terça-feira, setembro 24, 2013

búzios

tudo o que me resta é um coração bolorento,
um som que se esqueceu,
ou então foi a noite que se esqueceu do que eu me esqueci.

esqueci-me de como se escrevem poemas.
esqueci-me até do teu nome
ou então dei-o a uma lua qualquer.

a noite prolonga-se pelos corpos sem nome,
crescem-lhes búzios no cabelo e olhos de mongol.

ardemos num mar de esperas pois a única coisa de que não me esqueci
foi de como se acende um cigarro.

sábado, setembro 21, 2013

rivotril

decidi finalmente contar-te o que tenho dentro.
decidi não porque; talvez não importe o porquê.
o sol põe-se perto da nossa janela,
a brancura inunda o nosso quarto e então dir-te-ei o que tenho dentro.
uma caixa de fósforos porque perco sempre o isqueiro,
as cartas às quais nunca te respondi,
os teus cabelos que ficam na almofada de manhã,
a forma como desligas todos os aparelhos da casa quando fazes amor.
guardo as tuas florestas,
o teu amor por todos os animais menos por mim,
o teu medo do escuro.

mas eu tenho muitas algibeiras e talvez tenha sido sempre esse o problema.
guardei sempre o que era dos outros.
quando digo o que era dos outros não me refiro apenas à carteira,
às chaves que só abriam portas onde eu não tinha autorização para entrar.
guardei várias vidas.
cheguei mesmo a guardar pessoas.
de ti guardei o cheiro a livros da tua casa,
alguns postais que colavas de forma doentia nas paredes,
guardei os teus filmes,
gostava de ter conseguido guardar todos os filmes do mundo,
talvez assim percebesses o quanto te amava.

já vou a meio da rua quando me apercebo que tenho os bolsos rotos
e que já não sei terminar um poema.

domingo, setembro 08, 2013

Fio de Ariadne


Venho de um longo dia,
Quase tão noite que adormeço
E o sol já amanheceu -
Gostaria de te dizer:
Mas posso dar cor ao teu mundo.
Ao invés vi o holocausto,
Lúcifer.
Jamais seria capaz
De te alegrar:
Mas posso mostrar-te beleza.

Vem ver comigo Dario Argento
E ouvir Haus Arafna.
Prometo que seremos felizes
Como o Anúncio...
A minha televisão ligada
Enquanto fazemos Amor -

Posso parar
No Escuro corredor
E correr até à divisão
Mais iluminada. Esqueci-me
De trancar a porta. Posso correr,
Mas sei que um dia entrarás.

Janta em minhas casa hoje
Para que proves
E comas em loiça de prata:
As Jóias dos gaseados.

Podes correr,
Mas sabes que um dia entrarás
Pois a televisão não desliga,
E a minha sala
É o teu canal favorito

Em qualquer lado que vá
O teu vinho
Mais a imagem e as pratas do avô:
O teu corpo vermelho
Sob a luz da câmara Escura.
Tiro-te uma foto, é essa a
Imagem.
É essa a imagem: nós na televisão
A fazer Amor.

Durmo de televisão ligada
Porque tenho medo.