sábado, janeiro 19, 2013

deixas-me ser todo o teu corpo quando a noite sobrevoa a cidade.
sou finalmente o teu rasgador de silêncios
e tu a madrugada.
voltei aos quartos a meia luz
nos que desenho janelas de papel
são as letras que lhes dão forma e as palavras que as escondem.

vivo nas zonas neutras pois já não conheço o caminho
falei-te de amor, entendi que falavamos línguas diferentes
eu falava em ausências e tu em presenças
em cidades fantasmagoricas
que se erguiam nos teus dedos.
e quando a noite se alastra pelos prédios que desconheço
encontro a razão da minha existência
apenas existo quando observo as vidas de outros através de janelas.


Tínhamos sempre um encontro marcado, mesmo quando não tínhamos encontro marcado. Não tínhamos horas, porque tínhamos todas as horas da noite. Chovia tanto naquele dia, chovia tanto naqueles dias. Chovia como chovia dentro de mim. A tua mão na minha mão, são dois cafés para dois corações encharcados por favor. Eu não sei bem o que via nas conversas que puxávamos do bolso como quem puxa os atacadores para apertar os sapatos. A tua alma era tão simples e no entanto tão bela. Não existia uma intelectualidade pretensiosa ou sequer uma forma de intelectualidade que pudesse ser considerada intelectualidade. Não sei bem onde ficaram os planos que escrevi nas mãos, nas linhas do meu corpo que nunca despiste, aquela viagem a Lausanne que faríamos no verão. Eu só estou bem onde não estou, a fazer o que não faço, a sentir o que não sinto com pessoas que não conheço. Tens que ser melhor para estarmos ao mesmo nível, para podermos subir juntos. Que estúpida, que ingrata e pretensiosa que eu sou ou que eu fui. Que ideia fútil, que ideia de "romancezeco" de esquina, de faculdade. A simplicidade estava nas coisas que nos passavam pelas mãos. Na colher de café que punhas dentro da minha chávena, dos sinais vermelhos em que me beijavas, de saber que em casa éramos provavelmente cinco, mas que na mesa éramos só dois. Eu e tu, sem contar com a televisão. A felicidade estava nas coisas que eu não via porque enquanto eu olhava para os prédios, em como estes tocavam o céu e em como o mar era tão triste tu olhavas para mim, punhas a mão na minha perna depois de pores a mudança. Tantos beijos coloridos a vermelho naqueles sinais de Santa Apolónia, tantas reconciliações numa praia à noite, tantas coisas que fui guardando num bolso roto em vez de as guardar no coração. Eu tinha este hábito que tu odiavas. Punha os pés no tablier e acendia um cigarro sem abrir a janela quando chegávamos à praia. Tantas noites em que te contei a minha teoria de que o mar eram todas as lágrimas dos marinheiros, das almas que foram esquecidas e acabaram na corrente. Fui eu que desbotei as cores que nos deram vida, fui eu que quis mais do que aquilo que já era meu. Ontem à noite lembrei-me de como os meus cabelos esvoaçavam na janela, naqueles passeios nocturnos de jipe pela marginal. Da voz estragada do rádio e de tu baixares o volume com aquele não preciso de rádio quando te posso ouvir a ti. Dizem que a saudade é aquilo que fica daquilo que não ficou, eu cá acho que saudade tem a forma de quem passa pelas nossas vidas. Hoje acho que ela tem o teu nome e que nem todas as minhas lágrimas poderiam absolver os meus erros. Tantas cartas no coração, construí tantas catedrais no peito, tantas viagens que nunca fizemos porque eu queria assas para voar e quando mas deram eu achava que os meus braços bastavam e depois, como Ícaro, caí e o meu coração morreu num mar cheio de noite.
e eu que nada sei, a teu lado continuo sem nada saber,
mas basta a tua mão, a tua presença, o teu corpo num espaço
onde o meu corpo possa ser o teu corpo
para que eu passe de ser nada a ser tudo.
eu nunca quis ser tudo nem quero ser tudo
aquilo que eu quero é ser, esta vertigem de sorrisos enevoados
cigarros a meia luz, corações mornos numa cama num canto de uma sala,
palavras que se perdem em ecos nos teus olhos.
eu não quero ser tudo, já nem ambiciono ser feliz
o tempo desgastou-me, a felicidade era o meu apendice e ainda hoje tenho a cicatriz.
já não ambiciono ser feliz, não te quero chamar meu amor, não quero usar palavras
as palavras são tão feias quando te tento por por palavras.
nem todas as palavras mais bonitas podiam ser-te.
eu não sei o que é amar ou o que é sentir,
talvez até saiba sentir, assim à deriva, como uma bússola sem norte.
não quero mais floreados nisto, não te gosto de falar com floreados
apenas gostava de conseguir dizer-te
sem duvidar de mim, sem me questionar, sem racionalizar isto
de que gosto de ti de qualquer forma, de que gosto de ti e dos teus defeitos
e que não os acho perfeitos, mas que gosto deles ainda assim.
no outro dia cortei os dedos,
tesouras, facas,
uma lâmina apontada ao peito.
e hoje estamos no mesmo lugar
eu conto até três e tu apontas-me a lâmina,
cortas-me a alma em três e depois repousas no pedaço que te pertence.
quando acordei havia muito sangue,
quando acordei o céu entrava pela terra dentro,
penetrava-a como os amantes se penetram em pensões onde deixam as suas traições.
éramos dois no bar, naquela noite e eu não disse nada.
penso muito, mas nunca digo nada.
eu usava um daqueles vestidos de seda, que fui roubar a um café de Paris
pela altura da belle époque,
e tu,
tu não me lembro o que usavas, senão o coração na lapela do casaco.
ficámos a noite toda despidos de vida,
pedimos desejos aos lábios, aos sorrisos enevoados, às mãos que nunca se tocam
e afundam na carne.
nas estrelas que se acendem no céu.
peguei fogo à cama, contigo lá dentro e saí do quarto,
passei batom vermelho nos lábios e matei as palavras com os pés.
quando cheguei a casa, queimei todas as cartas que ele me deixou,
acendi um cigarro e deitei o fósforo ao chão de madeira.
chove tanto lá fora,
tanto ou mais que dentro de nós.
tu chegas-te perto e eu afasto-te longe.
e os nossos corpos são estas danças contra o vento,
esta dor que não cessa e que permanece em ti como castelos na areia.
ouve, eu não quero ouvir o que tens para dizer foda-se não consigo viver neste sofrer,
este permanecer efémero e tu o teu corpo, como coisas que vomito quando já não consigo encarar mais o teu rosto, escrito nas palmas das minhas mãos.
abraça-me sem me prenderes no abraço, de todas as coisas que nunca serão
eu já te disse que sou passageira e que não piloto este avião que se despenha,
arde,
morre.
vou contar-te novamente a história de todas as histórias de amor,
mas não me fodas, não fodas isto com as tuas paixões platónicas de merda.
eu gosto de ti, como quem gosta de fósforos a arder.
não é suposto durar mais que isso.

