domingo, dezembro 16, 2012

e há uma noite
e um corpo sofrido que se prolonga
quando somos demasiado sós
e nos esquecemos de como se abrigam as estrelas.

domingo, dezembro 02, 2012


vou escrever-te a carta
onde terminam e começam todas as linhas.

a madrugada ainda dorme numa das gavetas que forrei a papel manteiga
onde guardei o revolver para anunciar a minha morte
tu voltas-te na cama e eu observo a luz que ilumina a metade da tua face de lua
oscilas no tempo, vertes pelas paredes, pela cama
recordo brevemente a viagem que fizemos a braga
todos os comboios que apanhámos para fugir à vida
os sorrisos em rolos nunca revelados e talvez melhor assim
o meu coração ficou demasiado parte de ti e por isso quis morrer
quis morrer tantas vezes que finalmente entendi que jamais tive talento para a vida
ou para a morte
ou para o amor

continuo preso à secretária
enrolo cigarros nervosamente, gostava que pudesses ver o quão melhor estou
o quão as minhas mãos não são inúteis
e hoje sei-te percorrendo as ruas da cidade e então pernoito junto ao telefone
e anseio o tempo todo para que bebas demais e me ligues
para que me ligues e na clareza da embriaguez me digas que sou a noite inteira
me digas que sou a vida inteira e não as metades com quem dormes quando chegas de viagem

o peso da penumbra etérea cobre-te o corpo
sonhas barcos, ondas, recantos de coral
e enquanto sonhas, os teus sonhos projectam-se na parede e percorrem-me os braços
o rosto, as mãos, o vazio do que não ficou
e quando fui para o café do adelino ninguém procurou por mim
nem mesmo tu
eu por ti atravessei a cidade inteira apenas para te ver, trocar uns beijos que ficam em terra
e ver-te desaparecer pelo meio do aeroporto
tu nunca fizeste o mesmo por mim
nunca o farias
e eu sabia-o
talvez também o soubesses mas nunca mo disseste
talvez não o soubesse, talvez fosse simplesmente mais fácil assim.

Recorto-te nos muros de ausência
Que moldam esta suposta casa
Cujas paredes não aguentam o peso do silêncio da tua partida
Queria conseguir ser poeta
Que me repousassem nas mãos todas as estrelas da galáxia
Queria ter as tuas mãos, olhos tristes
A respiração da cidade é moribunda deste lado
Mas em mais lugar algum
Toma a caixa de fósforos, deixaste-a na mesa de cabeceira
Conseguisse eu ser toda a vida que te falta, como um fósforo para te iluminar a noite eterna.

terça-feira, novembro 27, 2012


sobre o mundo não há muito a dizer
eu caminho nele, sem saber bem como ou para onde.
recorto montanhas, praias distantes, mares de um azul celeste, as estradas mais solitárias do mundo.
e no entanto, permaneço no lugar onde um dia me deixei,
onde não há força ou vontade de seguir o rumo das aves migratórias,
onde sonho à luz de um pirilampo num frasco.
a luz vai-se, desintegra-se, expande-se, reflecte-se e irreflecte-se
as palavras caíem na mudez da garganta.
os falhanços sempre falaram por mim.

domingo, novembro 25, 2012


o cubo,

o primeiro cubo por onde vês toda a tua vida.

paras. rodas o cubo para veres os beijos que nunca deste, um passado que pertenceu a um pedaço de ti, um futuro que não é teu mas sim dos que desenharam o teu presente.

hoje sentas-te, hoje o teu olhar metamorfoseia-se em pequenos cubos, que depois são árvores que dão para o mar que se enche com a chuva que te consome os dias, que te apaga os cigarros.

agora és, depois já não és. não há um tu, mas sim uma sucessão de eus perdidos num espaço que é o tempo, uma quarta dimensão.

à tua frente despe-se uma mulher que deve ter a tua idade, mas um rosto cansado de quem carrega desgostos nos dedos, sombras na alma.

cortaste à faca o que te foi dado, para sempre renegado, algo que não pertence e no entanto se encontra no meio.

hoje esqueces-te e relembras-te do que querias ter sido quando os teus olhos são pequenos cubos que se estendem até serem o mar que termina onde um dia perdeste o olhar.

sábado, novembro 24, 2012

apanhei todos os voos,
percorri todas as cidades da noite pois só ai conseguiria esconder-me
de todas as vidas que digo viver, mas que se resumem a poemas
que queimo quando acendo cigarros.

hoje escolho outra noite,
já não tenho aviões sem ser os de papel.
as pensões já não me aceitam o dinheiro
e tu já não estás.

todas as fotografias coloquei-as à chuva,
pois nunca consegui dar-te as estrelas,
ou a luz dos dias,
mas hoje dou-te o choro miúdo do sol.

domingo, novembro 18, 2012

Epifania Na Aurora Do Fim ou Este Amor Que Me Minto



Este amor que me minto, como se fosse a última oportunidade de redimir todos os fracassos,
Neste que se prepara para me esmagar como todas as ilusões anteriores, como aquela
Mensagem, depois do poema de Caeiro, à minha namorada, perguntava ele, a nossa Sofia dizia ela
Imaginando nos meus sonhos uma casa rural, onde todos os livros que lemos e queríamos ler,
E nós velhos e sábios, com todas as respostas às questões que nasceram sobre as mesas daqueles
Cafés da invicta, a cor do seu cabelo a mesma que esta mentira, que rasgo na pele,
Como se isso a tornasse verdadeiramente sentida, como se podem vestir com os mesmos sonhos,
Se esses sonhos apodrecidos, perdidos, esquecidos nos olhos semicerrados ao parecer que a felicidade,
Mas só a luz da ilusão, ao acordar de um sono demasiado longo, onde a carne em excesso
Fez esquecer o valor das ideias, mas as ideias mentiras, como este amor uma ideia,
Que escrevo em diferentes papéis e assino com diferentes nomes, só a cor do cabelo a mesma,
Entretanto foram lidos outros livros, e a dor que ficou a latejar nos lábios, deixou de se sentir
Por debaixo de outros beijos, todos diferentes, mas as mamas também as mesmas, que a minha
Negligência perdeu, depois de ter vencido a precocidade de um casamento, nas minhas patas
De cão danado, demasiado pequenas para todo o desejo rosado, contra o seu carro velho, à beira
De uma seara de trigo, eu todo tesão e a cegueira de um cérebro afogado em serotonina,
Usando aquele nome que era rodeado por um coração estilizado nas capas dos cadernos
Do sexto ano, como uma masturbação assistida, és o meu segundo, só o meu marido,
E eu com a emoção de uma erecção ao acordar e ela a acreditar que eu mais que esperma
A escorrer dela manchando os bancos de trás, as mesmas mamas contra o meu peito na
Canícula de Agosto, e eu entre as cuequinhas vermelhas dela, que se abrem à frente
E ela impossivelmente húmida naquele calor seco de brisas amarelas, estou tão molhada,
Não acreditando nela própria nem nos meus dedos cheios dela na sua boca, anda já,
E surpreendo-me sempre que me empurram para dentro do seu cu e me esmagam com a vontade
E amo essa mentira, quando me exigem esperma, quero que te venhas na minha boca, ou
Nem me permitem outra opção e drenam-me, demasiados nomes para caberem numa só palavra,
Este amor por retalhos que encontro todos numa única mentira, onde dou os nós que dei
A todos os fracassos, cujos nomes procuro na carne anónima de mais uma noite demasiado fria,
Gostas de me sentir molhada, já nem sei de quem a voz, ecos, procuro encontrar aquela mulher feita
De palavras e que faz nascer poetas e depravados, que vão dar ao mesmo, procuro dar-lhe
Carne
E minto-me nessa carne, dou-lhe o nome que só dentro lhe grito e ignoro a verdadeira cor
Dos seus olhos até me aliviar do desespero de nunca encontrar nada mais do que mentiras
Que me minto, que me faço acreditar como verdades, e provavelmente esta lucidez é
Consequência do sono de anos, do cansaço que não permite asas à imaginação,
São epifanias assim que nos protegem das cordas de estender a roupa e nos trazem o sangue
À carne, à carne que sacode todos os sentimentos, tudo que não lhe saiba a metal, ou sal, ou
Algo verdadeiro e frio, são epifanias assim que nos matam velhos, secos e amargos,
Um dia acordarei e não conseguirei encontrar-lhe o nome e então direi apenas, amor.

