quinta-feira, dezembro 31, 2015

quarta-feira, dezembro 30, 2015




Excerto I

Elise inclina-se sobre o espelho nos últimos dias;
a traição devolve-lhe uma beleza que já não encontrava,
a beleza que é só reconhecimento masculino
e o seu narcisismo do qual nunca se curará;
através do qual peregrina e que ainda
é um traço expressivo mimicando o afeto inexistente
do pai, da mãe, dos irmãos, de toda a gente
que não conhece, refletindo a sua longa estranheza
num corpo que admira e que quer igual ao seu.

Ela diz que a culpa é minha e esta
"É a minha divida Kármica para contigo",
rindo-se descontroladamente; pela primeira vez
senti vontade real de lhe fazer mal;
estava em meu poder e a minha posição assim o exigia:
amarrar para que se previna a letalidade da perturbação;
impor um coma insulínico para que durma
quanto tempo eu a queira anestesiada.

Elise, histérica e maníaca vai tornar-me um homem mau
e a nossa casa será para sempre um Sanatorium
e que amanhã, quando acordar, não me vai perdoar;
e se for eu quem duvide, minha Elise,
voltarei a procurar-te noutro lugar distante
no qual existas sobre a forma de outro alguém
que me arranje um indulto segundo a tua fé.

terça-feira, dezembro 29, 2015

Hypnagogia

Devo dormir o teu lado frio e só assim
a noite se desfaz em terras estrangeiras,
lugares onde é impossível a lassidão
e os nossos pés tocando-se pela madrugada fora
tocam a verdade longínqua do inconsciente
e agora tenho os sonhos trocados com o teu corpo,
sem saber se finalmente acordei ou se já
começámos uma nova viagem - guiando-nos
num grito teu que acomodarei com a roupa de cama,
sem saber se devo olhar para o escuro
ou escreva a incerteza do Lítio;
ou se deva viver, repetindo-me e repetindo
toda a arte caótica que existiu antes de nós.

Há mais alguém entre nós; Hypnagogia tenho a certeza,
mas às vezes parece-me só vontade de falar com os mortos
e mandar certa gente para o nono anel de Dante,
todos os que já foram a vida lúcida,
incapazes como Ugolino cheio da fome virtual
com que comerá todos os seus filhos:
somos o seu banquete, aterrados no conforto da cama,
sem notar o mal-estar de certos dias, trazendo
certas imagens oníricas que nos tornam transversais,
caídos um sobre o outro como se fossemos um só irmão,
apertados na realidade simples de todos os leitos,
pedindo perdão noutras divisões apartadas do inconsciente inferno
onde tendemos para errar no amor e onde o resto
é apenas o prazer bélico de invadir, destruir
e possuir, a fronteira límbica da inocência.

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Versos a Santa Dinfna

A minha bela Dinfna passeia pelas ruas de Geel;
em cada caminho tracejado, ouvindo sermões acerca
da estúpida beleza com que nasceu - porque
ela deixou de falar coisa com coisa
mesmo quando as coisas lhe concernem.
A realidade absoluta desmanchou-lhe o rosto
incapaz, que mutilou em frente de um espelho
e agora as cicatrizes, capazes de maior encanto,
distraem os homens viúvos dos amores já mortos.

Dinfna conversa sozinha ao meu lado,
deitada no divã como se estivesse dentro de um berço
para o qual eu sou o único a olhar
e para o qual me apetece demasiada ternura;
e a minha voz irrompe como se fosse
toda a gente que a esqueceu, de todas as pessoas
que, felizmente, ela nunca será.
Ouço-lhe a batida cardíaca molestada
contando-me acerca dos homens que não posso ser
e na medida dos diálogos, sou eu ainda mais só
que a gaveta de certos poetas.

Dinfna, já conheço o teu abismo
e o contexto da morte que pareces sempre avizinhar
e tudo isso também a mim me parece demasiado belo;
porque outro motivo as tuas fantasias brilhavam
um brilho que a mim já me é distante,
trazendo-te para tão perto de mim?
Sinto duas solidões luminosas que se parecem demasiado
e podia também falar-te acerca da beleza que vejo,
quando voltas à rua, fumando como os homens fumam;
caminhando pesarosa os vestidos que não escolheste,
falando com estranhos acerca do Darma e do Karma
e toda a gente sorri porque no fundo, sofres de loucura;
e toda a gente sorri o sorriso triste de quem Geel
é incapaz de curar - toda a vila enterra  lugares à mesa,
o conforto de uma cama, um nome a menos
nas orações que te são dedicadas, Dinfna.

sábado, dezembro 26, 2015

Milagre do Sol

O jornal pousado na mesa de pequeno almoço anuncia hieróglifos
e sinto uma quietude maior entre os naturais;
implodindo um arrebatamento impronunciável
desfeito sobre a atmosfera daquela manhã particular.

O jornal pousado em cima da mesa, ninguém lhe toca,
ninguém parece estar realmente presente
e as crianças mastigam o pão da manhã
como se comungassem,
como se fossem bizarras iluminuras,
como se já temessem
a data anunciada por João, o apóstolo.

Eu era o único estrangeiro presente na sala,
inerte e com medo de incomodar, de não ter respeito,
sem saber como pegar naquele sacro-pedaço-de-papel,
intrigando-me um acontecimento que mudaria para sempre
o curso dos portugueses e do resto da humanidade -
e só eles tinham a chave da maior das revelações modernas.

Estávamos no dia 14 de Outubro de 1917
e provavelmente já toda a Europa saberia,
fazendo de mim um estrangeiro em qualquer papado;
só até ao momento em que me levantei para sair
inclinando-me para cima da parangona "Milagre".
"Milagre" de miraculum, miracle em todas as minhas línguas;
e docilmente se aproximou um português,
falando-me um francês quase bilingue:

"Ontem, num lugar perdido em Portugal o sol dançou.
Centenas de pessoas afirmam que estava nublado
e choviam as primeiras águas de Outubro, quando, subitamente
o céu se abriu sobre eles, secando as roupas húmidas
de quem já estava à espera de ver a Santa Virgem;
três crianças camponesas revelaram as palavras de Nossa Senhora
anunciando a data e o lugar sua vinda -
e em todos cuja fé pôde mais que qualquer terra
ali se curaram de todas as maleitas,
incluindo o medo da morte."

