sexta-feira, novembro 08, 2013

Epitáfio ao Verso


Para o João.


Dou voltas e voltas à cabeça para que encontre o título de um poema. Várias mãos me ocorrem, com as suas linhas prevendo o futuro, tocando os cantos de páginas invisíveis. Sei que deixei de ser poeta, mas não deixei de guardar palavras e imagens. Deixei de ser poeta, mas não deixei de sentir e de encontrar no acaso uma linha que me percorre como uma voz única, a qual serei a única capaz de descrever. Uma descrição muitas vezes incompleta por carecer de plataforma: a folha vai continuar em branco enquanto souber viver. E quando morrer o meu epitáfio será o carinho de amigos e não o verso que escrevi na solidão. Muitas vezes esse verso mais branco que a folha que o preenche, um verso inseguro, medonho, de quem não tem nada para dizer para além do braço que termina em mão. Um verso tentacular, Um verso que é um cancro, Um verso que poderia ser meu, nascendo do meu corpo, mas que corrói por não ser capaz de viver autonomamente. Deixei de ser poeta porque me inquieta a criação divina e saber que não sou Deus e também não sou mãe. Jamais serei capaz de educar o meu verso à forma, cuidando, protegendo, alimentando nesta língua que estou cansada de falar. A pátria do Português entristece os versos: A pátria do Português entristece a vida do Poeta.

Dou voltas e voltas à cabeça para que encontre um título de um poema. Porém, só desejo esse título para que um dia recorde todos os poemas que poderia ter escrito. Um título de quantas noites passadas em branco desejando contar os feitos heróicos de um homossexual no Parnaso, ou talvez sonetos sobre Petrarca esquartejado e quem sabe uma Ode a Lisboa. Variações contemporâneas de um estilo profano, vãs tentativas de ser mulher do meu tempo - essa geração que se dedica afincadamente à ordem dos conteúdos, estilizando temas que são meras playlists do passado. Porque já não se teme o esquecimento, mas sim o extravio do único perante o global. Deixei de ser Poeta porque já não temo a morte. Essa horrível crepitação enfurecida que, desgasta o corpo e nos torna pensadores, intelectuais, malditos, ensurdecedores, bêbados, magoados e apaixonados.

Vejo os homens a caminharem. Em toda a parte me parecem preciosos e gentis, e a sua fragilidade um gesto naïve de egocentrismo a quem a infância ainda importuna. Também me parecem belos os que matam e corrompem, produtos das variáveis injustas da natureza e das escolhas que tecem na escuridão. Escreveria por essa gente, mas essa gente só lê o que sabe ver. Escreveria poemas, mas a noite também se arrasta no coração de quem tece compaixão: os Poetas também tecem cegos poemas lúgubres.

Fortuna!

Vi homens a caminharem, escrevendo com as mãos a teia que liga as cidades ao centro do quarto do Poeta. Em toda a parte vi o fundo do copo, o cinzeiro cheio e conversas com fim. Esse último verso que adormece no carinho dos lençóis: um último sopro na boca de quem se despede à porta de Santa Apolónia. Uma última verdade que aconchega os que nasceram feios, a quem se lhe escapa a mentira por força do amor e respira vibrante o cheiro do leite materno. Deixei de ser poeta pelo eco do choro: o vil que guarda o único para que o único não caia no esquecimento. Esse único verso que acalenta todos os bebés que dormem profundamente. Escreveria para eles, mas eles ainda não sabem ler. Escreveria poemas, mas também eu não sei escrever. Não lhes sei escrever, não sei morrer imortal: também eu crescerei a precisar desse verso.

quarta-feira, outubro 09, 2013

Visita A Koroisten Piispankirkko Com Tranströmer E Carpelan

“The heart does not accord
with its bounds,
nor the poem with reality,
nor reality with God´s dream.”
Bo Carpelan

Ao ler  Gläntan de Tomas Tranströmer lembro-me de Koroisten Piispankirkko à beira
Aura, a erva também milagrosamente viçosa, uma cruz branca a anunciar que o agora
Nu, em ruínas, uma mandíbula desdentada, antes um templo, rodeado por mais uns amontoados
Pálidos de pedras, incrustadas no solo verdejante de uma Primavera explosiva,
Antes a capela do bispo, emuralhada por uma paliçada absorvida pelos anos, com torres para o rio,
Reduzidas à estranha sensação de nostalgia que as ruínas evocam, já não saltitam por lá galinhas
À espera da faca no pescoço, só crianças pequenas acompanhadas pelos jovens pais,
Casalinhos sentados nos bancos com as bicicletas à espera de outras distâncias que não
As do tempo, todos parecem ignorar a informação em finlandês e sueco, o resto adivinha-se,
Uma casa de deus, onde parece que também eu já estive, de alguma forma, além das vozes
Que ouço, da língua que reconheço e compreendo, parece-me ouvir outra que reconheço,
Mas não compreendo, a língua de Tranströmer ou melhor de Bo Carpelan, que conheci uma vez
Numa revista e melhor conheci a sobrinha-neta, que diz que pouco se relacionou com ele
E eu ainda conservo dele a necrologia de um recorte de jornal, o mesmo sinto quando a encontro
Por acaso, dentro de um livro, o mesmo que sinto ao pisar os alicerces da Piispankirkko,
Muito diferente do que sinto ao tentar traduzir um poema meu, numa noite de bebedeira nórdica
À sobrinha-neta do Bo Carpelan, que só pensava em tê-lo dentro, e continha-se pelo
Interesse da amiga e o seu fascínio pela minha roupa interior a secar na cozinha,
Onde estará o tal bispo a estas horas a secar a sua roupa interior, “só os arquivos é que envelhecem”,
Mas também só o corpo que arquiva tudo envelhece e ao contrário do suporte dos arquivos,
Morre ao mesmo tempo de quem o registou, só ficarão os fantasmas projectados em amontoados
De pedras, num alto, à beira de um rio antes sueco, sempre humano, tanto meu como
Tudo o que um dia levarei comigo, toda aquela água em direcção ao Báltico, em direcção
Ao esquecimento, ao desaparecimento de tudo, menos das pedras-alicerces.