16.11.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, outubro 02, 2012


El Cuento Del Uno al Diez*


O Takifugu, na sua original denominação japonesa, trata-se de uma variante da espécie “Pez Globo”. Este ser trata-se de um peixe muito apreciado na gastronomia japonesa, tanto pelas suas qualidades degustativas como também pela experiência emocional que pode proporcionar. Digamos, é potencialmente fatal se não for devidamente preparado. É a euforia, a experiência, os limites e limitações corporais que fazem do cozinheiro um narrador, do gastrónomo o leitor e da experiência toda a vertiginosa tensão que um conto pode conter. O conto sustém a emoção daquele que o degusta, assim como a sua euforia perante a morte, perante o fim, de encontrar um sobrevivente disposto a recontar a história que o integra. O conto, na verdade, é a experiência cuja materialidade residual se extende essencialmente ao papel com as suas palavras. O conto também come o Takifugu, embalando um último suspiro, num último trago de vida, concentrado em pontos dilacerantes. O conto é como um corpo que vive angustiado com o medo de morrer ao longo das suas linhas e no final sobrevive: o conto vive com uma fisionomia, tal como o rosto de um homem, com as suas multiplicidades de fisionomias infinitamente possíveis.

*Andrés Neuman

A Relatividade Das Sombras Enquanto Versos Ardem



Sentes-te só e por isso abres um livro e descascas um poema, mas devias saber que o poema
É feito da luz de estrelas mortas, sempre demasiado tarde o alertar da sua presença,
Sempre ausente quando se apressa o coração a encontrar os dedos que tentaram acompanhar
O silêncio das noites dos dias da vida, se te sentes só, fecha o livro, não procures a companhia
Da solidão, não anseies por palavras que deixaram de vibrar e só esperam que os teus olhos
Famintos lhe tragam um pouco de vida, todas as palavras são também tuas, cada uma encaixa
Perfeitamente e parecem abrir-te um alívio em forma de janela, das que tens dentro e não
Sabias que podiam ser abertas, mas não trazem nada de novo, se trouxessem algo de novo
Não compreenderias e dirias, não faz nenhum sentido isto, porque não tinhas em ti o substrato,
Sente-te só, não entre em mais nenhum verso, acabarás por encontrar um espelho onde
Verás a tua solidão de outro lado e aí terás a ilusão de não estares só, um erro, pois é impossível
Encontrar companhia na solidão dos outros é mais real o latir de um cão numa noite
Quase silenciosa, é mais real o chamamento de uma prostituta na rua mais em baixo quando
Passas com a tua solidão, mais real a janela do café ao lado partir e passos apressados
Pela rua abaixo, mais real o toque do telefone da casa ao lado, o passo dos vizinhos,
O olhar que procura um olhar do outro lado do bar, quase deserto, mais real que toda a luz
Que possas encontrar nos versos, onde te encontras só, nu, como se alguém tivesse definido
A tua própria solidão antes de teres nascido, um desconhecido que julgas conhecer nas sombras.

01.10.2012

Turku

João Bosco da Silva

quarta-feira, agosto 15, 2012

Vago


Embrulho tudo numa mala, até mesmo as coisas desnecessárias: levo um postal que me deste em Ibiza. Talvez me sirva de recordação. Arranco uma parede de posters, fico com pena daquele bocado de papel que tiraste de uma revista, era para lá que queríamos ir viver. “San Cristobal de las Casas”. Parece-me ainda mais longínquo agora… Sento-me no chão e fumo um último charro para celebrar: afinal de contas, estou a caminho de um lugar que me ajude a livrar-me dos vícios e adições. Até parece que não sinto falta de nada aqui; só quero paz. Só me quero encontrar. Fecho os olhos e viajo. Lembro-me de um sonho que tive em criança. Eu corria, corria num bosque e de repente deparo-me com um buraco negro. Tudo é sugado por ele: as folhas, as árvores, as flores, até o céu, que se vai transformando cinzento-escuro à medida que avança para aquele vago. Mas eu tenho uma escolha e decido aproximar-me. À medida que avanço vejo que estou num ponto sem retorno e sinto medo, e de um momento para o outro sou arrastada, como tudo o resto, e começo a viajar, como se viajasse ao longo do tempo para no final chegar a um lugar que não compreende as medidas dos homens, como é o caso dos calendários, das horas ou o peso das coincidências. Era como se estivesse do outro lado do espelho, as figuras compreendiam-se, mas não estavam nos seus lugares devidos, tudo deixava de ser simétrico – não existia direita nem esquerda. No entanto, uma breve aragem pairava, senti algo que compreendi desde o primeiro momento pertencer apenas àquele mundo confuso: amor. Parece que quanto mais procuro uma organização externa e coerente. Quanto mais os prédios se habitam, em blocos; quanto mais somos uma estatística, um número, um peão num aglomerado municipal, social, económico-político – Quanto mais, menos se encontra essa forma crua que teima em crescer apenas no caos. Afinal de contas, no caos é que ela é necessária. 

terça-feira, agosto 07, 2012

1. sussurros da gaivota

fizeste do mundo línguas de sal que não sabiam falar
montanhas feitas dos ecos das noites,
cobertas com o teu nome silenciado pelas mãos do amanhecer.
fumo um cigarro, mais outro dos que pedi emprestados à respiração.
sussurras-me o que tem nome de lua, forma de promessa nos peitos de madrugada.
sonho-te como que pinto formas aladas no crepúsculo,
e desejo-te no desejo que escorre pelas paredes da alma.

domingo, agosto 05, 2012

aqui anoitece sempre, quando não anoitece em mais lugar nenhum.
nunca poderia ter desejado que me tivesses dito palavras que não tinhas em ti,
porque eu não era a jeanne nem tu o modi e eu nunca me mataria por ti.
deitavas-te na cama, sem uma palavra e o único soar naquele quarto era o arranhar da chuva nas janelas.
nunca percebeste porque era melancólica, porque chorava sem razão,
porque apenas me sentia em casa quando não acendia as luzes e eu nunca te quis explicar, nunca te quis explicar, porque era melhor assim, porque doía demais falar.
às vezes acordáva a meio da noite e pedia-te para irmos ver as luzes da avenida, o transito a passar.
ias sempre a contra gosto, como gaivotas em terra.
subíamos a avenida e sentavamo-nos no marques, semicerravamos os olhos e víamos as luzes desfocadas dos candeeiros e dos carros, aquele mar de barcos velozes.
acendias-me um cigarro e eu esquecia-me do mundo, do mundo que era demasiado pequeno nessas noites.