sexta-feira, dezembro 25, 2015

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Fräulein

A minha Fräulein deixou-nos.
Sinto as vontades alteradas, embalando com pressa
tudo aquilo que me pertence
e só as peúgas nos estendal ficaram esquecidas;
prevendo a mulher que perdeu o seu valor
e sou incapaz de embalar, esquartejada,
para dentro da mala onde só os livros se vão salvar.
"Costumavas ser tão meigo, Alexis",
a culpa é do desleixo quotidiano, digo-me,
tentando fazer sobreviver a má-personalidade
e as gentilezas bizarras que lhe ofereci
na esperança de a impressionar com este intelecto singular;
e todas essas pequenas coisas atiraram-me
para a solidão apartada dessa mulher
cujo ser humano era a minha última ligação com o mundo.
A Fräulein dedicava-se aos meus pertences todos,
o mundo era-me caótico e só ela me salvava
das coisas mundanas, a companhia dos raros amigos,
o jeito da casa: pousando o estranho abat-jour
no lugar onde pudesse conviver alegremente
com o resto de toda a decoração inerte,
cuja solidão histórica não permitiu as
a mais agradável das conversas entre as coisas.
Quando trancávamos a porta e seguíamos dispersos
a vulgaridade das horas, do salário prometendo
todas as coisas ainda por vir,
onde já todos os objetos pareciam carecer de atenção.
O lar é então um grande campo de guerra silencioso,
distante de toda a negligencia das mulheres acostumadas
à vaidade da casa, tal como vinha anunciado
no catálogo de Henry van der Velde.
Tudo a propósito de outras pequenas maravilhas,
maravilhas que até o mais miserável homem pode comprar;
capazes de nos enganar com a garantia da posterioridade,
como se os filhos fossem adereços preciosos e vulneráveis
condizentes com o gosto requintado da Fräulein.
Teimava todas as noites nas minhas qualidades genéticas,
sem saber que as crianças serão demasiado sós
conversando com as decorações que um dia serão Kitsch,
cheias de ódio daquele mundo quase-perfeito
onde o espaço que devia confortar apenas torna a ligação maternal
em ridículos sonhos por concretizar 

Linha de Montagem

Vejo as máquinas reproduzirem-se, interligadas,
como se ainda fossemos donos da industrialização
e em nós ainda mandasse o quotidiano errático
de todas as coisas que nos fazem perder a noção;
e ao perde-la só faço sentido no intermédio
de todos os lugares em que já fomos uno
e dos quais só quero a parte que te toca:
a metade da pessoa que não sou.

Às vezes o acaso tecnológico publicita alguém novo, 
fingindo um homem melhor que o anterior
ouvindo este pedido íntimo de seguir a moda,
de pertencer ao resto do rebanho, consumindo
todas as produções finitas do afeto.

Mas eu anseio estar livre de tudo que não posso ter
e se o acaso encontrar alguém em desuso e na solidão,
fingirei esta metade robótica capaz de produzir
a ilusão de toda a literatura, como se fosse
um rasgo de loucura no rasgão de um coração integral.

domingo, dezembro 20, 2015

Crónica

Tinha as impressões erradas da gente
e a gente, farta de se ver no espelho honesto
onde somos todos transversalmente violentos,
pôs-me a voz no prontuário médico,
fazendo de conta que o mal dos homens
seria a propensão para a loucura;
e se pudessem também sedariam o ditador
cheio de delírios e grandezas bélicas,
anunciando o fim da guerra com a hegemonia do medo.
Agora chega a pior das primaveras, o meu carinho
afagando tudo aquilo que a ciência desconhece,
tudo aquilo que Deus também faz por não saber;
abraçando o vazio do homem que me dá tesão
no único momento intimo em que vale a agressão -
onde todos os homens fazem equivaler a brutalidade
na esperança física de que só este amor nos livre
de toda a crueldade anunciada pelos anais.

sábado, dezembro 19, 2015

Joalheiro

II

Do tempo em que andava pela rua espreitando ourivesarias,
imaginando desposar a mulher no anel que ela queria,
no preço que equaciona todos os anos por vir,
para sempre unidos na certeza absoluta
de que os anéis não caiem nas horas mais frágeis.
Invade-me uma gargalhada contra a montra exibindo
a funesta maquia do amor e o lojista à porta
enxotou-me o riso idiota,
reservando o direito de admissão à minoria ociosa, 
tomando-me por um inimputável invejando
o brilho das coisas que a certidão de nascimento
não pode comprar; e furioso gritei-lhe,
"judeu de merda, volte para o campo de concentração".
Subitamente a pobre criatura sentiu medo,
medo e nostalgia de um tempo que nunca viveu,
que lhe afagava o espirito e cuja pátria
são os bons modos livrescos dos vendedores;
e em vez de se pôr ofendido entendeu que a insanidade
era o preço da minha paixão, abrindo-me a porta da loja
onde a parca luz incidia sobre as riqueza,
escondendo na lugubridade o artista que solda
as mentiras de uma vida inteira.

Tateio a obscuridade procurando uma pedra invulgar;
"só as mulheres gostam destas coisas", tentando
desfazer-se na simpatia genética do dinheiro.
A minha iludida Fräulein  sonha desde a infância
com os cisnes brancos no lago, o coro de Natal na Igreja,
um vestido difícil de tirar e que, ainda por cima,
não posso estropiar como se fosse neve caindo no sótão.
A perfeição de uma aliança é a utopia do amor
cumprimentando o futuro maravilhoso
que o mau-gosto é incapaz de escolher.
De ombros descaídos senti a tristeza dessa mão vazia
empunhando o horror social da procriação burguesa -
e porque é raro o cliente à procura da verdade
caiu-lhe a máscara de trapaceiro, surgindo o artista
na sombra da sua oficina, esquecido das horas,
de todas as noites e dias que se interpunham
à criação humilde dos enfeites,
como se as mulheres fossem Natal o ano inteiro.

"Talvez a sua Senhora tenha um gosto realmente difícil
e eu tenha para si algo melhor do que qualquer diamante".

