sexta-feira, março 30, 2012

bolsos de terra, alfarrobas nas mãos

para o J e a L, almas maiores que os montes

um dia os meus pés foram oliveiras, laranjas podres, chão daquela terra que sabe os meus passos de cor.
monte acima, a cavalo, cortando pelas figueiras era ainda uma miúda com o peito cheio de visões.
e lá ia eu, comendo todos os figos do meu bisavô que a contragosto me ficava agradecido.
diabético desde que me lembro, Joaquim não hesitava em devorar bolos, frutos às escondidas,
qualquer coisa que lhe adoçasse a alma.
tudo o que lhe adoçava a alma arreliava a da pobre Lucinda.
Joaquim tinha nos bolsos todo um alfarrobal,
gostava do campo e de planícies perdidas,
terras sem nome, por toda a gente esquecidas.
viviam no nº 13, numa casa que caiaram com as próprias mãos.
parece que ainda oiço a voz de Joaquim ao longe,
alojada nos cantos da memória como o pó nos móveis.
má mulher!
gritava quando Lucinda lhe fazia a conta aos doces que comia,
então refugiava-se no seu mercedes, abria a bagageira e tirava umas alfarrobas para trincar.
não era pudim de alfarroba, porque com esse só podia sonhar porque a sua mulher era o diabo e como tal era melhor nem sonhar com belos pudins, não fosse o diabo tece-las.
ficava então pela terra, que lhe pintava o mercedes,
a bóína que lhe cobria os pensamentos,
a sua ribeira que lhe escorria aos pés.
quando íamos para o campo levava sempre as ceroulas,
a marmita preparada pela Lucinda,
a solidão,
a vida presa numa corda,
as botas para pisar as ervas mortas.
a boa Lucinda era contadora de histórias fantásticas,
como a dos bois que caíram ao pego do inferno e nunca mais foram encontrados.
tinha alma de escritora mesmo sendo analfabeta,
penso que até podia ter sido poeta.
e lá ia eu com o Joaquim e a Lucinda, sem esquecer a Blandina pela estrada fora.
Joaquim ao volante, com a carta renovada por simpatia,
pois já tinha quase 90 anos e mal via.
Pobre Joaquim, pobre Lucinda apanhadores de alfarroba,
amantes da quentura das planícies,
que guardavam os sonhos na mala de cartão que Joaquim tinha comprado por meia dúzia de tostões para ir para angola.
um figo aberto em quatro, junto à árvore, o cavalo metido para o meio do mato,
e eu de joelhos esfolados, cheia de picos nos casacos devorava os figos que tinha nos bolsos,
como quem devora bolos, sentada na pedra onde Joaquim esculpiu um banco para se sentar nas horas de maior calor,
onde escreveu as suas iniciais JC e estou certa que as de Lucinda noutra árvore qualquer.
lá vinha ele e dizia
filha, vai-te ficar a doer a barriga
e era sempre tão verdade.
quando o sol se punha numa linha tangente à terra,
vinha uma menina a cavalo, com um carrapito de cabelo com o cheiro enjoativo dos frutos que apodrecem nas árvores, como as pessoas pela vida.
parte de mim ficava ali,
naquele lugar,
de onde sempre parti para voltar.

quinta-feira, março 29, 2012

há algo em mim que pula, chora e grita.
que finda e cessa como cessam todas as coisas que denominamos de vida.
não sei se o que finda é algo que existe em mim ou se sou meramente eu que findo.
o fim não me incomoda.
as coisas não me incomodam.
não me incomoda existir dentro de um espaço inexistente.
não me incomoda a solidão que não pode ser partilhada,
caso contrário não seria solidão,
mas sim uma ideia vulgarizada do que é ser só,
do que é existir num espaço onde nunca foi suposto algo crescer ou existir.
a existência, que ideia ridícula e doente que me adoenta a alma.
a minha mente é do tamanho do infinito e, como tal, todos os meus pensamentos se intersectam a pontos de não conseguir distingui-los uns dos outros.
não sei se são os meus pensamentos ou se são os das noites,
em que apenas adormeço quando se faz dia,
ou das pessoas com quem viajo nos autocarros com expressões de quem não se lembra de onde vem nem para onde vai,
a quem apenas importa chegar, mas nunca o onde ou o quando,
ou talvez exista uma hora específica, mas também se esquecem quando olham através das janelas desses mesmos autocarros,
como se esquecem dos sítios por onde passam até que finalmente chegam ao destino.
a vida é um esquecimento, flashes de sítios que nos são familiares,
exactamente por nos serem familiares.
é por isso que gosto dos autocarros à noite.
na verdade acho que gosto de tudo à noite, menos das pessoas.
no fundo essas nunca me agradam a nenhuma hora do dia.
a noite engole todas as almas,
por isso à noite todos têm alma mesmo os que nunca a têm.
a minha cabeça é um ser divagante.
acho que ela existe num plano oblíquo ao meu corpo e que apenas se tocam por breves momentos.
os momentos de clareza.
os momentos em que tudo é menos caótico.
um caos harmonioso.
uma dor que dói menos.
é como se tivessemos bebido e que a dor se amolecesse em nós como a vida.
amo a noite,
amo tudo aquilo que ela tem,
que ela encontra,
que ela finge ter.
e como também a noite finge, sinto-me nos hipócrita na minha pele,
porque a amo mesmo sabendo que ela finge e então,
nasce em mim uma esperança de que talvez alguém me consiga amar,
seja lá isso como for,
mesmo sabendo que também eu, tal como a noite,
finjo.

o céu hoje chorou muito.
por momentos acreditei que tivesse sido deus a chorar porque o seu brinquedo preferido não funcionava como ele queria.
no fundo nunca tinha funcionado,
mas depois lembrei-me que não acreditava em deus.
lisboa diluía-se assim nas gotas que vertiam das janelas do autocarro.
escrevo sempre em autocarros,
nem sei ao certo porque visto que a calçada se enoja do que escrevo e por isso solavanca,
como forma de me impedir de o fazer.
quem me dera ser ave e emigrar para as ruas da bica,
tão sós quanto eu.
pelo caminho vi o 28, o eléctrico e aí foi mais um deslindar de memórias,
que subiam desde a rua áurea até à sé e por fim até à tua cama.
e na rua do arsenal, despontavam grandes clarões, mas depois nunca se ouvia nada.
fode-me, pedia-te, com olhos de quem partilhou o chão com a mágoa durante demasiados anos.

A Confusa Lucidez Ao Acordar


Só tenho um dia de cada vez, não sei como esperam de mim eternidades,

Amanhã cá estarei se estiver, ou outro com quase a mesma cara, se calhar

Mais umas dores, menos para viver, a perturbação dos sonhos estranhos,

Em casa da avó, antes das renovações, partilhando com um escritor velho

Uma jovem de dezoito, que conheci acordado numa noite de Verão

E quase me oferecia a virgindade, mas só tinha aquela noite naquela noite

E tudo o que não agarrei, lá ficou, o medo a clamídia, na barba

Do velho, depois de tanta prostituta e mulher abusada pela vida,

Ele que as tentou consertar com o seu caos de porta sempre aberta,

Naquele mesmo quarto onde desenhei orgias, com golden showers,

Antes de saber o que golden ou showers, aos cinco anos, que me levará

Ao inferno, disse-me a minha mãe, por isso, que esperam de quem só tem

Um dia de cada vez e o inferno certo antes da primeira comunhão (?),

O quarto cheio de santos e cheiro a gente, o penico debaixo da cama,

O sonho sem cheiros, só o sabor metálico da carne fresca, a confusão

De estar sem saber como, nem por quê e a sensação de ser um sonho,

Por isso, mergulha-se na perdição que os dias não permitem,

O velho morto, muitos dos dias as primeiras palavras do dia,

As últimas palavras da noite, ajudou-me a perceber que tudo o que temos

É para se perder, ou não seria verdadeiramente nosso,

Por isso se perdemos, é porque um dia tivemos, ou a ilusão,

Mas tudo uma cambada de loucos sem diagnósticos, de viciados

Em drogas não rotuladas como tal, deuses donos de todos os dias

E eu que só me sinto dono dos dias que perdi para sempre, que foram todos

Os que passaram por mim, não passo da tentativa de os trazer comigo,

E nada mais me interessa de verdade, o meu mundo é suficientemente

Frágil para me ocupar todos os segundos, um malabarismo de cristal,

Tu sabes, se não sabes, não te vou exigir nada, por isso, não queiras

Que eu compreenda o mundo, chega que me deixe passar nele

Um dia da cada vez, os sonhos são meus, as recordações vou pedindo

Emprestadas à eternidade que tudo me engole e agora vou ler o que o velho me diz.


29.03.2012


Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, março 28, 2012

Alone with Everybody


the flesh covers the bone
and they put a mind
in there and
sometimes a soul,
and the women break
vases against the walls
and the men drink too
much
and nobody finds the
one
but keep
looking
crawling in and out
of beds.
flesh covers
the bone and the
flesh searches
for more than
flesh.

there's no chance
at all:
we are all trapped
by a singular
fate.

nobody ever finds
the one.

the city dumps fill
the junkyards fill
the madhouses fill
the hospitals fill
the graveyards fill

nothing else
fills. 

Charles Bukowski II


Charles Bukowski



para o A.

gosto de ti e de comer-te os lábios como quem come maçãs doces na feira popular.
beijar-te é assim, ter os lábios no coração e os teus a fundirem-se no meu pescoço,
como as luzes de uma feira distante na noite.
beijar-te é andar num carrossel de feira, é mergulhar na criança que há em mim,
na emoção de cada instante em que percorro um caminho desconhecido.
é aqui que me esqueço que sou mulher e colo a minha pele à tua pele,
pois crianças somos eternamente e na minha tolice de criança,
desejo de lábios cerrados ser eternamente criança em ti.

terça-feira, março 27, 2012

pleonasmos do ser

eu vi-te com estes olhos,
que nada viram ser ser quartos pintados de ausência.
eu andei com estes pés pela vida apenas para te encontrar.
tu foste-me corpo com o teu corpo e assim incendiaste a cidade.
e quando eu te agarrei com estas mãos,
fizeste dos dias cinzas.

segunda-feira, março 26, 2012

junqueira

a ponte 25 de abril intersecta-se na noite à traição,
por ela passam comboios que embora saiba os seus destinos não sei para onde vão.
as luzes, essas iluminam a rua a meia luz,
os candeeiros febris mantêm-se acesos como quem morre
e os que ficam passam em carros desnorteados que reluzem sob um céu de estrelas apagadas,
à medida que os eléctricos se recolhem como quem tem frio.

Marie


Para o David


A Música ia viajando, através dos cantos e recantos mais escuros da
sala e Marie desenhava circulos de fumo com a boca.
O Sorriso puxava um trejeito de miúda embalando o olhar esverdeado.
A mulher perfeita vive no corpo de Marie, como que prisioneira desse
Hemisfério que a separa música;
E a música cresce na medida das mãos, atravessando intervalos de toques -
Este silêncio pontiagudo que se esquece de viver.
É tão bonita Marie, nos seus sapatinhos de Lolita e vestidos de verão:
Um sonho de amor como aquele que sonhou Liszt.
Ela vira-se de lado para lhe segredar o Universo,
Mas o Universo é como um salto no vazio
E lá fora parece não existir mais nada.

Chá de Lírios doces, como sabem bem em Abril.
Marie trincou a pétala, havia algo do seu perfume que pertencia ali -
O Cheiro inundou a banheira, porcelana real, cálida, branca:
O seu corpo era como um espelho tinjido de espuma,
Escorrendo a pouco e pouco no sentido mais verdadeiro do desejo -
O amante reflectia o seu próprio rosto,
Enevoado por uma torrente floral que Marie deixava escapar
Por de trás da orelha.

sábado, março 24, 2012

A tua mulher chora a nossa despedida
Como que transtornado por do zero
Termos criado nada.
Sou a tua amante
Mais visivel que o som pode auscultar
O medo pega em nós, desafia-nos -
Somos o seu paradeiro mais fugaz:
Dois dedos de conversa aqui e acolá,
O piso de psiquiatria é ninho
De amor: sem história, sem música.
Júdite ainda tentou, como que tentada
Pelo teu sorriso ingénuo
 Fazer do silêncio
 Um beijo matinal - sonhado nas noites
Insones de seu piano
Que agora jaz junto ao coto quente:
Nunca mais amar desta forma outro ser.
A liberdade não previa uma história
Sem fim; eu só te pedi algo que pôr aqui,
Algo que acrescentar à vida, desfazendo-se
Tão tristemente à lacuna séria e amiga
Que somos.

quarta-feira, março 21, 2012

III Nascimento (Borboletário)


Judite sentou-se a escrever as notas num papel
E Logo o Escritor decifrava poemas ritmados
Ela usava tempos no lugar de virgulas:
As palavras faziam parte de uma música
Impossivel de ser executada.
Bebiam absinto na esperança
De contrariar Cronos e a
Volúpia inchava como uma Lagarta
Que cresceria no Orificio Moderno
De Judite - Com Judite - Através de Judite -
Como um dedo mindinho para tocar
A valsa aguda da sua schizo-efermidade;
Um encanto em decadência:
A pulsar no conjunto de terminações nervosas
Todas elas repartidas
No Oceano de mãos penetrantes
Desabrochando em borboletas engaioladas,
Para sempre presas nessa caverna
Onde sempre chuvisca.

II Arritmia de Abril (Borboletário)


Abril é o mês mais cruel
De que há conhecimento na história.
Compraste lírios e chá de Ceilão para celebrar:
Debicámos os cantos à casa, procurando a verdade,
Mas tudo o que sobrou foi o futuro nas chávenas de chá.
Chorámos a morte de Judite e depois, depois
Fez-se soar O coração, apoderando-se
Do gramofone - Beijamo-nos e no beijo
Ficou-nos o sabor do som, algo de uterino,
Salgado. A luz falhou – Ouviam-se passos no corredor,
Dead Souls e uma beleza estranha apoderava-se
Do teu corpo: recordei-a.
Já não existia uma saída para nós
Nem quando dizias saltar pontes,
Amarrar cordas, conduzir contra o penhasco,
E eu desfigurado batendo eternamente
À tua porta, mas vivias do lado de lá
De um acidente: eu acordava a transpirar,
Tinha este pesadelo
Tu mais um rosto no meio da multidão.
As nossas pernas tocavam-se a meio da noite;
Amanhã de manhã partirei para junto dos livros
E tu ficarás a recortar esse destino improvável:
Amor, eu sinto que noutra vida vivi aqui
E era homem, mataram-me porque fiz uma revolução.
O teu delírio era como uma arma de arremesso
A favor da solidão. E tu, parecias ainda mais bela.
O caos embrulhava os nossos corpos
Em pequenos sinais distantes; O tejo abria-se
Como um milagre, tecendo palavras,
Confidências a meio da noite: invariavelmente
Sobre o fim.

I Composição (Borboletário)


O Escritor sentou-se no alpendre e pensou em Judite,
Como ela dormia, o coto enrolado na perna, quente,
Latejando dedos fantasma de toda espécie: Uma mão
Que tudo maturbava a desfazer-se na pan-sociedade
Dos aleijados, dos enjeitados, dos sem-mãe -
De todos aqueles que não tiveram  escolha:
Iam Morrendo pouco a pouco, alimentando-se
Da parca ideia de esperança na humanidade;
E às vezes um pensamento ocorria no Escritor,
Levar Judite consigo, para sempre, Dar-lhe banho,
Pousar os seus dedos sobre o piano
E compor a Arritmia de Abril.

terça-feira, março 20, 2012

“O Que For, Quando For, É O Que Será O Que É”


Tenta-se registar o esquecimento de mais uma noite, mais uma visita ao paraíso

Dos inconfessos, mas só resta como prova o cigarro que os lábios vermelhos

Enrolaram, no bolso do casaco, os lábios que repetiam como se um olhar,

Silenciosos, quero-te, quero-te, fica esta noite comigo para te perder para sempre,

Entre o cabelo a improbabilidade do perfume que se quis levar para os sonhos,

Uma sede de excessos numa boca que parece ter sido incendiada na noite anterior

E foi, lábios em brasa de uma boneca de porcelana imperfeita, nos pulsos

As cicatrizes de uma dor que mais ninguém compreende. Mais uma oração

Engolida da lata de cerveja, pedindo a bênção do esquecimento, entretanto

Os lábios vermelhos desenham no ar promessas de pele húmida, suspiros,

Espasmos, aniquilação gratuita entre paredes estranhas, com o DJ de boxers

E um chapéu à Davy Crockett, passando músicas que ainda não foram criadas,

O surrealismo da realidade no paraíso dos inconfessos, as noites esquecidas

Que se tentam registar enquanto as recordações areia por entre os dedos

Que escrevem, e perguntam, para que bebes, se te perdes, se não trazes

Nada do que levas, para me perder, para brincar à vida na vida,

Também as mãos de terra encerram a noite das noites, o esquecimento

Das mãos vazias, sobre o peito, mas no coração já nada, coagulado o poema

Do que se esqueceu, outras noites como outras vidas, outras cervejas,

Olhos que falavam como os lábios vermelhos, as mesmas promessas

Noutra língua, o mesmo significado todas as promessas, o esquecimento.



20.03.2012


Turku


João Bosco da Silva


domingo, março 18, 2012

my dearest love, the thought of you fills my chest like birds fill the trees in the spring. you're just like spring, and your skin is a field of flowers that extends until sunset. so let me be a butterfly so i may kiss your skin, your flowers every single day until you cut my wings and lock my freedom inside your heart. what use is there in being free if i only find my freedom once i slip into your arms?

sábado, março 17, 2012

Durar A Vida


Durar, carne que sonha a vida de poucos, recordar, tudo o que não se é mais

E se arrasta como um amante abatido pelo destino, abrir Platão na noite

Quente e encontrar a madrugada enquanto uns nascem em cavernas,

Outros fecham cavernas dentro de si, outros só fome, outros da que se

Mata com pulsos cortados e frascos de benzodiazepinas cheios de ar,

Cansar, o mundo com o nosso tédio, engolir o esquecimento e acreditar

Que a amizade é uma eternidade do momento, como o amor

Enquanto o esperma seca e não seca, enterrar o ridículo com Nietzsche

E sonhar colapsos redentores na solidão de uma multidão de ovelhas

Obcecadas por símbolos, fascinadas pela sua ignorância que preenche

Todas as dúvidas, escrever, como se em cada palavra a salvação do mundo

Mais próxima, quando não passa da transcrição da entropia percebida

Pela carne, durar, sem outra razão a não ser acreditar, sem esperança,

Nos romances que nos leram para crescermos iludidos e felizes,

Para acabarmos mirrados desiludidos e tristes, mesmo debaixo de uma noite

Estrelada em Agosto, com o peso do firmamento a apontar-nos

A nossa mortalidade, nós também feitos da morte de estrelas, nesta pedra

Onde tudo dura, dura, ao Sol numa dança constate com a melancolia,

Abraçar, a perdição como a única certeza, querer apenas mais um dia

Para tentar fazer o último valer a pena, da mesma forma que os filósofos

Provam que os que morreram estavam errados, os outros o único

Inferno possível, quem não dura mais em Montparnasse, a consciência

De si mesmo a maior partida do universo a ele mesmo, pedaços de mim

Que se sentem a durar, durante o que é a minha eternidade, que se

Criam e destroem, onde nada se cria nem se destrói, chorar, porque os

Poentes nunca mais ao lado do seu perfume, ejacular, a explosão de

Uma super-nova, sentir que um nada adiado tem o poder de novos

Universos, dos que duram e dançam com a melancolia, dos que vivem

E dos que dizem que vivem e se procuram onde nunca estarão,

Porque desconhecem que a sua existência depende do fim.

17.03.2012

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, março 16, 2012

and when i think about you i think about quoting you keats until you fall asleep, resting my lips upon yours and drowning in your arms as if you were the ocean and you were made of lost treasures deep inside your soul.

quinta-feira, março 15, 2012

eu no fundo acho que sou exactamente o que sou e por isso é que tudo na minha vida é tão breve
como acender um cigarro na noite.
tentei agradar a quem me amou,
ou pelo menos a quem diz que o fez,
mas a verdade é que não durou muito.
sempre fui demasiado eu,
sempre fui demasiado egoísta embora me preocupe demais com os outros.
talvez também isso leve ao meu próprio egoísmo,
não sei bem.
assim não há juízo nem homem que te acompanhe.
tinhas razão Apeles.
não existiu nenhum homem que conseguisse acompanhar a tua irmã.
acho que para mim também nenhum homem existe.
Às vezes questiono-me se fui feita para ser acompanhada,
pois no fundo nem homens nem mulheres me preenchem.
talvez só a solidão preencha mulheres como eu.
e que mulheres são essas?
também nunca soube ao certo.

domingo, março 11, 2012

Dvorak Symphony No. 8 in G major, Op. 88 I -Allegro con brio

fui comprar uns cigarros porque já não conseguia encontrar nenhum esmagado nos bolsos,
depois pedi para ir à casa de banho.
estava a mijar de pé quando toda eu tremi.
a luz era dada através de um sensor de movimento e enquanto mijava apagou-se como apago o candeeiro quando escrever se torna a dor e não a tentativa do seu alívio.
estava eu, ali, envolvida em tamanho breu que me senti finalmente confortável para acabar de mijar.
aquele lugar era pouco maior que um cubículo.
e estava finalmente só.
mas nunca estou só, estou sempre eu e toda a gente que habita em mim.
toda eu sou tanta gente.
eu sou tanta gente.
sociologicamente procuramos estabelecer-nos dentro de um grupo.
cientificamente isto está correcto, mas sinto que existimos sós, connosco e que é exactamente assim que morremos todos os dias.
por vezes ocorre-me querer pertencer a algo, a algum espaço, inserir-me num género de pessoa que toda a gente conhece como o tipo que bebe demais,
o tipo chato,
o tipo que se esquece do nome de toda a gente,
o tipo que gosta de cinema,
o tipo que gosta de Mondrian.
limitar-me,
nem que seja apenas por um segundo e assim deixar de ser tanta gente e ser somente algo,
alguém.
definível, um espaço.
apenas um alguém.
ser tanta gente é nunca saber para onde ir,
nunca saber como reagir,
nunca saber ser constante para que os outros possam saber o que esperar de nós.
limitar-me.
nisto a luz volta a acender-se.
puxo as cuecas e paro.
desejo que a luz volte a apagar.
aguardo como quem aguarda por um comboio que nunca passa na sua estação.
o breu engole-me novamente,
falo sozinha e pela primeira vez o escuro não me mete medo.
não baixei a tampa da sanita e nisto assola-me um medo de que outro eu saía de dentro da sanita e me puxe para um lugar desconhecido.
isto atemoriza-me, mas no entanto não me mexo, pois a luz acender-se-ia.
oiço a torneira a pingar, os passos e as vozes dos que estão no restaurante.
falo baixo.
peço ao breu que puxe de uma faca e me corte a alma em dois.
não.
jamais será em dois porque eu sou tanta gente.
nisto paro, volto ao lugar que já não era aquele lugar.
acende-se a luz ao puxar as calças para cima.
lavo as mãos e fecho bem a torneira,
o som dos pingos a cair antes parecia o som da chuva e deixou-me com uma dor de cabeça.
saio.
acendo um cigarro e perco-me na noite pensando como até mijar me deixa num estado de exaustão.
a vida cansa-me,
estou tão cansada como os cigarros velhos que morreram no cinzeiro do meu quarto.

sexta-feira, março 09, 2012

À EDP, Que Todos Os Raios Partam


Na terra do meu pai os velhotes deitam-se cedo, acordam cedo, a pele
bebe todo a luz

Que o Sol oferece ao dia, o dia é de todos, à noite as lareiras são
como o pão,

Cozido no forno dos vizinhos, de vez em quando um rádio de pilhas
acompanha os mais sós,

Foi a prenda de Natal dos filhos que vivem na cidade grande, tiveram
que fugir do

Esquecimento do governo, o carteiro ainda vem de vez em quando para
anunciar

As contas do que não se pediu, a miséria para os medicamentos, mais uns
dias para plantar

Umas batatas, criar umas galinhas, mais um pouco de coração cansado dos
anos de mãos

Ásperas, demasiado suor por tão pouco que também querem levar, na terra
do meu pai

Come-se peixe do rio, porque a raposa levou a galinha poedeira, que
chocava

Os frangos que não se irão comer, na aldeia do meu pai quem fica doente
despede-se,

Obviamente ninguém engravida e os netos são todos da cidade grande.

