quarta-feira, julho 25, 2012

Na Praia Com Nietzsche






para os irmãos Diamantino, o Macedo, o Pereira, o Ferreira e o Pires,






Numa casa de férias em Esposende com dezasseis anos a ser tanto, tão fresco,
Tanto espaço nestas mesmas mãos, golpeadas pelo tempo, pela morte dos sonhos
Mil e muitos poemas depois com outras tantas masturbações,
Na varanda, enquanto a camisa azul do dragão branco seca, um livro de Nietzsche
A tornar especial o momento, os amigos a ver televisão, outros na casa de banho,
Outros deitados a curar ressacas pequenas e na casa em frente um aniversário
Onde entram belas adolescentes que me descolam do interesse ridículo por filosofia
Aos dezasseis anos, ainda a latejar as últimas palavras da Crónica de Uma Morte Anunciada.
Nunca serei maior do que isto, nunca terei melhores amigos e nunca ninguém me conhecerá
Tão bem como eles, sem palavras necessárias, sem a confissão dos primeiros poemas,
Escritos quase às escondidas na mesa da cozinha, com muitas pausas e olhos
Fixos no horizonte que a janela permite, tão longe hoje, tão longe a varanda e a brisa do mar,
O farol e a insónia de uma liberdade de Abril, ainda com o sal na pele de um assalto à praia,
Com sede de uma primeira cerveja alemã que ficará para sempre, para o sempre que se tem,
Mitologia pessoal, marcos históricos que morrerão com o último cansaço,
Quando o corpo desistir de nós, e deixar as revistas pornográficas à beira do chafariz
Enquanto gente que não era do nosso mundo passava, com uma revista do Homem Aranha
Ao lado do Além do Bem e do Mal, que acabarei na vinha do meu pai,
Enquanto à volta tudo cheira a enxofre e primavera. Que monstro é este que me escreve,
Como se fosse dono das minhas memórias, dos meus momentos pequenos
Que me tornam o que sou? São os pequenos momentos que nos tornam grandes e diferentes,
As saudades secretas, os sonhos que aos olhos do mundo grande são pequenos e por isso não
Se mostram, mas trocava-se Paris, Londres, Estocolmo, Helsínquia, Amesterdão, Zurique…
Trocava-se tudo, tão estranho ao coração, por aquele Porto, aquela primeira vez, só nós,
Tão longe e tão perto, e lá fora o mundo nunca será o mesmo aqui dentro,
Não quando o candeeiro de rua às quatro e meia a iluminar a bola no parque de estacionamento,
Longe, perto da piscina, Nietzsche no bolso do casaco, o telemóvel cheio de mensagens de amor
Enviadas ao vazio, à desilusão por uma ilusão insuficiente que marcará por dez anos
E os que virão, se houver só mais uma vez, uma última vez, aquela varanda,
A brisa húmida do mar, melhor que qualquer cheiro íntimo, imaginando eu aquelas adolescentes,
Que hoje sei que não estarão tão convencidas do seu poder, deixei de guardar as palavras
E elas são muitas vezes o que os sonhos são, mas sem medo, que a morte está além de tudo
E virá quando vier, da forma que for, longe ou perto de Esposende,
Longe ou perto da memória quando ainda a entrar nos olhos, no nariz, na boca, na pele
Sempre pálida, adolescente, encobrindo uma alma de dezasseis anos até ao fim.
No próximo ano conhecerei Pessoa, o conterrâneo Torga e nunca imaginarei que eu também
Uma belga, o Vergílio Ferreira e nada será o mesmo, pois não estou só, nunca estive só, nunca estarei só.