Ingenuamente guiado até ao porão escuro
do trabalhador-operário meticuloso e míope,
convidado pelas sensível sombra-luz pendurada
entre a claridade quente do Abat-Jour
e o teto sujo como uma mina de carvão.
"Se realmente a Ama, ofereça-lhe algo que já é importante",
e ele olha, apontando para a semiobscuridade,
mas eu só pretendia o anel vulgar
que um dia o tempo tornará valioso. 
"Um candeeiro só é importante na escuridão"
e  de repente reconheci o seu olhar vidrado,
a retina desconfigurada da superfície do mundo,
o meu pai conduzindo o disperso pensamento veloz
fazendo-me rir a morte no banco detrás;
sou o espelho do seu corpo quadriculado e tenso
onde a vingança rasurou a equação exata do medo,
assinando a preto a única herança que me deixou:
as trevas do quarto de núpcias assegurando
a descendência de todos os desgraçados por vir.
"Não existe beleza na primeira de todas as noites,
mas prometo-lhe a claridade honesta do fim",
enquanto subia o perliquitante escadote infinito,
debruçado no cuidado das coisas velhas
segura o abat-jour como se tivesse conquistado a lua -
poisando nas minhas mãos o estranho satélite
capaz de envergonhar o tempo-presente,
com todas as lições que os livros de História esqueceram.
Ao tocar-lhe senti a mão de uma amante fria
e a nostalgia do seu sopro distante
encheu-me a epiderme de um frio que nunca vivi;
maravilhavam-me todas as possibilidades longínquas
capazes de iluminar todas as decisões permanentes
com a sua lenta companhia pousada sobre o napperon feio:
para olhar a minha mulher quando fizermos amor
ou quando as núpcias contem mais gente na cama
e eu volte à solidão das leituras noite-fora -
e de repente perdi a cara de estúpido com que nasci
disposto a mexer no dinheiro do carniceiro.

Porque agora, o vendedor tomava agora a forma unheimlich
do homem capaz de enxertar pele humana diretamente sobre o quotidiano,
pegando na carne compatriota, rindo-se, cheirando-lhe o sangue
como um meticuloso míope trabalhando sobre a joia dos gaseados -
aguardando a chegada de outro imbecil parecido
à espera de reconhecimento pelo seu trabalho artístico.

domingo, dezembro 13, 2015

Vício Poético

Escrevo a sobriedade por cima da mortalha:
envolvendo o corpo torpe de fantasias
desde a casa mortuária até ao incensário de ópio,
fumegando a viagem interminável
desde a Ásia até ao quarto em que te deixo a sós.
Escrevo à luz da lamparina sem génio:
esfregando o papel rasurado na esperança
de encontrar o desejo na mão vazia -
pois só a poesia permite doçura póstuma
como a pobreza inflamando o estômago de sonhos;
e a boca respirando o calor de uma mulher inexistente
cheio do cheiro quente da alcoolémia lúcida
onde só o ritmo cardíaco é a bomba térmica
do gás venoso chamado vida. Escrevo-lhe
porque sou adicta ao amor que não posso oferecer,
por todos os abraços contra o carente corpo anónimo
na forma feminina e lânguida do vinho;
cheirando um traço de sangue numa lâmina
como um agarrado à vida cuspindo versos para o chão
e restos de palavras sujas que alguém fumará
na esperança de aguentar a ressaca
do tempo que já foi e nunca mais voltará. 

domingo, dezembro 06, 2015

Erostimia

Arrancamos da vida o caule
cheio da seiva com que preencheste o meu desenho facial,
entre beijos, embrulhos de algodão sintético
e a honestidade crua que teimas em despir -
levando-me como uma flor pela mão
ou como uma lápide vertendo lágrimas
de um estranho sobre a pedra fria.
Foram-me fáceis todas as paixões do mundo
até a manhã ser apocalipse e o corpo ser só
o caos na divisão em que adormeces braços dados
à mulher que foi demasiada gente -
e também demasiados lugares à espera de calor.
Somos coincidentes astrológicos,
contíguos ao prazer e à dimensão vazia do espaço
que só as palavras são capazes de mediar.
Diálogos irrompendo madrugada fora
com a loucura interrompendo o fluxo seminal,
para sempre uma voz sujando o afecto -
para sempre uma ideia forjando um lar comum.
Corre o prazer na direção da morte
sobrevivendo apenas o corpo desintegrado
da sua melhor metade - e todas as tuas partes
que escondo nos lugares diários da sobrevivência:
quando estou só e a tua mão acaricia a lista de compras,
fumando um cigarro à espera do autocarro
com os mesmos lábios cansados da tragicomédia
em que somos nós dois representando a felicidade mundana.

quarta-feira, dezembro 02, 2015

Metalic Love

Dislexia emocional, embalada e em pó
para enrolar no cigarro ou o tempero
favorito de minha mãe, sempre zelosa
e com medo da temperatura do leite;
as gotas pingavam-lhe desde a mão até ao pulso,
contornando todas as cicatrizes
através das quais compreendi o sabor metálico da vida.
Da boca nasce o sopro distinto do inferno
até sermos o ponto de encontro das palavras,
de todos os bilhetes prometendo a morte
de todos os versos escritos na forma líquida do amor;
ou porque somos sangue e dói e dá prazer
ou porque nada nos corre dentro do corpo
e juntos nos reconhecemos na beleza do vazio.
Só tu compreendes os invernos desta casa
e só tu conheces todos os objetos que já se perderam:
um lenço de pano embrulhado em cima do piano,
esquecido como se existisse apatia nas coisas;
principalmente naquelas já endurecidas pelo tempo
e que o quotidiano fez por tornar carentes de uso.
Só o espelho grita por atenção até quando me debruço
para observar a pessoa que ali se mira,
imersa no ruído produzido pela realidade estanque do vidro;
do qual tudo o que é corpóreo se desfaz
e somos nós de novo entrelaçados em Gare du Nord.

terça-feira, novembro 10, 2015

Imagem de Nada

Guardo a raiva nos bolsos,
as mãos escondidas na gabardine
e o olhar soturno
de quem se aproxima para cravar um cigarro.
Fiz escola na arte de bem pedir,
porque sou pobre, mas também tenho vícios
e tudo o que aprendi foi a não pedir por ninguém
e tudo o que peço, eu não peço para mim,
peço pelo corpo em que me arrasto
de homem em homem por uma moeda
e há quem dê porque também é vicíado
ou porque desconfia e tem medo.

Olho-me ao espelho do banheiro público,
de facto eu sou um gajo feio,
marginalizado por expressões congénitas e sociais -
e mais alguém que me deixou a cair durante o berço.
Porque a vida é dura desde o momento em que saí da minha mãe
e permanece em mim a memória de ter sido amado algures.