A terra do meu pai chega aos quarenta graus no verão e nesses dias
ia-se ao rio,

Pescava-se, mas hoje, poupa-se nos segundos do coração, compra-se uma
ventoinha,

Ou usa-se uma herdada dos filhos, com toques de ferrugem e da janela,
recordam-se

Melhores dias enquanto se olham os incêndios no horizonte cada vez mais
curto

E o presidente diz que é preciso fazer alguma coisa, mas só há cajados
para ajudar

As pernas cada vez menos pernas, de cada vez menos gente, porque a
gente não

Se arrasta pela vida, não se esforça por durar como sempre viveu, o
presidente

Diz e é o que costumam fazer num país onde o crescimento do número de
uns

Vale mais do que as rugas, as dores, de uns quantos que nunca viram
mais nada

A não ser o que lhes tiram, e matam-nos ao contrário, porque é legal,
começam

Pelo passado e na terra do meu pai havia amostras de paraíso onde
alguém viu números,

Números que os que são a terra do meu pai, nunca irão cheirar, números
que são gotas

Do seu sangue cansado, rugas dos seus rostos esquecidos, gritos das
suas vozes ignoradas.

Um dia existiu a terra do meu pai, num país que foi o meu, mas o meu
país

Foi o lugar onde nasci, onde cresci, um lugar que existe só na minha
memória,

O meu país, a filha raptada que alguém muito gordo vendeu, hoje uma
prostituta,

Se fosse filho do meu país, seria filho da puta, sou filho da terra que
foi a terra do meu pai.


09.03.2012


Turku


João Bosco da Silva



domingo, março 04, 2012

22h

a noite é bela e no entanto triste
e os teus braços são maiores que todas as cidades do mundo.
há muito que ando com a candeia acesa,
procurando coisas que jamais encontrarei,
no entanto há um certo conforto na noite,
no saber-me finalmente só desenhando crepúsculos de cigarro entre os dedos.
a noite hoje parece veludo azul.
devias ver a noite, mas no fim nunca a vês.
és dono do sol e desprezas toda a tristeza que habita em mim,
como se do meu peito fizesse casa.
ela raramente se esquece da chave, mas se o faz dou-lhe a que guardo na alma.
nunca se atrasa na renda,
e quando causa distúrbios ninguém ouve.
fico assim sem poder expulsá-la
ou sem poder pedir ordem de despejo.
inventámos tantas coisas...
pessoas que nunca fomos,
um amor que, talvez, nunca tenhamos tido,
qualidades que nenhum de nós realmente possuía.
soubemos inventar tudo menos finais felizes,
mas no fundo a dor já não me incomoda,
ela e a minha tristeza são amigas de infância
e hoje temos, finalmente, uma coexistência pacífica.
novamente alguém soprou a vela da minha candeia e faz-se noite e ninguém me vê.
quando abro os olhos já se faz escuro e escorrem-me as lágrimas mais uma vez.
olho para o ecrã.
hoje vim ver o tokyo-ga do wim wenders.
nunca ninguém nos vê chorar na 1ª fila.

sábado, março 03, 2012

Holy whores

Sometimes I ask
Myself:
Why the hell I never
Fucked a whore?
It wasn´t lack
Of money,
Or empty balls,
Or living far from them,
Or moral,
Or shit.
So what was it?
I fucked all
This free women,
Clean or something
Like that,
With boyfriends
Who were crazy about them,
With husbands
Sleeping in couches,
Planned marriages
In three months,
Eighteen years old bright
Single children
Of their proud dumb parents,
And all sucked me,
They swallowed
My future children,
They made me be shit backwards…
But I never
Ever in my life
Fucked a whore
Or paid for sex.
Holy whores,
I´m too dirty for their misery.

João Bosco da Silva