quarta-feira, fevereiro 29, 2012

À Hora Da Sesta

Uma águia insiste em existir, apesar da porta fechada, das cortinas corridas
E do sono que a canícula injecta no olhar cansado de tanta novidade
Da mesma coisa, a embaixada francesa logo ali, a bela casa do ex-presidente
Com os luxos óbvios protegidos por arame farpado e guardas que derretem,
Mais abaixo o bairro de lata para quem a tem ou a encontrou, uma dúzia
De tábuas mal pregadas a tentar ser ao menos sombra, já que casa é difícil,
Um casaco de Inverno quando mais de trinta graus, só porque não se tem
Outra roupa e a polícia não gosta de gente nua pelas ruas, só os cães
Parecem falar a mesma língua, desinteressados da palidez dos dólares
E a águia continua a entrar pela janela, quer denunciar a farsa, quer dizer
Que tudo é mais do mesmo, o mesmo pior, o pior mais abundante,
Os mesmos Mercedes blindados com medo das bicicletas esfomeadas,
Ressuscitadas de um cemitério de bicicletas depois de mil mortes,
Afinal táxis e famílias dependentes de pernas incansáveis, tão finas,
Enquanto os ministros morrem por problemas cardiovasculares, gordos e só
Os cães parecem respirar o mesmo ar, guardam crianças de quatro ou cinco anos
Que guardam quatro ou cinco bezerras, vestidas apenas com uma camisola
Enorme, feita de pó, calor e dizem que algodão também, outra da mesma
Idade chora sem vontade porque quer saltar para a sobremesa, as moscas
Enchem a barriga de olhos e ranho na cara indiferente de um bebé, um francês
Paga um refrigerante e como extra, leite, depois de se silenciar o gerador,
De terem corrido os fechos das tendas e as hienas despertarem para acompanharem
Os gemidos das suecas que parecem nunca terem estado tão completas na sua vida
Demasiado fácil de suicídios imaginários, dramas artificiais e romances em poentes
Quentes à troca de umas notas sujas de suor, pó, sangue, esperma, mais do mesmo
Em todo o lado, diz a águia e fica a olhar como quem pede um rato, além do quarto
Pequeno numa cidade que ferve, um refúgio no inferno que a maioria chama vida
E só poucos a gozam, gozando também do inferno que fazem da vida dos outros.

25.02.2012

Nairobi

João Bosco da Silva

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

14 de Fevereiro


A Margot sentada, atrás do piano,
Já lá vão as sete vidas, mas pela
Primeira vez a gata escutava Beethoven:
Que bom seria receber um sinal
Ou fazer do Acaso uma resposta Universal.
A Judite há muito tempo que não diz nada,
É pena, tinha planeado um passeio
Ou talvez uma recolha de palavras:
Poderíamos plantar os seus membros desfeitos
Deles nasceriam Homens
Capazes de Amar - Esta linha evidente
Foi traçada por mim, por mais animais
Que alimente: Há sempre um que quer mais -
Só a gata foge do carinho. Entristece-me,
A quem mais poderia revelar esta face amorfa?

Do lado de lá do espelho alguém me segue,
Beijo essa figura, tento beijar-me:
Sorvo com sofreguidão um café e Judite
A Escrever Cartas.
Cartas como estranhos;
No Parque dos Loucos apetecia-me um estranho,
Mas a ideia de um estranho -

Ora Reflexo meu
Ora uma feliz coincidência -

Seria maravilhosa como um destinatário
Anónimo, abrindo esse envelope mistério
Até ao momento em que um ser, na verdade,
É humano apenas: A  verdade inundava-me
Como um físico descobrindo
Uma equação para a Morte. Tenho medo
Do Giz, sei que traçaram um hemisfério
E agora resta-me o pólo mais frio:
Lambes o selo lentamente - sou a tua efémera
Mulher-envelope.

