quarta-feira, outubro 09, 2013

Visita A Koroisten Piispankirkko Com Tranströmer E Carpelan

“The heart does not accord
with its bounds,
nor the poem with reality,
nor reality with God´s dream.”
Bo Carpelan

Ao ler  Gläntan de Tomas Tranströmer lembro-me de Koroisten Piispankirkko à beira
Aura, a erva também milagrosamente viçosa, uma cruz branca a anunciar que o agora
Nu, em ruínas, uma mandíbula desdentada, antes um templo, rodeado por mais uns amontoados
Pálidos de pedras, incrustadas no solo verdejante de uma Primavera explosiva,
Antes a capela do bispo, emuralhada por uma paliçada absorvida pelos anos, com torres para o rio,
Reduzidas à estranha sensação de nostalgia que as ruínas evocam, já não saltitam por lá galinhas
À espera da faca no pescoço, só crianças pequenas acompanhadas pelos jovens pais,
Casalinhos sentados nos bancos com as bicicletas à espera de outras distâncias que não
As do tempo, todos parecem ignorar a informação em finlandês e sueco, o resto adivinha-se,
Uma casa de deus, onde parece que também eu já estive, de alguma forma, além das vozes
Que ouço, da língua que reconheço e compreendo, parece-me ouvir outra que reconheço,
Mas não compreendo, a língua de Tranströmer ou melhor de Bo Carpelan, que conheci uma vez
Numa revista e melhor conheci a sobrinha-neta, que diz que pouco se relacionou com ele
E eu ainda conservo dele a necrologia de um recorte de jornal, o mesmo sinto quando a encontro
Por acaso, dentro de um livro, o mesmo que sinto ao pisar os alicerces da Piispankirkko,
Muito diferente do que sinto ao tentar traduzir um poema meu, numa noite de bebedeira nórdica
À sobrinha-neta do Bo Carpelan, que só pensava em tê-lo dentro, e continha-se pelo
Interesse da amiga e o seu fascínio pela minha roupa interior a secar na cozinha,
Onde estará o tal bispo a estas horas a secar a sua roupa interior, “só os arquivos é que envelhecem”,
Mas também só o corpo que arquiva tudo envelhece e ao contrário do suporte dos arquivos,
Morre ao mesmo tempo de quem o registou, só ficarão os fantasmas projectados em amontoados
De pedras, num alto, à beira de um rio antes sueco, sempre humano, tanto meu como
Tudo o que um dia levarei comigo, toda aquela água em direcção ao Báltico, em direcção
Ao esquecimento, ao desaparecimento de tudo, menos das pedras-alicerces.

“Não procures na erva muda, procura a erva muda.” Bo Carpelan

19.09.2013

Coimbra


João Bosco da Silva
O Principio De Incerteza Do Fim Certo

“Na minha vida, a única coisa certa é a confusão.”
Pedro Juan Gutiérrez

Podia ser um fim de tarde quente de Junho, perto do fim da inocência, na esplanada
Do café perto da escola, a beber uma Frize limão a falar do que não se conhecia, o desconhecido,
Que na altura se chamava de futuro e era visto como algo branco, uma página, à espera
Da nossa vontade, do nosso esforço, das nossas cores, hoje já se sabe, que o desconhecido
É algo escuro, dominado pela sombra, só a incerteza é comum, sem pinga de optimismo,
Falava-se dos livros que se iriam comprar, quando se vivesse na cidade, sem as limitações
Do que está à mão e toda a gente lê, a época de Nietzsche, Schopenhauer, Sartre e
O agradecidamente obrigado Ferreira para os apagões das primeiras insónias, podia ser um
Fim de tarde quente de Junho, mas não é, nem há esplanada, nem os velhos amigos, cada um
Cada vez mais outros que eles mesmos, os anos ainda trazem vida a alguns, vida e brinquedos
Espalhados pelos corredores, os que nunca se teve na infância, podia estar a beber uma Frize
Limão e esperar tranquilamente pelo tudo ir dar certo, mas não, bebo um gin tónico com
Pepino enquanto a noite arrefece o dia de Outono e espero, inquietamente, por um pouco
Mais de nada, que o desconhecido se revele num mais ir andando, são as palavras possíveis,
Vai-se andando, tudo na mesma, e a vida, vai, enquanto for menos mal, desde que as curvas
Da estrada se façam, desde que a dor vá passando e haja ao menos um dia ou outro para
Enfiar a cabeça num copo ou numa garrafa e lembrar alto o delicioso que era o pouco que se
Tinha nas mãos, quando as mão capazes de segurar em tudo, ilusão, as mãos mal aguentam
Mais uma noite, escorre pelos dedos e no fim, pouco mais fica que um bocejar amargo ao
Longo do dia, procura-se num livro a inocência que se deixou esquecida na cadeira daquele café,
Mas os livros, cada vez mais, são reflexos do desencanto, uma reclamação às promessas que
Nunca nos foram feitas, uma lista de tudo que nos foi quase dado, das lições que, essas sim,
Nos foram oferecidas à força do chicote e da humilhação, é para aprenderes, agora lê-se,
Não para encontrar, mas pela companhia, agora bebe-se com Bukowski, vai-se ao engate
Com o Miller, viaja-se com o Jack, mete-se com o Will, fuma-se com o Juan Pedro,
Consulta-se o Dr. Thompson sobre os malefícios do tédio, às vezes procura-se um pouco
De ar num poema nórdico, ou a familiaridade num romance finlandês, revisitam-se os museus
Que no café da terra faziam parte de sonhos, os quadros que só nos manuais de educação visual,
Até o professor morreu, mas que esperar, se o gelo do gin já derreteu e o copo transpira como
Se em privação de álcool, sei que o mestre continua a visitar o café diariamente nos dias de aulas,
Porque os mestres são constantes, atingiram um nível máximo de fidelidade, o devir é algo certo,
Constante, e já se sabe, que quando se abrir a caixa o gato poderá estar morto, portanto,
Seguem, com a certeza de um gato dentro da caixa fechada e nada mais, o resto é levar o dia à noite,
Porque a família em casa espera e tudo o mais é esquecimento, um aluno que um dia não
Esperou ser tanto, nem tão pouco, tão menos daquilo que os olhos lhe prometiam,
Do verde, resta o pepino no fundo do copo e daí nem isso, que também o mastigarei,
E amanhã de manhã, será mais um verso, sobre isto, o principio de incerteza do fim certo.

Coimbra

07-10-2013


João Bosco da Silva

Santa Apolónia, 12H35

Viveste toda a vida no hall de entrada,
Fizeste uma mala de ideias
E quem sabe também levas amor.
A casa é guarida de corpo
Mas é na rua que os putos
Se dão.
Por vezes passeias
E descobres que pintaram
Paredes de branco
E os azulejos de azul;
Outras vezes esqueces-te:
Os artistas adormeceram
E nem a natureza
Tornaram Imortal.
Já não existe um suporte perecível
E a tua obra navega no silêncio dos bits.
Às vezes espreitas e descobres
Um homem como tu - quase sempre
Uma mulher - Prometendo
Um corpo que vai morrer, e tu
Constróis uma casa no centro da cidade
De baixo de um telha, enquanto
Fumas um cigarro - Adeus
Que partes deixando para trás
O barulho dos carris e
Quantos poemas por escrever.
Em cada cidade uma cama
E a certeza de sermos vizinhos
Enquanto tiveres amigos&marijuana -
Ajeita a viagem na medida
Dos sonho, corre
Quando não chegas a tempo,.
E beija como quem 
Chega sempre tarde demais -
Pois de amanhã só sabe aqueles
Que já dormem.