Sou emocionalmente paralítico,
preso para sempre na afecção intra-uterina
como exclusivo direito que me foi dado
enquanto se preenchia à pressa
a certidão de nascimento.
Podia ter-me enchido de raiva para matar alguém,
mas ao invés, decidi enlouquecer -
e bebo porque também quero serenar
este corpo a carregar esta vida inteira.
Pocuro as priscas do chão e fumo compulsivamente
para não pensar em morrer e graças a Deus
que sou intelectualmente inferior aos restantes
e sou incapaz de fantasiar muito -
com o que me deram almejo tão só uma moeda
para ir comprar vinho ao Pingo Doce,
ou então um cigarrinho, ou uma refeição nos Anjos.
Ou ser-se brevemente sedado porque é verão em Lisboa
e o céu brilhante aquece o chão onde durmo
mais as ruas que frequento -
e como nunca tive uma mulher, finjo com força que é ela,
contra a calçada dura e suja.

Duro e sujo, esse é o reflexo
fixado num ponto estanque do olhar;
como se a realidade fosse uma brecha naquele homem
que também olha para mim
e do qual também desconfio e tenho medo.

quarta-feira, novembro 04, 2015

o meu dia

todas as memórias são
naufrágios.
vi uma foto da tua namorada quando me adicionaste
já não te via há 20 anos
mas agora conheço o teu facebook.
foi assim que numa notícia voltei à casa assombrada
da noiva morta em Ovar.
hoje vi vestidos de noiva,
estranha passagem para fora da infância.
a terra vai manter-se
na linha geográfica coincidente
com o nome do meu país
e continuarei a ter identidade.
quando o caos derrotar as consultas psiquiátricas  

volto para a China. 

terça-feira, outubro 06, 2015

Long Gone Motherfuckers

A vida fode-nos tantas vezes, mas depois de engolirmos muita lama,
Lá regurgitamos tudo, desculpa, se calhar nunca o cheiraste, não sabes o que perdes,
Contudo, hoje deram um nome ao óbvio, a esses microcosmos de imitação,
Os ditadorzinhos ad infinitum, mas a minha sensibilidade social é
A de foder as empregadas dos ditadores em casa deles, sem pagar nada,
É que nem aprendi nada mais além de que para a próxima não devo trazer
Comigo aldeões esfomeados por mexilhões, que comam salpicão
No convencimento de que são os melhores caçadores de gambozinos da terra deles,
Que morram felizes contra uma oliveira qualquer como qualquer um que era bom rapaz,
Ui, mas aquele caralho, não gostava da gente, era um renegado, sim, é verdade,
A cada gole apagava-vos um pouco mais, é demasiado difícil trazer tanta gente contrariada
No coração, convencida que eu uma outra coisa qualquer que não aquela merda
Que me apresentei, descarnado, a alma à vista, juro, e o espanto do meu próprio erro,
Mas que fazer, quando engolem mais do que aquilo que podem sentir, não por fome,
Para mostrarem o estômago cheio de ar e de ridículo quando se vê desde uma distância
Segura e sim, ridículo, endurecimento, a arte de se tornarem pedras, para não dizer cepos,
Por minha culpa minha tão grande culpa, orgasmos nos erros cedidos de boa vontade.
30.09.2015
Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, outubro 02, 2015

Paisagem e Carvão

Carregar carvão em folha Canson
ou o ser decalcando os limites marginais
do corpo pousado na realidade;
entre a mão apertando o olhar,
depositando o ténue horizonte
na linha feia - no desenho rasgado,
procurando um traço esquecido
no contorno táctil que em tempos
foi outra epiderme.
Deposito falsidade na paisagem,
era beleza de outrora noutro
canto do mundo. Era a hora
que é sempre o mesmo presente,
arremessando a tua sombra contra
a textura sossegada de um acidente
que sou sempre eu - e nunca
uma falha de Deus sobre a natureza.

Éramos sobretudo um desígnio
criado à semelhança da morte.
Somos invenção cruzando-se no Metro
e o acaso mentindo às escuras:
o túnel de referências literárias
em que somos vivos, muito para além
da última página; do último toque
que nos cansámos de folhear.
É ternura contida esse abismo
onde o eco dos carris é o meu nome
gritando o teu - onde quer que esteja
vens soletrando ideias para poemas,
navegando esta Lisboa enxuta
de amizades distantes e
olhares de soslaio adivinhando
o amor anónimo.

quarta-feira, setembro 30, 2015

Hospício

Sobre a cabeça dos afectivos
o ruído do equívoco confunde
o horário de chegada no aeroporto,
aterrando a ânsia de fugir à clínica 5.
Fazemos sós uma mesma viagem
e a terra-natal deixou de caber num comprimido,
por isso riamos segundos de lucidez -
o distúrbio vai connosco para todo o lado
pois qualquer lugar é o certo para amar.

Bem que tentaram trancar as portas,
mas a transparência do pensamento
é a linha aérea mais trágica
a caminho do outro. Na impossibilidade
de resgatar os que abandonei em terra
levo na mala cigarros - que me cravem
essa chama que arderá na medida
de todos os diálogos que nos são distantes;
e me devolvam a loucura outonal
com a calçada escorregadia de abraços fortuitos.
Que me levem este exagero corporal,
basta-me este tecto comum chamado céu
e a mesma dúvida divina que nos torna semelhantes.

Faço o check-in a horas tardias.
Revistaram-me os motivos para viver:
esta urgência de expressar significantes
por meio do riso inadequado
sobretudo quando o corpo descansa em paz
e por intermédio, o silêncio saliva
esta conversa em que somos nós sem-fim.
Logo me recolhem da rua
para que me limpem do passeio
e não incomode o caminho alheio;
atirando-me a voz contra a opinião do Dr.
e a vontade expressa de amigos e família.

"Que seja feliz" é o mais importante,
para que não se questione até ao momento
em que a resposta seja a sua última dúvida;
para que seja contígua à limitação humana
e não arqueje voo sem bilhete de volta.

terça-feira, setembro 15, 2015

Constelações

Escuto o rosto do lado de lá do espelho
e no detalhe celular ficou presa
a ideia para um poema.
A epiderme ganhou um rash permanente,
uma coceira intermitente
de planos para o futuro.
O vaivém do combóio
viaja sobre as cicatrizes;
Tanto os homens sulcaram a terra
na esperança de ligar o distante
que em qualquer ponto de partida
já sou uma anónima no meio de estranhos.
A única saida possível é o Id
por isso, mais vale dormir
e acordar com uma confirmação;
mais vale demorar os lábios no batom
e fazer promessas ao passado
pois tudo o que já foi vivido
é a razão consciente de já ter pertencido
a outro lado qualquer.

