sábado, junho 30, 2012

voltámos à casa de cal.
de lábios roxos perscrutámos o tecto,
ouvimos o mar que se desenrolava
na língua numa fala muda.

falámos muitas vezes sem sentido
consumidos pelas noites em que planeávamos uma existência
fora do corpo da madrugada.
foi numa dessas noites que me prometeste que inventaríamos as estrelas.

sexta-feira, junho 29, 2012

Putos na Rua




Lisboa a flamejar com os putos de rua, passeando -
A vida passa-lhes calmamente pelos rostos, serenos, numa noite de verão:
Está frio, mas não faz mal. os putos gostam de apostas e amigos. Não ouvem as batidas cardiacas dos seus próprios corações, exceptuando esse coro uniforme que é os seus corações em unissono. Quem me dera pertencer-lhes. Sem pensar muito nos assuntos, nas formas dos rostos, dos olhares trocados - as sinalizações estranhas que acontecem por impulsos magnéticos entre toda a arquitectura da minha face - e daquilo - e daquilo - que a separa dos outros. As batidas do meu coração são aceleradas, constrangidas. Todas as pessoas me causam repulsa, mas amo o contacto dos putos. Conhecendo de cór os signos (de significado, de significado) uns dos outros. Quem me dera pertencer-lhes: como uma ostra aberta expondo a pérola. Mas ainda assim Lisboa flameja, o alcool é como um raspador de cascas. Laranjas ácidas penduradas no topo do Cristo Rei e a gata ouvindo os gemidos das pedras. Calcário como o amor. Estalactictes de todas as cores, por toda a parte. Quem me dera pertencer-lhes. Os putos enegrecem subitamente o dia, com as suas luas redondas, ácidas. A escrita é um exercicio de rostos - entre aquilo que me separa das ideias e das emoções. Como os putos. Quem me dera pertencer à geração da serenidades. IMPOSTORES, vocês usam todos drogas. Comem-se uns aos outros. Não deixam nada crescer. Os putos gozam e do esperma sai uma gargalhada. É fixe, mas no fim sai sempre uma cagada. a liberdade é um arranjinho floral na tumba de um amigo. Fodasse, amanhã de manhã alguém os vai soltar dos sonhos para dormirem e enquanto dormirem vão ver o espelho desses sonhos. (Ego Ego Ego) vou ficar acordada até morrer para ver amadurecer os putinhos. Chapéus de pala, calças descaidas, uma maminha fora do sítio. Alguém lambe a amizade, a amizade alimenta, a amizade goza e do gozo sai esperma que ri: com os seus maçaricos todos a vaguearem por Lisboa. Não são espermatozóides, são putos.

quarta-feira, junho 27, 2012

os livros empilhados, o pó acumula-se e eu acumulo-me com ele.
abraçamo-nos nos cantos da sala, nos cantos dos móveis e nos cantos dos bolsos.
penso-te tão longe, num espaço oblíquo a mim e então repouso-te nos dedos da memória entre cigarros que fumamos às escondidas de nós próprios e as cervejas que guardámos na máquina de lavar.
ergue-se agora um sol murcho e triste como não poderia deixar de ser neste país.
mais um país que passa por mim e que volta comigo agrafado no tempo.
volta comigo, mas não volta dentro de mim porque dentro de mim não há ninguém.
viras-te ligeiramente para o lado fresco da almofada e eu passo-te as mãos pelos teus cabelos de noite.
sussurras-me que perderei o avião se não me levantar.
pedes para me vestir como quem me expulsa da cama gentilmente.
levanto-me para vestir a camisa branca transparente que repousa em cima da cadeira junto à tua secretária.
acendo um candeeiro de pó para vislumbrar a tua escrita infligida aos papéis, a tua letra agressiva e revoltada a deambular pelas entrelinhas.
com mãos doridas e frágeis recolho o kerouac, o camus e o bukowski, todas as cartas e poemas que me escreveste e que no fundo nunca foram para mim, mas sim para uma ideia de mim que nunca vieste a encontrar.
estes são os únicos amigos que me restam.
amigos mortos como eu.
fecho a mala e quando te beijo o rosto de menino perdido repeles-me.
quando levanto voo de pés no chão imagino-a a chegar da tal viagem e a fundir-se em ti num abraço.
hoje não te sei sem ser pelas polaroids, onde sorris vagamente com o olhar, de lábios imóveis e tristeza escorrendo-te pelas costas.
estávamos verdadeiramente sós num mundo que nunca foi para nós.
hoje não tenho nada sem ser as polaroids que ainda guardo no lado fresco da almofada.

