terça-feira, novembro 27, 2012


sobre o mundo não há muito a dizer
eu caminho nele, sem saber bem como ou para onde.
recorto montanhas, praias distantes, mares de um azul celeste, as estradas mais solitárias do mundo.
e no entanto, permaneço no lugar onde um dia me deixei,
onde não há força ou vontade de seguir o rumo das aves migratórias,
onde sonho à luz de um pirilampo num frasco.
a luz vai-se, desintegra-se, expande-se, reflecte-se e irreflecte-se
as palavras caíem na mudez da garganta.
os falhanços sempre falaram por mim.

domingo, novembro 25, 2012


o cubo,

o primeiro cubo por onde vês toda a tua vida.

paras. rodas o cubo para veres os beijos que nunca deste, um passado que pertenceu a um pedaço de ti, um futuro que não é teu mas sim dos que desenharam o teu presente.

hoje sentas-te, hoje o teu olhar metamorfoseia-se em pequenos cubos, que depois são árvores que dão para o mar que se enche com a chuva que te consome os dias, que te apaga os cigarros.

agora és, depois já não és. não há um tu, mas sim uma sucessão de eus perdidos num espaço que é o tempo, uma quarta dimensão.

à tua frente despe-se uma mulher que deve ter a tua idade, mas um rosto cansado de quem carrega desgostos nos dedos, sombras na alma.

cortaste à faca o que te foi dado, para sempre renegado, algo que não pertence e no entanto se encontra no meio.

hoje esqueces-te e relembras-te do que querias ter sido quando os teus olhos são pequenos cubos que se estendem até serem o mar que termina onde um dia perdeste o olhar.

sábado, novembro 24, 2012

apanhei todos os voos,
percorri todas as cidades da noite pois só ai conseguiria esconder-me
de todas as vidas que digo viver, mas que se resumem a poemas
que queimo quando acendo cigarros.

hoje escolho outra noite,
já não tenho aviões sem ser os de papel.
as pensões já não me aceitam o dinheiro
e tu já não estás.

todas as fotografias coloquei-as à chuva,
pois nunca consegui dar-te as estrelas,
ou a luz dos dias,
mas hoje dou-te o choro miúdo do sol.

domingo, novembro 18, 2012

Epifania Na Aurora Do Fim ou Este Amor Que Me Minto



Este amor que me minto, como se fosse a última oportunidade de redimir todos os fracassos,
Neste que se prepara para me esmagar como todas as ilusões anteriores, como aquela
Mensagem, depois do poema de Caeiro, à minha namorada, perguntava ele, a nossa Sofia dizia ela
Imaginando nos meus sonhos uma casa rural, onde todos os livros que lemos e queríamos ler,
E nós velhos e sábios, com todas as respostas às questões que nasceram sobre as mesas daqueles
Cafés da invicta, a cor do seu cabelo a mesma que esta mentira, que rasgo na pele,
Como se isso a tornasse verdadeiramente sentida, como se podem vestir com os mesmos sonhos,
Se esses sonhos apodrecidos, perdidos, esquecidos nos olhos semicerrados ao parecer que a felicidade,
Mas só a luz da ilusão, ao acordar de um sono demasiado longo, onde a carne em excesso
Fez esquecer o valor das ideias, mas as ideias mentiras, como este amor uma ideia,
Que escrevo em diferentes papéis e assino com diferentes nomes, só a cor do cabelo a mesma,
Entretanto foram lidos outros livros, e a dor que ficou a latejar nos lábios, deixou de se sentir
Por debaixo de outros beijos, todos diferentes, mas as mamas também as mesmas, que a minha
Negligência perdeu, depois de ter vencido a precocidade de um casamento, nas minhas patas
De cão danado, demasiado pequenas para todo o desejo rosado, contra o seu carro velho, à beira
De uma seara de trigo, eu todo tesão e a cegueira de um cérebro afogado em serotonina,
Usando aquele nome que era rodeado por um coração estilizado nas capas dos cadernos
Do sexto ano, como uma masturbação assistida, és o meu segundo, só o meu marido,
E eu com a emoção de uma erecção ao acordar e ela a acreditar que eu mais que esperma
A escorrer dela manchando os bancos de trás, as mesmas mamas contra o meu peito na
Canícula de Agosto, e eu entre as cuequinhas vermelhas dela, que se abrem à frente
E ela impossivelmente húmida naquele calor seco de brisas amarelas, estou tão molhada,
Não acreditando nela própria nem nos meus dedos cheios dela na sua boca, anda já,
E surpreendo-me sempre que me empurram para dentro do seu cu e me esmagam com a vontade
E amo essa mentira, quando me exigem esperma, quero que te venhas na minha boca, ou
Nem me permitem outra opção e drenam-me, demasiados nomes para caberem numa só palavra,
Este amor por retalhos que encontro todos numa única mentira, onde dou os nós que dei
A todos os fracassos, cujos nomes procuro na carne anónima de mais uma noite demasiado fria,
Gostas de me sentir molhada, já nem sei de quem a voz, ecos, procuro encontrar aquela mulher feita
De palavras e que faz nascer poetas e depravados, que vão dar ao mesmo, procuro dar-lhe
Carne
E minto-me nessa carne, dou-lhe o nome que só dentro lhe grito e ignoro a verdadeira cor
Dos seus olhos até me aliviar do desespero de nunca encontrar nada mais do que mentiras
Que me minto, que me faço acreditar como verdades, e provavelmente esta lucidez é
Consequência do sono de anos, do cansaço que não permite asas à imaginação,
São epifanias assim que nos protegem das cordas de estender a roupa e nos trazem o sangue
À carne, à carne que sacode todos os sentimentos, tudo que não lhe saiba a metal, ou sal, ou
Algo verdadeiro e frio, são epifanias assim que nos matam velhos, secos e amargos,
Um dia acordarei e não conseguirei encontrar-lhe o nome e então direi apenas, amor.

16.11.2012

Turku

João Bosco da Silva