quarta-feira, maio 30, 2012

o vento percorre-me as mãos,
aninha-se nas esquinas do meu corpo e esconde-se nos cabelos,
onde ontem se escondeu também a noite
debaixo do teu abraço.

a cidade morre no silêncio do tempo que não passa pelos relógios,
eu peço-te para ficares mais uma noite das muitas noites que não ficaste
e tu dás-me um livro de cartas de suicídios como um presságio da tua morte,
olho-te latente com olhos de quem perde antes de alguma vez ter ganho.

caminho só e borro as luzes dos carros e dos amantes voláteis encerrados em pensões,
peço desejos sempre que te beijo os nós dos dedos e sonho uma morte junta,
sonho uma vida rasgada à vida,
algo mais que a efemeridade dos momentos que carregamos no peito.

sexta-feira, maio 25, 2012

quis poder sussurrar-te nos teus ouvidos de papel
todas as cartas que nunca te escrevi,
sentir os crepúsculos com as pontas dos dedos
saber o teu corpo com o meu.

nada mais poderia trazer-me qualquer sentimento de bem estar
que apertar-te as mãos e saber-te, saber-te seres de outro mundo
de outro local onde não me deixas entrar
nem com o despontar dos dias.

hoje soube-te por entre todos os pedaços de alma
que escorriam pelas paredes daquele quarto do qual não tinha a chave
hoje chamei-te pelo teu nome, pelo nome de ilha muda que tens
hoje soube-te como quem sabe o que é o amor e que o guarda no maço de cigarros.

hoje soube-te como quem sabe uma canção
que toca no limiar do coração
quando as noites são demasiado duras
e tu demasiado só.

Inutilidades E Paraísos



Não faltam paraísos por esse mundo fora, difícil é encontrar alguém, com quem valha a pena
Partilhá-los, alguém que não acabe por torná-los em mais um inferno, alguém que saia antes
Do tempo apagar uma chamas e acender outras, no fundo paraíso é só onde se deseja ter
Quem não se tem, é só onde não se está quando se está e o calor nos obriga a aceitar a vida.
Custa escrever com a agonia de um dia cedo após uma longa digestão de trevas, contra a força
Do Sol a querer que tudo branco, as palavras tão finas, tão insignificantes contra a vontade da
Luz, o café foi apenas sabor a cefaleia prolongada e os olhos mal se conseguem abrir, tal é
O fascínio pela inutilidade que é abrir a porta e viver, além das pálpebras, da retina nem tanto,
Por isso abre-se o caderno pequeno onde cabe todo o tamanho de uma alma cansada, alma,
Cansada, mas apenas corpo e sono, gente demasiado gente que passa com toda a certeza nos
Passos, folhas que se convencem da eternidade da Primavera e ainda ontem o Inverno à janela,
Uma noite longa que se tornou clara, a lareira apagou-se e por fim ambos um abraço obrigado
Pelo orgasmo que se lava com repugnância na intimidade das mãos em concha ensaboadas
Com o cheiro do amanhecer de um dia quente, que traz a promessa feliz do esquecimento.

22.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

domingo, maio 20, 2012

A Linha


Deixa-me falar-te das coisas maravilhosas que vejo:
Tu num mal-me-quer, bem-me-quer, a fumar esse Anúncio
Luminoso que Cesariny ilumina; Como uma concha apertada
Contra os dedos, e o teu peito respirando o mundo todo
Numa pastilha que eu também quero tomar.
A realidade não é importante, queria dizer-to,
Pois o corpo define o limite da identidade:
Nós dois no escuro, à procura de um Monstro
Quando o medo vive nessa linha imortal
Circundando o espaço da alma até à barriga da mão:
Quero tocar-te para que vejas as coisas maravilhosas que vejo;
As coisas maravilhosas que vemos,
As coisas maravilhosas desde o centro de um abraço
Até à chama inivisivel que sai da tua boca
Para incendiar todos os animais de papel
Tornando-os vivo de cor fogo: Porque me queimam os horizontes
Nas tuas formas desconcentradas
Inchando um sorriso que sou incapaz de conter,
Mas que é teu.

