O encerramento de um capítulo é algo tão ténue, como a linha que separa o céu do mar, quando não sabemos quando acontecerá, apenas que acontecerá. Hoje encerro este capítulo, hoje encerro este diário com o teu nome. Não durmo à noites, não como à dias e permaneço neste estado apático. Eu só queria saber voltar ao princípio, quando nos imaginava até ao final dos tempos. Eu só queria voltar a ser feliz, eu só queria voltar a acreditar. Tento por a memória no bolso detrás das calças para que a memória não me atormente, tento com isto afirmar que o passado se enterrou. A culpa não é tua, a culpa é minha que estou tão danificada que já não consigo voltar ao início. Eu sou como negativos que a Vida deitou à água vezes sem conta. Sou aquelas fotografias desfocadas, aqueles beijos desbotados que vejo no cinema e que não consigo na realidade. Eu gostava de ser como os outros sabes? Sair e perder-me na noite, afundar-me em bebida e esquecer-me que existe amanhã, que existe o ontem. Eu sei que é um dia como outro qualquer, mas não para os outros. Hoje é dia 31 e eu estou a chorar, a chorar tanto que nem o fogo de artifício consegue iluminar-me o olhar, aliás, o fogo de artifício dilui-se nas minhas lágrimas. Como é que chegamos aqui? A esta vivência impossível, a esta dor aguda e perfurante? Como é que afastamos tudo da nossa vida? Eu tenho medo da afeição, do toque, do amor, da proximidade, da cumplicidade, eu tenho medo de sentir. Então como é que escreves? Perguntaste-me um dia. A verdade é que nem eu sei. Sou um naufrago, no meio do oceano. Serei sempre um naufrago no meio do oceano. Quem disse que Nenhum Homem é uma ilha? Eu sou meu querido Saramago. Eu sou a ilha que se perdeu na noite sem mapa para voltar a casa.
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