quarta-feira, agosto 15, 2012

Vago


Embrulho tudo numa mala, até mesmo as coisas desnecessárias: levo um postal que me deste em Ibiza. Talvez me sirva de recordação. Arranco uma parede de posters, fico com pena daquele bocado de papel que tiraste de uma revista, era para lá que queríamos ir viver. “San Cristobal de las Casas”. Parece-me ainda mais longínquo agora… Sento-me no chão e fumo um último charro para celebrar: afinal de contas, estou a caminho de um lugar que me ajude a livrar-me dos vícios e adições. Até parece que não sinto falta de nada aqui; só quero paz. Só me quero encontrar. Fecho os olhos e viajo. Lembro-me de um sonho que tive em criança. Eu corria, corria num bosque e de repente deparo-me com um buraco negro. Tudo é sugado por ele: as folhas, as árvores, as flores, até o céu, que se vai transformando cinzento-escuro à medida que avança para aquele vago. Mas eu tenho uma escolha e decido aproximar-me. À medida que avanço vejo que estou num ponto sem retorno e sinto medo, e de um momento para o outro sou arrastada, como tudo o resto, e começo a viajar, como se viajasse ao longo do tempo para no final chegar a um lugar que não compreende as medidas dos homens, como é o caso dos calendários, das horas ou o peso das coincidências. Era como se estivesse do outro lado do espelho, as figuras compreendiam-se, mas não estavam nos seus lugares devidos, tudo deixava de ser simétrico – não existia direita nem esquerda. No entanto, uma breve aragem pairava, senti algo que compreendi desde o primeiro momento pertencer apenas àquele mundo confuso: amor. Parece que quanto mais procuro uma organização externa e coerente. Quanto mais os prédios se habitam, em blocos; quanto mais somos uma estatística, um número, um peão num aglomerado municipal, social, económico-político – Quanto mais, menos se encontra essa forma crua que teima em crescer apenas no caos. Afinal de contas, no caos é que ela é necessária. 

terça-feira, agosto 07, 2012

1. sussurros da gaivota

fizeste do mundo línguas de sal que não sabiam falar
montanhas feitas dos ecos das noites,
cobertas com o teu nome silenciado pelas mãos do amanhecer.
fumo um cigarro, mais outro dos que pedi emprestados à respiração.
sussurras-me o que tem nome de lua, forma de promessa nos peitos de madrugada.
sonho-te como que pinto formas aladas no crepúsculo,
e desejo-te no desejo que escorre pelas paredes da alma.

domingo, agosto 05, 2012

aqui anoitece sempre, quando não anoitece em mais lugar nenhum.
nunca poderia ter desejado que me tivesses dito palavras que não tinhas em ti,
porque eu não era a jeanne nem tu o modi e eu nunca me mataria por ti.
deitavas-te na cama, sem uma palavra e o único soar naquele quarto era o arranhar da chuva nas janelas.
nunca percebeste porque era melancólica, porque chorava sem razão,
porque apenas me sentia em casa quando não acendia as luzes e eu nunca te quis explicar, nunca te quis explicar, porque era melhor assim, porque doía demais falar.
às vezes acordáva a meio da noite e pedia-te para irmos ver as luzes da avenida, o transito a passar.
ias sempre a contra gosto, como gaivotas em terra.
subíamos a avenida e sentavamo-nos no marques, semicerravamos os olhos e víamos as luzes desfocadas dos candeeiros e dos carros, aquele mar de barcos velozes.
acendias-me um cigarro e eu esquecia-me do mundo, do mundo que era demasiado pequeno nessas noites.