domingo, dezembro 16, 2012

e há uma noite
e um corpo sofrido que se prolonga
quando somos demasiado sós
e nos esquecemos de como se abrigam as estrelas.

domingo, dezembro 02, 2012


vou escrever-te a carta
onde terminam e começam todas as linhas.

a madrugada ainda dorme numa das gavetas que forrei a papel manteiga
onde guardei o revolver para anunciar a minha morte
tu voltas-te na cama e eu observo a luz que ilumina a metade da tua face de lua
oscilas no tempo, vertes pelas paredes, pela cama
recordo brevemente a viagem que fizemos a braga
todos os comboios que apanhámos para fugir à vida
os sorrisos em rolos nunca revelados e talvez melhor assim
o meu coração ficou demasiado parte de ti e por isso quis morrer
quis morrer tantas vezes que finalmente entendi que jamais tive talento para a vida
ou para a morte
ou para o amor

continuo preso à secretária
enrolo cigarros nervosamente, gostava que pudesses ver o quão melhor estou
o quão as minhas mãos não são inúteis
e hoje sei-te percorrendo as ruas da cidade e então pernoito junto ao telefone
e anseio o tempo todo para que bebas demais e me ligues
para que me ligues e na clareza da embriaguez me digas que sou a noite inteira
me digas que sou a vida inteira e não as metades com quem dormes quando chegas de viagem

o peso da penumbra etérea cobre-te o corpo
sonhas barcos, ondas, recantos de coral
e enquanto sonhas, os teus sonhos projectam-se na parede e percorrem-me os braços
o rosto, as mãos, o vazio do que não ficou
e quando fui para o café do adelino ninguém procurou por mim
nem mesmo tu
eu por ti atravessei a cidade inteira apenas para te ver, trocar uns beijos que ficam em terra
e ver-te desaparecer pelo meio do aeroporto
tu nunca fizeste o mesmo por mim
nunca o farias
e eu sabia-o
talvez também o soubesses mas nunca mo disseste
talvez não o soubesse, talvez fosse simplesmente mais fácil assim.

Recorto-te nos muros de ausência
Que moldam esta suposta casa
Cujas paredes não aguentam o peso do silêncio da tua partida
Queria conseguir ser poeta
Que me repousassem nas mãos todas as estrelas da galáxia
Queria ter as tuas mãos, olhos tristes
A respiração da cidade é moribunda deste lado
Mas em mais lugar algum
Toma a caixa de fósforos, deixaste-a na mesa de cabeceira
Conseguisse eu ser toda a vida que te falta, como um fósforo para te iluminar a noite eterna.