“Não procures na erva muda, procura a erva muda.” Bo Carpelan

19.09.2013

Coimbra


João Bosco da Silva
O Principio De Incerteza Do Fim Certo

“Na minha vida, a única coisa certa é a confusão.”
Pedro Juan Gutiérrez

Podia ser um fim de tarde quente de Junho, perto do fim da inocência, na esplanada
Do café perto da escola, a beber uma Frize limão a falar do que não se conhecia, o desconhecido,
Que na altura se chamava de futuro e era visto como algo branco, uma página, à espera
Da nossa vontade, do nosso esforço, das nossas cores, hoje já se sabe, que o desconhecido
É algo escuro, dominado pela sombra, só a incerteza é comum, sem pinga de optimismo,
Falava-se dos livros que se iriam comprar, quando se vivesse na cidade, sem as limitações
Do que está à mão e toda a gente lê, a época de Nietzsche, Schopenhauer, Sartre e
O agradecidamente obrigado Ferreira para os apagões das primeiras insónias, podia ser um
Fim de tarde quente de Junho, mas não é, nem há esplanada, nem os velhos amigos, cada um
Cada vez mais outros que eles mesmos, os anos ainda trazem vida a alguns, vida e brinquedos
Espalhados pelos corredores, os que nunca se teve na infância, podia estar a beber uma Frize
Limão e esperar tranquilamente pelo tudo ir dar certo, mas não, bebo um gin tónico com
Pepino enquanto a noite arrefece o dia de Outono e espero, inquietamente, por um pouco
Mais de nada, que o desconhecido se revele num mais ir andando, são as palavras possíveis,
Vai-se andando, tudo na mesma, e a vida, vai, enquanto for menos mal, desde que as curvas
Da estrada se façam, desde que a dor vá passando e haja ao menos um dia ou outro para
Enfiar a cabeça num copo ou numa garrafa e lembrar alto o delicioso que era o pouco que se
Tinha nas mãos, quando as mão capazes de segurar em tudo, ilusão, as mãos mal aguentam
Mais uma noite, escorre pelos dedos e no fim, pouco mais fica que um bocejar amargo ao
Longo do dia, procura-se num livro a inocência que se deixou esquecida na cadeira daquele café,
Mas os livros, cada vez mais, são reflexos do desencanto, uma reclamação às promessas que
Nunca nos foram feitas, uma lista de tudo que nos foi quase dado, das lições que, essas sim,
Nos foram oferecidas à força do chicote e da humilhação, é para aprenderes, agora lê-se,
Não para encontrar, mas pela companhia, agora bebe-se com Bukowski, vai-se ao engate
Com o Miller, viaja-se com o Jack, mete-se com o Will, fuma-se com o Juan Pedro,
Consulta-se o Dr. Thompson sobre os malefícios do tédio, às vezes procura-se um pouco
De ar num poema nórdico, ou a familiaridade num romance finlandês, revisitam-se os museus
Que no café da terra faziam parte de sonhos, os quadros que só nos manuais de educação visual,
Até o professor morreu, mas que esperar, se o gelo do gin já derreteu e o copo transpira como
Se em privação de álcool, sei que o mestre continua a visitar o café diariamente nos dias de aulas,
Porque os mestres são constantes, atingiram um nível máximo de fidelidade, o devir é algo certo,
Constante, e já se sabe, que quando se abrir a caixa o gato poderá estar morto, portanto,
Seguem, com a certeza de um gato dentro da caixa fechada e nada mais, o resto é levar o dia à noite,
Porque a família em casa espera e tudo o mais é esquecimento, um aluno que um dia não
Esperou ser tanto, nem tão pouco, tão menos daquilo que os olhos lhe prometiam,
Do verde, resta o pepino no fundo do copo e daí nem isso, que também o mastigarei,
E amanhã de manhã, será mais um verso, sobre isto, o principio de incerteza do fim certo.

Coimbra

07-10-2013


João Bosco da Silva

Santa Apolónia, 12H35

Viveste toda a vida no hall de entrada,
Fizeste uma mala de ideias
E quem sabe também levas amor.
A casa é guarida de corpo
Mas é na rua que os putos
Se dão.
Por vezes passeias
E descobres que pintaram
Paredes de branco
E os azulejos de azul;
Outras vezes esqueces-te:
Os artistas adormeceram
E nem a natureza
Tornaram Imortal.
Já não existe um suporte perecível
E a tua obra navega no silêncio dos bits.
Às vezes espreitas e descobres
Um homem como tu - quase sempre
Uma mulher - Prometendo
Um corpo que vai morrer, e tu
Constróis uma casa no centro da cidade
De baixo de um telha, enquanto
Fumas um cigarro - Adeus
Que partes deixando para trás
O barulho dos carris e
Quantos poemas por escrever.
Em cada cidade uma cama
E a certeza de sermos vizinhos
Enquanto tiveres amigos&marijuana -
Ajeita a viagem na medida
Dos sonho, corre
Quando não chegas a tempo,.
E beija como quem 
Chega sempre tarde demais -
Pois de amanhã só sabe aqueles
Que já dormem.

