domingo, janeiro 29, 2012

complanares

existia uma casa, ou melhor, um andar
numa rua pela qual nunca passava.
não era um andar sem luz nem um andar com luz
era um andar a meia luz.
não me lembro bem como fui parar a esse andar a meia luz
ou como te conheci,
nem sei se num poema te consigo fazer jus
ou se o melhor era ficar por aqui
porque aquilo que eu guardo comigo são aqueles flashes
que repousam no fumo dos teus cigarros,
os ecos do jazz, o chet baker a escorrer pelos meus ouvidos,
as minhas lágrimas que molhavam a camisa branca.
a memória do que se esqueceu e permaneceu ali.
és, talvez, um talvez certo, das melhores pessoas que conheço e que melhor me conhece.
os planos das nossas conversas intersectavam-se com a alma,
a voz que se recortava e se colava nas paredes,
o pó dos silêncios que repousava nos vinyl,
aquele livro onde guardavas as chaves daquela porta.
e no entanto o que eu mais gostava era de sair daí apenas quando caía a noite,
quando não havia mais tempo para ficar,
mais palavras para dizer.
as tuas mãos traçavam rectas que apenas se tocavam no infinito,
desenhavas montes e vales com um cigarro entre os dedos e depois dizias epa (...)
muitas vezes dou por mim a pensar no tempo que passou desde que te vi pela primeira vez
desde que entrei no andar a meia luz pela primeira vez
nas pessoas em que me fui metamorfoseando desde a primeira vez
e no entanto algo permanece imutável,
a admiração e o carinho que ficaram fechados num dos teus álbuns
de momentos gelados no tempo.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Crush


A cera da vela derretia,
Sobre a tua mão, sobre a minha
Escorrendo noites holandesas
E luzes vermelhas no coração
Dos gigantes de Néon - Rasparam
O silêncio das chávenas de chá,
Como algoritmos franceses:
Sabiamos lá que a linguagem
Tinha fracções gestuais
E preliminares; Decidiram chamar-lhes
Afectidades Obscenas, mas iamos
Dançando os desenhos perdidos:
4 Bicicletas ou mais em Paris,
Deixei ao acaso o amor anónimo
Sugado pela história Universal
Desse beijo rotunda no palato
Das bocas de leão. Custou-nos,
Como custaria uns euros ou mais,
Nas dores cervicais das dobras
Dos envelopes que fomos enviando:
Nunca havia destinatário,
Só um livro de poesia, por ler,
E umas quantas garrafas de vinho
Choradas na infância passageira.

terça-feira, janeiro 24, 2012

a work in progress

aquilo que eu queria saber é quantas horas tem a noite, quantas camadas tem o arrependimento humano, quantas definições tem o amor. o amor. falo tantas vezes dele e no entanto não sei do que falo. "fazemos o que podemos para viver". será que vivemos? será podemos dizer isso? ontem à noite voltei à rua, voltei a fazer a mesma pergunta: como é que chegamos aqui? no entanto nunca obtenho resposta. entro no carro e meto pela marginal. acendo um cigarro ao volante e borro a maquilhagem. merda. nem a merda da maquilhagem se mantém. no entanto não sei quem será mais falsa, ela ou eu. no entanto não sei se se tratará de falsidade e enquanto não descubro paro. encosto junto a uma praia da qual não me lembro o nome. puxo de outro cigarro e queimo-me. merda. depois abro a caixa. abro sempre a caixa nestas noites despidas de corpos quentes. relembro aquele tipo a fazer um cigarro na sua cadeira. aquele tipo. que falta de tudo. se ao menos lhe pudesse chamar pelo nome. mas a noite já vai longa e eu estou tão cansada. estou cansada das palavras, das pessoas, do futuro. estou cansada e o que eu mais quero é não falar, não pensar. o que eu mais quero é que a memória não seja um barco que se afunda em mim quando a tristeza também me corrói.

respondo a um estranho o enigma
o iluminado destino do homem incógnito
que poderás ser tu, poderei ser eu
e não saberemos
e não saberei se é um rumor que fala
ou se o fim se pronuncia nessa tristeza desconhecida
no segundo acto dessa melancolia serena
vacilo fechado entre quadro paredes
a quatro passos topológicos da igreja mais próxima
onde é fácil esquecer
mas hoje
vem-me à boca o cheiro de que a vida se tornou inválida
e estabeleço-me aqui sereno
entre a dúvida em saber se parto
ou se fico por mais dois actos.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