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

Exterminador À Mesa Com Cadáveres Nus

“I´m getting so far out one day I won´t came back at all”
William S. Burroughs

Aparentemente, morreste mesmo, o mundo todo livrou-se de ti, ao contrário
Do que esperavas, não mataste o mundo, não acabaste com ele, as tuas mulheres
Continuarão a não ser tuas, outros irão entrar-lhes dentro, algumas terão filhos,
Outras terão melancolia e tu irás visitá-las, naquelas noites mais solitárias,
Mas ao Sol, nem pensarão no teu nome, tu moras na escuridão e o teu futuro
É o esquecimento. Ainda não nasceram ervas na tua campa e já sacodem o pó
De ti, é que a vida não suporta o peso vazio da morte por muito tempo
E já se está a festejar como se tu nunca tivesses desistido de tudo.
Tantos fins do mundo todos os dias, sentem-se com o ruído das massas
E amanhã estão os escombros limpos, a ocorrência registada para acrescentar à
História, como se fosse só para encher livro. Os problemas do mundo continuam,
Tu não eras o problema, só a consciência dos problemas, as sinapses
Desistiram de universos que se desintegraram em anóxia, enquanto outras
Estrelas se acendem todas as noites ignorando o tamanho insignificante
De dois olhos que se fecham, dois buracos de verme que terminam
Encerrando uma realidade no vazio eterno. Tornaste-te num sistema isolado,
Não aqueces nem arrefeces, apodreces, as cordas continuam a vibrar
E a permitir todas as injustiças contra a nossa moralidade inventada à sombra
De deuses imaginados, o Sol não é suficiente para todos e a fome parece
Ser o esgoto de uma civilização doente, corre debaixo dos hemisférios
Das cidades brilhantes e douradas. Os teus olhos tornaram-se cinzentos,
Podia-se perceber na mesa do café, enquanto falavas de cores e contra gerações,
Todos mortos também, copos falhados e erros irremediáveis, um Mugwump agarrado
Ao corpo de David Carradine e tu enterrado no anonimato de uma aldeia do interior,
Enquanto as abelhas continuam o seu trabalho na urze à entrada do cemitério,
Uma dolorosa indiferença voadora excessivamente doce. Têm morrido cantoras
Cansadas do seu cansaço pelo excesso da vida, sempre um excesso, quase tudo,
Quase nada, o mesmo excesso incompleto que é a vida e a reacção
Histérica dos vivos perante a morte é na verdade o festejar de uma vitória,
Ainda cá estamos a acabar, e uma certa inveja, como será estar morto,
Mas no fundo “quase nada é sempre melhor que nada”, querem acreditar
Os que têm a melancolia de uma vida relativamente fácil e sem fome de estômago vazio,
Mas no fundo sonham com mortes súbitas e coragem no décimo terceiro andar,
Esperam silenciosamente catástrofes naturais sentados no sofá a ver televisão
Só com a roupa interior vestida. Também te devem ter enchido o crânio com papel
De jornal, a última lavagem ao cérebro, mas escolheste tornar as sinapses em
Alimento para a curiosidade de facas, quando só tu sabes a verdadeira razão,
Quando só tu sabias qual a razão que não encontraste para desistires.
A tua cama ainda deve ter o teu cheiro e já as promessas de amor mudaram de nome,
A memória que não é escrita em pedras é muito volátil e desculpam-se
Com nomes de outros mortos como Karsakov, má alimentação, excesso de álcool.
O almoço está servido, mas não te preocupes, não arrefecerá à tua espera,
Não neste mundo de corvos vestidos de papagaios, que sonham com a infância
Perdida e fazem tudo para tornar a dos outros cada vez mais curta.

16.02.2012

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

memórias do eléctrico 28 (II)

aquele segundo, aquele instante em que olho os teus olhos ponderando o futuro,
uma mancha cada vez mais obscura de tudo aquilo que não tenho,
de tudo aquilo que não sou,
de tudo aquilo que não sei,
porque não sei o que é querer o futuro quando pernoitas em mim em forma de dúvida,
levo os meus lábios aos teus lábios na esperança de não sentir o que quero sentir.
e nisto sinto,
um momento de clareza.
podia viver neste momento eternamente quando sei que tu sabes que eu sei que somos todo o ar que preciso.
o que estás a fazer? perguntas-me a meia voz, naquele corredor escuro, que se escureceu de toda a invisibilidade que contém.
não sei bem o que estou a fazer, mas acho que nunca soube e quando sei é geralmente um mau pressagio.
encaro o teu olhar e puxo toda a confiança que nunca tive para te dizer que as coisas não são tão lineares como parecem.
o olhar é tão enganador como o coração, é como ver sem ver e como tal sentir sem sentir.
calei-te a noite na boca e saboreei cada instante de quando o fiz.
foi como morrer finalmente naquele espaço, como dar um pontapé à vida e viver pela primeira vez.
não quero escrever sobre ti, porque nem tu o mereces nem eu mereço sequer mencionar-te.
castigaste-me a alma, espetaste-lhe um pincel e fugiste. ou eu deixei-te fugir.
como é que se perde? de mãos fechadas.
eu perdi-te de mãos fechadas porque tinha a mente aberta.
vamos voltar a enganar o mundo ou então a enganá-las no seu mundo.
lanças-me uma mão à cara e atiras-me por terra,
meto pelas escadas e deixo-te só,
atiro-te o colar à cara e cuspo em tudo aquilo que fomos, por breves segundos apenas,
porque depois vens-me tu pelas costas e entras em mim, infectas-me com todas as possibilidades de um mundo de impossibilidades.
era tão difícil amar-te e ver-te partir,
amar-te e ver-te chegar,
amar-te e ver-te dormir,
amar-te e ver-te no meu corpo,
amar-te e amar-te obsessivamente.
tu, obsessivamente tu com toda a pele que junta me era corpo.
o ciúme, a culpa, as tuas lágrimas nas minhas mãos
tu despida dos teus medos, de quase todos os teus medos, excepto o de me perderes na corrente.
ela não entende o quão maravilhosa é, o quão tudo o que ela é são suspiros e sussurros numa casa abandonada pela noite nos meus braços.
és o meu maior segredo, o meu grande segredo.
não sei muitas coisas sobre a vida,
ou sobre o amor,
ou sobre as pessoas,
ou sobre mim mesma,
mas sei, nesta maneira utópica de saber quando se sente, que me arrependo
que me arrependo de te ter confinado e de ter deixado que me confinasses
ao quarto,
onde me desfiz em lágrimas e partes de ti,
em gritos e em pânico
de tudo aquilo que não fomos, de tudo aquilo que fomos,
lamento, lamento toda a dor, lamento todo o sofrimento, mas se estes não existissem teríamos sabido que foi real?
a single woman.