terça-feira, setembro 24, 2013

búzios

tudo o que me resta é um coração bolorento,
um som que se esqueceu,
ou então foi a noite que se esqueceu do que eu me esqueci.

esqueci-me de como se escrevem poemas.
esqueci-me até do teu nome
ou então dei-o a uma lua qualquer.

a noite prolonga-se pelos corpos sem nome,
crescem-lhes búzios no cabelo e olhos de mongol.

ardemos num mar de esperas pois a única coisa de que não me esqueci
foi de como se acende um cigarro.

sábado, setembro 21, 2013

rivotril

decidi finalmente contar-te o que tenho dentro.
decidi não porque; talvez não importe o porquê.
o sol põe-se perto da nossa janela,
a brancura inunda o nosso quarto e então dir-te-ei o que tenho dentro.
uma caixa de fósforos porque perco sempre o isqueiro,
as cartas às quais nunca te respondi,
os teus cabelos que ficam na almofada de manhã,
a forma como desligas todos os aparelhos da casa quando fazes amor.
guardo as tuas florestas,
o teu amor por todos os animais menos por mim,
o teu medo do escuro.

mas eu tenho muitas algibeiras e talvez tenha sido sempre esse o problema.
guardei sempre o que era dos outros.
quando digo o que era dos outros não me refiro apenas à carteira,
às chaves que só abriam portas onde eu não tinha autorização para entrar.
guardei várias vidas.
cheguei mesmo a guardar pessoas.
de ti guardei o cheiro a livros da tua casa,
alguns postais que colavas de forma doentia nas paredes,
guardei os teus filmes,
gostava de ter conseguido guardar todos os filmes do mundo,
talvez assim percebesses o quanto te amava.

já vou a meio da rua quando me apercebo que tenho os bolsos rotos
e que já não sei terminar um poema.

domingo, setembro 08, 2013

Fio de Ariadne


Venho de um longo dia,
Quase tão noite que adormeço
E o sol já amanheceu -
Gostaria de te dizer:
Mas posso dar cor ao teu mundo.
Ao invés vi o holocausto,
Lúcifer.
Jamais seria capaz
De te alegrar:
Mas posso mostrar-te beleza.

Vem ver comigo Dario Argento
E ouvir Haus Arafna.
Prometo que seremos felizes
Como o Anúncio...
A minha televisão ligada
Enquanto fazemos Amor -

Posso parar
No Escuro corredor
E correr até à divisão
Mais iluminada. Esqueci-me
De trancar a porta. Posso correr,
Mas sei que um dia entrarás.

Janta em minhas casa hoje
Para que proves
E comas em loiça de prata:
As Jóias dos gaseados.

Podes correr,
Mas sabes que um dia entrarás
Pois a televisão não desliga,
E a minha sala
É o teu canal favorito

Em qualquer lado que vá
O teu vinho
Mais a imagem e as pratas do avô:
O teu corpo vermelho
Sob a luz da câmara Escura.
Tiro-te uma foto, é essa a
Imagem.
É essa a imagem: nós na televisão
A fazer Amor.

Durmo de televisão ligada
Porque tenho medo.

terça-feira, junho 18, 2013

falámos demasiado na surdez das palavras
e fomos ilhas abandonadas numa cidade onde não ecoava nenhum toque.
talvez um dia sejas capaz de entender outra forma de loucura
que não os teus olhos, a almofada onde repousas a cabeça,
a falta de coração do mar.
gostava de te ensinar a melancolia das palavras, o som de um regresso, o vazio dos aeroportos e o horror ao vazio dos diários em branco.
gostava de te ensinar tudo isto e no entanto serás sempre tu,
serão sempre as tuas mãos, 
os dividendos de um tempo onde nunca existi.

segunda-feira, junho 10, 2013

April was the best Month

Vi pendentes as flores de Abril
Não eram lírios, eram cravos.
Ouvi aquela música triste,
Uma longa canção
Que falava de amor e intervenção.
E cheio de nostalgia Abriste
As cartas que te levaram o coração.
Mas as palavras já falavam
Desta casa, deste quarto
Onde dormes acompanhado
Pela infância justa
Do primeiro beijo -
Nesses lábios que já beijavam
A miúda e a sua pequena Revolução.
Tinha 14 anos e uma mão cheia
De teorias: para acabar com a
Pobreza e Poluição -
Vivi, no entanto,
Toda a vida magra e suja,
Só para inventar o nome de um Poeta
E ser infeliz como ele -
E ser feliz como eu.
Agarro nesse grito
Para fazer campanha
A favor da Poesia -
Estico a bandeira e toda a gente vê:

Amo-te.

quinta-feira, maio 30, 2013

Quando Alice encontrou Júdite

Predizia catatrofes
Do outro lado da rua,
Enquanto chopin ecoava
Da janela de alice.

E alice usava os botões da aparelhagem,
O seu albúm favorito,
Com Judite no centro -
Dos tempos em que o amor
Não lhe levara a mão;
E os olhos de alice abriam
Absorviam o cenário
Numa longa banda-sonora
Para a história
Do Bairro da Musgueira.

Já não sei escrever,
Chorava Alice,
A meio de todas as cartas de amor.