ashes

sê feliz, eu quero que sejas feliz.
fecho os olhos e afundo-me no sofá, acendo um cigarro e começo a escrevinhar no ar.
pediste-me muitas vezes que te escrevesse, como se eu soubesse usar as palavras
acho que as uso tão bem como quem usa pés descalços em dias de chuva.
gostava de te poder escrever para que ao fazê-lo pudesse encontrar-te exactamente onde te perdi,
nas entre linhas do meu corpo.
todas as palavras são inúteis, todas as palavras são inúteis quando o amor não chega.
o amor nunca chega e quando achamos que chega é um engano.
e vamos assim, enganando o tempo e nós mesmos e esse engano pressagia o fim que acabará por morrer no horizonte dos dias, no sol que se põe em nós.
já não consigo encostar mais a cabeça aos vícios,
fingir que com eles não existes, não vives, não respiras.
vamos enganando tudo, mas nunca se engana a vida.
acho que é exactamente por isso que surge o amor,
quando duas pessoas pensam que podem enganar a vida
e ser mais que a quietude da solidão.

as promessas são tão vãs e o amor tão breve,
a vida tão efémera e tudo aquilo que somos tão pouco.
um dia prometi-te algo melhor, um dia prometi-te algo melhor do que partires para voltar,
um dia prometi-te que seria melhor para ti do que para os outros.
tudo aquilo que eu tenho são as letras do teu nome e com elas,
com elas consigo escrever todos os sons do mundo.
eu queria melhor para ti, melhor do que esta existência abandonada e confinada a uma casa de sombras.
eu queria melhor para ti do que beijos desbotados, manhãs que nunca chegam e dias de chuva.
eu queria tudo aquilo que sei que não te posso dar.
no fundo não há nada que não tenhas pois tens em ti todas as noites, todo o sol e os silêncios que me consomem.
eu não queria que a nossa existência fosse uma curta a preto e branco,
ou um daqueles filmes noir que vemos na cinemateca na primeira fila.
desculpa, eu queria melhor para ti para ti que tudo de melhor que tens me dás a mim.
nunca quis que a nossa vida fosse num lugar onde o nada perpétua a nossa existência,
nunca quis que deambulássemos na noite, fumando cigarros para contrariar a melancolia,
vendo concertos, onde apenas damos as mãos quando se apagam as luzes ou me dás beijos com língua quando não estou à espera.
nunca quis que fosses trabalhar para termos aquele apartamento miserável e para eu poder estudar cinema.
desculpa-me pois não te mereço embora pense em ti quase tanto como na morte.
e enquanto olho pela janela de um futuro que não nos pertenceu,
imagino-nos deambulando pelo Tibidabo e choro um pouco por saber que podíamos ser infelizes,
mas que o meu melhor tinha sido suficiente.
atravessámos os canaviais
contámos estrelas de papel
e soubeste-me no fundo dos lagos
que te escorrem pelas mãos.
inventámos uma casa com forma de futuro, sem sabermos como ele seria.
ouvi-te muitas noites nas paredes,
nessa mesma casa onde vi sapos, seres do oculto, pessoas com forma de pássaro.