João Bosco da Silva, "Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos"





sexta-feira, julho 20, 2012


quis por todas as esperas do mundo em papel,
fazer da existência apenas letras que pernoitassem nas linhas dos rostos que nunca vi,
amachucá-las nos bolsos do casaco, onde te esqueces sempre dos teus cigarros.
quis encostar-te a mudez das palavras à garganta como se fossem uma lâmina,
poder assim cortar-te e jorrar a voz que apaga o dia e silencia a noite.
não devo viver muito, apenas queria que o soubesses.
só viverei nos crepúsculos onde desenhar os teus seios,
onde chorares a minha partida,
e quero que me enterres no mesmo lugar onde um dia me ancoraste o coração.

sábado, julho 14, 2012

as tuas mãos foram a noite


as mãos são poços de vazio onde finjo guardar-te.
somos  como as andorinhas que partem depois da Primavera,
seres  vagueantes que acabam e começam onde o mar e a terra se tocam.
nesta hora em que me encontro só reencontro o conforto dessa mesma solidão que corrompe o vento e as cidades.
o vento são asas que nos rasgam o peito quando nos perdemos onde nos encontrámos.
sempre nos perdemos nos quartos sem nome,
onde sem precisar de dizer o teu nome, regressava a mim.
com os dedos esvoaçavas pelo meu corpo na ternura dos olhos ausentes, a mágoa dos corpos sofridos, diluidos no sémen que escorre como a chuva pelas janelas.
recorto-te no tempo para, com mãos quebradas, guardar-te.
são horas de acordar e perco-te novamente no amolecer da vida, nesta fraqueza de alma que me rodeia.
também eu sou fraco, tenho o coração envenenado de ciúme, de ódio e de dor,
e com isso consigo convencer-te a ficares mais uma noite dentro de mim,
a que juntos pintemos cigarras mudas, que na distância se assemelham a uma oliveira velha, doente e triste.
contigo aprendi a practicar o ofício de amar no silencio, na respiração dos quartos, das fogueiras que se apagam e do fumo que se despenha.
olho pela janela onde recorto navios, transeuntes, a folhagem sussurrando o teu nome uma última vez, uma réstia de anoitecer, de palavras molhadas pelo suor do teu corpo.
fica frio, no quarto não há palavras e tu és uma ferida que se prolonga,
um corpo incandescente que se dissolve agora nos lençois dormentes e eu contemplo-te no meu silêncio de gelo.
amei sem regresso, comprei bilhete de ida e não me preocupei em voltar.
deixei o corpo para trás juntamente com a bagagem,
vivemos em moradas de silêncio, em casas onde podíamos ouvir os ecos de um passado que não nos pertencia.
a memória reside, suja, no medalhão que me deste com a promessa que o espaço que nos separaria seria sempre o do tamanho dos teus braços.
comecei contigo uma história de gestos inacabados, de encontros inesperados, de promessas que inventávamos, após medonhas noites de amor, que não fazíamos menor intenção de cumprir.
volto-me para ti, fotografo-te com o olhar pela última vez,
abro a janela e atiro-me para trás.

quinta-feira, julho 05, 2012

Sonho de Verão


Ternura verde, os teus olhos encostados à relva
E a tua face semi-descoberta com horizonte
No resto do jardim - Desfalecendo lentamente
Num pôr de Sol - beijo - A minha mão
É uma continuação da tua, e o teu corpo
Uma coincidência no meu.

O gato está no apartamento de Szymborska,
Servimos-lhe enlatados de sardinha
E depois fazemos amor:
O gato está deliciado.

Os teus olhos são uma encarnação de árvore
Castanhos
As tuas folhas são viçosas
E o vento passa-te pelos cabelos
Fzendo zumbir pequenos animais
Dedos
Que se passeiam por todas as mechas.

A manhã é como uma estrela
Num abraço solar
Servindo biscoitos na cama desmanchada
Migalhas na tua boca
De fluidos
Quentes
Sabes-me a chocolate num verão
Derretendo o corpo para dentro
De charcos embaciados:
Rãs saltitam por te ver feliz:
E eu estico a lingua tremendo
Um beijo no jardim, na cama,
No apartamento de Szymborska.