quarta-feira, julho 25, 2012

Na Praia Com Nietzsche






para os irmãos Diamantino, o Macedo, o Pereira, o Ferreira e o Pires,






Numa casa de férias em Esposende com dezasseis anos a ser tanto, tão fresco,
Tanto espaço nestas mesmas mãos, golpeadas pelo tempo, pela morte dos sonhos
Mil e muitos poemas depois com outras tantas masturbações,
Na varanda, enquanto a camisa azul do dragão branco seca, um livro de Nietzsche
A tornar especial o momento, os amigos a ver televisão, outros na casa de banho,
Outros deitados a curar ressacas pequenas e na casa em frente um aniversário
Onde entram belas adolescentes que me descolam do interesse ridículo por filosofia
Aos dezasseis anos, ainda a latejar as últimas palavras da Crónica de Uma Morte Anunciada.
Nunca serei maior do que isto, nunca terei melhores amigos e nunca ninguém me conhecerá
Tão bem como eles, sem palavras necessárias, sem a confissão dos primeiros poemas,
Escritos quase às escondidas na mesa da cozinha, com muitas pausas e olhos
Fixos no horizonte que a janela permite, tão longe hoje, tão longe a varanda e a brisa do mar,
O farol e a insónia de uma liberdade de Abril, ainda com o sal na pele de um assalto à praia,
Com sede de uma primeira cerveja alemã que ficará para sempre, para o sempre que se tem,
Mitologia pessoal, marcos históricos que morrerão com o último cansaço,
Quando o corpo desistir de nós, e deixar as revistas pornográficas à beira do chafariz
Enquanto gente que não era do nosso mundo passava, com uma revista do Homem Aranha
Ao lado do Além do Bem e do Mal, que acabarei na vinha do meu pai,
Enquanto à volta tudo cheira a enxofre e primavera. Que monstro é este que me escreve,
Como se fosse dono das minhas memórias, dos meus momentos pequenos
Que me tornam o que sou? São os pequenos momentos que nos tornam grandes e diferentes,
As saudades secretas, os sonhos que aos olhos do mundo grande são pequenos e por isso não
Se mostram, mas trocava-se Paris, Londres, Estocolmo, Helsínquia, Amesterdão, Zurique…
Trocava-se tudo, tão estranho ao coração, por aquele Porto, aquela primeira vez, só nós,
Tão longe e tão perto, e lá fora o mundo nunca será o mesmo aqui dentro,
Não quando o candeeiro de rua às quatro e meia a iluminar a bola no parque de estacionamento,
Longe, perto da piscina, Nietzsche no bolso do casaco, o telemóvel cheio de mensagens de amor
Enviadas ao vazio, à desilusão por uma ilusão insuficiente que marcará por dez anos
E os que virão, se houver só mais uma vez, uma última vez, aquela varanda,
A brisa húmida do mar, melhor que qualquer cheiro íntimo, imaginando eu aquelas adolescentes,
Que hoje sei que não estarão tão convencidas do seu poder, deixei de guardar as palavras
E elas são muitas vezes o que os sonhos são, mas sem medo, que a morte está além de tudo
E virá quando vier, da forma que for, longe ou perto de Esposende,
Longe ou perto da memória quando ainda a entrar nos olhos, no nariz, na boca, na pele
Sempre pálida, adolescente, encobrindo uma alma de dezasseis anos até ao fim.
No próximo ano conhecerei Pessoa, o conterrâneo Torga e nunca imaginarei que eu também
Uma belga, o Vergílio Ferreira e nada será o mesmo, pois não estou só, nunca estive só, nunca estarei só.

João Bosco da Silva, "Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos"





sexta-feira, julho 20, 2012


quis por todas as esperas do mundo em papel,
fazer da existência apenas letras que pernoitassem nas linhas dos rostos que nunca vi,
amachucá-las nos bolsos do casaco, onde te esqueces sempre dos teus cigarros.
quis encostar-te a mudez das palavras à garganta como se fossem uma lâmina,
poder assim cortar-te e jorrar a voz que apaga o dia e silencia a noite.
não devo viver muito, apenas queria que o soubesses.
só viverei nos crepúsculos onde desenhar os teus seios,
onde chorares a minha partida,
e quero que me enterres no mesmo lugar onde um dia me ancoraste o coração.

sábado, julho 14, 2012

as tuas mãos foram a noite


as mãos são poços de vazio onde finjo guardar-te.
somos  como as andorinhas que partem depois da Primavera,
seres  vagueantes que acabam e começam onde o mar e a terra se tocam.
nesta hora em que me encontro só reencontro o conforto dessa mesma solidão que corrompe o vento e as cidades.
o vento são asas que nos rasgam o peito quando nos perdemos onde nos encontrámos.
sempre nos perdemos nos quartos sem nome,
onde sem precisar de dizer o teu nome, regressava a mim.
com os dedos esvoaçavas pelo meu corpo na ternura dos olhos ausentes, a mágoa dos corpos sofridos, diluidos no sémen que escorre como a chuva pelas janelas.
recorto-te no tempo para, com mãos quebradas, guardar-te.
são horas de acordar e perco-te novamente no amolecer da vida, nesta fraqueza de alma que me rodeia.
também eu sou fraco, tenho o coração envenenado de ciúme, de ódio e de dor,
e com isso consigo convencer-te a ficares mais uma noite dentro de mim,
a que juntos pintemos cigarras mudas, que na distância se assemelham a uma oliveira velha, doente e triste.
contigo aprendi a practicar o ofício de amar no silencio, na respiração dos quartos, das fogueiras que se apagam e do fumo que se despenha.
olho pela janela onde recorto navios, transeuntes, a folhagem sussurrando o teu nome uma última vez, uma réstia de anoitecer, de palavras molhadas pelo suor do teu corpo.
fica frio, no quarto não há palavras e tu és uma ferida que se prolonga,
um corpo incandescente que se dissolve agora nos lençois dormentes e eu contemplo-te no meu silêncio de gelo.
amei sem regresso, comprei bilhete de ida e não me preocupei em voltar.
deixei o corpo para trás juntamente com a bagagem,
vivemos em moradas de silêncio, em casas onde podíamos ouvir os ecos de um passado que não nos pertencia.
a memória reside, suja, no medalhão que me deste com a promessa que o espaço que nos separaria seria sempre o do tamanho dos teus braços.
comecei contigo uma história de gestos inacabados, de encontros inesperados, de promessas que inventávamos, após medonhas noites de amor, que não fazíamos menor intenção de cumprir.
volto-me para ti, fotografo-te com o olhar pela última vez,
abro a janela e atiro-me para trás.

quinta-feira, julho 05, 2012

Sonho de Verão


Ternura verde, os teus olhos encostados à relva
E a tua face semi-descoberta com horizonte
No resto do jardim - Desfalecendo lentamente
Num pôr de Sol - beijo - A minha mão
É uma continuação da tua, e o teu corpo
Uma coincidência no meu.