Detenho-me junto à barragem
que abriga espécies protegidas
e amantes em vias de extinção;
o caudal da acção é o residuo seco
de milhões de desejos em apneia.
Mergulho a face contra o lavatório
e a água que é água em todo o lado
transporta-me para o medo primordial
do parto. Desfoco a realidade
e na impossibilidade de morrer alí
escuto o rosto molhado deste lado do espelho.
Sinto as feições irreconheciveis
doutro habitante qualquer no meu espiríto:
talvez fosse Deus disfarçando-me
de mulher bonita - É ela a mais distante
por isso converso gritando cá dentro:
"É a ti que te amam", rindo-se
até se quebrar em cacos,
até sermos vidrinhos confusos no areal
ou o meu corpo cansado estirado ao sol.

Demoro demasiado tempo a juntar os pedaços
e o resultado da imperfeição humana
é a criação de um monstro semelhante:
é ele quem calcorre a rua até ao Pingo Doce
escolhendo para sí comida processada
e condições nazis para o genocídio bovino,
pagando em euros o sistema que lhe ilude
poder ilimitado sobre a natureza.
O monstro adoece a sociedade
com uma opinião ou intenção de voto,
conspurcando um texto jornalístico
ou a mente de um ignorante.
Corro atrás, armada com âmpolas de utopia,
ataco-o
atacando-me o corpo preso
à ideia criada a partir do reflexo.

Hipercubo


Nos teus lábios todos os verões que não vivi, noutras décadas, noutros lugares,
Em tons pastel com garrafas de água verdes e outras sedes que nunca apaguei,
A tua voz muda nos ouvidos como nos sonhos, o teu cheiro a promessa de uma tempestade,
Eu sei, mesmo que os receptores opioides intocados pela tua pele dourada,
Um dia serão todos e tudo, a mancha de café sobre o poema que te escrevo de todas
As formas possíveis e nunca mancha, como eu todos os outros que se poderiam
Aproximar de ti, viver em ti, desaparecerem por ti, nesses verões que não vivi,
Nessas praias que quase visitei numa escala medida com sonhos e memórias primordiais,
O universo realmente não se joga aos dados, mas ao cara ou coroa, até ao infinito
E o resultado já estava decidido antes da mão, que nunca nos teus lábios quentes,
Da cor do algodão doce que toca na língua húmida de mais olhos que barriga,
Nos teus lábios todos os verões que não vivi, todas as promessas que não quebrei.

segunda-feira, setembro 14, 2015

levar o Tejo para a China

levar o Tejo para a China
em casa a luz de domingo passeia-nos a alma
temos uma cruz na porta invertida
e uma inquietação clandestina plantada
no rosto.
conto-te tudo sobre a inutilidade do poema.
amanhã quando acordar continuarei analfabeta
sem compreender a ternura das manhãs
tão exatas
e disseram-me que é difícil guardar um rio no bolso
mas eu queria levar o Tejo para a China
quando lá chego tenho sempre a mesma idade
a noite não deixa de me perseguir
a cabeça sempre quente sobre a superfície do mármore
que me enche o corpo.
quando te contar uma história verdadeira
saberás que é a hora da expedição
mas quero voar anestesiada
para não sentir a língua
e renascer em água
a entrar invertida pela casa.

domingo, setembro 13, 2015

The Last Song

Do tempo em que ouvíamos Smashing Pumpkins
li toda a tua correspondência.
Nunca ninguém te respondeu a cartas de amor
à excepção da companhia de electricidade
e o único suicídio contado
foi o do carteiro.
Olho para ti através da memória
e a tua companhia já é psicose,
conversamos e a tua resposta
é um pensamento em voz alta
que me acorda no momento em que adormeço.
A nossa proximidade faz-me duvidar
deste brilho para mentir
ou se este verso escrito partiu de ti
ou se o riso é morte imotivada
ou se volte à melancolia dos quinze.
Podia contar-te todas as tragédias,
mas nos intervalos das palavras só cabe a fantasia
e aí permanecemos ridículos
como da primeira vez.
A vida em pouco se nos assemelha
por isso sobrevivemos nas letras dos poetas
mais quantas excepções às leis da física.

sexta-feira, setembro 11, 2015

Cold Turkey

Morrem amigos em sonhos vividos
como se fossem um conselho:
há que ser aquilo com que se nasceu.
Acordo na esperança de acordar finalmente
apontando o passo trémulo
a caminho de um lugar sem estrada;
Mais um copo de água para empurrar o Priadel,
mas é o quotidiano quem já vicia
a vida parva de sentido.
Faço a rua, os carros buzinam,
as velhas lamentam a greve dos transportes,
tiro a senha sem número premiado
à espera da vez que tarda em chegar.
O tempo cansado bebe café e mais um night,
deixei de ter onde ir e ainda assim
vou. Nos entre-meios chego a Chelas
para comprar erva ao socialmente desfavorecido,
a farmácia está aberta 24h
e é o SNS quem comparticipa o entorpecimento.

Vai mais um de gin tónico para empurrar a vida
e a conversa de merda que distrai:
o político que nos fode sem amor,
o dinheiro que basta e que tanta falta faz,
o barulho imparável que é o corpo da Miley
e o fulano Sicrano que comeu a gaja errada.
Desfaço-me desta ida a correr
suando o corpo errado a contar calorias
na pressa da perfeição.
A náusea invade-me como uma cidade
e tentando escapar-lhe
mando Rivotril, mando açúcar,
mando pornografia, mando TLC,
mando conformismo.
A concentração sérica de bem-estar
equivale à sorte de não ser um número num genocídio.
Ainda assim a felicidade é uma migalha
no Orçamento e há sempre alguém
a alimentar pombos com o corpo envenenado de Cristo.