Tantas palavras, tantas imagens,
E um homem para complementar
O Filme que passava na cinemateca.

Estavam os dois meios tristes.
Alice dera sua mão, já esposa
E tinha sido a mão direita, porque
Não era canhota; E ficou sem a mão,
Perdeu para sempre uma mão
Que um dia Judite poderia
Cozer ao seu coto

E talvez compor músicas
Músicas de amor.

quarta-feira, maio 01, 2013

esta falta de nudez


afinal não estou certo de nada
se não de que apenas tento 
em função da dispersão atómica
criar a vontade para designar o dia
tratar o corpo dividido 
em função da métrica semanal ou 
em função do incomensurável enredo
sentimental

observo
cinza na ponta dos dedos
escuto 
a cidade confusa as buzinas emitidas
o grito do louco
o silêncio do louco
e designo o dia como mais um milagre perdido
numa contagem das tragédias anuais

a luz que hoje cai sobre as enseadas
em função do bom tempo
na razão de uma prosperidade climática
que em pouco ou nada
altera a queda sentimental
o vento que sopra de dentro
manso 
para que manso sopre também o dia

oiço o homem raso a nomear o dia como perdido
observo a mulher a soçobrar de criança ao colo
o cego a levitar sobre a desformatada cidade
toco o sétimo dia em movimento e sinto a vertigem
de cair um pouco mais
neste poço onde me vi reflectido 
sempre que quis ser outro
e ser o mesmo um pouco mais

e afinal não estou certo de nada
se não de que apenas tento 
despir-me
para me vestir de novo
e alcançar o dia com a mitológica 
força da manhã
com a mansidão cantada pelos profetas
e a vestimenta branca de homem de bem

mas acontece que nada ocorre
nem um pouco mais de luz
nem o nome novo que oferece o dia
afinal talvez tudo se trate apenas de uma questão 
epidérmica
de falta de nudez
de uma carne exposta rasgada de dentro para fora 
onde possa chegar a luz.

Cubo de Rubik


Alice estava com sérios problemas. Umas vezes o vício era tal que ficava escondida dentro do quarto dias a fio a ouvir constantemente a mesma música no repeat. Quando saia de casa levava os headphones e o mundo transformava-se nesse espaço fechado que era o seu quarto. Se num destes passeios Alice encontrasse alguém conhecido ela falava sobre os dias, sobre o tempo, sobre o fulano X que encontrou na semana passada e despedia-se teimando no futuro. Teimando no sabor do café. Teimando em bares e tardes solarengas. Porém, todas essas palavras eram o eco do seu quarto fechado. O mesmo eco do pensamento a cantarolar a música; o eco de toda a gente que falava do lado de lá do seu espaço, do seu corpo – pois dentro de si existia um quarto. Na maioria das vezes povoado de rostos que nunca dormiram na sua cama.  

Os seus olhos remelosos observavam o dia. O sol já ia alto, nascendo no centro dos seus pés brancos, olhando um homem que lhe lambia os dedos – cuja chuva interrompia todas as noites até à morte da luz. Até ao dia em que da noite o tempo fosse mais do que um estado de espírito; e o homem choraria fazendo dos seus sapatos uma arca de Noé.

 Existiam avisos de que o mundo estaria para acabar. Em todo o lado toda a gente dava graças por ter sido infeliz uma vida inteira; Ninguém no seu perfeito juízo confiaria na Salvação da Melancolia. Nem todos estavam preparados para viverem sós – Só Alice estava determinada em solucionar o seu pequeno cubo de Rubik, num estado de ânimo completamente hermafrodita. Deixando o hemisfério direito do cérebro masturbar o hemisfério esquerdo e vice-versa. Sempre seria auto-suficiente de cada vez que abrissem a porta para fazer parte de um quebra-cabeças chamado amor. 

O mundo encheu-se de fluídos corporais que acabariam por matar uma raça inteira. Pois a boca do amante continha reservas de tristeza, longas lágrimas que salgavam as melhores iguarias do mundo. Envenenando os gulosos de uma súbita apatia para com os filhos da próxima geração. Nasceriam mortos todos os primogénitos de todos os continentes do mundo. Restando animais sem irmãos, até à extinção total da infância – todos eles entretidos com a leitura das leis que regem os jogos solitários. 

Foi nesse instante que o cubo de Rubik ganhou o estatuto de pedra preciosa e os chineses enriqueceram por deterem a sua produção maciça. Alice nunca chegou a encontrar a solução e quando morreu deixou em testamento, ao neto mais novo, um cubo que passaria de geração em geração. Já os sapatos foram doados a uma instituição de utilidade pública que mais tarde se tornaria numa fundação com o seu nome.