regresso a esta casa, já cansado e sem nada.
quis amar-me, amar-me um pouco mais, mas pelo caminho amei-te e não sobrou amor para mim.
o meu coração era demasiado turvo, demasiado só.
um dia quando a chuva no teu olhar cessar talvez nos possamos encontrar
no fundo do lago.
de tanto nos quereres amar, pouco amor sobrou para nós dois.
forrei-te os bolsos com poemas, as gavetas com as partes limpas da minha alma,
mas pouco adiantou.
adormecemos sob o céu de uma noite que não nos amava.

as cartas extraviadas, as fotografias que se queimaram, as geografias entre nós
o tempo,
o mundo entre nós.

terça-feira, janeiro 08, 2013

o quarto

neste quarto vazio
a hora é de repensar o mundo e desclassificar os homens
do tempo que se estende
o relógio é preciso desclassificar
como é obrigatório desclassificar os poetas 
o quotidiano
as porteiras
e os homens que se julgam maiores
sobretudo esses os que mais classificam 
heróis da ejaculação precoce 
é preciso desclassificar o amanhã para deixar respirar
o século
tirar-lhe o nome como um soldado que tira uma 
vida 
para que lhe pese menos a pátria 
assim pesarão menos os anos e os 
deveres
que sendo muitos pouco pesam 
é preciso também desclassificar-me
perder-me o nome 
como é preciso perder o que não penso
ou o que não tenho de
sabedoria
desclassificar-me e dar comigo só 
é que há tanto espaço na minha cabeça
para que tudo aconteça

sexta-feira, janeiro 04, 2013

agora é demasiado difícil criar linhas perfeitas,
esquadrinhar o mapa e envolver todos os sítios onde um dia vivi.
pedi-te, meu amor vamos fumar a ver o rio,
e tu olhavas-me com olhos doces de cachorro moribundo.

perdi a conta ao tempo e como nunca sabia para onde ir tornei-me bússola,
mas como é que alguém pode ser bússola sem norte?
e a noite adormecia nos meus bolsos,
era tão fácil que se tornava díficil dizer o quanto te amava,
pois jurava que se te tocasse o interior que te iria fragmentar.

há um grande cansaço na minha alma,
os portos estão vazios, os marinheiros demasiado bebedos para amar.
e a vida já me deixou de fazer sentido à tanto tempo amor,
o meu coração está mais seco que os teus desertos onde desnorteias constelações com o olhar.
eu vivo neste compasso de espera, entre ti e o mar,
entre ti e as milhas que separam os continentes,
mas se silenciares os lábios, conseguirás ouvir os pequenos fogos falarem
e sem dares por isso, esses incendiarão esta casa em ruínas que é o nosso amor.

quinta-feira, janeiro 03, 2013

já não te sei perscrutar nas ausências de que é feita a minha vida
e se me ocorre um pensamento que não tem o teu nome, mas que é sobre ti, para ti
nunca tenho papel.

perdi todos os pensamentos que te devo.
chamavas-me noctívago, mas a verdade é que não sabias nada da minha vida.
ou da tua.
corri demasiado rápido, todas as noites pela cidade para chegar a ti.
dei tudo o que me restava, quando nunca tive nada para dar.
hoje caminho meio morto, a solidão ocupou o teu lugar,
deixaste-me metade homem, metade algo que ainda não sei pronunciar
e eu queria opor-me a esta ausência, iluminar os teus olhos vazios com os clarões da noite.
queria sentar-me na secretária e tocar-te a curva que mais adoro em ti: a das tuas costas.
jurei um dia poder habitar nelas, mas acabei por viver naquele andar e vender mortalhas de papel.

deixei de te acender cigarros, pois com o tempo começaste a dizer "não sou as tuas putas",
e eu calava-me.
nunca te disse, mas quando havia silencio em nossa casa entravam peixes do teu tamanho pela janela e eu conversava com eles sobre as tuas saias e o quanto gostava de te ver as pernas.

hoje viro-me para o lado e o teu corpo foge-me da cama
ou talvez, já nem esteja lá.
deixo-me inundar pelas luzes da cidade e peço aos céus para me transformarem as mãos em papel
para que nunca me falte papel para te escrever,
pois a dívida já é grande e no meu coração já não há espaço para todas das datas dos pensamentos que te devo.