Sou a passageira efémera num estado de espírito
e a sobriedade é a droga que mais dói.
Conto horas junto ao Tejo,
até Carontes adormeceu sedado:
temo que a morte não chegue nunca
e a História não se realize
nem a Verdade se cumpra.

quinta-feira, julho 30, 2015

Reflexo

A beleza cansada de uma ficção
inunda devagar a banheira
com os pulso cortados de uma
mulher demasiado bela.
A tragédia também é um golpe de sorte
e o sofrimento,
a felicidade num movimento perpétuo.
Buscava a raspadinha sorteada,
a palavra certa numa mensagem,
o momento exacto em que o prazer não precederá,
tudo demasiado tarde para
admirar o rosto num espelho partido.
Os amantes sucedem-se em diálogos
respirando um último amor
na perfeita solidão da hora mais nefasta:
e nos trinta minutos que se seguiram
admirou-se como Narciso
e no reflexo da água tingida
observou a face que deixava de ser sua.
O olhar côncavo e moribundo
beijava a fidelidade da memória
que se esvaía através do tempo;
e na falta dele inventou de novo
um dia distante junto ao Atlântico
e o corpo arrastado pela maré
arrefecendo o nome de alguém
que tarda sempre a chegar.

quarta-feira, julho 29, 2015

Janela

O elétrico faz a volta da memória
e escrevo na esperança de encontrar
a rua súbita, o bar demorado
e a felicidade na janela entreaberta:
do lado de lá fazemos amor embriagados.
O Tejo fulgura um último suspiro
e um final triste no filme pornográfico:
Estou só nas margens de um livro
como um verso amputado do poema
ou o coração no lado errado do peito.
Esqueço na esperança de perder
a tua rua, o whiskey amargo,
a janela com vista para o Tejo:
uma promessa pouco lúcida de amor.
Os anos passam e com eles vai-se
a nobreza do primeiro amor,
o trânsito vai-se e vem-se
na sensualidade da fachada velha
e do lado de lá da janela
consome-se heroína e fast-food.
As imagens sobrepõem-se
reinventando uma vida nova
para o desgosto de amor:
A rua de alguém, a embriaguez da humanidade,
a janela com vista para o Sena
a Marijuana do Norte da Europa,
a cadência ritmada dos corpos em movimento.
Espreito pela janela e vejo
todos os rios do mundo
e em todos os homens, o teu olhar lânguido.
Perco qualidades a cada minuto
de delírio e angústias urbanas.
A escrita arrefece como uma pedra,
lanço a pedra à água esperando
ouvir o eco do ricochete
e mais um novo poema sobre o desespero
e toda a humanidade perdendo
a mulher nua debruçada sob o parapeito.

terça-feira, julho 21, 2015

Bipolar II



Randomly streets are above
Your eyes. You sit silent
taking your prescription
while dreaming about
a new city, a new life.
And you're so lost
So lovely sad.
I would amuse your ways
but we got stuck
in your medical advice.
There's no illness
without some kind of love,
and I feel so pleased
about your melancholia.
Strangers come across
regarding poetry and whiskey
and that's the only joy
that life takes from you.
I've never tried sweetie,
your salvation comes in a box of pills
and no matter the man
You still lack clarity
running away from life
at the same speed as your thoughts.
We are much faster
and this kind of tenderness
could make you suicidal
or way happier for a moment only.

quinta-feira, junho 11, 2015

Estudo Pequeno

Que mais podem as palavras falar,
que não poemas: como apanhar
frio em Gare du Nord. Ou ainda
tão simples, como ouvir a tua chave
no ferrolho - mas não é erostismo-
e o melhor momento
é um sorriso de rua.
Trazes esses rosto
nas multidões - e se um dia partires -
jamais serei tão só.

Que mais podem as palavras falar,
se até a prosa escarnece do amor,
è pouco comparado à intimidade
dos amantes; é ainda menor
na adversidades e nos sonhos:
Pousarmos deitados, ombro ombro
perseguindo o sol ao longo dos hemisférios.
Quantos poemas serão escritos
sobre a ténue memória
Deste R/C em Lisboa.

terça-feira, junho 09, 2015

12

Colho plurais de Papoula
Ofereço como se fossem flores
A poemas escritos em Kathmandu.
O oriente incestuoso
diluindo incenso na nuca humana.
Baptizado com tanta terra
que lhe soube a guerra.
Partilhámos o mesmo rasgo de olhos,
todas as mulheres são belas
à sombra da implacável natureza;
todas as mulheres são belas
de tecto descaido e chão partido,
qualquer mulher é bela no desespero
rezando contra o descalabro de deus
e a falta de peito para alimentar
filhos mortos.
Escrevo na esperança de colher
A mão mais fria, a única substituta
Do operário cansado, de tendinite
séria causada pelo trabalho siberiano -
Colhe-la para o homem incapaz de se mover
A poucos kilómetros, engorda com fartote
suando o trabalho escravo que
lhe afaga a fome contínua
por um hamburger e duas mulheres inferteis.
A carne perniciosa, onde mal tem jeito
para o amor e outras gulas infantis.
COME GORDO! Devora tua televisão,
embriaga-te nas lágrimas alheias,
Uma mulher chamada Esperança
Auxilia-te a digestao pesada,
Para tardar pouco em defecares a humanidade
no cheiro enjoado de quem perdeu uma perna
e quatro filhos baleados pela sociedade de consumo.
Mais à frente um banco descolorido
Atravessa beijos apaixonados
sob o céu cintilante de Lisboa.
A aragem que acaricia cabelos
é a mesma que se desespera num torrencial,
Por isso continuam a escrever cartas,
na esperança de que o avião de papel
Atravesse meio mundo dizendo:
Faço-te para meu destino
e o futuro projectado começa a correr
entre as lágrimas e promessas partidas,
entre pequenos bebés e novas promessas,
todas por destroçar, rasgadas
Como brinquedos estropiados
Na divisão mais desarrumada, ouvindo
O grito agudo da mãe - pois nada lhe pertence
e os bebés caminham sós no seu pensamento
(Como qualquer homem) - Num mundo
imperecivel, e vontades loucas de correr,
Experimentar o carro despenhado
e uma namorada morta no lugar do pendura.
Prometam-lhes tristeza
Essa é a única certeza dos que caminham libertos,
Caminhando de mochila pesada até à paragem do 48
e uma viagem quando Lisboa chove.
Segurando na mão o jornal do METRO.
Na primeira página Kathmandu -
E sem dar-se conta da tragédia que assola
a vida de cada um, compôs um avião de papel.
Escreve Maria a vermelho, sonha com beijos,
Quantas bocas mais terá que beijar
Para que lhe fique o gosto da língua,
Uma língua universal, pré-babel,
O suficiente pelo menos
para que lhe sirva uns poemas de amor
e no seio das palavras
Não sobrem mais bocas, diluindo o cheiro
púbere no papel rasurado.