O gato está no apartamento de Szymborska,
Servimos-lhe enlatados de sardinha
E depois fazemos amor:
O gato está deliciado.

Os teus olhos são uma encarnação de árvore
Castanhos
As tuas folhas são viçosas
E o vento passa-te pelos cabelos
Fzendo zumbir pequenos animais
Dedos
Que se passeiam por todas as mechas.

A manhã é como uma estrela
Num abraço solar
Servindo biscoitos na cama desmanchada
Migalhas na tua boca
De fluidos
Quentes
Sabes-me a chocolate num verão
Derretendo o corpo para dentro
De charcos embaciados:
Rãs saltitam por te ver feliz:
E eu estico a lingua tremendo
Um beijo no jardim, na cama,
No apartamento de Szymborska.

Portugal



Portugal, estás a gozar comigo ou és mesmo a brincar?
Portugal, abres portas para um futuro que é um mar,
Uma vida à deriva, um cérebro desperdiçado a fazer contas numa caixa de supermercado,
Uns olhos que vêem, que trabalham numa livraria cheia de mortos, de olhos para sem vida?
Portugal, quando nos levas a sério, a nós que te julgamos um país tão exemplar,
Com tantas leis que tentamos cumprir como crianças sem compreender a vida de verdade?
Portugal, quando regressam as naus dos aventureiros que morreram no passado,
Dos que nunca deram origem aos portugueses de hoje, porque tem tanto medo de saber que és a brincar.
Portugal, quando deixas o passado e te agarras ao futuro que deixaste desprezado no passado,
Quando uns pisavam a revolução industrial e tu esperavas que o ouro roubado fosse para sempre?
Portugal, para que me deixaste acreditar que eu era capaz, se sabias que não me ias dar asas para voar?
Nem valorizas as laranjas que as mãos honestas colhem, nem o azeite, nem o vinho, nem a cortiça, nem o Sol: só os ingleses, os espanhóis é que têm bom gosto?
Portugal, para quê as tuas mentiras de cabelo branco para os cérebros de telenovela,
Se me andaste a fazer gente com olhos para fora? Para que me deixaste ser olhos para fora
Se andas de agulhas ferrugentas a furar glóbulos oculares?
Não tenho mais nada a fazer em ti a não ser afogar-me na tua produção nacional de cerveja,
Porque ainda tento valorizar a produção nacional de alguma coisa,
Mesmo que seja para não ver as pontes que caem porque tu andas de olhos fechados
E nos deixas andar por aqui, a pagar direitos que afinal nos deixam cair nas águas escuras
E morrer. Ainda pagas o direito ao uso das pontes do império romano?
Somos sempre os melhores, mesmo que nunca perto dos primeiros,
Convencidos de que afinal… convencidos do nosso erro, cegos por ti, Portugal.
Amanhã é que vai ser, mas tem sido sempre amanhã desde que me lembro
E o amanhã chega e nada, tudo pior que o igual, sempre mais uma mentira que ontem.
Números que poucos percebem e todos votam nas caras sorridentes da mentira
E tu deixas, Portugal, tu deixas e ardes todos os verões e és inferno todos os invernos
Nas cidades grandes, em especial nas cidades grandes, além de papelões das riquezas de poucos.
Tu és uma merda Portugal. Dá-me uma ponte alta, dá-me um cartucho cheio de chumbo, de verdade,
Dá-me uma liberdade que seja real e não a falsa igualdade de direitos.
Não sabes que as tuas crianças sofrem, que os teus deuses são uns filhos da puta que estão a matar o teu futuro?
Deixa-te andar que o fim é sempre em frente, não pares que o abismo está lá no fim
Desse caminho. Levas-nos a todos, já devias saber, mas tu também vais,
Também vais porque somos todos Portugal, ou julgas-te um nome, uma ideia: somos nós.
Só as terras lavradas por burros são dignas da tua glória passada,
Da tua glória duvidosa. Nunca te vivi como agora, sei lá das páginas que têm escrito,
Se tudo em ti me parece uma mentira, tudo a brincar.
És o meu país Portugal? És mesmo um país? Não sei mesmo, já não sei nada,
Depois de tanta desilusão, de tanta ilusão consciente de mentira.
Já não se pode ter voz em ti, mais uma vez, andas para trás orgulhoso das tuas revoluções: para quê?
Estou aqui a enterrar-me na areia do parque infantil só porque já bebi o suficiente para abrir a voz dos olhos.
Já não conheço as tuas cores e a televisão de manhã, diz-me que és um país ridículo,
Um país que quer agradar a quem anda por andar, que nem tenta abanar a vida
E dizer, acordem, estão a viver a vossa vida, a vossa vida: a vossa vida!
Que interessa o que diz um brinquedo? Não estou aqui para brincar, sou dos muitos brinquedos,
Para satisfazer a imaturidade de líderes de merda: disse “líderes de merda”?
Portugal, estou fodido e ainda por cima disse que estou fodido.
Deixas andar homicidas de almas pelas ruas da rua de todos, enquanto condenas
Quem rouba um pão para matar a fome a corpos que morrem de miséria.
Ser lento para quem queres, para quem pode brincar, deixas andar…
Implacável para quem não tem um centavo para dizer “eu sou gente”
E um grito mudo que só a família sente no coração colectivo.
Sinceramente… deixa-te de merdas de uma vez por todas!
Sê no que podes ser e deixa-te de mostrar aos outros de outros tamanhos que ainda és capaz.
Já foste e agora cala-te, agora agrada a quem és: és os portugueses…
Ou só alguns? Queres ser uma Rússia de hoje? Estás a passos, mesmo tão longe,
Mesmo sem o tamanho real. Oito e oitenta mortos de fome no frio da injustiça social.
Pensas que te basta acreditar no comprimento dos braços para alcançar?
Querias ser, estar além do Atlântico há tantos anos…
As revistas cor-de-rosa a dar corpo à vida da conversa do que tu és
E eu quase a vomitar, apesar de não ter bebido para tanto.
Não és um país disciplinado, sabes bem que não. Não exijas ser o que não és,
Começa por ti, por cada um de ti, aos poucos. Não podes arrancar valores e transplantar valores,
Ou não sabes o que é a psicologia? Vamos, envia mais uns soldados com bandeiras minúsculas
Ao ombro, para te fazeres notar no mundo real,
Enterra-te mais no teu buraco e finge que és importante. Ninguém te liga puto Portugal!
Têm pena de ti e mesmo assim te pagam e te fodem, porque até a cultura vendes por…
Diz-me tu Portugal, por que te vendes? Essa ferrugem ainda é para ficar por muitos anos?
Está na hora de levares a vida a sério, de seres um país para todos,
Ou só cagas filhos para os deixares na merda? Ainda os adoptas para os tratares como escravos?
Para que dizes que dás direito a todos de serem eles, eles portugueses, se depois te armas em anos quarenta?
O papa não é Jesus, ninguém é Jesus, ninguém mais, para quê tanta subordinação,
Tanta vela desperdiçada em mentiras. Luxo desperdiçado em imagens enquanto os teus filhos choram de estômagos vazios.
Ponham-se a andar, não esperem por milagres. A fome não se cura com orações.
Os teus filmes: merda, porque são demasiado reais na sua ficção,
Porque tentam dizer demasiado que é ficção a puta da verdade que sente quem nem é actor.
Pensas que os primeiros têm a graça do senhor e se põem a dormir à sombra do passado?
Pensas que as lágrimas dos pesadelos das crianças são a brincar? Não sentes o salgado na tua língua fria de país cego pelo poder? Poder… ridículo!
Que é afinal deus nesta merda? Quem se vai safar da morte, quem não cai depois de garrafa e meia de Jameson, quem mata e não morre um pouco por dentro (nem sente a morte dos que ainda se arrastam)?
Como podes pedir ao teus filhos maiores que deixem de ser portugueses,
Não te sentes bem com a verdadeira grandeza? És uma inquisição cerebral,
Queimas as ideias plantadas em becos sem saída e um salário para comer durante um mês,
Um mês a menos para a miséria de uma reforma: um dia menos para morrer, que isto nem vale a pena.
Gostam que lhe caguem em cima e eles é que o fazem a quem está a tentar viver a vida,
Inocentes das perversidades dos deuses (sempre feios apesar dos cabelos brancos a imitar actores de Hollywood).
Só queremos apagar as horas depois do jantar para acordar de manhã
Para a máquina de engrenagens irregulares que tu és: Portugal.

22.09.2010

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva

sábado, junho 30, 2012

voltámos à casa de cal.
de lábios roxos perscrutámos o tecto,
ouvimos o mar que se desenrolava
na língua numa fala muda.

falámos muitas vezes sem sentido
consumidos pelas noites em que planeávamos uma existência
fora do corpo da madrugada.
foi numa dessas noites que me prometeste que inventaríamos as estrelas.

sexta-feira, junho 29, 2012

Putos na Rua




Lisboa a flamejar com os putos de rua, passeando -
A vida passa-lhes calmamente pelos rostos, serenos, numa noite de verão:
Está frio, mas não faz mal. os putos gostam de apostas e amigos. Não ouvem as batidas cardiacas dos seus próprios corações, exceptuando esse coro uniforme que é os seus corações em unissono. Quem me dera pertencer-lhes. Sem pensar muito nos assuntos, nas formas dos rostos, dos olhares trocados - as sinalizações estranhas que acontecem por impulsos magnéticos entre toda a arquitectura da minha face - e daquilo - e daquilo - que a separa dos outros. As batidas do meu coração são aceleradas, constrangidas. Todas as pessoas me causam repulsa, mas amo o contacto dos putos. Conhecendo de cór os signos (de significado, de significado) uns dos outros. Quem me dera pertencer-lhes: como uma ostra aberta expondo a pérola. Mas ainda assim Lisboa flameja, o alcool é como um raspador de cascas. Laranjas ácidas penduradas no topo do Cristo Rei e a gata ouvindo os gemidos das pedras. Calcário como o amor. Estalactictes de todas as cores, por toda a parte. Quem me dera pertencer-lhes. Os putos enegrecem subitamente o dia, com as suas luas redondas, ácidas. A escrita é um exercicio de rostos - entre aquilo que me separa das ideias e das emoções. Como os putos. Quem me dera pertencer à geração da serenidades. IMPOSTORES, vocês usam todos drogas. Comem-se uns aos outros. Não deixam nada crescer. Os putos gozam e do esperma sai uma gargalhada. É fixe, mas no fim sai sempre uma cagada. a liberdade é um arranjinho floral na tumba de um amigo. Fodasse, amanhã de manhã alguém os vai soltar dos sonhos para dormirem e enquanto dormirem vão ver o espelho desses sonhos. (Ego Ego Ego) vou ficar acordada até morrer para ver amadurecer os putinhos. Chapéus de pala, calças descaidas, uma maminha fora do sítio. Alguém lambe a amizade, a amizade alimenta, a amizade goza e do gozo sai esperma que ri: com os seus maçaricos todos a vaguearem por Lisboa. Não são espermatozóides, são putos.

quarta-feira, junho 27, 2012

os livros empilhados, o pó acumula-se e eu acumulo-me com ele.
abraçamo-nos nos cantos da sala, nos cantos dos móveis e nos cantos dos bolsos.
penso-te tão longe, num espaço oblíquo a mim e então repouso-te nos dedos da memória entre cigarros que fumamos às escondidas de nós próprios e as cervejas que guardámos na máquina de lavar.
ergue-se agora um sol murcho e triste como não poderia deixar de ser neste país.
mais um país que passa por mim e que volta comigo agrafado no tempo.
volta comigo, mas não volta dentro de mim porque dentro de mim não há ninguém.
viras-te ligeiramente para o lado fresco da almofada e eu passo-te as mãos pelos teus cabelos de noite.
sussurras-me que perderei o avião se não me levantar.
pedes para me vestir como quem me expulsa da cama gentilmente.
levanto-me para vestir a camisa branca transparente que repousa em cima da cadeira junto à tua secretária.
acendo um candeeiro de pó para vislumbrar a tua escrita infligida aos papéis, a tua letra agressiva e revoltada a deambular pelas entrelinhas.
com mãos doridas e frágeis recolho o kerouac, o camus e o bukowski, todas as cartas e poemas que me escreveste e que no fundo nunca foram para mim, mas sim para uma ideia de mim que nunca vieste a encontrar.
estes são os únicos amigos que me restam.
amigos mortos como eu.
fecho a mala e quando te beijo o rosto de menino perdido repeles-me.
quando levanto voo de pés no chão imagino-a a chegar da tal viagem e a fundir-se em ti num abraço.
hoje não te sei sem ser pelas polaroids, onde sorris vagamente com o olhar, de lábios imóveis e tristeza escorrendo-te pelas costas.
estávamos verdadeiramente sós num mundo que nunca foi para nós.
hoje não tenho nada sem ser as polaroids que ainda guardo no lado fresco da almofada.

terça-feira, junho 26, 2012

para a M

todo o meu eu se sente numa morte doente e dolorosa. sentavas-te à beira da cama sem respirar. contavas até três e voltavas a respirar. para dizeres que me amavas contaste até dez, agarraste o coração três vezes e sussurraste-me o que não sabia que podia ouvir. à noite virava-me para o outro lado para te chorar. eras bem mais que a minha solidão, mas quando tive que escolher entre as duas escolhi a solidão. quis tentar explicar-te que não conseguia viver sem a minha solidão, sem este sofrimento agudo de quem cuido como se meu filho fosse, mas tu não compreendeste. contaste até dez e disseste-me que não entendias, riste-te três vezes e choraste-me toda a noite depois contaste até dez de cada vez que as lágrimas te escorriam.