Alice morreu com os pés secos e com o seu amante guardado numa chávena de café que jamais ninguém provaria. 

domingo, abril 14, 2013

Jack Encontra-se Perdido Em Lado Nenhum


Sempre tiveste medo do amor como do ridículo, o nu público do coração e preferias o elástico partido à tensão incerta
E agora perdeste as palavras todas Jack, engoliste todos os desejos que te impunhas, só para
Cheirares tão mal como o mundo te cheira, nesse nariz demasiado santo e puramente niilista, tudo merda e mijo,
Agora não sabes onde escondeste a pele de lobo, na companhia das moscas, nem se ainda és capaz de beber o sangue
Doente dos vazio que enchias com a tua incerteza e inseguranca, como se os dentes fossem
Uma âncora no barco à deriva que tu sempre foste, agora esperas que a maré suba
E que a água verde te encha desde o convés até ao limite do que aguentas, suportas, sem segredos,
Porque não tens um jovem numa jaula a procurar palavras por ti, nem ninguém para sujares, usaste-as todas,
Como os momentos que espremeste até deixarem de ser recordacões, mas saudades das
Noites libertinas, com o ar carregado de um suor de terra e mil orações antes do assassínio
De mais um dia, esqueceste-te de que o mundo te comerá se continuares a passar fome, os dentes gastam-se no vazio,
Se insitires em beber das miragens que só tu vês, rias-te dos felizes que enchiam a boca de areia,
De esperma seco dos outros nas fontes que julgavam puras, muitas vezes o teu próprio esperma
E rias-te, agora Jack, mais valia engolir-lhes a desilusão que te oferecem com a loucura com que sempre
Te dedicaste a rasgar a vida e as vidas, mas a verdade mata-se com palavras e tu acabaste com elas.

14.04.2013

Turku

João Bosco da Silva

sábado, abril 13, 2013

A Estação Húmida


Sorri-lhe, a parecer
Que o mundo se incendiava,
Dentro de uma boca
Capaz de apagar todos os fogos.
Ainda que os cigarros
Remediassem
A temperatura do pensamento:
Pois só o fogo combate o fogo.

O brilho dos dentes
Denunciava a Primavera,
Pois na minha língua
Já crescem os espinhos
Das rosas que a tua
Saliva plantou.

quarta-feira, abril 03, 2013

Anjos em Pixel

Contei as estrelas do céu
E nelas viviam mais animais
Do que em terra.
Espreitei claramente
Pois onde quer que estejas
Olharemos para o mesmo céu,
E conjuntos de corpos
Virão em teu auxílio,
Mesmo quando todos os anjos
Se ocuparem dos afortunados:
Porque todas essas mãos
Serão as palavras
Que um satélite transmitirá.
Liga a televisão
E vê a quantidade de vezes
Que a palavra amor é dita:
Sou eu que te a digo,
Mesmo quando a guerra estala
E os homens morrem.

domingo, março 24, 2013

bolsos de terra, alfarrobas nas mãos



Em memória de Lucinda  e Joaquim Costa

um dia os meus pés foram oliveiras, laranjas podres, chão daquela terra que sabe os meus passos de cor.
monte acima, a cavalo, cortando pelas figueiras era ainda uma miúda com o peito cheio de visões.
e lá ia eu, comendo todos os figos do meu bisavô que a contragosto me ficava agradecido.
diabético desde que me lembro, Joaquim não hesitava em devorar bolos, frutos às escondidas,
qualquer coisa que lhe adoçasse a alma.
tudo o que lhe adoçava a alma arreliava a da pobre Lucinda.
Joaquim tinha nos bolsos todo um alfarrobal,
gostava do campo e de planícies perdidas,
terras sem nome, por toda a gente esquecidas.
viviam no nº 13, numa casa que caiaram com as próprias mãos.
parece que ainda oiço a voz de Joaquim ao longe,
alojada nos cantos da memória como o pó nos móveis.
má mulher!
gritava quando Lucinda lhe fazia a conta aos doces que comia,
então refugiava-se no seu mercedes, abria a bagageira e tirava umas alfarrobas para trincar.
não era pudim de alfarroba, porque com esse só podia sonhar porque a sua mulher era o diabo e como tal era melhor nem sonhar com belos pudins, não fosse o diabo tece-las.
ficava então pela terra, que lhe pintava o mercedes,
a bóína que lhe cobria os pensamentos,
a sua ribeira que lhe escorria aos pés.
quando íamos para o campo levava sempre as ceroulas,
a marmita preparada pela Lucinda,
a solidão,
a vida presa numa corda,
as botas para pisar as ervas mortas.
a boa Lucinda era contadora de histórias fantásticas,
como a dos bois que caíram ao pego do inferno e nunca mais foram encontrados.
tinha alma de escritora mesmo sendo analfabeta,
penso que até podia ter sido poeta.
e lá ia eu com o Joaquim e a Lucinda, sem esquecer a Blandina pela estrada fora.
Joaquim ao volante, com a carta renovada por simpatia,
pois já tinha quase 90 anos e mal via.
Pobre Joaquim, pobre Lucinda apanhadores de alfarroba,
amantes da quentura das planícies,
que guardavam os sonhos na mala de cartão que Joaquim tinha comprado por meia dúzia de tostões para ir para angola.
um figo aberto em quatro, junto à árvore, o cavalo metido para o meio do mato,
e eu de joelhos esfolados, cheia de picos nos casacos devorava os figos que tinha nos bolsos,
como quem devora bolos, sentada na pedra onde Joaquim esculpiu um banco para se sentar nas horas de maior calor,
onde escreveu as suas iniciais JC e estou certa que as de Lucinda noutra árvore qualquer.
lá vinha ele e dizia
filha, vai-te ficar a doer a barriga
e era sempre tão verdade.
quando o sol se punha numa linha tangente à terra,
vinha uma menina a cavalo, com um carrapito de cabelo com o cheiro enjoativo dos frutos que apodrecem nas árvores, como as pessoas pela vida.
parte de mim ficava ali,
naquele lugar,
de onde sempre parti para voltar.

