domingo, março 24, 2013

bolsos de terra, alfarrobas nas mãos



Em memória de Lucinda  e Joaquim Costa

um dia os meus pés foram oliveiras, laranjas podres, chão daquela terra que sabe os meus passos de cor.
monte acima, a cavalo, cortando pelas figueiras era ainda uma miúda com o peito cheio de visões.
e lá ia eu, comendo todos os figos do meu bisavô que a contragosto me ficava agradecido.
diabético desde que me lembro, Joaquim não hesitava em devorar bolos, frutos às escondidas,
qualquer coisa que lhe adoçasse a alma.
tudo o que lhe adoçava a alma arreliava a da pobre Lucinda.
Joaquim tinha nos bolsos todo um alfarrobal,
gostava do campo e de planícies perdidas,
terras sem nome, por toda a gente esquecidas.
viviam no nº 13, numa casa que caiaram com as próprias mãos.
parece que ainda oiço a voz de Joaquim ao longe,
alojada nos cantos da memória como o pó nos móveis.
má mulher!
gritava quando Lucinda lhe fazia a conta aos doces que comia,
então refugiava-se no seu mercedes, abria a bagageira e tirava umas alfarrobas para trincar.
não era pudim de alfarroba, porque com esse só podia sonhar porque a sua mulher era o diabo e como tal era melhor nem sonhar com belos pudins, não fosse o diabo tece-las.
ficava então pela terra, que lhe pintava o mercedes,
a bóína que lhe cobria os pensamentos,
a sua ribeira que lhe escorria aos pés.
quando íamos para o campo levava sempre as ceroulas,
a marmita preparada pela Lucinda,
a solidão,
a vida presa numa corda,
as botas para pisar as ervas mortas.
a boa Lucinda era contadora de histórias fantásticas,
como a dos bois que caíram ao pego do inferno e nunca mais foram encontrados.
tinha alma de escritora mesmo sendo analfabeta,
penso que até podia ter sido poeta.
e lá ia eu com o Joaquim e a Lucinda, sem esquecer a Blandina pela estrada fora.
Joaquim ao volante, com a carta renovada por simpatia,
pois já tinha quase 90 anos e mal via.
Pobre Joaquim, pobre Lucinda apanhadores de alfarroba,
amantes da quentura das planícies,
que guardavam os sonhos na mala de cartão que Joaquim tinha comprado por meia dúzia de tostões para ir para angola.
um figo aberto em quatro, junto à árvore, o cavalo metido para o meio do mato,
e eu de joelhos esfolados, cheia de picos nos casacos devorava os figos que tinha nos bolsos,
como quem devora bolos, sentada na pedra onde Joaquim esculpiu um banco para se sentar nas horas de maior calor,
onde escreveu as suas iniciais JC e estou certa que as de Lucinda noutra árvore qualquer.
lá vinha ele e dizia
filha, vai-te ficar a doer a barriga
e era sempre tão verdade.
quando o sol se punha numa linha tangente à terra,
vinha uma menina a cavalo, com um carrapito de cabelo com o cheiro enjoativo dos frutos que apodrecem nas árvores, como as pessoas pela vida.
parte de mim ficava ali,
naquele lugar,
de onde sempre parti para voltar.

domingo, março 10, 2013

as mãos quebraram
ao segurar o teu céu

ouvi muitas vezes a tua voz
as tuas mãos, o teu corpo roçando a brancura dos lençóis
a casa com paredes de cal
os pequenos fogos do olhar e a tua cadeira verde

corri todas as ruas da cidade
mas o amor sempre foi demais e a vida de menos.
fizemos da nossa casa aquele número 13
e eu lia-te poemas
tu ias buscar o pão na bicicleta que era do teu avô.
não sabíamos muitas coisas
também muito pouco precisávamos de saber.
só comprávamos livros quando havia feiras de antiguidades,
eu experimentava óculos que tu dizias que me faziam parecer a ginger rogers.
tu gostavas de máquinas antigas, especialmente das que não funcionavam
e por vezes queria discutir contigo porque não entendia a utilidade de uma máquina estragada
e tu dizias "imagina quantas pessoas, quantos rostos estão guardados aqui. pensa que podemos guardá-los para sempre e que nenhum de nós estará só quando o outro não estiver"
de alguma forma conseguias convencer-me e eu levava meia dúzia de livros de cordel e tu uma máquina.
a verdade é que não nos conhecíamos muito bem,
nem sabíamos jogar às cartas.