terça-feira, junho 19, 2012

Uns Casam-se Outros Matam-se



Hoje lembrei-me de ti e chorei, escondido no duche, lembrei-me das quartas-feiras
Em que em vez de ir esfolar os joelhos para o monte ia ter contigo e com as tintas,
As unhas cheias de sonhos ao chegar a casa, lavados com uma escova dura,
O pior da arte é lavar os sonhos que ficam nos dedos, chorei e nem um sonho
Pelo ralo abaixo, ela casou-se e foram então onze anos de poesia inútil, é tempo
De deixar isto para garotos, ou velhos feios, ou gajas que não levam suficiente peso
E procuram respostas em fornos abertos, casou-se e queria ser capaz de me masturbar
De olhos fechados, com a imagem dela, o seu vestido azul contra a luz, à entrada da porta,
Verão, eu apaixonado pela sua silhueta, as suas mãos, na verdade o que tenho procurado
Na roupa interior humedecida, são as suas mãos, mas só promessas, orgasmos e vazio,
No fundo, amei apenas os seus defeitos, as suas cicatrizes, os seus dentes desalinhados,
O sinal fora ao contrário, as proporções desmedidas, nunca consegui amar a não ser mulheres,
Nunca uma boneca me despertou mais que a vontade de um alívio rápido e apressado
E ela casou-se, três dias depois de a ter beijado finalmente, num sonho adolescente,
Ela com a cabeça no meu colo, as mãos, finalmente as mãos, o dedo rodeado por uma promessa
Que não minha e tu rodeado de eternidade e eu há onze anos a escrever inutilidades
Que me têm mantido vivo, quase são, para que te mataste, para que te casaste,
Para que me tolheis a ilusão da eternidade dos outros, Florentino Ariza tinha paciência
Porque era de papel, há onze anos, mas eu já nem papel tenho para tanto cansaço.

19.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

sábado, junho 16, 2012

Literatura e Amor

O que se passa é o seguinte, já não tenho o que escrever. A vida corre bem, as pessoas são simpáticas, o mundo é um lugar giro. Sempre tive esta fachada melancólica de poetisa desgarrada, mas já não me interessa isso. Nem a fama, nem a glória, nem tão pouco escrever bem: quero viver. Ouço Elliott Smith e penso que poderia fazer uma epopeia sobre um amor mal sucedido. Mas para quê? Os amores sucedem-se simplesmente, como um circulo aberto, pontilhado, feito de calcário. Quanto mais tempo, mais rijo fica. Eu não tive tempo de calcificar sequer o meu amor pelas palavras, talvez um dia, talvez um dia. O entrevistador poderia então perguntar-me se acredito nesse amor, só porque nunca o senti. Sim, acredito. Algures no milhão de bilião de pessoas no mundo vou encontrar a palavra certa de ser escrita. A única que valerá a pena e sobre a qual poderei discorrer até se gastar o seu tutano. Entretanto é tudo um ensaio, no sentido mais lato da palavra. Palavras e mais palavras para formular um sentido que só por si já existe. Porém isso é viver, a ficção é vida, as palavras são vida, a vontade inexplicável, profunda, vinda directamente do centro das glandulas salivares directa para a lingua na fonte: é vida. Querer ensaiar o amor é viver um amor, por mais estranho que seja o amor vivido nas entrelinhas, nos sinais, nos olhares fixos entre o prosador e o seu texto. Porque é essa conexão imediata que lança ocitocina, obsessão, paixão.  Cada palavrinha nos milhões e biliões de pessoas importa, ainda que o amor lhe pertença em exclusivo, por instantes, a essa folha de papel que conterá a mais bela descrição da mulher Africana. Da mulher Asiática. Da mulher Europeia... Da mulher-musa, que no fundo é babel de todas as linguas faladas. A linguagem é o coração-centro da mulher, mesmo quando icónica, a fazer lembrar anúncios Italianos de marca Spaghetti*. Tudo é eficaz, errante, barulhento. Mas nessa conexão íntima, entre mãos brincando às canetas o silêncio é intercalado não por virgulas, mas sim pelo discorrer profundo ao discorrer menor. Sendo que nessas paragens contempla-se através de uma janela tudo o que já foi escrito e re-escrito por todas as obras da humanidade. Porque a literatura é repetição, como o amor. Pontilhada, num eterno circulo descontínuo que se calcifica na medida
das leituras.

* Roland Barthes

sexta-feira, junho 15, 2012

O Sonho mais Rebelde


O carro seguia a direcção de kerouak
Mas o mapa estava errado:
Só eu tomava as tuas drogas
Mas era em ti que o vicio ficava.
Passámos os Indios mapuches, com as suas cabrinhas peruanas
Passámos os dançarinos de Tango - Lá encontrei
O Adam a borbulhar por uma palhinha de lolita
Saiote acima da cueca, tudo rendadinho
A passar na avenida do Putedo:
Estavamos em Viña del Mar a descansar
Madrugadas de cintura fina
Homens na Joy Division - Uma Joy Division Latino-Americana -
Sempre a levantar a perninha, à canzana, para morder
O canto de todos os continentes do Mundo -
Era sempre tão fácil viver na estrada,
Mesmo sozinha, com os pés a pisar Atacama,
Uma provincia de Cronos e cronistas
A Cronometrar todo o passo de uma vida
A escrever para guardar as palavras em viagens -
E das viagens fazer um fiel companheiro
Para as noites frias do deserto: Como é bom o céu do Deserto
Quando o meu pai vive essa fantasia louca
Empunhando o whiskey e o cigarro: Uma mulher só
Precisa do sonho rebelde para se mascarar de Édipo
E da vida ganhar o amante mais fugaz.

quinta-feira, junho 07, 2012

70 anos (Aos 80 meto Cavalo)


Escuta o teu retrato,
Nariz abatatado, olhos de maçã
Dentes de mentiroso. Olha como
Te fizeste mulher a ouvir
As passadas dos teus amigos,
Sempre tão felizes - O copo na mão
Às vezes engana, mas dura enquanto
Houver uma cereja de conversa
E 2012 anos na contemplação da humanidade:
Ao revés destes 21, quase 70 pela nostalgia
Até do gato quando era pequeno.
A pele macia, no meio de uma gripe,
Enroscado nas pernas, Ronronando
Uma banda cujo nome esqueci:
Agora cresceste e o que tens para contar
São ainda pedaços do que queres ser.
Isto é um poema-diário,
Tenho uma sede que só se serve de honestidade:
Onde caminhas tu agora?
Todas as janelas do mundo te vêm.
Sobrecasaca negra, cabeça careca
Brilhando na metáfora invisivel
Dos caracóis lentos, mas adoráveis.
Onde andas tu agora?
Projectando o meu couro cabeludo,
Caracóis de todas as cores:
Sou como o Garden State
No conforto do sofá, comendo bolachas
A boca cheia de outras bocas
Sabendo a salgado, chocolate, pepitas
Hálitos de mar, à beira do jardim
Ou uma recordação da infância:
O amor é como uma brisa fresca no Verão
Com os seus chapelinhos e perninhas desnudas;
O meu pai ouvia Tchaikovsky e a minha irmã
Brincando com o ursinho do olho cozido.