Ode ao Negro

Os corvos que esperam que o gelo eterno água
E que a morte venha à superfície, sem pudor,
Sem medo de mostrar a sua cor a olhares tristes,
Desprezam a vida que lhe corre em baixo.
As árvores cansadas das ilusões primaveris
Desmaiam até ao esqueleto do mais pudico,
Tombam a saudade do doce por terra e estalam
Quando à noite na cabana se quer a solidão de uma fogueira.
Deixam-se as cordas pendentes, tudo o resto vibra no limiar
Azul do nascer de um dia curto, o momento azul
Leva a melatonina que ajuda a aguentar o cansaço existencial,
Tão pesado nas horas do fim do mundo.
Grasnam, tossem o ar menos frio, as lágrimas congelam,
O vento fustiga a pele pálida, os olhos profundos e gelados
Num corpo que arde e derrete ao toque de mais um pedaço fora,
Deslizam, atritos esquecidos, não se sentem a maioria dos apêndices,
Esquecem-se, sensação de menos gente, escondidos nos corvos,
Negros na alvura excessiva da vida.
Estalam os instrumentos silenciosos dos funerais e das fogueiras do verão,
Os vidros no chão esquecidos e inofensivos, génios perdidos,
A melancolia nas pálpebras a fazer sombra ao sorriso,
Um toque leve nos lábios e uma cama desconhecida no ranger dos passos
Incertos pela neve fora e nem um cão se pronuncia em certas horas.
A melodia dos corações partidos propaga-se na temperatura,
Lentamente, entranha-se, arranha e não deixa o sangue correr livremente,
Sufoca o desejo real e deixa o corpo agarrar-se ao que houver,
Mesmo que os corvos esperem, desinteressados das crias para o vazio,
Dos que choram arrependidos pela humilhação consentida
Aos que os esperam e respeitam, penas negras no ar azul e tão breve.
O olhar perde-se no infinito possível, mesmo que dentro a consciência
De que não se vai tão longe e já se ultrapassou tal distância,
Reminiscências do tempo dos passos lentos e sentidos a cada quilómetro.
Dilatam-se no interior os versos e a carne dói como se estivesse a ser queimada,
Os pés arrefecem, ou sentem-se frios e o coração esqueceu-se de acordar,
Só o sofrimento de um vazio, de um negro que se instalou, que chegou
Sem nunca se acreditar que mais uma vez, impossível regressar,
Sempre, até ao fim das vidas que estão e das que virão,
Um negro que canta nos quartos vazios, nas ruas desertas,
Nas florestas congeladas, nos lagos das ilusões, as sinfonias esquecidas,
As almas abandonadas pelos corpos desejosos de uma dor fria.
Venham os dentes dos sonhos e façam brotar dos pescoços
Incautos algo líquido, quente, real e sincero, que deixe um ponto certo
Na incerteza branca trazida pelo inverno negro e cavernoso,
Solte-se um grito arrepiante de quem ficou sem pinga de sangue
Ao sentir o negro súbito, penetrando como uma dor impossível
Que se estranha e só a carne acredita quando os corvos avançam.

09.12.2010

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva

sábado, fevereiro 11, 2012

fala baixo,
sussurra apenas,
hoje tenho a alma de ressaca.
todo o meu corpo dói,
toda a minha alma dói,
nem consigo ver a luz por isso não abras as cortinas,
deixa a vida lá fora, por mais umas horas.

memórias do eléctrico 28

talvez se não vivêssemos neste voltar para partir valesse a pena.
amei-te como quem ama as pedras da calçada,
depois tu dizes-me ninguém ama as pedras da calçada e do outro lado eu respondo
então ninguém te amará como eu.
aquela casa foi nossa muitas tardes, o teu corpo com a forma do meu tantos dias
até que o meu corpo deixou de ser o meu corpo e passou a ser o teu corpo,
as tuas mãos,
os teus braços,
as tuas pernas,
o teu eu.
relembro vagamente os teus cabelos no meu peito,
quando subia a rua perto da Sé para te encontrar,
relembro como corri mais rápido que o 28 naquela noite em que chovia a potes
apenas para dizer boa noite e afogar-me na tua boca,
como os navios se afogam no mar e nós naquilo que nos faz mal.