terça-feira, junho 26, 2012

para a M

todo o meu eu se sente numa morte doente e dolorosa. sentavas-te à beira da cama sem respirar. contavas até três e voltavas a respirar. para dizeres que me amavas contaste até dez, agarraste o coração três vezes e sussurraste-me o que não sabia que podia ouvir. à noite virava-me para o outro lado para te chorar. eras bem mais que a minha solidão, mas quando tive que escolher entre as duas escolhi a solidão. quis tentar explicar-te que não conseguia viver sem a minha solidão, sem este sofrimento agudo de quem cuido como se meu filho fosse, mas tu não compreendeste. contaste até dez e disseste-me que não entendias, riste-te três vezes e choraste-me toda a noite depois contaste até dez de cada vez que as lágrimas te escorriam.

terça-feira, junho 19, 2012

Uns Casam-se Outros Matam-se



Hoje lembrei-me de ti e chorei, escondido no duche, lembrei-me das quartas-feiras
Em que em vez de ir esfolar os joelhos para o monte ia ter contigo e com as tintas,
As unhas cheias de sonhos ao chegar a casa, lavados com uma escova dura,
O pior da arte é lavar os sonhos que ficam nos dedos, chorei e nem um sonho
Pelo ralo abaixo, ela casou-se e foram então onze anos de poesia inútil, é tempo
De deixar isto para garotos, ou velhos feios, ou gajas que não levam suficiente peso
E procuram respostas em fornos abertos, casou-se e queria ser capaz de me masturbar
De olhos fechados, com a imagem dela, o seu vestido azul contra a luz, à entrada da porta,
Verão, eu apaixonado pela sua silhueta, as suas mãos, na verdade o que tenho procurado
Na roupa interior humedecida, são as suas mãos, mas só promessas, orgasmos e vazio,
No fundo, amei apenas os seus defeitos, as suas cicatrizes, os seus dentes desalinhados,
O sinal fora ao contrário, as proporções desmedidas, nunca consegui amar a não ser mulheres,
Nunca uma boneca me despertou mais que a vontade de um alívio rápido e apressado
E ela casou-se, três dias depois de a ter beijado finalmente, num sonho adolescente,
Ela com a cabeça no meu colo, as mãos, finalmente as mãos, o dedo rodeado por uma promessa
Que não minha e tu rodeado de eternidade e eu há onze anos a escrever inutilidades
Que me têm mantido vivo, quase são, para que te mataste, para que te casaste,
Para que me tolheis a ilusão da eternidade dos outros, Florentino Ariza tinha paciência
Porque era de papel, há onze anos, mas eu já nem papel tenho para tanto cansaço.

19.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

sábado, junho 16, 2012

Literatura e Amor

O que se passa é o seguinte, já não tenho o que escrever. A vida corre bem, as pessoas são simpáticas, o mundo é um lugar giro. Sempre tive esta fachada melancólica de poetisa desgarrada, mas já não me interessa isso. Nem a fama, nem a glória, nem tão pouco escrever bem: quero viver. Ouço Elliott Smith e penso que poderia fazer uma epopeia sobre um amor mal sucedido. Mas para quê? Os amores sucedem-se simplesmente, como um circulo aberto, pontilhado, feito de calcário. Quanto mais tempo, mais rijo fica. Eu não tive tempo de calcificar sequer o meu amor pelas palavras, talvez um dia, talvez um dia. O entrevistador poderia então perguntar-me se acredito nesse amor, só porque nunca o senti. Sim, acredito. Algures no milhão de bilião de pessoas no mundo vou encontrar a palavra certa de ser escrita. A única que valerá a pena e sobre a qual poderei discorrer até se gastar o seu tutano. Entretanto é tudo um ensaio, no sentido mais lato da palavra. Palavras e mais palavras para formular um sentido que só por si já existe. Porém isso é viver, a ficção é vida, as palavras são vida, a vontade inexplicável, profunda, vinda directamente do centro das glandulas salivares directa para a lingua na fonte: é vida. Querer ensaiar o amor é viver um amor, por mais estranho que seja o amor vivido nas entrelinhas, nos sinais, nos olhares fixos entre o prosador e o seu texto. Porque é essa conexão imediata que lança ocitocina, obsessão, paixão.  Cada palavrinha nos milhões e biliões de pessoas importa, ainda que o amor lhe pertença em exclusivo, por instantes, a essa folha de papel que conterá a mais bela descrição da mulher Africana. Da mulher Asiática. Da mulher Europeia... Da mulher-musa, que no fundo é babel de todas as linguas faladas. A linguagem é o coração-centro da mulher, mesmo quando icónica, a fazer lembrar anúncios Italianos de marca Spaghetti*. Tudo é eficaz, errante, barulhento. Mas nessa conexão íntima, entre mãos brincando às canetas o silêncio é intercalado não por virgulas, mas sim pelo discorrer profundo ao discorrer menor. Sendo que nessas paragens contempla-se através de uma janela tudo o que já foi escrito e re-escrito por todas as obras da humanidade. Porque a literatura é repetição, como o amor. Pontilhada, num eterno circulo descontínuo que se calcifica na medida
das leituras.