Portugal



Portugal, estás a gozar comigo ou és mesmo a brincar?
Portugal, abres portas para um futuro que é um mar,
Uma vida à deriva, um cérebro desperdiçado a fazer contas numa caixa de supermercado,
Uns olhos que vêem, que trabalham numa livraria cheia de mortos, de olhos para sem vida?
Portugal, quando nos levas a sério, a nós que te julgamos um país tão exemplar,
Com tantas leis que tentamos cumprir como crianças sem compreender a vida de verdade?
Portugal, quando regressam as naus dos aventureiros que morreram no passado,
Dos que nunca deram origem aos portugueses de hoje, porque tem tanto medo de saber que és a brincar.
Portugal, quando deixas o passado e te agarras ao futuro que deixaste desprezado no passado,
Quando uns pisavam a revolução industrial e tu esperavas que o ouro roubado fosse para sempre?
Portugal, para que me deixaste acreditar que eu era capaz, se sabias que não me ias dar asas para voar?
Nem valorizas as laranjas que as mãos honestas colhem, nem o azeite, nem o vinho, nem a cortiça, nem o Sol: só os ingleses, os espanhóis é que têm bom gosto?
Portugal, para quê as tuas mentiras de cabelo branco para os cérebros de telenovela,
Se me andaste a fazer gente com olhos para fora? Para que me deixaste ser olhos para fora
Se andas de agulhas ferrugentas a furar glóbulos oculares?
Não tenho mais nada a fazer em ti a não ser afogar-me na tua produção nacional de cerveja,
Porque ainda tento valorizar a produção nacional de alguma coisa,
Mesmo que seja para não ver as pontes que caem porque tu andas de olhos fechados
E nos deixas andar por aqui, a pagar direitos que afinal nos deixam cair nas águas escuras
E morrer. Ainda pagas o direito ao uso das pontes do império romano?
Somos sempre os melhores, mesmo que nunca perto dos primeiros,
Convencidos de que afinal… convencidos do nosso erro, cegos por ti, Portugal.
Amanhã é que vai ser, mas tem sido sempre amanhã desde que me lembro
E o amanhã chega e nada, tudo pior que o igual, sempre mais uma mentira que ontem.
Números que poucos percebem e todos votam nas caras sorridentes da mentira
E tu deixas, Portugal, tu deixas e ardes todos os verões e és inferno todos os invernos
Nas cidades grandes, em especial nas cidades grandes, além de papelões das riquezas de poucos.
Tu és uma merda Portugal. Dá-me uma ponte alta, dá-me um cartucho cheio de chumbo, de verdade,
Dá-me uma liberdade que seja real e não a falsa igualdade de direitos.
Não sabes que as tuas crianças sofrem, que os teus deuses são uns filhos da puta que estão a matar o teu futuro?
Deixa-te andar que o fim é sempre em frente, não pares que o abismo está lá no fim
Desse caminho. Levas-nos a todos, já devias saber, mas tu também vais,
Também vais porque somos todos Portugal, ou julgas-te um nome, uma ideia: somos nós.
Só as terras lavradas por burros são dignas da tua glória passada,
Da tua glória duvidosa. Nunca te vivi como agora, sei lá das páginas que têm escrito,
Se tudo em ti me parece uma mentira, tudo a brincar.
És o meu país Portugal? És mesmo um país? Não sei mesmo, já não sei nada,
Depois de tanta desilusão, de tanta ilusão consciente de mentira.
Já não se pode ter voz em ti, mais uma vez, andas para trás orgulhoso das tuas revoluções: para quê?
Estou aqui a enterrar-me na areia do parque infantil só porque já bebi o suficiente para abrir a voz dos olhos.
Já não conheço as tuas cores e a televisão de manhã, diz-me que és um país ridículo,
Um país que quer agradar a quem anda por andar, que nem tenta abanar a vida
E dizer, acordem, estão a viver a vossa vida, a vossa vida: a vossa vida!