domingo, março 10, 2013

as mãos quebraram
ao segurar o teu céu

ouvi muitas vezes a tua voz
as tuas mãos, o teu corpo roçando a brancura dos lençóis
a casa com paredes de cal
os pequenos fogos do olhar e a tua cadeira verde

corri todas as ruas da cidade
mas o amor sempre foi demais e a vida de menos.
fizemos da nossa casa aquele número 13
e eu lia-te poemas
tu ias buscar o pão na bicicleta que era do teu avô.
não sabíamos muitas coisas
também muito pouco precisávamos de saber.
só comprávamos livros quando havia feiras de antiguidades,
eu experimentava óculos que tu dizias que me faziam parecer a ginger rogers.
tu gostavas de máquinas antigas, especialmente das que não funcionavam
e por vezes queria discutir contigo porque não entendia a utilidade de uma máquina estragada
e tu dizias "imagina quantas pessoas, quantos rostos estão guardados aqui. pensa que podemos guardá-los para sempre e que nenhum de nós estará só quando o outro não estiver"
de alguma forma conseguias convencer-me e eu levava meia dúzia de livros de cordel e tu uma máquina.
a verdade é que não nos conhecíamos muito bem,
nem sabíamos jogar às cartas.

domingo, fevereiro 03, 2013

despertam os corpos incandescentes enquanto a cidade dorme.
chamo-te como se tivesses forma de palavra,
e como não tens dou-ta.
os autocarros levam rostos cansados onde não pode mais amanhecer,
e ecoam sons e ruídos que não pernoitam nas casas em ruínas, mas sim nas sujidades da memória.
oiço-te enquanto percorro volátil e fria os passos de quem não me conhece,
e sonho-te, envolto nas luzes tristes das ruas que percorri apenas para te encontrar quando foste tu quem me perdeu.
as árvores abraçam-se como nós já não podemos fazer pois é sempre tarde e também nós já não conseguimos amanhecer.
a luz extingue-se no tremeluzir que te sustenta o coração.
e com estas mãos partidas enrolei-te todos os cigarros de todas as noites
e quando pediste para te dar a mão,, apenas consegui dizer
levou-mas a noite que habita na tua sombra.

sábado, janeiro 19, 2013

deixas-me ser todo o teu corpo quando a noite sobrevoa a cidade.
sou finalmente o teu rasgador de silêncios
e tu a madrugada.
voltei aos quartos a meia luz
nos que desenho janelas de papel
são as letras que lhes dão forma e as palavras que as escondem.

vivo nas zonas neutras pois já não conheço o caminho
falei-te de amor, entendi que falavamos línguas diferentes
eu falava em ausências e tu em presenças
em cidades fantasmagoricas
que se erguiam nos teus dedos.
e quando a noite se alastra pelos prédios que desconheço
encontro a razão da minha existência
apenas existo quando observo as vidas de outros através de janelas.


Tínhamos sempre um encontro marcado, mesmo quando não tínhamos encontro marcado. Não tínhamos horas, porque tínhamos todas as horas da noite. Chovia tanto naquele dia, chovia tanto naqueles dias. Chovia como chovia dentro de mim. A tua mão na minha mão, são dois cafés para dois corações encharcados por favor. Eu não sei bem o que via nas conversas que puxávamos do bolso como quem puxa os atacadores para apertar os sapatos. A tua alma era tão simples e no entanto tão bela. Não existia uma intelectualidade pretensiosa ou sequer uma forma de intelectualidade que pudesse ser considerada intelectualidade. Não sei bem onde ficaram os planos que escrevi nas mãos, nas linhas do meu corpo que nunca despiste, aquela viagem a Lausanne que faríamos no verão. Eu só estou bem onde não estou, a fazer o que não faço, a sentir o que não sinto com pessoas que não conheço. Tens que ser melhor para estarmos ao mesmo nível, para podermos subir juntos. Que estúpida, que ingrata e pretensiosa que eu sou ou que eu fui. Que ideia fútil, que ideia de "romancezeco" de esquina, de faculdade. A simplicidade estava nas coisas que nos passavam pelas mãos. Na colher de café que punhas dentro da minha chávena, dos sinais vermelhos em que me beijavas, de saber que em casa éramos provavelmente cinco, mas que na mesa éramos só dois. Eu e tu, sem contar com a televisão. A felicidade estava nas coisas que eu não via porque enquanto eu olhava para os prédios, em como estes tocavam o céu e em como o mar era tão triste tu olhavas para mim, punhas a mão na minha perna depois de pores a mudança. Tantos beijos coloridos a vermelho naqueles sinais de Santa Apolónia, tantas reconciliações numa praia à noite, tantas coisas que fui guardando num bolso roto em vez de as guardar no coração. Eu tinha este hábito que tu odiavas. Punha os pés no tablier e acendia um cigarro sem abrir a janela quando chegávamos à praia. Tantas noites em que te contei a minha teoria de que o mar eram todas as lágrimas dos marinheiros, das almas que foram esquecidas e acabaram na corrente. Fui eu que desbotei as cores que nos deram vida, fui eu que quis mais do que aquilo que já era meu. Ontem à noite lembrei-me de como os meus cabelos esvoaçavam na janela, naqueles passeios nocturnos de jipe pela marginal. Da voz estragada do rádio e de tu baixares o volume com aquele não preciso de rádio quando te posso ouvir a ti. Dizem que a saudade é aquilo que fica daquilo que não ficou, eu cá acho que saudade tem a forma de quem passa pelas nossas vidas. Hoje acho que ela tem o teu nome e que nem todas as minhas lágrimas poderiam absolver os meus erros. Tantas cartas no coração, construí tantas catedrais no peito, tantas viagens que nunca fizemos porque eu queria assas para voar e quando mas deram eu achava que os meus braços bastavam e depois, como Ícaro, caí e o meu coração morreu num mar cheio de noite.
e eu que nada sei, a teu lado continuo sem nada saber,
mas basta a tua mão, a tua presença, o teu corpo num espaço
onde o meu corpo possa ser o teu corpo
para que eu passe de ser nada a ser tudo.
eu nunca quis ser tudo nem quero ser tudo
aquilo que eu quero é ser, esta vertigem de sorrisos enevoados
cigarros a meia luz, corações mornos numa cama num canto de uma sala,
palavras que se perdem em ecos nos teus olhos.
eu não quero ser tudo, já nem ambiciono ser feliz
o tempo desgastou-me, a felicidade era o meu apendice e ainda hoje tenho a cicatriz.
já não ambiciono ser feliz, não te quero chamar meu amor, não quero usar palavras
as palavras são tão feias quando te tento por por palavras.
nem todas as palavras mais bonitas podiam ser-te.
eu não sei o que é amar ou o que é sentir,
talvez até saiba sentir, assim à deriva, como uma bússola sem norte.
não quero mais floreados nisto, não te gosto de falar com floreados
apenas gostava de conseguir dizer-te
sem duvidar de mim, sem me questionar, sem racionalizar isto
de que gosto de ti de qualquer forma, de que gosto de ti e dos teus defeitos
e que não os acho perfeitos, mas que gosto deles ainda assim.
no outro dia cortei os dedos,
tesouras, facas,
uma lâmina apontada ao peito.
e hoje estamos no mesmo lugar
eu conto até três e tu apontas-me a lâmina,
cortas-me a alma em três e depois repousas no pedaço que te pertence.
quando acordei havia muito sangue,
quando acordei o céu entrava pela terra dentro,
penetrava-a como os amantes se penetram em pensões onde deixam as suas traições.
éramos dois no bar, naquela noite e eu não disse nada.
penso muito, mas nunca digo nada.
eu usava um daqueles vestidos de seda, que fui roubar a um café de Paris
pela altura da belle époque,
e tu,
tu não me lembro o que usavas, senão o coração na lapela do casaco.
ficámos a noite toda despidos de vida,
pedimos desejos aos lábios, aos sorrisos enevoados, às mãos que nunca se tocam
e afundam na carne.
nas estrelas que se acendem no céu.
peguei fogo à cama, contigo lá dentro e saí do quarto,
passei batom vermelho nos lábios e matei as palavras com os pés.
quando cheguei a casa, queimei todas as cartas que ele me deixou,
acendi um cigarro e deitei o fósforo ao chão de madeira.
chove tanto lá fora,
tanto ou mais que dentro de nós.
tu chegas-te perto e eu afasto-te longe.
e os nossos corpos são estas danças contra o vento,
esta dor que não cessa e que permanece em ti como castelos na areia.
ouve, eu não quero ouvir o que tens para dizer foda-se não consigo viver neste sofrer,
este permanecer efémero e tu o teu corpo, como coisas que vomito quando já não consigo encarar mais o teu rosto, escrito nas palmas das minhas mãos.
abraça-me sem me prenderes no abraço, de todas as coisas que nunca serão
eu já te disse que sou passageira e que não piloto este avião que se despenha,
arde,
morre.
vou contar-te novamente a história de todas as histórias de amor,
mas não me fodas, não fodas isto com as tuas paixões platónicas de merda.
eu gosto de ti, como quem gosta de fósforos a arder.
não é suposto durar mais que isso.

ashes

sê feliz, eu quero que sejas feliz.
fecho os olhos e afundo-me no sofá, acendo um cigarro e começo a escrevinhar no ar.
pediste-me muitas vezes que te escrevesse, como se eu soubesse usar as palavras
acho que as uso tão bem como quem usa pés descalços em dias de chuva.
gostava de te poder escrever para que ao fazê-lo pudesse encontrar-te exactamente onde te perdi,
nas entre linhas do meu corpo.
todas as palavras são inúteis, todas as palavras são inúteis quando o amor não chega.
o amor nunca chega e quando achamos que chega é um engano.
e vamos assim, enganando o tempo e nós mesmos e esse engano pressagia o fim que acabará por morrer no horizonte dos dias, no sol que se põe em nós.
já não consigo encostar mais a cabeça aos vícios,
fingir que com eles não existes, não vives, não respiras.
vamos enganando tudo, mas nunca se engana a vida.
acho que é exactamente por isso que surge o amor,
quando duas pessoas pensam que podem enganar a vida
e ser mais que a quietude da solidão.

