sábado, abril 28, 2012



Wonders of the East

Querubim


Nossa Senhora da Nazaré
Congelaste os olhos de Adriano -
Nesses pensamentos lugubres
Por onde viaja um apocalipse
Todo ele tatuado no corpo:
A loba faz um sinal impaciente
Para alimentar O grande Arquitecto
De leite em pó leofilizado
Como os capuccinos quentes
Que sorviamos na ânsia das imagens.
O Filme rodava entre um espelho
E a imagem de um anjo
Desfigurado pela mente de um Titã:
Três cavaleiros piramidais
Guardavam o corpo de Margarida -
Tinham a forma de mãos
Agarrando nesse abraço-carinho
Um sorriso de águia
Mais veloz que o amor: e a chuva
Caia sobre as nossas cabeças
Como as estrelas de Andrómeda
Inundando tudo de felicidade -
Mesmo com a virtude chorando.

segunda-feira, abril 23, 2012

há partes de mim que te lamentam e essas partes são como pássaros
que amarfanhaste para dentro do meu peito.

quinta-feira, abril 19, 2012

A Exigência Da Fome Pelas Inúteis


Escreve-se melhor com fome, com as sensações sacudidas pelo sono, as últimas
Gotas de sonhos ainda se despedem no esquecimento, as palavras gostam de fome,
Procuram o vazio e aí se multiplicam, são irmãs do priapismo matinal, viciadas
Em níveis baixos de serotonina, e contudo necessitam dias bons para se solidificarem
Nas circunvoluções, vizinhas do herpes à espera da fraqueza, da fome, latentes,
Lactentes do medo, da incerteza e da confusão, de barrigas cheias estão os livros
A arder, demasiada atenção na confecção dos sucos gástricos e as demais enzimas,
Inutilidades quando os dedos pedem carne de alma, os dedos que empurram êmbolos,
Primem gatilhos, levam à boca e com uma carinha daquelas qualquer um se dedicava
Às mamadas, com uma carinha daquelas as palavas não se ouvem, só olhos e palidez
Que pede a violência de um contágio, a perdição num sorriso, tantas fomes
As mães dos poemas, dos não poemas, das sedes e dos suicídios que duram luas e luas,
Hipoglicémias e alcolémias, fumos entranhados até aos ossos dos mortos futuros,
Inibidores selectivos da recaptação da serotonina, porque a vida não chega,
As palavras exigem miséria, miseráveis famintos de barriga cheia, chamas
Nas casas ao lado, alimentando a hipocrisia, as palavras tão necessárias como a vida.

19.04.2012

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, abril 16, 2012

Um Poema Sob Saudade Turca


para a D.K.
Tu esperavas fora da estação de comboios, o Sol ocupava-te o tempo e a tua palidez suave
Cortada pelos óculos de sol enormes, as tuas pernas cruzadas, até ver, lias algo que hoje
Daria outras recordações por saber o quê, e o rio esperava-nos, o dia dependia de nós juntos
Para se dignar a apagar a luz e nem sei quantas horas dura a eternidade, mas a que tu
Me ofereceste, tornou aquele dia num fósforo nesta vida cheia de vento e tantos nadas.
Enquanto o Sol se ia despedindo, também os copos de cerveja, de plástico, comprados
Numa tasca ali perto, os barcos rabelos para inglês ver, e eu e explicar-te com a língua
A história disto tudo, enquanto tentava escrever na tua pele poemas que só mais
Tarde tomariam a forma de palavras, muitas vezes antes de adormecer, as saudades,
E quem nos visse diria que não tínhamos vergonha nenhuma, mas se conhecessem
O brilho da vontade, achariam que a roupa estava a mais e que os meus dedos
Continham toda a minha vida, eu todo em ti, no crepúsculo à beira do Douro
E hoje os dedos só isto, a dor da tua ausência, tantas vezes só, na companhia de gemidos
Falsos, por favor a quem, pergunto-me, mas tu não conheces certos objectos
Que não acreditam no amor, não procuram ser amadas, exigem respeito de quem
Acredita nelas, pedem humilhação paga, claro que paga, nem um olhar seu é gratuito,
Sentem aversão pelo carinho e repugnância por quem as ama com sinceridade,
Oferecem-se à maior oferta, e acreditam que o seu valor é mesmo o da futilidade
Pela qual se vendem, e falo do amor que não foi amor nenhum, só aquilo que te dei
Sem tu me pedires, que foi todo, dei-me todo, esqueci-me do mundo quando
Tu a tornar importante apenas aquela esfera de Lolita Lempicka à tua volta,
Afinal o universo um tamanho definido que te rodeia e eu a humanidade curiosa por explorar
Todos os seus segredos, mais uma cerveja e o horizonte já púrpura, acendes um cigarro
E os meus pulmões a desejar o fumo que acabaste de inalar, e tu a encher-me de ti,
Do teu fumo perfumado, quem sabe, se acreditasse, um pouco da tua alma, passa
Alguém conhecido e eu bêbado de ti sorrio-lhe, como quem foi apanhado num pecado bom,
Tu o melhor pecado das minhas migalhas de hóstia, contas-me um pouco do teu caminho
Que eu beijo com a minha atenção, e sonho que a eternidade é a tua presença
Quando ela é possível, por isso desculpa-me esta traição, este querer trazer-te comigo,
Tão longe do tempo, tão longe de ti, ainda respiras e isto deveria ser a carta que nunca
Te escrevi, a resposta à fidelidade da tua memória, tanto esquecimento neste mundo
Sôfrego de passar e morte. Sabes que faço parte deste mundo, mas sou dos que quer tudo
E quer morrer, porque tudo impossível, só a vontade, só um momento e as eternidades
São só a resposta que se tenta encontrar num poema, mas saudade, não responde a nada.