O mulato do quindim


Para o C, que merecia coisa melhor

havia um mulato, vindo lá de angola
não sabia kikongo nem kimbundu
dançava muito e não tinha pressa nenhuma a não ser para a moamba
quando nos sentávamos à mesa eramos sempre quatro
eu, o pai e ele valia por dois
aquilo que ele sabia eram as alegrias que repousavam nas paisagens
o bem que vinha dos outros mesmo quando não vinha nenhum
e se havia coisas que ele não gostava uma delas eram fatos
porque ele dizia que continha a expressão do corpo, cada gesto assim agrafado
a um fato de domingo
o milho, o feijão e o frango no prato e quando puxava pela voz nem o Bonga lhe ficava indiferente
"come quindim, quindim cura os males do mundo"
e ele lambuzava-se, comia com os olhos e com a boca,
comia mais que as palavras comem as pessoas,
comia como o sol come as planícies das terras das quais jamais esqueceu o nome.
ontem foi domingo e lá te enfiaram num fato de domingo
toda a gente chorou muito à tua volta,
toda a gente disse que eras um cordeiro na noite a correr para o teu pastor
e eu olhava e também o céu chorava
ouviam-se ecos de gritos num vazio mesmo aquilo estando cheio
e quando eu olhei para ti, naquele fato de domingo, não consegui chorar senão em silêncio
porque te imaginei a meu lado a comer o quindim
"come quindim, quindim cura os males do mundo"

quinta-feira, janeiro 12, 2012

eu quero desnacer,
inventar uma vida que nunca terei que viver
e sair das tuas mãos
eu quero entrar-te pela pele,
alojar-me como uma bactéria
e morrer contigo
hoje não saias, hoje fica cá dentro
o teu corpo é um chão que se queima
e hoje ardes dentro de mim.

terça-feira, janeiro 10, 2012

O mar que és

Vens e aos poucos transformas-te numa onda perfeita,
Enrolas o sol e as estrelas e levas tudo contigo,
Sem saber bem atiro-me ao mar, esqueço-me de que não sei nadar
Asfixio, tentando desesperadamente vir à superfície
Tentar respirar o ar que preciso mas não consigo,
Morro como as ondas que quebram na areia e espalho-me em ti,
Como se areia fosses.
Leva-me a memória para isto não doer tanto,
Faz de mim um porto solitário que sou
Uma ilha abandonada que se inundou e hoje que se afunda em ti,
Se não me deres um frasco com pirilampos não saberei voltar para casa,
Será que quero voltar para casa?
E no entanto a tua língua tem as palavras mais plenas e eu deixo-me levar na tua loucura.
Deixo-te entrar pelo meu corpo dentro, fazer de mim a tua zona de rebentação
Mesmo que queira sair, agora já não há saída,
Eu quero levantar-me e tu não deixas e se tento rebentas em mim.
Ontem à noite construí muitos países, tatuei-os nas costas e esperei por ti,
Com esperança que me levasses a algum deles.
Ontem levaste-me à Patagónia.

domingo, janeiro 08, 2012

Romances de Cavalarias


Vai uma história sem rumo,
E ás vezes um coração ofegante
De prazer: Mais um copo à frente
E o teu volante a conduzir-nos
Num estranho carrossel de 100 cavalos
E um burro - Meu querido Sancho Pança
Devolve-me a tua mulher que nos espera
Em casa, sempre tão só, sempre
Tão arrumada - Será que entristeço
De tantas palavras, e tão pouca
Aventura - Meto mais uma moeda
A máquina devolve-me um dedo
A apontar a saída:
Mas tenho medo de chegar a casa
E de ti só encontrar um corpo aos bocados.

A paisagem é bela, e eu adormeço
À porta do quintal onde vivem
As flores-Livro que me escreveste
Nos verões polaroid passados no campo;
Bem-me-quer, Mal-me-quer:
Só páginas rasgadas, calhou-me
Aquela em que tu serias uma floresta
Andante, Caminhando raizes
Através de uma longa morte minha
Cantando Setembro, sempre tão só,
Sempre tão arrumado - Meu querido
Dom Quixote devolve-me o Gigante,
De cujo fumo dos cigarros
Nascem nuvens -
Será que me engano de tanta poesia
E tão pouca realidade:

Meto mais uma moeda na máquina
Bebo mais um café no piso de psiquiatria.
O troco sai certo:
Tenho medo de chegar a casa
E de ti, não encontrar corpo algum.


