Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

O mulato do quindim


Para o C, que merecia coisa melhor

havia um mulato, vindo lá de angola
não sabia kikongo nem kimbundu
dançava muito e não tinha pressa nenhuma a não ser para a moamba
quando nos sentávamos à mesa eramos sempre quatro
eu, o pai e ele valia por dois
aquilo que ele sabia eram as alegrias que repousavam nas paisagens
o bem que vinha dos outros mesmo quando não vinha nenhum
e se havia coisas que ele não gostava uma delas eram fatos
porque ele dizia que continha a expressão do corpo, cada gesto assim agrafado
a um fato de domingo
o milho, o feijão e o frango no prato e quando puxava pela voz nem o Bonga lhe ficava indiferente
"come quindim, quindim cura os males do mundo"
e ele lambuzava-se, comia com os olhos e com a boca,
comia mais que as palavras comem as pessoas,
comia como o sol come as planícies das terras das quais jamais esqueceu o nome.
ontem foi domingo e lá te enfiaram num fato de domingo
toda a gente chorou muito à tua volta,
toda a gente disse que eras um cordeiro na noite a correr para o teu pastor
e eu olhava e também o céu chorava
ouviam-se ecos de gritos num vazio mesmo aquilo estando cheio
e quando eu olhei para ti, naquele fato de domingo, não consegui chorar senão em silêncio
porque te imaginei a meu lado a comer o quindim
"come quindim, quindim cura os males do mundo"

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