quarta-feira, junho 06, 2012

O Meu Tio Tagana



Compro o mesmo par de meias de há quinze anos atrás, as mesmas cores, escrevo com
As mesmas palavras, de há mais de vinte anos, tento fazer delas poesia, elas obrigam-me
A ser poeta, mas no fundo, o que queria repetir era aquele retrato com um lápis
De carpinteiro numa pedaço tosco de pepel arrancado a uma saca de farelos, onde
Desenhei o meu tio da França, redondo e de braços abertos, que morava no baixo
De uma casa velhíssima e vivia de ovos cozidos com sal, peixes do rio e aves pequenas,
Cervejas, vinho da sua vinha, fermentado no mesmo baixo, num lagar pequeníssimo,
Queria tanto escrevê-lo, ele português e o meu francês favorito, com a careca sempre
Transpirada e o nariz de batata acima do sorriso e o que estranhei o seu ar sério no
Bilhete de identidade e o nome, nome de um santo eu que julgava que o seu nome
O que lhe chamávamos, num pedaço de papel arrancado a uma saca de farelos,
Ele sempre com algum pedaço de lixo nos bolsos, da França, para nos pôr contentes,
Os sobrinhos dos sobrinhos reais, uma grade de Sumol à espera de nós e do Verão
E fascinava-me ele poder nadar, no rio da aldeia, profundíssimo, tão grande era,
Hoje não sei, nem imagino, só ossos que o fascínio pelos postes de alta tensão
Lhe anteciparam, dizem-me que, mas hoje sei que glioblastoma, e o desenho a arder,
Esquecido na lareira de uma casa velha, ainda mais velha, sem ovos cozidos,
Repito então as mesmas meias, as mesmas cores, porque no fundo só queria poder
Desenhar os mortos como desenhava os vivos, de braços abertos, nariz de batata, ali,
E hoje se fecho os olhos, não lhe vejo o suor a escorrer-lhe na testa, nem um sorriso,
Mas a cara séria do bilhete de identidade, com um nome que ainda hoje estranho nele.

06.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, junho 05, 2012

So glad to meet you Angeles




O depósito cheio conta as milhas percorridas
Em conversas, delirios e um pouco de amor:
A conta-gotas pela estrada fora - Os pés
Fora da janela, o corpo todo debruçado
A curtir as constelações de afectos gelados.
Só eu te toco como um casulo-minhoca
Esfregando todas as borboletas do mundo
Para espreitar o amanhecer nas ruas
Que a solidão genética vai iluminando:
Estamos sós um ao lado do outro.
O riso descobre um tracejado
Alcatroado pela confusão da insónia;
Já passou a minha vez na fila,
Mas o vento faz abrir os olhos
E Elliott Smith vai cantando
Porque enquanto estiver triste
Ainda vivo.
B. Dizia-me para ter cuidado,
Cuidado com os ecos das palavras
Errando constantemente ao longo
Das viagens intermináveis
Que os pensamentos fazem
Para acarinhar um corpo só.
Por isso todos os portos do mundo
São uma casa - Estarei sempre longe
Para abrir uma carta cuja letra
Já esqueceu o destinatário - É assim que me quero,
Vou cumprir esta promessa de coto quente
Todo ele enrolado nas pernas, nos braços, nos pulsos
Chupando a manhã líquida, salivar, de uma boca para a outra
Como um aceno longínquo e um grito extasiante
Voltado a norte - Porque o amor é um jogo de Squash
E contra a parede vivem os fuzilados. BAM BAM BAM

Desconselho



Aguenta-te, acende mais um pouco de incenso, pode ser que o cheiro da sua pele
Se apague no fumo do tempo, esquece tudo, mais vale a pena tu cheio de nada,
Tanto peso às costas para no fim se deixar tudo onde o nada nos engolir,
Aguenta-te, os teus dramas actuais irão tornar-se pálidos à sombra dos monstros
Que se alimentam de anos, procuras a inocência na decadência porque sabes
Que uma está perdida e a única forma de a reencontrares é perdendo-te na outra,
Aguenta-te, agarra bem as cordas do baloiço, tudo não passa de apanhar balanço
Para um salto eterno, és tão real, tão vivo como o esperma que limpaste,
Engoliste, como se fosse um pecado excitante, apenas os teus filhos quânticos,
Mas neste universo calhou a pele não ser fertilizável, só o sadismo de uns lábios
A deixar réplicas de saliva que brilham no luar nas nádegas onde alguém passa o dia
Sentado e às tantas se esforça para não rasgar o recto abusado pelos desejos
Inocentes de como quem mata passarinhos à fisgada, escorre-lhes dentro,
Escorre-lhes de dentro, mas maior conquista será se escorreres salgado, dos olhos,
Turva-lhes as certezas, mostra-lhes assim a verdade, sacode-te de ti mesmo
Como se te quisesses ver livre da alma, deixa cair todas as palavras que te atrasam,
Aguenta-te, põe a música mais alta até só se ouvir a contagem decrescente do teu coração.

05.06.2012

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, junho 01, 2012

delírios da 00:35

acendo um cigarro a meia luz percorrendo as linhas da cidade,
as linhas que desfiz em papel.
tem morada no peito um sentimento funesto,
e tomo mais um comprimido.
chamei pelo ian quando as vozes não vieram,
hoje sou um animal envenenado pelo sangue que lhe corre nas próprias veias.
intersecto as linhas da cidade,
diluo o olhar sobre todas as superfícies rectilíneas e conto até três
e tomo mais um comprimido.
a tristeza e a vida são como o céu e o mar,
infinitas até onde alcança a visão,
não há distinção entre ambas
mergulho a cabeça na água e conto até três
e tomo mais um comprimido.
deixei de ter cigarros no maço, passei a ter supostos devoradores de tristeza.
ainda assim ela pernoita, aponta-me um revólver e conta até três.
dispara sempre.

quarta-feira, maio 30, 2012

o vento percorre-me as mãos,
aninha-se nas esquinas do meu corpo e esconde-se nos cabelos,
onde ontem se escondeu também a noite
debaixo do teu abraço.

a cidade morre no silêncio do tempo que não passa pelos relógios,
eu peço-te para ficares mais uma noite das muitas noites que não ficaste
e tu dás-me um livro de cartas de suicídios como um presságio da tua morte,
olho-te latente com olhos de quem perde antes de alguma vez ter ganho.

caminho só e borro as luzes dos carros e dos amantes voláteis encerrados em pensões,
peço desejos sempre que te beijo os nós dos dedos e sonho uma morte junta,
sonho uma vida rasgada à vida,
algo mais que a efemeridade dos momentos que carregamos no peito.

sexta-feira, maio 25, 2012

quis poder sussurrar-te nos teus ouvidos de papel
todas as cartas que nunca te escrevi,
sentir os crepúsculos com as pontas dos dedos
saber o teu corpo com o meu.

nada mais poderia trazer-me qualquer sentimento de bem estar
que apertar-te as mãos e saber-te, saber-te seres de outro mundo
de outro local onde não me deixas entrar
nem com o despontar dos dias.

hoje soube-te por entre todos os pedaços de alma
que escorriam pelas paredes daquele quarto do qual não tinha a chave
hoje chamei-te pelo teu nome, pelo nome de ilha muda que tens
hoje soube-te como quem sabe o que é o amor e que o guarda no maço de cigarros.

hoje soube-te como quem sabe uma canção
que toca no limiar do coração
quando as noites são demasiado duras
e tu demasiado só.