Dispersos II

Será que posso vomitar esta pele que me consome? No outro dia à noite entraste pelos meus sonhos a dentro por uma estrada que me ia desde os olhos aos pés. Percorreste-me toda e eu deixei. Quando acordo a teu lado nos meus sonhos sinto-me segura. Num outro sonho despi-me da noite e saltei nua de tudo o que é meu para um lago cheio de ti. Não sei o que isso faz de mim, ou o que isso faz dos meus sonhos, quando pinto a forma do Chile na tua boca. Será que posso vomitar esta vida que nada me diz? Estou cansada de te ter dentro de mim Vida e hoje quero que vás, pois dentro de mim apenas pode estar alguém de cada vez. Vai hoje e volta daqui a uns tempos. Deixa-me morrer na poeira que são os meus dias a pisar estrada, esquecer-me que alguma vez tive um nome, que alguma vez tive alguém, esquecer-me de mim mesma. Não me interessa levar nada, tudo é desnecessário. A única coisa que não posso deixar, é exactamente a que mais me atormenta. A tristeza. Para a deixar, tinha que me deixar toda eu no fim do mundo, nunca mais voltar e morrer definitivamente dentro do que sou. Não sei se faz muito sentido todos aqueles comprimidos meu amor. Podias ser tão mais feliz sem mim. Podias ser tão mais feliz se eu não existisse nos círculos perfeitos onde pintas a vida e o Mundo como o conheces. Devias deixar-me morrer só enquanto podes. Devias deixar-me morrer antes que eu te mate, antes que eu nos mate. A vida é tão mais bonita quando te imagino a continuar para os teus sonhos sem mim. Eu não mereço fazer parte dos teus sonhos. Eu sou a faca que lhes corta as raízes que os fazem crescer. Aquilo que eu tenho no lugar do coração é um deserto, um vale esquecido, uma ilha. O meu coração é uma ilha queimada que se alimenta da tristeza da noite. Aquilo que me custa mais é que quando os dias cessam noutros lugares, aqui o dia nunca chega. Como é que chegamos aqui? Onde ficou a nossa alma se é que algum dia existiu? Tantos rostos, tantos momentos e no entanto trago a mala do eu vazia. Não tenho norte, não tenho sul, nem sequer tenho bússola. Não tenho nada e tu tens tudo. Que bom que tens tudo, espero que tenhas sempre tudo. Eu nunca quis ter tudo, ou talvez quisesse quando acreditasse que tal era possível. Hoje não quero nada, hoje não tenho nada. Caminho por estradas que não existem, planeio viagens que realizarei quando me deitar, desenho espectros na ausência dos dias que já não são meus. E se eu um dia já não conseguir mais aguentar este coração? O meu coração parece uma pedra, porque é tão pesado, está tão carregado de tudo o que foi, tudo o que não ficou, tudo o que se perdeu. E talvez no entanto não tenha perdido nada, talvez continue a ter tudo de uma forma que poucas pessoas entendem. Comigo caminham todos aqueles que se perderam no Mundo. Eu finjo tanto. Finjo demais para o meu próprio bem. Para a sanidade mental que nunca tive. Sempre rasguei a lua e sol quando os vi. Pintei as folhas das árvores de branco e de pés descalços percorri todas as pegadas que encontrei. Andei por nenhures, andei por algures. Tudo mudou e no entanto tudo permaneceu. Não sei se durarei muito mais aqui. Como é que se finaliza uma prosa que continua? Talvez a minha angústia seja a chave que encerra os meus dias.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Real Love


Meu amor madre-pérola,
Olha-nos, a desfazermos
Em ponto caramelo o corpo
Em nostalgia e folhas de Outono -
Rash-Rash - Como queimávamos os pés
Nesses passeios ínfimos
Pelas avenidas de uma cidade
Que chora um Rio: Descoziamos
Os botões, alinhavados às palavras
Da poesia e construiamos pontes.
Vamos remar a favor do mármore,
Não tenhas medo: Mil suicidios
Aconteceram quando eu parti,
E agora sobram cartas para lermos
Até ao fim da vida. Juntos
Venceremos o flogisto, acolheremos
Patriamente a vitória da cinzas,
Manjaremos tenras asas de fénix
Até nos esgotarmos num jardim belo
E uma chavena de chá ao fim da tarde.

terça-feira, janeiro 03, 2012

Dispersos I

E no fundo o que é que somos? Há prisões maiores do que palavras. Pois eu só conheço uma: as pessoas. As pessoas são quem nos aprisiona com o que são e aquilo que fazem de nós. Era tão mais fácil se essa ideia de que não pertencemos a ninguém fosse verdade, um dia já acreditei nela, hoje não me encontro tão certa. Questiono-me sobre a possibilidade de sermos realmente livres. Se não pertencemos a alguém pertencemos a uma imagem que alguém criou de nós e se não pertencemos a alguma imagem criada por outro alguém pertencemos aos portos da vida em que desembarcamos. Não sei se estou a ser injusta, mas quando te digo não, não é um não completo, um não sólido e tenho medo, tenho medo de dizer-te sim e tornar-me na imagem que pessoas que foram importantes para mim têm de mim. Eu sei que se alguém foi é sinal que já não é. No entanto todos temos algo a provar a alguém, nem que seja a nós próprios. Como somos capazes de triunfar não só nos nossos sonhos, mas na realidade que flutua nos dias, como somos capazes de controlar impulsos que anos mais tarde têm consequências terríveis, como somos capazes de ser capazes. Não sei até que ponto esta prosa pode ser entendida como incorrecta ou se estarei a ser fútil ou cruel, mas quero que saibas, porque tu sabes-me que não tenho intenções de o ser. Eu gostava de ser outro alguém, para ser outro alguém contigo, noutro tempo, noutro lugar, noutras circunstâncias. E talvez a beleza dos momentos e das pessoas que fazem deles momentos, seja a sua inalterabilidade, mas eu gostava de o poder fazer apenas para te provar como sou sincera ao dizer-te que aquilo que não tenho encontro em ti quando a noite se divide em dois. Eu não sei o que nos reserva o futuro ou sequer se existe um futuro para nós em qualquer dos sentidos com os quais se possa relacionar esta palavra, porque existe tanta tristeza num mundo de coisas e tanta tristeza nas coisas do mundo. No fundo, no nosso mundo. Sempre fui muito cobarde sabes? Sempre me escondi do Mundo desejando um dia poder fazer parte dele e quando quase consigo, fujo porque tenho medo que o meu eu não seja suficientemente bom. Aquilo que eu tenho não quero perder, porque o pouco que tenho dissipa um pouco a tristeza que há em tudo, mesmo quando quase tudo está bem. E agora pergunto-te novamente poderemos nós ser realmente livres? No sentido de não pertencer a ninguém? Acho que te revelaste mais idealista e elitista que eu e no entanto não sei se hei de ficar triste ou feliz por ti, quando me apercebo que a mesma pessoa que te levou a pensar que podíamos ser realmente livres foi a mesma que te prendeu.

segunda-feira, janeiro 02, 2012




Writers aren’t people exactly. Or, if they’re any good, they’re a whole lot of people trying so hard to be one person.

F. Scott Fitzgerald

domingo, janeiro 01, 2012

Alone in Kyoto

O ano começa comigo a bordo de um avião. Vou fugir meu amor, vou finalmente fugir de ti e desta vida que me apodrece como um cancro, escrevo-te. Rasgo o papel, e meto-o novamente no bolso. Nunca sou capaz de te dizer aquilo que as palavras não deixam. As palavras às vezes são como os amendoins, ficam presas nos dentes e quando as queres tirar com a língua elas não conseguem sair. Encosto-me à janela e fecho os olhos. Volto a ver a Praia das Maçãs, onde te persegui num carocha, o vento nos teus cabelos, as tuas mãos vazias de nada e o mar cheio de ti. Eu cheio de ti. Abro os olhos e voamos por entre as nuvens. Olho para o tipo ao lado e este dorme sem se aperceber que entrou no novo ano. E depois penso que quem fez este voo é porque está a fugir do novo ano, talvez como eu, a fugir de um futuro que temem, inventando um presente e perpetuando um passado. Kyoto. There's not a better place to feel completely alone. Eu sempre gostei de lugares gigantes, onde podemos arder como uma vela num quarto de hotel que ninguém dará por nós, pelo menos até o alarme de incêndio disparar. Chamavas-me masoquista, nómada onírico, coração vazio. Se soubesses como o problema é o meu coração estar cheio nunca me terias dito isso. Entretanto já estou de pés no chão, aterrei à alguns minutos e estou à espera da bagagem. Os pés estão no chão, mas a cabeça continua nas nuvens. O caminho que percorrem as bagagens quando chegam parece o da minha vida. É um ciclo, é andar à volta à espera que as mãos certas me agarrem, mas quando me agarram percebem que sou apenas uma mala parecida, neste caso uma vida parecida e pousam-me e estou de regresso ao caminho que conheço. Apanhei um táxi. Foda-se, devia existir um botão para desligar esta máquina pensante. E o táxi percorre as ruas cheias de gente que nunca vi, de caras onde tento desenhar rostos familiares e que rapidamente desaparecem. Tantas luzes, tantos carros que vão e vêm a toda a hora e que não sei para onde vão. Tantos sinais cheios de inscrições que não sei ler. Dava tudo por ti aqui agora, um cheiro familiar, o teu corpo no meio de uns lençóis brancos, o teu lado fresco da almofada. E nisto abro os olhos e o tipo do táxi está a olhar para mim, a inventar mil e uma histórias para o meu estado mental. Quando perco o táxi na distância de um olhar e vejo apenas o desfoque de luzes lembro-me de tudo aquilo que te disse e que não te disse, das promessas que te fiz sem a menor intenção de as cumprir e sinto-me tão falso, tão morto, no entanto ainda agora começou o ano. Um novo começo. Para quem? Só se conseguir esvaziar o coração.