Que interessa o que diz um brinquedo? Não estou aqui para brincar, sou dos muitos brinquedos,
Para satisfazer a imaturidade de líderes de merda: disse “líderes de merda”?
Portugal, estou fodido e ainda por cima disse que estou fodido.
Deixas andar homicidas de almas pelas ruas da rua de todos, enquanto condenas
Quem rouba um pão para matar a fome a corpos que morrem de miséria.
Ser lento para quem queres, para quem pode brincar, deixas andar…
Implacável para quem não tem um centavo para dizer “eu sou gente”
E um grito mudo que só a família sente no coração colectivo.
Sinceramente… deixa-te de merdas de uma vez por todas!
Sê no que podes ser e deixa-te de mostrar aos outros de outros tamanhos que ainda és capaz.
Já foste e agora cala-te, agora agrada a quem és: és os portugueses…
Ou só alguns? Queres ser uma Rússia de hoje? Estás a passos, mesmo tão longe,
Mesmo sem o tamanho real. Oito e oitenta mortos de fome no frio da injustiça social.
Pensas que te basta acreditar no comprimento dos braços para alcançar?
Querias ser, estar além do Atlântico há tantos anos…
As revistas cor-de-rosa a dar corpo à vida da conversa do que tu és
E eu quase a vomitar, apesar de não ter bebido para tanto.
Não és um país disciplinado, sabes bem que não. Não exijas ser o que não és,
Começa por ti, por cada um de ti, aos poucos. Não podes arrancar valores e transplantar valores,
Ou não sabes o que é a psicologia? Vamos, envia mais uns soldados com bandeiras minúsculas
Ao ombro, para te fazeres notar no mundo real,
Enterra-te mais no teu buraco e finge que és importante. Ninguém te liga puto Portugal!
Têm pena de ti e mesmo assim te pagam e te fodem, porque até a cultura vendes por…
Diz-me tu Portugal, por que te vendes? Essa ferrugem ainda é para ficar por muitos anos?
Está na hora de levares a vida a sério, de seres um país para todos,
Ou só cagas filhos para os deixares na merda? Ainda os adoptas para os tratares como escravos?
Para que dizes que dás direito a todos de serem eles, eles portugueses, se depois te armas em anos quarenta?
O papa não é Jesus, ninguém é Jesus, ninguém mais, para quê tanta subordinação,
Tanta vela desperdiçada em mentiras. Luxo desperdiçado em imagens enquanto os teus filhos choram de estômagos vazios.
Ponham-se a andar, não esperem por milagres. A fome não se cura com orações.
Os teus filmes: merda, porque são demasiado reais na sua ficção,
Porque tentam dizer demasiado que é ficção a puta da verdade que sente quem nem é actor.
Pensas que os primeiros têm a graça do senhor e se põem a dormir à sombra do passado?
Pensas que as lágrimas dos pesadelos das crianças são a brincar? Não sentes o salgado na tua língua fria de país cego pelo poder? Poder… ridículo!
Que é afinal deus nesta merda? Quem se vai safar da morte, quem não cai depois de garrafa e meia de Jameson, quem mata e não morre um pouco por dentro (nem sente a morte dos que ainda se arrastam)?
Como podes pedir ao teus filhos maiores que deixem de ser portugueses,
Não te sentes bem com a verdadeira grandeza? És uma inquisição cerebral,
Queimas as ideias plantadas em becos sem saída e um salário para comer durante um mês,
Um mês a menos para a miséria de uma reforma: um dia menos para morrer, que isto nem vale a pena.
Gostam que lhe caguem em cima e eles é que o fazem a quem está a tentar viver a vida,
Inocentes das perversidades dos deuses (sempre feios apesar dos cabelos brancos a imitar actores de Hollywood).
Só queremos apagar as horas depois do jantar para acordar de manhã
Para a máquina de engrenagens irregulares que tu és: Portugal.

22.09.2010

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva