Domingo, Janeiro 01, 2012

Alone in Kyoto

O ano começa comigo a bordo de um avião. Vou fugir meu amor, vou finalmente fugir de ti e desta vida que me apodrece como um cancro, escrevo-te. Rasgo o papel, e meto-o novamente no bolso. Nunca sou capaz de te dizer aquilo que as palavras não deixam. As palavras às vezes são como os amendoins, ficam presas nos dentes e quando as queres tirar com a língua elas não conseguem sair. Encosto-me à janela e fecho os olhos. Volto a ver a Praia das Maçãs, onde te persegui num carocha, o vento nos teus cabelos, as tuas mãos vazias de nada e o mar cheio de ti. Eu cheio de ti. Abro os olhos e voamos por entre as nuvens. Olho para o tipo ao lado e este dorme sem se aperceber que entrou no novo ano. E depois penso que quem fez este voo é porque está a fugir do novo ano, talvez como eu, a fugir de um futuro que temem, inventando um presente e perpetuando um passado. Kyoto. There's not a better place to feel completely alone. Eu sempre gostei de lugares gigantes, onde podemos arder como uma vela num quarto de hotel que ninguém dará por nós, pelo menos até o alarme de incêndio disparar. Chamavas-me masoquista, nómada onírico, coração vazio. Se soubesses como o problema é o meu coração estar cheio nunca me terias dito isso. Entretanto já estou de pés no chão, aterrei à alguns minutos e estou à espera da bagagem. Os pés estão no chão, mas a cabeça continua nas nuvens. O caminho que percorrem as bagagens quando chegam parece o da minha vida. É um ciclo, é andar à volta à espera que as mãos certas me agarrem, mas quando me agarram percebem que sou apenas uma mala parecida, neste caso uma vida parecida e pousam-me e estou de regresso ao caminho que conheço. Apanhei um táxi. Foda-se, devia existir um botão para desligar esta máquina pensante. E o táxi percorre as ruas cheias de gente que nunca vi, de caras onde tento desenhar rostos familiares e que rapidamente desaparecem. Tantas luzes, tantos carros que vão e vêm a toda a hora e que não sei para onde vão. Tantos sinais cheios de inscrições que não sei ler. Dava tudo por ti aqui agora, um cheiro familiar, o teu corpo no meio de uns lençóis brancos, o teu lado fresco da almofada. E nisto abro os olhos e o tipo do táxi está a olhar para mim, a inventar mil e uma histórias para o meu estado mental. Quando perco o táxi na distância de um olhar e vejo apenas o desfoque de luzes lembro-me de tudo aquilo que te disse e que não te disse, das promessas que te fiz sem a menor intenção de as cumprir e sinto-me tão falso, tão morto, no entanto ainda agora começou o ano. Um novo começo. Para quem? Só se conseguir esvaziar o coração.

1 Comentários:

  1. Adorei Laura, é sempre bom entrar neste recanto e ler-te *

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