as promessas são tão vãs e o amor tão breve,
a vida tão efémera e tudo aquilo que somos tão pouco.
um dia prometi-te algo melhor, um dia prometi-te algo melhor do que partires para voltar,
um dia prometi-te que seria melhor para ti do que para os outros.
tudo aquilo que eu tenho são as letras do teu nome e com elas,
com elas consigo escrever todos os sons do mundo.
eu queria melhor para ti, melhor do que esta existência abandonada e confinada a uma casa de sombras.
eu queria melhor para ti do que beijos desbotados, manhãs que nunca chegam e dias de chuva.
eu queria tudo aquilo que sei que não te posso dar.
no fundo não há nada que não tenhas pois tens em ti todas as noites, todo o sol e os silêncios que me consomem.
eu não queria que a nossa existência fosse uma curta a preto e branco,
ou um daqueles filmes noir que vemos na cinemateca na primeira fila.
desculpa, eu queria melhor para ti para ti que tudo de melhor que tens me dás a mim.
nunca quis que a nossa vida fosse num lugar onde o nada perpétua a nossa existência,
nunca quis que deambulássemos na noite, fumando cigarros para contrariar a melancolia,
vendo concertos, onde apenas damos as mãos quando se apagam as luzes ou me dás beijos com língua quando não estou à espera.
nunca quis que fosses trabalhar para termos aquele apartamento miserável e para eu poder estudar cinema.
desculpa-me pois não te mereço embora pense em ti quase tanto como na morte.
e enquanto olho pela janela de um futuro que não nos pertenceu,
imagino-nos deambulando pelo Tibidabo e choro um pouco por saber que podíamos ser infelizes,
mas que o meu melhor tinha sido suficiente.
atravessámos os canaviais
contámos estrelas de papel
e soubeste-me no fundo dos lagos
que te escorrem pelas mãos.
inventámos uma casa com forma de futuro, sem sabermos como ele seria.
ouvi-te muitas noites nas paredes,
nessa mesma casa onde vi sapos, seres do oculto, pessoas com forma de pássaro.

regresso a esta casa, já cansado e sem nada.
quis amar-me, amar-me um pouco mais, mas pelo caminho amei-te e não sobrou amor para mim.
o meu coração era demasiado turvo, demasiado só.
um dia quando a chuva no teu olhar cessar talvez nos possamos encontrar
no fundo do lago.
de tanto nos quereres amar, pouco amor sobrou para nós dois.
forrei-te os bolsos com poemas, as gavetas com as partes limpas da minha alma,
mas pouco adiantou.
adormecemos sob o céu de uma noite que não nos amava.

as cartas extraviadas, as fotografias que se queimaram, as geografias entre nós
o tempo,
o mundo entre nós.

terça-feira, janeiro 08, 2013

o quarto

neste quarto vazio
a hora é de repensar o mundo e desclassificar os homens
do tempo que se estende
o relógio é preciso desclassificar
como é obrigatório desclassificar os poetas 
o quotidiano
as porteiras
e os homens que se julgam maiores
sobretudo esses os que mais classificam 
heróis da ejaculação precoce 
é preciso desclassificar o amanhã para deixar respirar
o século
tirar-lhe o nome como um soldado que tira uma 
vida 
para que lhe pese menos a pátria 
assim pesarão menos os anos e os 
deveres
que sendo muitos pouco pesam 
é preciso também desclassificar-me
perder-me o nome 
como é preciso perder o que não penso
ou o que não tenho de
sabedoria
desclassificar-me e dar comigo só 
é que há tanto espaço na minha cabeça
para que tudo aconteça

sexta-feira, janeiro 04, 2013

agora é demasiado difícil criar linhas perfeitas,
esquadrinhar o mapa e envolver todos os sítios onde um dia vivi.
pedi-te, meu amor vamos fumar a ver o rio,
e tu olhavas-me com olhos doces de cachorro moribundo.

perdi a conta ao tempo e como nunca sabia para onde ir tornei-me bússola,
mas como é que alguém pode ser bússola sem norte?
e a noite adormecia nos meus bolsos,
era tão fácil que se tornava díficil dizer o quanto te amava,
pois jurava que se te tocasse o interior que te iria fragmentar.

há um grande cansaço na minha alma,
os portos estão vazios, os marinheiros demasiado bebedos para amar.
e a vida já me deixou de fazer sentido à tanto tempo amor,
o meu coração está mais seco que os teus desertos onde desnorteias constelações com o olhar.
eu vivo neste compasso de espera, entre ti e o mar,
entre ti e as milhas que separam os continentes,
mas se silenciares os lábios, conseguirás ouvir os pequenos fogos falarem
e sem dares por isso, esses incendiarão esta casa em ruínas que é o nosso amor.

quinta-feira, janeiro 03, 2013

já não te sei perscrutar nas ausências de que é feita a minha vida
e se me ocorre um pensamento que não tem o teu nome, mas que é sobre ti, para ti
nunca tenho papel.

perdi todos os pensamentos que te devo.
chamavas-me noctívago, mas a verdade é que não sabias nada da minha vida.
ou da tua.
corri demasiado rápido, todas as noites pela cidade para chegar a ti.
dei tudo o que me restava, quando nunca tive nada para dar.
hoje caminho meio morto, a solidão ocupou o teu lugar,
deixaste-me metade homem, metade algo que ainda não sei pronunciar
e eu queria opor-me a esta ausência, iluminar os teus olhos vazios com os clarões da noite.
queria sentar-me na secretária e tocar-te a curva que mais adoro em ti: a das tuas costas.
jurei um dia poder habitar nelas, mas acabei por viver naquele andar e vender mortalhas de papel.

deixei de te acender cigarros, pois com o tempo começaste a dizer "não sou as tuas putas",
e eu calava-me.
nunca te disse, mas quando havia silencio em nossa casa entravam peixes do teu tamanho pela janela e eu conversava com eles sobre as tuas saias e o quanto gostava de te ver as pernas.

hoje viro-me para o lado e o teu corpo foge-me da cama
ou talvez, já nem esteja lá.
deixo-me inundar pelas luzes da cidade e peço aos céus para me transformarem as mãos em papel
para que nunca me falte papel para te escrever,
pois a dívida já é grande e no meu coração já não há espaço para todas das datas dos pensamentos que te devo.