* Roland Barthes

sexta-feira, junho 15, 2012

O Sonho mais Rebelde


O carro seguia a direcção de kerouak
Mas o mapa estava errado:
Só eu tomava as tuas drogas
Mas era em ti que o vicio ficava.
Passámos os Indios mapuches, com as suas cabrinhas peruanas
Passámos os dançarinos de Tango - Lá encontrei
O Adam a borbulhar por uma palhinha de lolita
Saiote acima da cueca, tudo rendadinho
A passar na avenida do Putedo:
Estavamos em Viña del Mar a descansar
Madrugadas de cintura fina
Homens na Joy Division - Uma Joy Division Latino-Americana -
Sempre a levantar a perninha, à canzana, para morder
O canto de todos os continentes do Mundo -
Era sempre tão fácil viver na estrada,
Mesmo sozinha, com os pés a pisar Atacama,
Uma provincia de Cronos e cronistas
A Cronometrar todo o passo de uma vida
A escrever para guardar as palavras em viagens -
E das viagens fazer um fiel companheiro
Para as noites frias do deserto: Como é bom o céu do Deserto
Quando o meu pai vive essa fantasia louca
Empunhando o whiskey e o cigarro: Uma mulher só
Precisa do sonho rebelde para se mascarar de Édipo
E da vida ganhar o amante mais fugaz.

quinta-feira, junho 07, 2012

70 anos (Aos 80 meto Cavalo)


Escuta o teu retrato,
Nariz abatatado, olhos de maçã
Dentes de mentiroso. Olha como
Te fizeste mulher a ouvir
As passadas dos teus amigos,
Sempre tão felizes - O copo na mão
Às vezes engana, mas dura enquanto
Houver uma cereja de conversa
E 2012 anos na contemplação da humanidade:
Ao revés destes 21, quase 70 pela nostalgia
Até do gato quando era pequeno.
A pele macia, no meio de uma gripe,
Enroscado nas pernas, Ronronando
Uma banda cujo nome esqueci:
Agora cresceste e o que tens para contar
São ainda pedaços do que queres ser.
Isto é um poema-diário,
Tenho uma sede que só se serve de honestidade:
Onde caminhas tu agora?
Todas as janelas do mundo te vêm.
Sobrecasaca negra, cabeça careca
Brilhando na metáfora invisivel
Dos caracóis lentos, mas adoráveis.
Onde andas tu agora?
Projectando o meu couro cabeludo,
Caracóis de todas as cores:
Sou como o Garden State
No conforto do sofá, comendo bolachas
A boca cheia de outras bocas
Sabendo a salgado, chocolate, pepitas
Hálitos de mar, à beira do jardim
Ou uma recordação da infância:
O amor é como uma brisa fresca no Verão
Com os seus chapelinhos e perninhas desnudas;
O meu pai ouvia Tchaikovsky e a minha irmã
Brincando com o ursinho do olho cozido.

quarta-feira, junho 06, 2012

O Meu Tio Tagana



Compro o mesmo par de meias de há quinze anos atrás, as mesmas cores, escrevo com
As mesmas palavras, de há mais de vinte anos, tento fazer delas poesia, elas obrigam-me
A ser poeta, mas no fundo, o que queria repetir era aquele retrato com um lápis
De carpinteiro numa pedaço tosco de pepel arrancado a uma saca de farelos, onde
Desenhei o meu tio da França, redondo e de braços abertos, que morava no baixo
De uma casa velhíssima e vivia de ovos cozidos com sal, peixes do rio e aves pequenas,
Cervejas, vinho da sua vinha, fermentado no mesmo baixo, num lagar pequeníssimo,
Queria tanto escrevê-lo, ele português e o meu francês favorito, com a careca sempre
Transpirada e o nariz de batata acima do sorriso e o que estranhei o seu ar sério no
Bilhete de identidade e o nome, nome de um santo eu que julgava que o seu nome
O que lhe chamávamos, num pedaço de papel arrancado a uma saca de farelos,
Ele sempre com algum pedaço de lixo nos bolsos, da França, para nos pôr contentes,
Os sobrinhos dos sobrinhos reais, uma grade de Sumol à espera de nós e do Verão
E fascinava-me ele poder nadar, no rio da aldeia, profundíssimo, tão grande era,
Hoje não sei, nem imagino, só ossos que o fascínio pelos postes de alta tensão
Lhe anteciparam, dizem-me que, mas hoje sei que glioblastoma, e o desenho a arder,
Esquecido na lareira de uma casa velha, ainda mais velha, sem ovos cozidos,
Repito então as mesmas meias, as mesmas cores, porque no fundo só queria poder
Desenhar os mortos como desenhava os vivos, de braços abertos, nariz de batata, ali,
E hoje se fecho os olhos, não lhe vejo o suor a escorrer-lhe na testa, nem um sorriso,
Mas a cara séria do bilhete de identidade, com um nome que ainda hoje estranho nele.

