quinta-feira, maio 30, 2013

Quando Alice encontrou Júdite

Predizia catatrofes
Do outro lado da rua,
Enquanto chopin ecoava
Da janela de alice.

E alice usava os botões da aparelhagem,
O seu albúm favorito,
Com Judite no centro -
Dos tempos em que o amor
Não lhe levara a mão;
E os olhos de alice abriam
Absorviam o cenário
Numa longa banda-sonora
Para a história
Do Bairro da Musgueira.

Já não sei escrever,
Chorava Alice,
A meio de todas as cartas de amor.

Tantas palavras, tantas imagens,
E um homem para complementar
O Filme que passava na cinemateca.

Estavam os dois meios tristes.
Alice dera sua mão, já esposa
E tinha sido a mão direita, porque
Não era canhota; E ficou sem a mão,
Perdeu para sempre uma mão
Que um dia Judite poderia
Cozer ao seu coto

E talvez compor músicas
Músicas de amor.

quarta-feira, maio 01, 2013

esta falta de nudez


afinal não estou certo de nada
se não de que apenas tento 
em função da dispersão atómica
criar a vontade para designar o dia
tratar o corpo dividido 
em função da métrica semanal ou 
em função do incomensurável enredo
sentimental

observo
cinza na ponta dos dedos
escuto 
a cidade confusa as buzinas emitidas
o grito do louco
o silêncio do louco
e designo o dia como mais um milagre perdido
numa contagem das tragédias anuais

a luz que hoje cai sobre as enseadas
em função do bom tempo
na razão de uma prosperidade climática
que em pouco ou nada
altera a queda sentimental
o vento que sopra de dentro
manso 
para que manso sopre também o dia

oiço o homem raso a nomear o dia como perdido
observo a mulher a soçobrar de criança ao colo
o cego a levitar sobre a desformatada cidade
toco o sétimo dia em movimento e sinto a vertigem
de cair um pouco mais
neste poço onde me vi reflectido 
sempre que quis ser outro
e ser o mesmo um pouco mais

e afinal não estou certo de nada
se não de que apenas tento 
despir-me
para me vestir de novo
e alcançar o dia com a mitológica 
força da manhã
com a mansidão cantada pelos profetas
e a vestimenta branca de homem de bem

mas acontece que nada ocorre
nem um pouco mais de luz
nem o nome novo que oferece o dia
afinal talvez tudo se trate apenas de uma questão 
epidérmica
de falta de nudez
de uma carne exposta rasgada de dentro para fora 
onde possa chegar a luz.

Cubo de Rubik


Alice estava com sérios problemas. Umas vezes o vício era tal que ficava escondida dentro do quarto dias a fio a ouvir constantemente a mesma música no repeat. Quando saia de casa levava os headphones e o mundo transformava-se nesse espaço fechado que era o seu quarto. Se num destes passeios Alice encontrasse alguém conhecido ela falava sobre os dias, sobre o tempo, sobre o fulano X que encontrou na semana passada e despedia-se teimando no futuro. Teimando no sabor do café. Teimando em bares e tardes solarengas. Porém, todas essas palavras eram o eco do seu quarto fechado. O mesmo eco do pensamento a cantarolar a música; o eco de toda a gente que falava do lado de lá do seu espaço, do seu corpo – pois dentro de si existia um quarto. Na maioria das vezes povoado de rostos que nunca dormiram na sua cama.  

Os seus olhos remelosos observavam o dia. O sol já ia alto, nascendo no centro dos seus pés brancos, olhando um homem que lhe lambia os dedos – cuja chuva interrompia todas as noites até à morte da luz. Até ao dia em que da noite o tempo fosse mais do que um estado de espírito; e o homem choraria fazendo dos seus sapatos uma arca de Noé.

 Existiam avisos de que o mundo estaria para acabar. Em todo o lado toda a gente dava graças por ter sido infeliz uma vida inteira; Ninguém no seu perfeito juízo confiaria na Salvação da Melancolia. Nem todos estavam preparados para viverem sós – Só Alice estava determinada em solucionar o seu pequeno cubo de Rubik, num estado de ânimo completamente hermafrodita. Deixando o hemisfério direito do cérebro masturbar o hemisfério esquerdo e vice-versa. Sempre seria auto-suficiente de cada vez que abrissem a porta para fazer parte de um quebra-cabeças chamado amor. 

O mundo encheu-se de fluídos corporais que acabariam por matar uma raça inteira. Pois a boca do amante continha reservas de tristeza, longas lágrimas que salgavam as melhores iguarias do mundo. Envenenando os gulosos de uma súbita apatia para com os filhos da próxima geração. Nasceriam mortos todos os primogénitos de todos os continentes do mundo. Restando animais sem irmãos, até à extinção total da infância – todos eles entretidos com a leitura das leis que regem os jogos solitários. 

Foi nesse instante que o cubo de Rubik ganhou o estatuto de pedra preciosa e os chineses enriqueceram por deterem a sua produção maciça. Alice nunca chegou a encontrar a solução e quando morreu deixou em testamento, ao neto mais novo, um cubo que passaria de geração em geração. Já os sapatos foram doados a uma instituição de utilidade pública que mais tarde se tornaria numa fundação com o seu nome.

Alice morreu com os pés secos e com o seu amante guardado numa chávena de café que jamais ninguém provaria.