terça-feira, outubro 02, 2012


El Cuento Del Uno al Diez*


O Takifugu, na sua original denominação japonesa, trata-se de uma variante da espécie “Pez Globo”. Este ser trata-se de um peixe muito apreciado na gastronomia japonesa, tanto pelas suas qualidades degustativas como também pela experiência emocional que pode proporcionar. Digamos, é potencialmente fatal se não for devidamente preparado. É a euforia, a experiência, os limites e limitações corporais que fazem do cozinheiro um narrador, do gastrónomo o leitor e da experiência toda a vertiginosa tensão que um conto pode conter. O conto sustém a emoção daquele que o degusta, assim como a sua euforia perante a morte, perante o fim, de encontrar um sobrevivente disposto a recontar a história que o integra. O conto, na verdade, é a experiência cuja materialidade residual se extende essencialmente ao papel com as suas palavras. O conto também come o Takifugu, embalando um último suspiro, num último trago de vida, concentrado em pontos dilacerantes. O conto é como um corpo que vive angustiado com o medo de morrer ao longo das suas linhas e no final sobrevive: o conto vive com uma fisionomia, tal como o rosto de um homem, com as suas multiplicidades de fisionomias infinitamente possíveis.

*Andrés Neuman

A Relatividade Das Sombras Enquanto Versos Ardem



Sentes-te só e por isso abres um livro e descascas um poema, mas devias saber que o poema
É feito da luz de estrelas mortas, sempre demasiado tarde o alertar da sua presença,
Sempre ausente quando se apressa o coração a encontrar os dedos que tentaram acompanhar
O silêncio das noites dos dias da vida, se te sentes só, fecha o livro, não procures a companhia
Da solidão, não anseies por palavras que deixaram de vibrar e só esperam que os teus olhos
Famintos lhe tragam um pouco de vida, todas as palavras são também tuas, cada uma encaixa
Perfeitamente e parecem abrir-te um alívio em forma de janela, das que tens dentro e não
Sabias que podiam ser abertas, mas não trazem nada de novo, se trouxessem algo de novo
Não compreenderias e dirias, não faz nenhum sentido isto, porque não tinhas em ti o substrato,
Sente-te só, não entre em mais nenhum verso, acabarás por encontrar um espelho onde
Verás a tua solidão de outro lado e aí terás a ilusão de não estares só, um erro, pois é impossível
Encontrar companhia na solidão dos outros é mais real o latir de um cão numa noite
Quase silenciosa, é mais real o chamamento de uma prostituta na rua mais em baixo quando
Passas com a tua solidão, mais real a janela do café ao lado partir e passos apressados
Pela rua abaixo, mais real o toque do telefone da casa ao lado, o passo dos vizinhos,
O olhar que procura um olhar do outro lado do bar, quase deserto, mais real que toda a luz
Que possas encontrar nos versos, onde te encontras só, nu, como se alguém tivesse definido
A tua própria solidão antes de teres nascido, um desconhecido que julgas conhecer nas sombras.

01.10.2012

Turku

João Bosco da Silva