Tínhamos sempre um encontro marcado, mesmo quando não tínhamos encontro marcado. Não tínhamos horas, porque tínhamos todas as horas da noite. Chovia tanto naquele dia, chovia tanto naqueles dias. Chovia como chovia dentro de mim. A tua mão na minha mão, são dois cafés para dois corações encharcados por favor. Eu não sei bem o que via nas conversas que puxávamos do bolso como quem puxa os atacadores para apertar os sapatos. A tua alma era tão simples e no entanto tão bela. Não existia uma intelectualidade pretensiosa ou sequer uma forma de intelectualidade que pudesse ser considerada intelectualidade. Não sei bem onde ficaram os planos que escrevi nas mãos, nas linhas do meu corpo que nunca despiste, aquela viagem a Lausanne que faríamos no verão. Eu só estou bem onde não estou, a fazer o que não faço, a sentir o que não sinto com pessoas que não conheço. Tens que ser melhor para estarmos ao mesmo nível, para podermos subir juntos. Que estúpida, que ingrata e pretensiosa que eu sou ou que eu fui. Que ideia fútil, que ideia de "romancezeco" de esquina, de faculdade. A simplicidade estava nas coisas que nos passavam pelas mãos. Na colher de café que punhas dentro da minha chávena, dos sinais vermelhos em que me beijavas, de saber que em casa éramos provavelmente cinco, mas que na mesa éramos só dois. Eu e tu, sem contar com a televisão. A felicidade estava nas coisas que eu não via porque enquanto eu olhava para os prédios, em como estes tocavam o céu e em como o mar era tão triste tu olhavas para mim, punhas a mão na minha perna depois de pores a mudança. Tantos beijos coloridos a vermelho naqueles sinais de Santa Apolónia, tantas reconciliações numa praia à noite, tantas coisas que fui guardando num bolso roto em vez de as guardar no coração. Eu tinha este hábito que tu odiavas. Punha os pés no tablier e acendia um cigarro sem abrir a janela quando chegávamos à praia. Tantas noites em que te contei a minha teoria de que o mar eram todas as lágrimas dos marinheiros, das almas que foram esquecidas e acabaram na corrente. Fui eu que desbotei as cores que nos deram vida, fui eu que quis mais do que aquilo que já era meu. Ontem à noite lembrei-me de como os meus cabelos esvoaçavam na janela, naqueles passeios nocturnos de jipe pela marginal. Da voz estragada do rádio e de tu baixares o volume com aquele não preciso de rádio quando te posso ouvir a ti. Dizem que a saudade é aquilo que fica daquilo que não ficou, eu cá acho que saudade tem a forma de quem passa pelas nossas vidas. Hoje acho que ela tem o teu nome e que nem todas as minhas lágrimas poderiam absolver os meus erros. Tantas cartas no coração, construí tantas catedrais no peito, tantas viagens que nunca fizemos porque eu queria assas para voar e quando mas deram eu achava que os meus braços bastavam e depois, como Ícaro, caí e o meu coração morreu num mar cheio de noite.
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