segunda-feira, maio 25, 2015

No Tempo Das Cerejas Quando Chove

O cheiro da serradura, da erva cortada ao Sol, uma folha a passar no rio,
O Verão de Vivaldi, o sabor daquelas primeiras cervejas num dia de sede e cansaço,
Tudo o que nos faz fechar os olhos e nos arranca do agora por um segundo que seja,
E nos leva de volta à inocência, à leveza, a uma tenda atravessada no caminho dos
Sapos pequenos, aos sonhos antes de se apagarem, antes das velas pelos avôs,
Ao tempo dos olhos da avó nas paredes, como os de deus que seguem nos quadros
De Jesus com o peito aberto e um coração no esterno, e as primas um enigma
Irresistível, assim como as cerejas um baú de pirata em cima de uma árvore
Altíssima, as vacas um exemplo de paciência e estupidez, o sabor doce do feno mastigado
Numa torre de fardos num palheiro, nas mãos o cheiro a masturbação seca,
O cheiro a monte no cabelo, o cheiro a monte na pele, o cheiro das saudades a monte,
Inspirar fundo a terra quente quando as primeiras gotas se apagam no primeiro alcatrão
Da aldeia, no último dia de aulas, o relógio lento na lareira em casa da tia, enquanto
O primo acabava o pão com manteiga, os dedos besuntados, e agora os olhos azuis
Da nova geração, o meu corpo de dezasseis anos na fita magnética das câmaras
Dos tios de França, antes de provar pela primeira vez cona e Hemingway,
Deus levado pela corrente, como a inocência, como o exemplo das vacas que pastam,
O sabor do vinho quando o avô dorme, o sabor da aguardente quando o alambique
Foi vendido, o sabor dos salpicões quando se deixou de poder criar porcos, os foguetes
Da festa quando o bidão a fazer de casota de cão vazio, as revistas do homem-aranha
Em vez de gelados com o dinheiro para a festa, a manhã depois da festa no tasco
Ao lado do quiosque das bandas desenhadas e dos gelados que ficaram,
Com os dedos segurando uma chávena de café cheia de aguardente e a lubrificação
De quem dorme comigo dentro, os estrelas e os satélites nas noites que encolhiam
Tudo o resto, os livros que ficaram na lista e aqueles que se intrometeram,
Os que se engoliram só para perspectivar, as batatas que se apanharam da terra fria,
Se comeram, os dedos que se tiraram da carne quente e se chuparam,
Os sonhos que morreram e assombram os sonhos do sono, com beijos no pescoço
E unhas nas costas, e seixos e rãs e medos que se ultrapassaram quando acordado,
O Inverno de Vivaldi, a dor de frio na ponta do nariz, o cheiro da cera das velas no cemitério,
A cebola que fica no prato, o sabor metálico do peixe do rio vivo, quase como do sangue
Das feridas nos joelhos das quedas de bicicleta, o quartzo e a mica dos paralelos de granito,
Tudo o que nos faz fechar os olhos e nos arranca do agora por uma eternidade que seja,
Aprender a ser areia numa ampulheta e esperar que cada grão valha sempre a pena.

20.05.2015

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, março 10, 2015

Laranjal ao relento


João

O meu amor dorme o sono inocente
das crianças;
Esperamos juntos por amanhã
Pois vai um longo Inverno
e a casa está fria sem 
A nossa presença.
Dormimos os dois sonhos culpados
A infância é injusta
de gomos de laranja 
e tragos de areia veranil.
Ocupamos suavemente esse lugar
no corpo pesado e medicado
que afago como um piano,
Fazemos música noite fora
ele dormindo o sono maldito
dos insones; enquanto 
a sua mulher viaja no silêncio.

O Ecrã nunca se desliga
e a música não pára. 
Pela primeira vez
um momento de felicidade
onde dói mais, soprando
para que a ferida estanque
e sejamos a cicatriz profunda -
resistindo nestes corpos
por envelhecer; um ao lado
do outro, respirando calmamente
a mesma incerteza da juventude.

terça-feira, fevereiro 03, 2015

#1


The piano still sings.

domingo, janeiro 25, 2015

Love is a Dog from Hell *


Toco à campainha,
Ouvindo o cão latindo
horas a fio.
Parece que chora
de aflito
ouvindo o rosnar
do seu melhor amigo.
Ão para todas as portas
e um não, hoje não,
vais acordar o bebé.

Desço o quarteirão,
território hostil e
sujo de fezes;
Tanto bicho coabitando:
até escreveria da compaixão,
mas não chega a merda
para tudo aquilo que
anseio construir.

O gira-discos procria
pulgas
na música - Só nos
temos a nós,
bailando a sarna do
adeus. Um infinito de canções
e nem assim
nem sempre fornicamos;
Só o cão te vê nua,
só a o cão me faz companhia
noite fora
pornografia adentro.

Ouvir o animal é mais difícil
a reler-te
na caligrafia do quotidiano.
Pobre desgraçado
caindo no divórcio alheio.
parece a tua infância
numa foto; o álbum verde-feio
impossível de destruir,
pois a memória
também guarda a doçura.

Escondida debaixo da mesa a brincar
e um beijo desajeitado;
sete primaveras à procura do amor
E um 8º andar com vista
para o desespero - com vista
e asas universo fora;
Saltando no abismo glorioso
De mãos a Peter Pan:
Arcano maior do suicídio infantil.
É essa a criança que eu amo,
aquela trancada no WC,
escondida no escuro a chorar
habitando um amor infeliz,
ainda assim,
um amor.

A minha voz é silente
perturbo-a com meu fantasma,
Deixando em todas as divisões
objetos fora do sítio, quadros
em todas as paredes, uma beata escondida
debaixo da mesa. Aquela é a única
casa segura para enlouquecer.
Talvez seja por causa disso que a amo.
Pego no cão para o levar à rua,
tranco a porta comigo lá dentro -
Podia precisar de tudo
menos dela - Na falta dela
Escrevo.

Escrevo poesia intragável
Intoxicando as palavras de EU e
e para isso serviu
a juventude; pintava os
pés de Helena
pintava-os nas paredes do quarto.
O gira-discos bramia em exaltação
de êxtase divino
ao decorar a anatomia da perfeição
percebi:

Nunca mais voltarás a ser feliz.

Helena morreu,
o meu primeiro desgosto amoroso
naquele dia trágico.
 