06.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, junho 05, 2012

So glad to meet you Angeles




O depósito cheio conta as milhas percorridas
Em conversas, delirios e um pouco de amor:
A conta-gotas pela estrada fora - Os pés
Fora da janela, o corpo todo debruçado
A curtir as constelações de afectos gelados.
Só eu te toco como um casulo-minhoca
Esfregando todas as borboletas do mundo
Para espreitar o amanhecer nas ruas
Que a solidão genética vai iluminando:
Estamos sós um ao lado do outro.
O riso descobre um tracejado
Alcatroado pela confusão da insónia;
Já passou a minha vez na fila,
Mas o vento faz abrir os olhos
E Elliott Smith vai cantando
Porque enquanto estiver triste
Ainda vivo.
B. Dizia-me para ter cuidado,
Cuidado com os ecos das palavras
Errando constantemente ao longo
Das viagens intermináveis
Que os pensamentos fazem
Para acarinhar um corpo só.
Por isso todos os portos do mundo
São uma casa - Estarei sempre longe
Para abrir uma carta cuja letra
Já esqueceu o destinatário - É assim que me quero,
Vou cumprir esta promessa de coto quente
Todo ele enrolado nas pernas, nos braços, nos pulsos
Chupando a manhã líquida, salivar, de uma boca para a outra
Como um aceno longínquo e um grito extasiante
Voltado a norte - Porque o amor é um jogo de Squash
E contra a parede vivem os fuzilados. BAM BAM BAM

Desconselho



Aguenta-te, acende mais um pouco de incenso, pode ser que o cheiro da sua pele
Se apague no fumo do tempo, esquece tudo, mais vale a pena tu cheio de nada,
Tanto peso às costas para no fim se deixar tudo onde o nada nos engolir,
Aguenta-te, os teus dramas actuais irão tornar-se pálidos à sombra dos monstros
Que se alimentam de anos, procuras a inocência na decadência porque sabes
Que uma está perdida e a única forma de a reencontrares é perdendo-te na outra,
Aguenta-te, agarra bem as cordas do baloiço, tudo não passa de apanhar balanço
Para um salto eterno, és tão real, tão vivo como o esperma que limpaste,
Engoliste, como se fosse um pecado excitante, apenas os teus filhos quânticos,
Mas neste universo calhou a pele não ser fertilizável, só o sadismo de uns lábios
A deixar réplicas de saliva que brilham no luar nas nádegas onde alguém passa o dia
Sentado e às tantas se esforça para não rasgar o recto abusado pelos desejos
Inocentes de como quem mata passarinhos à fisgada, escorre-lhes dentro,
Escorre-lhes de dentro, mas maior conquista será se escorreres salgado, dos olhos,
Turva-lhes as certezas, mostra-lhes assim a verdade, sacode-te de ti mesmo
Como se te quisesses ver livre da alma, deixa cair todas as palavras que te atrasam,
Aguenta-te, põe a música mais alta até só se ouvir a contagem decrescente do teu coração.

05.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, junho 01, 2012

delírios da 00:35

acendo um cigarro a meia luz percorrendo as linhas da cidade,
as linhas que desfiz em papel.
tem morada no peito um sentimento funesto,
e tomo mais um comprimido.
chamei pelo ian quando as vozes não vieram,
hoje sou um animal envenenado pelo sangue que lhe corre nas próprias veias.
intersecto as linhas da cidade,
diluo o olhar sobre todas as superfícies rectilíneas e conto até três
e tomo mais um comprimido.
a tristeza e a vida são como o céu e o mar,
infinitas até onde alcança a visão,
não há distinção entre ambas
mergulho a cabeça na água e conto até três
e tomo mais um comprimido.
deixei de ter cigarros no maço, passei a ter supostos devoradores de tristeza.
ainda assim ela pernoita, aponta-me um revólver e conta até três.
dispara sempre.