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

de um lado as contas feitas
dispostas como as curtas distâncias se dispõem em relação à velocidade
os sentimentos desalinhados
traçando azimutes em posições desniveladas
à procura de um dia mais sibilino
de onde se possa levar lesta a certeza.
mas adivinhar o mundo é apenas mais uma narrativa
e de todas aquelas que se tecem, onde se esgrimem hipóteses
e personagens concretas como homens e nevoeiros,
existem poucas que nos dizem para onde ir.
na verdade é só isso que nos dizem
que não existem lugares, apenas espaço.
no fim sabemos, sem o auxílio da busca
e da descoberta,
que sofremos da ilusão da plenitude
de uma curta distância, que a intervalos se evapora
onde é o tempo, ou o cumprimento fiel da velocidade,
a decidir os verões ao teu lado
como quando escrevo um poema e a linguagem decide por
mim o sentido último que dou ao amor.

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Poema De Foder


“(I´m fucking the grave, I Thought, I´m
bringing the dead back to life, marvelous
so marvelous
like eating cold olives at 3 a.m.
with half the town on fire)
I came.”
Charles Bukowski



Deixa-me entrar, não me obrigues a olhos que não estes de fúria fertilizadora,
A quem tenho que pedir direcções, o Miller diz que adormeceu, estava exausto do
Seu amigo francês, nunca das amigas dos francos, e tenho abusado da confiança
Que o Bukowski não me deu, acho que o vinho do porto tem dois truques
Escondidos nos goles quentes e frutados, e nem dou por mim em vales de carne
Numa vindima de gemidos maduros, fermentados por um adiamento de roupa
E privacidade de olhos fechados. Não, isto não é um poema de amor,
É um copo cheio de suor, esperma e o que me escorre pela barba abaixo
Enquanto me apertas entre os teus joelhos, tocando no fundo de ti aquelas músicas
Lamechas em silêncio, que só se tornam compreensivas quando arrefecer em ti
E te aparecer em reflexos nas janelas dos autocarros, mas saudade não é
Vontade de mais uns orgasmos em troca de coragem, resignação ao desejo
Traumatizado pelos verdes anos lavados com doutrina e hóstias consagradas,
Saudade é uma das doenças dos dedos que escrevem versos sobre perdição.
O pecado é apenas algo como o amor, abstracto, como deus, não existe,
Só quem acredita sente, por isso a minha carne dentro da tua, não tem nada
De pecado, sentes, não acreditas, dizem-me os teus olhos surpreendidos por outro
Dentro de ti, mas existe e se não fosse o controlo, que me disseste que tu também,
O pecado podia ter um nome e não se pode chamar Luxúria a uma criança,
Apesar de ter sido avarento em relação ao teu corpo, na verdade só teu e de quem te
Paga com ilusões, tradição e comodidade, os sofás ardem com hipocrisia.
Olha-me direito, que os teus olhos foram meus, assim como os teus lábios,
Esses inocentes lábios, doces lábios, frescos lábios, à volta do meu caralho
Com uma fome provocadora, a tentar provar que tu capaz de acrescentar ao luar
No meio de um descampado, enquanto o mundo arrefece e as recordações
Da última no mesmo lugar a confundir-se com o teu sabor meu na tua boca.
Todo o atrito, que a tua excitação apagou com a magia que só as mulheres,
Renasce na forma de palavras que me deixam exausto, para no fim
Nem o risco de um futuro defunto, como uma foda ao ritmo imparável
Do vazio de garrafas de vinho tinto caseiro e Lana del Rey a provocar-me
Com a sua carne irresistível que os seus lábios solidificam na imaginação
Do impossível, mas as minhas mãos cheias de ti, enquanto o Marquês me
Segreda ao ouvido indecências que o meu corpo cumpre no teu
E o frio lá fora, na ruralidade purificada pela geada, pede lenha,
Mas a tua fogueira é outra e enquanto o vinho não se cansar,
Queimemos carne, sonhos e desejo, venha depois o desamor a desculpar
O cadáver da curiosidade, a velhice do desejo e a fossilizar as fodas que fomos.

08.02.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Ernesto



Vivo reduzido ao meu estado
De auto-comiseração, Finjo
Espelhos, Como Narciso
Andando à caranguejo: Comi mal a humanidade,
Toda ela tragada no jornal das 8;
Espreito pela janela, Lá dentro
É tudo tão quente, a escorrer
Um homem que não sou: com os meus filhos
E a cadela Mimi latindo funérea
De Ernesto sorrindo os beijos
Tão mal dados: Prisões-Lar seguindo-me
Nesta parca ideia de ser homem,
Mas de humano tão pouco
Viver - A cidade é uma selva
Assobiando canções cemitério,
Debaixo do solo cresce vida inusitada,
Como é possivel haver senso
No centro do caos? Ou uma flor,
Ridicula, crescendo a partir do cimento?
As faces envolvem-me, cozemos todos
Num grande bolo: Eu sou só mais uma migalha
Tragada num bico de um pombo;
Mas ao menos voamos levados,
Nessa circunstância mamífera
Que alguns chamam de destino - Meu pobre destino,
Roubo-te essa razão, pois não serei eu mais
Que a consequência funesta
Do simples e inquieto: Mero Acaso.