sexta-feira, maio 18, 2012

Catholic Boy



“And now for once, you must try to face the facts. Mankind is kept alive by bestial acts.”
William S. Borroughs

Ela era a menina mais bonita da sua terra, católica devota, como tem que ser
As meninas bonitas da terra, ia sempre à missa e ajudava o padre em tudo
No que o seu corpinho pequeno podia ajudar, de paramento entre os fumos do incenso
E das velas, pedidos mudos, ridículos, que a vizinha me faça um broche no palheiro,
Que o padeiro finalmente me entre no pão, sorte na caça, a vitória da minha equipa,
O totoloto, tantos a pedir o mesmo que parece que deus opta por ignorá-los a todos
E ela a sorrir enquanto as velhas abrem a boca desdentada com hálito a morte
Para deus, famintas de um corpo qualquer, que seja o de deus, ela a sorrir quando
Recolhe as moedinhas para os vinhos caros do padre, como ela amava deus.
Gostava tanto do criador que também queria ser também, mas infelizmente ela católica,
Mudou-se então para a cidade, fingindo seguir os sonhos dos outros, mas secretamente
Não tinha desistido do seu sonho e prostituía-se depois das aulas, rezava pela madrugada
E sonhava com velhos obscenos a ejacular na sua palidez imaculada, acordava com o sabor
Do esperma cansado dos homens casados e continuava a fingir uma outra vida, até o dinheiro
Ser suficiente para mudar isto e aquilo, o nome, o país, em nome de deus, do seu sonho.
Chegou o dia, o início do processo de transformação, a metamorfose e só sentiria saudades
Das mamas que a faziam ser tão desejada e amada, dádiva de deus, tantas vezes
Com um colar de pérolas derretido, também teria que se deixar de joias, os seus clientes
Sentiriam a sua falta, mas ela iria salvar-lhes a alma, lá desde o outro lado do oceano,
Facas e hormonas a corrigir o único erro, erro não, vá, descuido do seu amado até que por fim,
Um homem, um novo nome, uma nova vida, o sonho tornado possível e depois salvar almas.
Numa missão de missionário passou pela Tailândia, onde inesperadamente se apaixonou por
Um(a) ladyboy, demasiado álcool sempre ajudou a aproximar-nos de deus, o seu sangue
A tornar o nosso mais quente, e num quarto barato onde se ouviam os gemidos dos quartos
Vizinhos e néons a tornar o ar psicadélico, finalmente entrou em alguém, finalmente se sentiu
Dentro e o coração batia-lhe como nunca antes, bateu-lhe mais quando sentiu o sumo quente
Explodir-lhe nas entranhas e aí percebeu que o pecado é o que faz bater o coração,
O pecado é a razão da vida, é o que alimenta a vida, deixou deus e as hormonas e tornou-se
Também num(a) ladyboy e juntamente com o seu amor, espalharam pecado, vida, naquela
Cidade deste mundo esquecido por deus. Esta é a história da menina mais bonita da terra.

18.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, maio 15, 2012

estética

olho para o fio de lume gasto na noite, primeiro a lembrança da estética
depois o assombro e findo o olhar 
a indiferença.
no lume, ou talvez na noite, recuperei o espaço de uma casa em ruínas
onde queimam incenso os excomungados do templo
e se fazem ao mundo os males subterrâneos. 
persisti nesse arranjo poético, nessa ode soturna
composta como retrato de uma adversidade meditativa
como palavras que se subtraem ao tempo
sem deixar espaço às particularidades do som
via nesse anagrama o norte
as sobras que restaram de um velório. 
depois
depois se eu te visse a praia nos seios esquecia-me
não via nada.
foi pois a essa cegueira que me confessei
e percebi que o grotesco ou o belo ressoam ao mesmo tempo
se a indiferença me pousar na boca
os olhos.

