Domingo, Janeiro 08, 2012

Dispersos II

Será que posso vomitar esta pele que me consome? No outro dia à noite entraste pelos meus sonhos a dentro por uma estrada que me ia desde os olhos aos pés. Percorreste-me toda e eu deixei. Quando acordo a teu lado nos meus sonhos sinto-me segura. Num outro sonho despi-me da noite e saltei nua de tudo o que é meu para um lago cheio de ti. Não sei o que isso faz de mim, ou o que isso faz dos meus sonhos, quando pinto a forma do Chile na tua boca. Será que posso vomitar esta vida que nada me diz? Estou cansada de te ter dentro de mim Vida e hoje quero que vás, pois dentro de mim apenas pode estar alguém de cada vez. Vai hoje e volta daqui a uns tempos. Deixa-me morrer na poeira que são os meus dias a pisar estrada, esquecer-me que alguma vez tive um nome, que alguma vez tive alguém, esquecer-me de mim mesma. Não me interessa levar nada, tudo é desnecessário. A única coisa que não posso deixar, é exactamente a que mais me atormenta. A tristeza. Para a deixar, tinha que me deixar toda eu no fim do mundo, nunca mais voltar e morrer definitivamente dentro do que sou. Não sei se faz muito sentido todos aqueles comprimidos meu amor. Podias ser tão mais feliz sem mim. Podias ser tão mais feliz se eu não existisse nos círculos perfeitos onde pintas a vida e o Mundo como o conheces. Devias deixar-me morrer só enquanto podes. Devias deixar-me morrer antes que eu te mate, antes que eu nos mate. A vida é tão mais bonita quando te imagino a continuar para os teus sonhos sem mim. Eu não mereço fazer parte dos teus sonhos. Eu sou a faca que lhes corta as raízes que os fazem crescer. Aquilo que eu tenho no lugar do coração é um deserto, um vale esquecido, uma ilha. O meu coração é uma ilha queimada que se alimenta da tristeza da noite. Aquilo que me custa mais é que quando os dias cessam noutros lugares, aqui o dia nunca chega. Como é que chegamos aqui? Onde ficou a nossa alma se é que algum dia existiu? Tantos rostos, tantos momentos e no entanto trago a mala do eu vazia. Não tenho norte, não tenho sul, nem sequer tenho bússola. Não tenho nada e tu tens tudo. Que bom que tens tudo, espero que tenhas sempre tudo. Eu nunca quis ter tudo, ou talvez quisesse quando acreditasse que tal era possível. Hoje não quero nada, hoje não tenho nada. Caminho por estradas que não existem, planeio viagens que realizarei quando me deitar, desenho espectros na ausência dos dias que já não são meus. E se eu um dia já não conseguir mais aguentar este coração? O meu coração parece uma pedra, porque é tão pesado, está tão carregado de tudo o que foi, tudo o que não ficou, tudo o que se perdeu. E talvez no entanto não tenha perdido nada, talvez continue a ter tudo de uma forma que poucas pessoas entendem. Comigo caminham todos aqueles que se perderam no Mundo. Eu finjo tanto. Finjo demais para o meu próprio bem. Para a sanidade mental que nunca tive. Sempre rasguei a lua e sol quando os vi. Pintei as folhas das árvores de branco e de pés descalços percorri todas as pegadas que encontrei. Andei por nenhures, andei por algures. Tudo mudou e no entanto tudo permaneceu. Não sei se durarei muito mais aqui. Como é que se finaliza uma prosa que continua? Talvez a minha angústia seja a chave que encerra os meus dias.

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