Inutilidades E Paraísos



Não faltam paraísos por esse mundo fora, difícil é encontrar alguém, com quem valha a pena
Partilhá-los, alguém que não acabe por torná-los em mais um inferno, alguém que saia antes
Do tempo apagar uma chamas e acender outras, no fundo paraíso é só onde se deseja ter
Quem não se tem, é só onde não se está quando se está e o calor nos obriga a aceitar a vida.
Custa escrever com a agonia de um dia cedo após uma longa digestão de trevas, contra a força
Do Sol a querer que tudo branco, as palavras tão finas, tão insignificantes contra a vontade da
Luz, o café foi apenas sabor a cefaleia prolongada e os olhos mal se conseguem abrir, tal é
O fascínio pela inutilidade que é abrir a porta e viver, além das pálpebras, da retina nem tanto,
Por isso abre-se o caderno pequeno onde cabe todo o tamanho de uma alma cansada, alma,
Cansada, mas apenas corpo e sono, gente demasiado gente que passa com toda a certeza nos
Passos, folhas que se convencem da eternidade da Primavera e ainda ontem o Inverno à janela,
Uma noite longa que se tornou clara, a lareira apagou-se e por fim ambos um abraço obrigado
Pelo orgasmo que se lava com repugnância na intimidade das mãos em concha ensaboadas
Com o cheiro do amanhecer de um dia quente, que traz a promessa feliz do esquecimento.

22.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

domingo, maio 20, 2012

A Linha


Deixa-me falar-te das coisas maravilhosas que vejo:
Tu num mal-me-quer, bem-me-quer, a fumar esse Anúncio
Luminoso que Cesariny ilumina; Como uma concha apertada
Contra os dedos, e o teu peito respirando o mundo todo
Numa pastilha que eu também quero tomar.
A realidade não é importante, queria dizer-to,
Pois o corpo define o limite da identidade:
Nós dois no escuro, à procura de um Monstro
Quando o medo vive nessa linha imortal
Circundando o espaço da alma até à barriga da mão:
Quero tocar-te para que vejas as coisas maravilhosas que vejo;
As coisas maravilhosas que vemos,
As coisas maravilhosas desde o centro de um abraço
Até à chama inivisivel que sai da tua boca
Para incendiar todos os animais de papel
Tornando-os vivo de cor fogo: Porque me queimam os horizontes
Nas tuas formas desconcentradas
Inchando um sorriso que sou incapaz de conter,
Mas que é teu.

sexta-feira, maio 18, 2012

Catholic Boy



“And now for once, you must try to face the facts. Mankind is kept alive by bestial acts.”
William S. Borroughs

Ela era a menina mais bonita da sua terra, católica devota, como tem que ser
As meninas bonitas da terra, ia sempre à missa e ajudava o padre em tudo
No que o seu corpinho pequeno podia ajudar, de paramento entre os fumos do incenso
E das velas, pedidos mudos, ridículos, que a vizinha me faça um broche no palheiro,
Que o padeiro finalmente me entre no pão, sorte na caça, a vitória da minha equipa,
O totoloto, tantos a pedir o mesmo que parece que deus opta por ignorá-los a todos
E ela a sorrir enquanto as velhas abrem a boca desdentada com hálito a morte
Para deus, famintas de um corpo qualquer, que seja o de deus, ela a sorrir quando
Recolhe as moedinhas para os vinhos caros do padre, como ela amava deus.
Gostava tanto do criador que também queria ser também, mas infelizmente ela católica,
Mudou-se então para a cidade, fingindo seguir os sonhos dos outros, mas secretamente
Não tinha desistido do seu sonho e prostituía-se depois das aulas, rezava pela madrugada
E sonhava com velhos obscenos a ejacular na sua palidez imaculada, acordava com o sabor
Do esperma cansado dos homens casados e continuava a fingir uma outra vida, até o dinheiro
Ser suficiente para mudar isto e aquilo, o nome, o país, em nome de deus, do seu sonho.
Chegou o dia, o início do processo de transformação, a metamorfose e só sentiria saudades
Das mamas que a faziam ser tão desejada e amada, dádiva de deus, tantas vezes
Com um colar de pérolas derretido, também teria que se deixar de joias, os seus clientes
Sentiriam a sua falta, mas ela iria salvar-lhes a alma, lá desde o outro lado do oceano,
Facas e hormonas a corrigir o único erro, erro não, vá, descuido do seu amado até que por fim,
Um homem, um novo nome, uma nova vida, o sonho tornado possível e depois salvar almas.
Numa missão de missionário passou pela Tailândia, onde inesperadamente se apaixonou por
Um(a) ladyboy, demasiado álcool sempre ajudou a aproximar-nos de deus, o seu sangue
A tornar o nosso mais quente, e num quarto barato onde se ouviam os gemidos dos quartos
Vizinhos e néons a tornar o ar psicadélico, finalmente entrou em alguém, finalmente se sentiu
Dentro e o coração batia-lhe como nunca antes, bateu-lhe mais quando sentiu o sumo quente
Explodir-lhe nas entranhas e aí percebeu que o pecado é o que faz bater o coração,
O pecado é a razão da vida, é o que alimenta a vida, deixou deus e as hormonas e tornou-se
Também num(a) ladyboy e juntamente com o seu amor, espalharam pecado, vida, naquela
Cidade deste mundo esquecido por deus. Esta é a história da menina mais bonita da terra.

18.05.2012

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, maio 15, 2012

estética

olho para o fio de lume gasto na noite, primeiro a lembrança da estética
depois o assombro e findo o olhar 
a indiferença.
no lume, ou talvez na noite, recuperei o espaço de uma casa em ruínas
onde queimam incenso os excomungados do templo
e se fazem ao mundo os males subterrâneos. 
persisti nesse arranjo poético, nessa ode soturna
composta como retrato de uma adversidade meditativa
como palavras que se subtraem ao tempo
sem deixar espaço às particularidades do som
via nesse anagrama o norte
as sobras que restaram de um velório. 
depois
depois se eu te visse a praia nos seios esquecia-me
não via nada.
foi pois a essa cegueira que me confessei
e percebi que o grotesco ou o belo ressoam ao mesmo tempo
se a indiferença me pousar na boca
os olhos.

As Cerejas São Momentos



Sabes que entre os desejos que não tenho, que são todos, há um que quer ser
Flor de cerejeira, tivesse eu olhos para apreciar lábios debaixo das oliveiras do adro
Da igreja, à noite, e dedos finos por entre os galhos em direcção às orelhas da filha
Da peixeira, naquele ano em que perdi tudo, como em todos os outros que se seguiram,
O estômago cheio de cerejas e as lágrimas a despedirem-se contra a parede branca do
Cemitério, o inferno branco, para nos destacarmos, nós as manchas e o verão
Não passa de sabor a metal entre os dentes, as pálpebras impossíveis de pálpebras
E dizem que os anos não perdoam, tornam-nos lúcidos cansados de tanta lucidez,
Viciados em noites de menos nós, aguardente e cafés apressados quando o dia
Se estica na pele insone, no café da terra, onde conversas sobre a origem do mundo
Reescrevem o génesis e adiam o apocalipse, livros sagrados escrevem-se no esquecimento
E a verdade é tão volátil como a memória, as raízes estranham o tamanho da terra
E o tronco sente-se estrangulado entre a rocha que o abraçou em tempos,
Só flores que quase são doçura na boca, lábios, derrotas de braços cruzados,
Porque ainda havia tempo, mas com o tempo, descobriu-se que não há tempo nenhum.

15.05.2012

Turku

João Bosco da Silva