to live knowing that you'll never fully live

o momento em que finalmente consigo fechar as mãos. basta de andorinhas esvoaçantes. basta do calor do teu corpo como um deserto que me seca a boca.e no entanto paro. deixo que me leves enquanto me nego. poderei eu negar-me eternamente? negar-me permanentemente com o mesmo céu por cima de tudo o que sou? não penso em ti há muito, porque agora? porque hoje? não te chegam os arranha-céus, as partes escuras da cidade que guardas nos bolsos do casaco, a minha liberdade na tua boca. terás tu sido cruel ao destruíres a minha liberdade? e no entanto o que é a liberdade.. as árvores despem-se para mim, de cabelos ao vento. hoje morro na cidade. não há lagos, nem mares tão grandes como o vazio das coisas que não vivo. entender que nunca viverei tudo, entender e aceitar que nem todas as tardes que se suicidam do topo dos prédios não mudariam este destino ingrato.
destino ingrato.
saber que talvez nunca encontre o que procuro, mais grave ainda, nunca saiba o que procuro e toda eu seja umas mãos ofegantes que querem beijar desesperadamente o vento. quem és tu para dizer que a minha escrita é pretensiosa quando ela é a única verdadeira forma de vida que conheço. ingrata. e talvez no entanto eu mereça cada palavra cruel, talvez no entanto mereça que partas para um lugar onde não chego. sobre todas as copas das árvores inspirar finalmente toda a vida que nunca soube ser vida e ser manhã e ser noite e céu e estrelas, todo um universo para lá deste universo.

A Arte De Beber O Vazio Da Madrugada

Bebo, por desejar nada e sentir um vazio que se enche com a obnibulação dos pobres
De espírito, bebo por desejar demasiado e ter as mãos apenas para uma garrafa,
Se o mundo coubesse num copo, engolia-o de uma vez com a mesma vontade com que corro
Pela noite fora em direcção ao esquecimento, mas de manhã nada, por isso durmo
Sobre a ressaca, ignoro os jornais, as mesmas misérias à entrada da porta, as contas
Que só por estar agora a escrever de madrugada, com o frigorífico quase vazio,
O candeeiro ligado, o aquecimento a fazer esquecer a lareira e a neve que começa,
Os dedos que gastam palavras, crescem, as contas e troco oito horas dos meus dias
Para continuar sem sonhos, dormir doze horas por dia quando possível, ou por semana,
Sem saudades do Sol, sem saudades da amiga das bebedeiras, que me engole no jardim
Da cidade, em troca de um “tu”, por muitas vezes duvidarmos da nossa própria existência,
Um “tu” para ser “eu”, em silêncio, como se a ejaculação fosse o mundo que não se pode
Engolir, o futuro que chegou e nós ainda à espera, por que não se esperava nada disto,
O estrangeiro mais uma casa, outra gente feita da mesma merda, com os mesmos medos,
Executados em canaviais, esquecidos pela distância, violados pelos amigos, odiados pelos
Vizinhos, pelos irmãos, com um deus morto, uma colecção deles em pedra, a porcelana
Chinesa para as ocasiões especiais, que nunca foi nem será usada e que irá para o lixo
Por se ter esquecido nas gerações futuras que aquilo uma relíquia, o mesmo cansaço
Anos e anos após levar com o mesmo hálito, os filhos que se tornam desconhecidos
À medida que nos conhecem e afinal, todos gente, eles também nos bancos traseiros,
Nós também a cheirar pinho pela eternidade fora, que é madeira barata e os mortos
Já não ligam puto a cheiros, não podem ligar ou apodrecer seria um inferno.
E bebo, apesar de não haver há semanas uma gota de álcool no silêncio da madrugada,
Bebo as gotas da amargura, das mãos demasiado cansadas por tão pouco,
Tanto pó engolido no caminho incerto para pouco mais que umas horas de sono,
Que se adiam, se gastam numas palavras desnecessárias, inúteis, quando bastava um grito,
Um murro na mesa, uma garrafa contra a parede, o orgasmo anónimo na filha querida de
Alguém, a minha filha uma santa, santa da equipa de hóquei, gaba-se ela entre mais um gole,
Que se lixe, mais uma para a consagração deste vazio que serei, este nada que me sinto
E que não sou todavia, sinto e isso pode ter sido a razão do início do universo, por isso bebo,
Porque tanto é um deus quem cria um universo como aquele que o destrói
E amanhã será outro dia, nada será o mesmo, nada será melhor, tem-no mostrado os dias que passam.

07.12.2011

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, fevereiro 07, 2012

A Ninfa da Música



 Oh Judite, como choravas
Dr Jung prescrevia feitiços e
Exu entrava de noite, devagar
Pela cidade adentro como um tiro
Oh Fuck, You Shoot my Girlfriend
Ernesto pedia pão e vinho branco
Para acompanhar as mil cartas
Deste Judeu suicida que teima
Em viver noite após noite
Num eterno desconforto coital:
Somos o seu rebanho a aquecer
As pontas luminosas dos teus
Cigarros, como uma fantasia,
Luminosa, A Verter do seio
Directamente para o balde das priskas -
Onde guardei o teu coração
Enfezadito: Oh Judeu, ela
Cortou os dedos e agora somos
Ernesto virando-se no caixote
Tilintando o frio como
Borboletas de asas morrentes:
Tentei as proas de todos os barcos,
Os parapeitos de todas as janelas,
Os andares de todos os edificios,
Tentei os rios, as marés, as pedras,
Os quartos, as cordas, as armas,
Até o amor tentei - Mas nada é soluvel
Na tristeza. Oh Judite como choravas,
Devagar, noite adentro, as minhas mãos
E a tua palma sem dedos, gritando
As memórias de um compositor cego:
O piano estremecia e Ernesto
Vivia de insónia - O Judeu rezava-lhe
Toda esta cidade de viver formiga,
Comendo os restos desafinados
Da jovem Ninfa Judite:
Eram as buzinas, os toques,
Os sapatos batendo no chão -
Mas também o cantar doce da Lucinda
Do andar de cima.

Ajax ou deus pastoral



Um lugar para a sede
onde não haja
Água – só desejo de a ter
e por isso Vínculo,
Só as saias da Sede
Que alguém desenhou
 a subirem devagar
Uma mão de homem – sede do seu joelho
Sobe as coxas – a mão
Procura a parte mais quente da sede,
Todo o corpo pede novas formas de beber
Entre as pernas da sede - o homem lambe o seu sexo
A saia curta, ficou à cinta, por baixo dela a cabeça
O homem lambe a sede – ambos são seres personificados
A cuequinha de algodão para o lado
Pode ser no Miradouro do Adamastor
onde Churchill pediu para sair do táxi - olhou para a nuvem com a boca aberta
bebeu um bocado da chuva - mas queria beber a nuvem toda,
como disse o taxista cheio do Sonho Americano, se eu fosse homem
estava agora com uma erecção só de ver Churchill a olhar para Almada
enquanto os submarinos passam o Canal da Mancha - Todos os ministros no Bunker,
 ele foi comprar charutos a Picadilly -
deve estar a chegar, não deve estar em Portugal a beber nuvens -
O Fim da Guerra precisa dele - e a Paz também precisa dele
 Com a boca cheia de chuva olha para Almada (para o ponto onde vai estar  o Cristo Rei,
está lá só um homem que é uma estátua de sono - substitui-se por outra estátua
mete-se uma saia - Relva na cabeça, um bocado de gel - e vira-se a estátua para a América




Não existem eles nem nós – se virmos o desenho que faz
no espaço-tempo este prazer, por baixo da saia-
O tornozelo-sede – os dedos-sede, sem filtros
Ligados por um fio de Mão Aberta – a mão sede onde dorme um helicóptero
 um insecto suicida que choca com outros no ar quando há fogo cruzado -
tenho medo porque tenho mãos - a nossa Possibilidade incluí essa Voz
que nos chama


Antes de entrar no táxi     
Churchill olha para o relógio - seis e meia - Portugal a acordar - vê as traseiras de uma pastelaria
espreita pelas frinchas - Vê os pasteleiros com as grandes seringas culinárias
a injectarem o creme dentro das bolas de berlim e dos eclaires, dos outros bolinhos
como o mais perverso voyeur da indústria alimentar
espreita os pasteis de nata a saírem do forno - todo ele treme de euforia ao ver os bolos de arroz
a serem amassados, os bolinhos húngaros de chocolate e manteiga,


***

A mão da sede, em jeito de abandono pede ao homem:

Traduz o meu corpo para a linguagem dos rios,
Se me queres dar um prazer verdadeiro, traduz tu
Ajax ou Deus Pastoral
Que sabes todas as línguas
Que estás entre todos os povos,
Traduz tu Ajax ou Deus pastoral
A minha sede em água
As linhas da minha vida em rios
Da minha medula faz nascentes de ribeiros frescos
(Põe dois pastores em cada lado) e um guarda-rios
Mais a sua família feliz e o doce lar em que habitem
E que eles velem a minha descida pelas montanhas,
Desço por ti, fertilizo-te a terra
                                                dos meus joelhos faz barcos,
                                                Das rótulas as velas, dos ossos dos dedos: canoas
O tronco seco
E do meu sopro os que nela andem e que neles remem,
que os aldeões vejam o rio engrossar o seu leito
na medida proporcional da sua sede
E na medida proporcional da sua sede abram poços,
Traduz pois Ajax ou deus pastoral os meus olhos negros
em poços fundos, para que eles venham com os seus baldes
beber-me um pouco mais
E a sede que sou eu esteja neles e que a procura que é a sede
E és tu e todos, esteja entre nós,
Fontes límpidas de Minos, rio seguro que nós somos
A descer contínuo, no fundo deles põe um mar
Tradu-lo do leite do meu sexo quando me lambes e dás prazer
Ajax ou deus pastoral – tu tradutor que me lambes
Vês agora o mar que criaste do teu desejo
Vês essa onda que te molha os pés, coalha-se em espuma
É só uma onda que ri
um pouco atrás no paredão
num banco atrás dos namorados
alguém me desenhou para velar por ti