12.04.2012

Turku

João Bosco da Silva

domingo, abril 15, 2012

nearer my god to thee

for all the souls that were swallowed by the ocean, 100 years ago today

tonight i'm going down dearest, down to the only home i've ever known.
tonight i'm going down dearest, down to the bottom of the ocean.
it won't take long, because i carry the weight of your heart in mine,
all the places we have been,
all the wedding pictures that were taken so, so long ago,
all the faces of our children.
tonight i'm going down dearest, with a soul not full of water but full of memories, that not even the sea itself can drown.

quarta-feira, abril 11, 2012

O orificio mais belo


A manhã é como uma corda, puxada através
Do orificio mais belo: a garganta;
Raspa atrás e de frente, sem preconceitos
O Café entorna em cima do vestido
O Cabelo leva pequenas flores de plástico
As mãos tremem-lhe:
É a primeira vez que se apaixona.
No andar de cima corre o burburinho de que Alice é doente mental,
Alberto desconfia de doença grave, renal,
Lucinda abre o cortinado e põe-se a cantar:
Nada melhor para afugentar este marido
Que Tal quotidiano vizinhar.
A manhã é como uma corda, puxada através
Do Orificio mais belo: as narinas.
As bolas de naftalina já são do tempo em que sua avó era viva
E Agora o café é também essa mistura intemporal
Do seu vestido manchado dando-lhe conselhos
Acerca da virgindade e uma solução matrimonial:
Mas lá de cima corre o burburinho de que Alice está mal,
Sofre de coração, está com mania-depressão -

Alice chora, afoga-se no café, nas bolas de naftalina
Nos conselhos da sua avó -
A manhã é como uma corda, puxada através
Do Orificio mais belo: as retinas.
Mas só no dia do casamento Alice pôde comprovar qual dos orificios era o mais belo.

segunda-feira, abril 09, 2012

#451


Ele desenha com as mãos o formato
Já esquecido o quarto: A luz, entrando,
Ofuscando o essencial no corpo jovem
Ela sentava-se longe - tinha frio
Do Combóio que estava perto - Toda ela enrolada
Esperando uma chamada, ou nem isso - Fez
A mala e guardou poesia, livros, gravuras:
Borboloetas mortas. Este é talvez o meu poema
Mais sincero, porque escrevo-o e e ao escreve-lo
Já estou longe: Fiz do sujeito poético um ego
só, que também poderia ser um eu - Escrevendo-te
Como uma despedida; Porque vivem para sempre os tons luminosos
Encadeando toda a beleza que fui incapaz de conter:
E Como a poesia dar-lhe um principio, meio e fim:
Inertes para sempre:
Amantes para sempre.

serra alentejana

um véu cinza cobre o dia que se estende pelos campos.
os meus olhos azuis são agora verdes como o que se estende a meus pés.
pela estrada, contemplo os parcos muros de pedra, refúgios de outros tempos e também casas destruídas pela memória ou pelo esquecimento.
também eu quero esquecer-me do que fica para trás, também eu quero ser como a aldeia branca e ser engolida pelos vales.
uma aldeia de pessoas, onde não mora ninguém.
não se ouve nada a não ser o respirar abafado do campo.
continuando caminho, imagino todas as crianças maltrapilhas que estudaram, com as suas sebentas, naquela escola primária, arrancada de um estado novo que hoje é velho.
as vacas leiteiras espalhadas pelo chão da terra incham, a alfazema desfaz-se-me nas mãos e pinta a paisagem de roxo, um roxo pálido, melancólico.
os montes, esses pintam-se de negro na distância e eu pernoito nas árvores repletas de arvéolas.
meto pela estrada e assusto-me com as perdizes desnorteadas que atravessam à traição.
num caminhito de terra e pó, desenhado por um homem que não vê, passeiam-se duas mulheres para combater a morte.
passo uma terra chamada Namorados e penso, o amor também chega à serra.
durante a viagem vejo paragens brancas e azuis, solitárias que nascem à beira da estrada, nas quais ninguém espera por autocarros que nunca passam.
a neve também caí na localidade Neves.
no entretanto, o sol espreita tímido pelas nuvens.
as ovelhas dormideiras estendem-se pelos montes, o vermelho cobre o solo e a argila trepa pelos pinheiros acima.
o olhar viaja pelas paisagens, pelas casas caídas de quem morreu para não voltar.
já é tarde, a solidão tem forma de milhafre e sobrevoa os caminhos que se estendem a custo pela terra que piso.