As Cerejas São Momentos



Sabes que entre os desejos que não tenho, que são todos, há um que quer ser
Flor de cerejeira, tivesse eu olhos para apreciar lábios debaixo das oliveiras do adro
Da igreja, à noite, e dedos finos por entre os galhos em direcção às orelhas da filha
Da peixeira, naquele ano em que perdi tudo, como em todos os outros que se seguiram,
O estômago cheio de cerejas e as lágrimas a despedirem-se contra a parede branca do
Cemitério, o inferno branco, para nos destacarmos, nós as manchas e o verão
Não passa de sabor a metal entre os dentes, as pálpebras impossíveis de pálpebras
E dizem que os anos não perdoam, tornam-nos lúcidos cansados de tanta lucidez,
Viciados em noites de menos nós, aguardente e cafés apressados quando o dia
Se estica na pele insone, no café da terra, onde conversas sobre a origem do mundo
Reescrevem o génesis e adiam o apocalipse, livros sagrados escrevem-se no esquecimento
E a verdade é tão volátil como a memória, as raízes estranham o tamanho da terra
E o tronco sente-se estrangulado entre a rocha que o abraçou em tempos,
Só flores que quase são doçura na boca, lábios, derrotas de braços cruzados,
Porque ainda havia tempo, mas com o tempo, descobriu-se que não há tempo nenhum.

15.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

sábado, maio 12, 2012

Tarde no Porto



Manuel pediu-me uns trocos, ora para livros ora para um café. Disse-me que era de Arouca e eu lembrei-me do Bruno. Fodilhão, borderline, cheio de sonhos. Lembrei-me das histórias de Bruno, de como gostava de cheirar coca encostado nos ombros de todos os homens e mulheres do mundo. A sua bissexualidade era tão latente como a minha, só que ele procurava carinho e eu queria apenas tocar na superfície dos corpos.

Manuel estava indeciso, gostava de rock e cheirava a Sida. A sua pele encrostava com a praga a alastrar e a sua salvação já não passava pelos químicos, pelo que lhe aconselhei um livro. Fomos até ao Palácio de Cristal e enquanto eu vigiava o vendedor Manuel pegou em poesia, história de Portugal e um livro sobre gatos. Ofereceu-me o livro dos gatos, disse-me que eu precisava de companhia. Alguém que dormisse enroscado a mim todas as noites e que não se despedisse. E eu expliquei-lhe claramente que era eu que me despedia e corria o mundo com uma pena na mão. A minha melhor companhia era essa história que ainda faltava escrever. Ele foi sincero, disse-me que os gatos largam menos pelo que as cinzas dos cigarros fumados. Não me importei com aquelas frases, já quase não faziam sentido. Os moribundos acham-se sempre com direito a terem uma última palavra. Os moribundos deviam fazer slogans comerciais.

sexta-feira, maio 11, 2012

O Encoberto


A escola obrigava-me a acordar, hoje é o cinzento e escurece lá fora, mas cá dentro
Já há anos que a luz das velas se tornou obrigatória, para se ver o teatro do fazer
Valer a pena, a escola mostrava-me o mundo entre quatro paredes, em segurança,
O mundo uma esfera num quarto escuro cheio de possibilidades para nada,
Com derrotas certas e a ilusão da victória, por isso o vinho do porto mais que um cálice,
O vinho do porto chapa contra tudo o que se aprendeu, porque nos ensinam não a viver,
Mas a sonhar e quem se fia na virgem e não corre, morre virgem, fez da vida o desperdício
Em vez de desperdiçar a vida e o triste além de triste, torna-se no pior, em tédio
E viver aborrecido é ter vontade de morte e ter vontade de morte não é viver,
É ser cobarde e esperar pelo óbvio e inevitável e eu sei tão pouco para mim mesmo
E tanto para os outros, porque é sempre fácil, piscar o olho a quem passa lá fora,
É sempre fácil quando não temos a carne demasiado carne à nossa volta,
A exigir-nos eternidade em tão pouco tempo, e chove, e os carros passam
Não muito longe e esperam, os colegas, os amigos, num lugar onde fui e não trouxe,
Mas sou, e hoje acordo só por causa do cinzento, a sua promessa de bruma, ao menos isso.