                                                              Nuno Brito

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

A Dormideira


                                                                    Os paraísos saem caros e são afinal muito pobres.
                                                                                           A. Escohotado

Se o lápis do narrador a adormeceu, só esse mesmo lápis a pode acordar... Por vontade do criador desta história (não sei quem é). Abriu a sebenta azul, as páginas numeradas, até à 30, os aforismos inúteis. E na 31 numa caligrafia carolina, letras muito redondas e cheias – linhas sedutoras – que podiam ser vistas sem ser lidas, admiradas as palavras não como palavras mas como desenhos. – O leitor podia adivinhar o seu gesto calmo, a respiração pousada, como se o coração saltasse algumas pulsações. Um carolino pulsar, a letra gorda anestesia os olhos – o lápis ficava mais nervoso depois – adivinha-se nas páginas seguintes o fio do seu raciocínio a ficar mais rápido, o arfar a passar para a escrita, o lápis nervoso acompanhando a história que surgia mais rápida. A história: “A Dormideira". Começava assim:
Um corvo tinha deixado cair uma semente de papoila. Veio a chuva, a semente nutre-se, incha, cresce, rebenta a terra… Na estação seguinte a Dormideira ganhou vida – o seu caule de sono, firme e determinado, mas ao mesmo tempo com uma certa apatia controlada, uma castração do desejo inibia-a de se erguer, a Dormideira (mulher ou planta) Espreguiçava-se por dentro em jeito de oração. Podia não ter sido um corvo – Podia ter sido um homem – os quatro braços da noite feitos para unir – e as suas sementes a ficarem dentro da mulher, na sua barriga ia crescendo a Dormideira. Planta ou mulher: era um elemento secundário (não uma elipse da narrativa, apenas um mistério e para quê procurar desvendar?). O narrador tem um lápis, mas ele é imaterial, desenha só o fundo das personagens, o seu perfil e núcleo, a sua essência, de resto os géneros mentem – as espécies mentem, não as há - Apenas Vida – Tratava-se de uma Vida, uma vida cuja função é dormir, uma vida para dormir, tirar a dor, anestesiar, tornar tudo branco. Essa, a função da Dormideira que crescia, os raminhos que se cruzavam, imitados no trabalho do ferro da Arte Nova (em candeeiros, varandas, entradas de metro, o ferro trabalhado como braços de sono, moldados do sono da dormideira) com o ofício único de dormir - com uma absoluta fome de vidas humanas, de fundos: sonhos humanos, subiam-lhe pelo caule, como ginga pela medula, num Sumo imaterial bombeado na seiva, tão fresco, tão novo e perecível, tão vivo, correndo para as pontas sensitivas, as penínsulas da alma, rasgavam o dia.

O céu muito escuro parecia provocar um coma induzido na Dormideira – A planta com braços de sono ganhava decididas inclinações que rasgavam a vigília do dia – Depois da estação das chuvas, A papoila a abrir as suas pétalas, fechava-as à noite, cinco minutos de um lento virar-se para dentro, para dormir - dormir verdadeiramente como nunca nenhuma pessoa conseguiu. Esta inclinação natural do movimento de fechar para dentro, (dos dedos e pétalas – a fêmea aninhada - a papoila aninhada) era captado por um realizador de Cinema Mudo – a câmara na sua visão parcial apontava – o campo/ conta-campo do crescimento. O realizador, obcecado por ciclos, anotava no diário o dia-a-dia da Dormideira, procurava naquele sono sedutor a origem da Anestesia; no inchar dos frutos pelo sol que os ia tornando doces e sumarentos, o ponto de viragem – a união entre realidade e ficção, noite e dia, homem e mulher – Porque as pétalas, os dedos, bebiam a Luz – Bebiam o sol líquido que é a luz (algo parecido com a música e daí muito parecido com o cinema Mudo, as estátuas da Morte e as danças da Ilha de Páscoa). Neste abrir-se o realizador, com o tripé, procurava o frame perfeito, o nano-segundo em que a dormideira, tomada pela metamorfose, começava a ser uma poderosa fonte de alívio da dor, de novas sensações, de abertura de novas portas. O nano-segundo em que de dormideira se transformaria na fêmea que cura. Um pregador jesuíta foi também captado na película sem que o realizador desse fé. Só mais tarde nas salas de cinema do Ocidente repararam que o pregador chamou à breve mudança da dormideira: Heroína. *Pelo seu crescer para dentro*

