade que a criança se pode desenvolver. Faz os trabalhos de casa com afinco, vê desenhos animados, brinca com barbies e come chocapic pela manhã. Até ao dia em que surge uma mancha castanha no peixe.

Primeiro corre a avisar a mãe que o peixe está a mudar de cor. A mãe, muito dedicada, olha para o animalzinho e percebe que o pobre não durará mais que uma semana. Diz à filha que o peixe está doente, mas não sabe como explicar o seu futuro desaparecimento, enquanto isso vai magicando um cágado. Os cágados duram mais tempo e são fáceis de cuidar. É nesse momento que a menina também percebe que o seu peixe amarelo vai morrer e não há nada que possa fazer para evitar esse momento. Durante os dias seguintes detém-se sobre o aquário, espalhando flocos de ração, na esperança que sobreviva. Porém, o que era uma mancha rapidamente se desenvolve em várias machas, dando ao peixe um ar acamado e bastante febril. 

O peixe ainda rodopiava sobre si mesmo quando a pequena Tété chegou para brincar com a Ana. Também a Tété ficou a olhar para o aquário enquanto batia devagarinho no vidro como se tentasse acordar o peixe do estado letárgico em que se encontrava. Compadecida disse à amiga que o peixe ia morrer e concordaram entre si que nenhum animal deveria sofrer tanto no momento da morte.

Foi então que se instalou a dúvida no poeta, qual a cor com que se pinta a morte. Usar o vermelho para as recordações distantes, usar o castanho para o iminente fim da própria memória. Decidir que pintaria o peixe de amarelo na impossibilidade de o retratar fielmente foi uma circunstância da lógica, da própria filosofia, mas quando duas crianças assistem à inevitabilidade do fim é próprio contarem-se mentiras. É mentira que exista um peixe amarelo, apesar de estar retratado numa tela, tão fatal quanto o sonho do Paraíso dos Peixes. A mentira é o primórdio do aconchego: uma cama feita de lavado, e um par de pezinhos que se encosta noite dentro; De todas as formas o animalzinho corre o Oceano Índico, nadando quilómetros na água quente à procura da alma-gêmea. É no silêncio do quarto que se chora tal descoberta, uma miúda para um lado, a outro para o outro. Muitas vezes já tão distantes, relembrando a procura incessante da verdade. Não existem peixes amarelos, só existem peixes doentes cujo glup glup torna salgado o aquário. É a aterradora previsão do fim que desculpa a morte.

“Como é que gostarias de morrer Tété?”; “Eu gostava de não sentira nada, nem dor, nem nada”. Foi Téte que trouxe o copo de lixivia e deu a Ana que, seguidamente, despejou com cuidado para dentro do aquário. Ficaram por momentos impávidas, até ao momento em que finas bolhas de sabão começaram a sair das guelras do peixe. A eutanásia tornara-se difícil e ainda mais caótica que a velhice. Olhavam-se entre elas. Era suposto ser rápido, o peixe já sofria o suficiente com a doença e o enclausuramento. Foi nesse instante que Ana, compreendendo bem de mais a dor insignificante do animal, pegou nele com as suas próprias mãos, decapitando-o, num movimento certeiro, com uma faca de cozinha.

Ficaram vários instantes a olhar para o defunto e o confronto com a verdade apenas abriu mais questões. Juntas perceberam que deveriam enterrar o peixe como quem enterra o medo e o futuro incerto. De baixo da terra do jardim ficou um voto solene de amizade e enquanto o poeta imortalizava o bicho, cristalizando o momento em que nasceu até ao momento que morreu, ali apenas ficou uma promessa tácita: qualquer coisa de impossível retratar até ao momento em que o tempo e a própria vida a tornem uma mentira. A mais bela de todas as mentiras.