Laura G, Viagens do Olhar

domingo, abril 08, 2012

quarta-feira, abril 04, 2012

Meu Querido Anjo da Guarda


As pessoas iam e vinham,
E lá dentro uma miuda perguntava as horas,
Cá dentro uma miúda perguntava em que direcçao partias -
Aqueciamos todas as pontas soltas,
Fazia-te poemas à socapa - e tic tac -
O nosso tempo escapava-nos, invsivel
Como a imaginação fazendo-nos de tolos
Num quarto que Já não iamos a tempo de pisar:
Falavas-me de ternura, uma ternura fumada
Bebida, serviamos a ternura de acompanhamento à solidão:
Eu a mergulhar de volta à loucura
E da minha deformidade construir-vos -
Sempre de regresso à pátria dos Amantes
Onde todos os rostos são um corpo só:
O teu corpo, os teus ossos, resguardando
A Ansi-sociedade e toda a paixão
Dos nossos corações derretendo
Num pintura que eu não soube concretizar;
O Piano lá está, às vezes vamos para os copos juntos
Ele pede-me nestas noites calmas que o masturbe,
Mas a verdade é que a música na minha boca
É como um abismo do qual tenho medo:
Salta, Lígia, Salta Lígia - Em direcção ao meu pseudo-suicídio
Onde tu já não estás mais: As tuas mãos queimadas,
Queimaduras de cigarros, braços cortados a x-ato,
O teu peito como uma floresta tropical
Onde trovejava e ameaçava chover:
De tão próximo eu vivia em torrenciais.

segunda-feira, abril 02, 2012

poema do carro parado

ontem à noite vi o homem que amei.
estava ao volante, parada, contando o tempo num cruzamento qualquer,
desenhando uma vida que não tinha no espelho.
ontem à noite vi o homem que amei,
sentado no carro com a mulher que ele amava.
essa mulher não era eu.
uma vertigem momentânea,
a dor de uma alma que se arrasta pela vida,
o desgosto pelas impossibilidades das possibilidades.
eu queria estar naquele carro,
não pelo amor, nesse mijaram-me todos os tipos que conheci, mas que nunca me conheceram.
eu queria estar naquele carro porque com aquele homem,
sentia-me mulher.

domingo, abril 01, 2012

The Age Of Aquarius Ou a Ideia de Morte


A minha morte é lenta e dolorosa,
Os raios encheram o corpo de feixes:
Ardiamos em chamas, nadando no rio
Que jurámos atravessar - A minha mão
Toca do lado de lá um circulo perfeito
A Geometria é como a respiração -
Pára. As visões de um mundo novo
Sobrevoam a ideia de um corpo
Que poderia ser Uno: Nós dois
Num bebé - O teu rosto encarcerado
No meu
Polvilhando alegremente estrelas
E o Universo inteiro - Todo ele bipolar
Cujo o hemisfério mais longínquo
É o centro do teu umbigo.

perder o sono

ontem à noite as árvores sussurraram-me indecências enquanto te despias para mim.
os seus ecos pela noite dentro pareciam sereias que afundam navios, corações de marinheiros e eu não conseguia parar de as ouvir em mim.
no entanto não te disse,
estava hipnotizado a ver os desenhos com forma de sombra,
que se desenhavam em ti enquanto me fazias perder o sono.
fazes-me sempre perder o sono à noite amor,
fazes-me perder o coração para onde antes estava a cabeça,
fazes-me perder em ti e tiras-me a vontade de encontrar-me novamente.
tens em ti toda a beleza do mundo,
todas as casas em que nunca vivi,
todos os sonhos de todas as pessoas que habitam os espaços onde podes ouvir os passos quando o sol desponta até que o dia morre e dá lugar à noite.
há tantas caras aqui e no entanto, sem ter o teu corpo,
sem pelo menos senti-lo, ainda que distante, como sinto a vida que não sou,
nada me faz sentido.
dois-me como a vida que não tenho,
como as mãos que se anseiam mas jamais se tocam.
vamos para casa amor,
vamos para a cama.
quero que cortes através de mim como uma faca,
para que possa ser inteiro.