Amava para dentro,
… A sua função era dormir. 
Apenas algumas manipulações pelo homem… e daí muitos químicos diferentes dormindo dentro das pessoas, anestesiando-as, aninhando-as, fazendo com que elas se fechassem para dentro, num momento de crescer para dentro - muitas vezes um fechar para sempre.
 Tal como acontece com certas flores roxas, mortas durante a noite – Não se voltam a abri de manhã. Tal como acontece com certas Pessoas durante a noite, de manhã não voltam a abrir os olhos. O realizador filmava os gestos da dormideira (os reflexos rápidos, raciocínios velozes, extremamente rápidos e extremamente lentos ao mesmo tempo – o seu arfar de potro)

 Na fotossíntese guardada nos olhos, a metamorfose que os abria, habitando o paradoxo, tornando a escala da velocidade um ponto mínimo. Unindo a onda da vigília e a onda do sono num novelo – o sol injectava-lhe vida, destilando ópio do centro. A luz, os rápidos mensageiros, fotões e argonautas, entrevam na corrente da dormideira (sangue e seiva muito coloridos – néons rápidos de glóbulos a correrem nas veias – Dedos - Braços finos – Artérias – Dormia aconchegada – Primeiro Cristo nos seus milagres ia usá-la para tirar as dores aos homens. Depois outros aprendiam a fumá-la. Não sei se era uma mulher ou uma planta. Mais tarde na seringa - também na prata ela descansava – A voz parecia feita de pó de borboleta, os dedos compridos anestesiavam os doentes nos hospitais:
Um adormecer para dentro - uma perfeita caligrafia carolina, usada em néon vermelho rápido de flash para atrair um potro, em frente a um mar violeta – a espuma a cobrir-lhe as patas enquanto o realizador apontava a imagem do ângulo – O ângulo fervia.

Habitava entre a prata queimada e os pulmões – os reflexos de fumo cresciam – no sangue, bombeado para o coração… eles reviravam as cabeças para trás, o espasmo … Correndo no bege metaplasma o cavalo, a rota circular - da prata crescia a mulher. Um derrame nos seus olhos por terem visto demais – contra o branco, um novo branco – As colcheias pousavam na paisagem para uma visão fragmentada do sofrimento humano – novos filtros – luvas para as extremidades… sono que filtra:

 Faltam olhos a esta luz que fala – Só lhe falta ver-se a si própria, porque ver é criar / Tanto como rir – Apontava o realizador, eram as legendas no filme sobre a Dormideira – um documentário do qual perdeu o controlo.

                                                           ***

… o seu ofício era dormir. Um dormir-remar. O narrador tem uma borracha, pode apagar o sono, decidir acordar a personagem. Continua a história, com toda a pressa e na sua vontade rápida de dizer tudo, de a a despertar rápido num golpe de estilo. Mas na pressa, no traço nervoso sobre a sebenta, o bico do lápis parte-se. Fica interrompida a história. Ela continua a dormir.                                

            Também o narrador adormece com a cabeça por cima da sebenta. Não há quem o acorde.

                                                                                                                                                                              Nuno Brito

domingo, fevereiro 05, 2012


Ernesto há muito vivia na rua,
Duchamp deu-lhe de comer e pendurou-o.
As visitas eram guiadas, meia-duzia
De asiáticos tiravam fotos - Pela
Primeira vez era possivel o amor
Entre o observador e a obra.

Oh fuck, You shoot my girlfriend


Caminhamos, descontinuados,
Devia haver alguma coisa
Cá dentro respira-se morno:
Acabou-se o café, bebemos
Adrenalina, pura, O Dr.
Receitou feitiços; A obsessão
Tem qualquer coisa de agradável
E à noite o carro não pára:
Fumo directamente do tubo de escape,
A gasolina é a memória feliz
Do assento de trás e tudo
A inundar-me: A cidade, os corpos
Industriais da fome infinita
Com Bolos de arroz a bocejarem
Lentamente na boca que haveria
De beijar o mundo inteiro:
Todos, De volta à tão prometida
Terra de Leite e Mel.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

that secret that you know. meti pela estrada como quem não leva a consciência e deitou o bom senso ao rio. vou e peço, peço por tudo que isto não nos foda. e depois eu já não sou eu e depois eu sou apenas um corpo e depois eu já não sou um corpo, depois eu sou o mar e depois já não sou o mar e sou o oceano e depois és naufrago e agarrado ao meu peito, tentas flutuar. fundimos-nos numa praia onde os peixes se suicidam como as baleias. but you don't know how to tell. talvez os peixes sejam baleias e derretam-nos nas mãos. tanto que já me derreteu nas mãos que já não tenho nada nas mãos. derreteram-me rostos, sentimentos, momentos, pessoas, vidas e tudo o que nunca foi meu. acendo um cigarro e apago os desenhos com os dedos, os círculos que formo com os lábios. este partir e voltar. it fucks with your honour. estavamos noutro lugar e não aqui. podíamos estar em qualquer lado menos aqui. a carne trémula à luz das velas, um presente de futuro que não me pertence, uma história que não é minha e na qual, no entanto, permaneço. o amor de não amar, este partir para depois ficar, os teus braços. casa. and it teases your head.