10.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, maio 10, 2012

hoje rasguei barcos no céu,
queimei as cores do teu rosto,
chorei as mágoas de um passado não muito longínquo,
que já não podia mais esconder atrás de muros de ausência,
de amores que se duram a si próprios por não terem quem os dure.
no entanto permaneço num lugar oculto onde ninguém, nem mesmo tu me pode tocar.
permaneço escrita, no lugar onde outrora me deixaste e onde eu desenhei tudo o que jamais me pertenceu e foi assim que fiquei por onde pude,
por onde as tuas palavras foram menos amargas,
por onde me custa menos ouvir o coração nos silêncios do teu respirar e onde as mãos não eram simplesmente as mãos, mas sim as tuas mãos.
desenhei-te com pedaços de ternura, 
sorrisos desconhecidos e ânsias diluídas em suspiros.
e eu, mais doente do que tu, vendo a vida não como ela era
mas sim como tu eras.
tu eras má,
pedaço de areia nos lábios.
maltrataste-me como uma faca,
como as lâminas que crescem das árvores e nos assassinam pela vida.
se pudesse matar-te como mato os dias com os dedos sempre que fecho as cortinas
não pensaria duas vezes,
exactamente por me seres,
por me seres tudo e nada ao mesmo tempo,
mas por me seres mais que toda a gente. 

sábado, maio 05, 2012

Síndrome de Stendhal


“The future is just wasted on some people.”
Chuck Palahniuk

Como posso explicar-te o que é belo, se belo para ti é uma mentira colorida
E para mim a tristeza de uma verdade, para ti é um gatinho branco no colo
E para mim foram aquelas tardes pelos montes com o cão que me mataram.
Como posso fazer-me entender se falamos a mesma língua diferente,
Se eu bebo para não me ouvir e tu para seres mais alta que o teu ego
De católica fascinada pelo esquecimento de um apêndice, one ring to rule them all,
Eu um ateu, obcecado por outros vazios, é verdade, e cor-de-rosa
É para mim uma frase qualquer do Bernardo Soares, tu dizes que negro,
E respondes-me com um aforismo light sem aspas, para quê, tudo o que dizes
Aspas e eu só virgulas, virgulas, porque tenho medo dos pontos finais e
Envergonham-me as reticências, sonhas com sacos cheios de roupa a encolher
E eu com cafés à sombra de António Lobo Antunes a envelhecer.
Mão vazias para ti são fracasso, para mim foram um caminho que teve que ser,
Não poderia ter sido de outra forma, se fosse, as mãos ocupadas, cheias de peito
Atravessando o intransponível, e tu dizes-me que as estrelas são tão lindas
Enquanto eu suspiro e sinto-me esmagado pela confrontação do meu tamanho
Com a noite além do céu dos santos, do gajo que mora no pão, o tempo bolor,
Para ti o próximo fim-de-semana pela eternidade, belo é belo e tu és feia.

05.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, maio 02, 2012

Outro Aniversário


É triste acordar, logo depois de entrares no carro comigo, o cemitério ali ao lado,
Fechas a porta e quando o teu cheiro tão próximo que quase o sinto iluminar o hipocampo
Acordar para mais um ano, longe do teu cabelo a frisar com o vapor da nossa excitação,
E hoje o dia é de Sol, chove-me nas recordações, mas nunca fui tão triste,
Trocam-se os sonhos por anos e as mão cada vez mais inúteis e vazias,
Os poemas amontoam-se, vazios que tentam preencher um vazio que cresce,
São velas que ardem em busca de uma cura para o tédio, mas só fumo e manchas negras
No crânio que nem se digna a guardar o que vale a pena, porque sabe bem que não há nada
Que valha a pena, valeram os teus lábios enquanto nos meus, tão húmida tu, tão sincera
Na minha pele e eu que quase nem joelhos, acreditando na eternidade dos teus olhos,
Eu todo a ser nebulosa dentro do teu universo, mas a porta fechou-se, eu acordei
E hoje nem chove, nem festejo, duro apenas, trago comigo todas as recordações
Que me fazem o hoje triste, porque quanto mais vida, menos vida se sente,
O calor sem o teu corpo é um desconforto, o Sol um horizonte difícil de olhar,
A humidade o que os olhos buscam, mas só palavras, e os anos somam-se, na tua ausência.

02.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

um dia pedi-te:
ama-nos
e tu esqueceste-te de nós 
e inventaste outro amor.