Os pés de Helena pagaram uma puta à séria
Ass-to-mouth, golden shower,
chorar bêbado e amá-la.
Estive ali muitas vezes, mas já
não sabia viver.
Partilhávamos a cama
e o mundo girou
elipses suficientes no
afecto ternurento do
esquecimento.
Um dia ela chorou
e vê-la chorar provocou-me tesão.
O amor que fazia era só meu
e a puta chorava,
agarrando-se a um orgasmo cru.

e, para bem do cão, libertou-se de mim,
correndo à chuva,
para sempre correndo à chuva.



*Título retirado de uma livro de poesia de Charles Bukowski

domingo, janeiro 18, 2015

Objet Trouvé

Poemas são Leis cientificas:
linguística e comboios,
bicicletas e psicanálise;
Amantes caminhando junto ao Sena
mais a vida do Almeida lixeiro:
e uma Olinda há muito esquecida
nos papeis que sujam as ruas.

"Compram-se carros usados e em mau estado"
como quem consome mulheres destroçadas.
Não há tesão maior que a tristeza
e só a tristeza incinera
as resilientes palavras
dos apócrifos.

"Compram-se
livros usados e em mau estado".
Sábados às pechinchas
e a miúda encontra o T. S. Elliott
repousando lençóis ao meio-dia.
Sobra um livro que não lerá,
bocejando horas
como um cuco preso ao relógio.

Escrever são
beijos de adeus, a
tua boca, a boca dos homens,
cerrando mil línguas
o envelope vazio, contando
Palavras Universais
em todos os dialectos

Dich, -te, You.

É a miúda quem escreve
quinze anos e um punhado de letras.
Compõe em cima do alfabeto
a música fúnebre
para o dia em que -te encontrará.

Um dia, a miúda professará a verdade e
aí já será tarde demais: Porque
o amor guarda-se nos bolsos
em cartas por escrever.

sexta-feira, janeiro 09, 2015

O Peixe Amarelo


“O preto formava a insídia do real e abria um abismo
na primitiva fidelidade do pintor.”
Herberto Helder


O peixe, como o poeta, tende a morrer em circunstâncias bárbaras. No princípio da morte é observado por uma criança. O corpo ainda não decompôs, é capaz de nadar vários quilómetros dentro de um aquário como se fosse livre. A criança, curiosa como um leitor, segue-lhe os movimentos aleatórios, traçando um mapa com a geografia do quarto de estudo. Na estante acumulam-se vários volumes de Enciclopédias, um dicionário da Lello, livros avulso e a coleção inteira “Uma Aventura”. A completar a parcimónia, vive ali o peixe no seu aquário redondo, decorando o espaço como um livro por abrir.  É enquanto tudo se circunscreve à imutabilidade que a criança se pode desenvolver. Faz os trabalhos de casa com afinco, vê desenhos animados, brinca com barbies e come chocapic pela manhã. Até ao dia em que surge uma mancha castanha no peixe.

Primeiro corre a avisar a mãe que o peixe está a mudar de cor. A mãe, muito dedicada, olha para o animalzinho e percebe que o pobre não durará mais que uma semana. Diz à filha que o peixe está doente, mas não sabe como explicar o seu futuro desaparecimento, enquanto isso vai magicando um cágado. Os cágados duram mais tempo e são fáceis de cuidar. É nesse momento que a menina também percebe que o seu peixe amarelo vai morrer e não há nada que possa fazer para evitar esse momento. Durante os dias seguintes detém-se sobre o aquário, espalhando flocos de ração, na esperança que sobreviva. Porém, o que era uma mancha rapidamente se desenvolve em várias machas, dando ao peixe um ar acamado e bastante febril. 

O peixe ainda rodopiava sobre si mesmo quando a pequena Tété chegou para brincar com a Ana. Também a Tété ficou a olhar para o aquário enquanto batia devagarinho no vidro como se tentasse acordar o peixe do estado letárgico em que se encontrava. Compadecida disse à amiga que o peixe ia morrer e concordaram entre si que nenhum animal deveria sofrer tanto no momento da morte.

Foi então que se instalou a dúvida no poeta, qual a cor com que se pinta a morte. Usar o vermelho para as recordações distantes, usar o castanho para o iminente fim da própria memória. Decidir que pintaria o peixe de amarelo na impossibilidade de o retratar fielmente foi uma circunstância da lógica, da própria filosofia, mas quando duas crianças assistem à inevitabilidade do fim é próprio contarem-se mentiras. É mentira que exista um peixe amarelo, apesar de estar retratado numa tela, tão fatal quanto o sonho do Paraíso dos Peixes. A mentira é o primórdio do aconchego: uma cama feita de lavado, e um par de pezinhos que se encosta noite dentro; De todas as formas o animalzinho corre o Oceano Índico, nadando quilómetros na água quente à procura da alma-gêmea. É no silêncio do quarto que se chora tal descoberta, uma miúda para um lado, a outro para o outro. Muitas vezes já tão distantes, relembrando a procura incessante da verdade. Não existem peixes amarelos, só existem peixes doentes cujo glup glup torna salgado o aquário. É a aterradora previsão do fim que desculpa a morte.

“Como é que gostarias de morrer Tété?”; “Eu gostava de não sentira nada, nem dor, nem nada”. Foi Téte que trouxe o copo de lixivia e deu a Ana que, seguidamente, despejou com cuidado para dentro do aquário. Ficaram por momentos impávidas, até ao momento em que finas bolhas de sabão começaram a sair das guelras do peixe. A eutanásia tornara-se difícil e ainda mais caótica que a velhice. Olhavam-se entre elas. Era suposto ser rápido, o peixe já sofria o suficiente com a doença e o enclausuramento. Foi nesse instante que Ana, compreendendo bem de mais a dor insignificante do animal, pegou nele com as suas próprias mãos, decapitando-o, num movimento certeiro, com uma faca de cozinha.

Ficaram vários instantes a olhar para o defunto e o confronto com a verdade apenas abriu mais questões. Juntas perceberam que deveriam enterrar o peixe como quem enterra o medo e o futuro incerto. De baixo da terra do jardim ficou um voto solene de amizade e enquanto o poeta imortalizava o bicho, cristalizando o momento em que nasceu até ao momento que morreu, ali apenas ficou uma promessa tácita: qualquer coisa de impossível retratar até ao momento em que o tempo e a própria vida a tornem uma mentira. A mais bela de todas as mentiras.