quarta-feira, novembro 30, 2011

Lugares do coração I

Ontem passei no Terreiro do Paço,
Já eram tarde e más horas e o sol escorria pelos prédios.
Eu apaixono-me sempre no Terreiro do Paço,
É sempre a primeira vez,
É sempre tudo outra vez,
Uma analepse de tudo o que morreu no entretanto
E jaz hoje na memória.
Aqueles dias de chuva e nós de lomo na mão,
Filmámos a chuva para aquela curta que estávamos a fazer
E hoje sei dizer-te que foi o momento mais belo da minha vida.
Dissolvi-me com a chuva, nas pedras da calçada
E fiz delas os meus sonhos acabando por os pisar todos os dias.
Aqueles dias, todos aqueles dias,
Aquelas noites, aquelas luzes,
Aquelas pessoas, sempre as mesmas pessoas,
A água a molhar-nos os pés e nós fugíamos ali à beira rio.
O frio, que gelava o coração,
Mas talvez não o coração porque todo o momento era como se me ateasses fogo ao peito.
Hoje ficam as palavras que não trocámos,
Os risos que foram levados pela água do rio,
O amor e a amizade que voaram nas asas de uma gaivota que por ali passou.
Se eu pudesse voltar atrás,
Nesses dias tinha levado a lomo novamente,
Gelado cada um dos nossos movimentos naquele dia,
Naquele dia que parecia saído de um romance do Carlos Ruiz Záfon,
Aqueles céus de chumbo e a chuva que arranhava as janelas do nosso eu.
Tinha levado a lomo, mas teria tido mais cuidado,
Para não deixar dissolver o nosso rolo numa das poças de lágrimas daquele céu,
Que cobria aquele lugar do coração,
Aquele Terreiro do Paço.

I can't make you love me

Quando chega a noite, o meu coração esvazia-se de Ti,
Passam os dias, as horas e especialmente os momentos
Em que permaneço só, à espera um comboio que já não passa na estação.
A minha pele é um deserto, inabitado
Uma planície esquecida nas palmas das tuas mãos.
Esqueceste-te de mim.
A memória está sem dúvida do teu lado e nunca do meu,
Porque sou eu que deixo que ela me afunde, me deite por terra
Como as palavras que nunca me disseste.
Permanecer. Eu permaneço em ti, coabito no teu coração com o teu egoísmo
E nem sei se eu própria não serei fruto do mesmo.
Só me amas na cama,
Quando te deitas sobre mim e achas que tens o Mundo nas mãos.
Mas não tens meu Amor, porque se eu fosse o teu Mundo
Levar-me-ias dentro de Ti para todo o lado,
Como eu caminho contigo dentro de mim,
Confinando a minha liberdade a esta vivência do entretanto, mais uma vez.
O entretanto. A minha vida.
Era tão mais fácil deixar-te no lugar onde te encontrei, só, coberto de vergonha e solidão
Tão mais fácil reaver a minha liberdade.
Mas quando penso em tal, falta-me o ar
Pois tu és todo o ar de que preciso,
Todo o corpo de que preciso,
Todo o eu de que Eu preciso.
No fundo, não sei se sou infeliz por te não ter quando te não tenho
Ou se por te não ter quando te tenho.

terça-feira, novembro 29, 2011

The Passenger


Corre, corre, que se foi para
El Norte, o pequeno anjo
E seu coraçao miúdo - és minha
Bussola; Trago-te sempre em mim,
Às vezes até é demais: Porque
Me pesam as tuas tristezas e
Ficamos sós - 
Engole-me
Tal como quando te provaste
E viajámos por todos os bares:

Vimos todos os piratas desembarcarem
Jóias e rum no Cais de Sodré.

A tua mão ligada à minha,
Como se fossemos uma extensão da cidade;
As suas luzes cegavam-nos,
Era extasiante tudo o que se conseguia
Ver na escuridão. Agora Restamos
De nós resta o restar, Brilhando
Na escuridão amigos felpudos
Que a infância teima em resgatar.

Esta noite juro que te esqueço
Em veneno sincero para o meu
Coração que mente de tanto Amar 

segunda-feira, novembro 28, 2011

Quando o Rato do Campo encontrou o Rato da Cidade


Sinto nostalgia, sempre
Em raios e sois em demasia
Cheira-me a terra molhada 
O teu abraço é um salto
Só em direcção aos caminhos
De ferro e carne ainda quente
De matutar um futuro incerto
Cheio - Quero mergulh arte
Acordar e cantar o som
De Santa Apolónia no teu chegar:
As malas, escondendo-me
Um dedo cortado levado
Para nos calar tanta tristeza
No olhar ficar, mesmo que parta
Mais uma tigela de cereais
Frescos, colhidos na madrugada
Citadina. O homem está perdido,
Cruzes, que se me dói A tua voz
Farta de me procurar: Estou aqui
Amor, vem, e rasga essa linha
Invisivel que delimita - e limita -
O Universo possível de falharmos
E dos cálculos errados, Arranjarmos
Um 38 para a mudez. Sorte essa,
O Rigor tem um nome estranho,
Incompatível com a loiça 
Que se amontoa em montanhas
De neve, presas por um fio
De loucura - Cuidado, devagarinho -
Que tenho medo do vago 
Incerto da fruta que se colhe
À Entrada da primavera Angústia:
Doiem-me os cestos de palha fina
Que uma mulher negra carrega,
Qual Atlas doméstico - Tanto
Filho para criar, Tanto tempo
A Parir um Mundo novo; 
Multicolor, quando a verdade
Fala da criação - só uma casa
Se faz no teu corpo doce - Feito
De dourado alimento para
Uma boca cansada de beber 
Homens fortes e trabalhadores:
É que na verdade
Vive uma aldeia inteira cá dentro.

Cameroon

Fala-me outra vez daquela estrada,
Daquela estrada dos meus sonhos.
Aquela África para onde fugimos os dois naquele dia sem o apoio de ninguém.
Conta-me outra vez essa história de amor e sinceridade,
Conta-me outra vez esse momento em que vimos a nossa vida passar diante dos nossos olhos.
O aeroporto. Eu adoro aeroportos sabias?
Os aeroportos são um sinónimo de toda a minha vida,
Porque são os locais do entretanto, os locais entre uma vida e outra,
Os locais entre o que se deixa para trás e o que vai connosco.
É nos entretantos que eu vivo, nas Zonas Neutras como lhes chamaria Roland,
No Café da Juventude Perdida.
Eu não quero viver mais nos entretantos das coisas, eu quero viver as coisas,
Por isso conta-me mais uma vez aquela história daquela estrada,
Daquela África minha e tua.
Conta-me mais uma vez essa história,
O nosso First breath after coma.
Conta-me mais uma vez a história daquela tarde nessa estrada,
Em que o sol morria dia a dentro e que a tua pele se transformava numa ilha
E como nenhum Homem é uma Ilha, eu fundia-me em ti num abraço
Gelado no tempo pela aquela minha lomo nas mãos daquele negro.
Afinal sempre podemos gelar histórias no tempo.
Conta-me outra vez aquela história daquela estrada com destino àquela aldeia remota.
Conta-me outra vez o bem que lá fizemos.
Conta-me outra vez tudo o que é nosso, mas jamais o que deixámos para trás,
Naquele aeroporto perto de Kumbo.

domingo, novembro 27, 2011

Dead Souls

A essência que faz de nós o que somos nunca nos deixa
Por mais que achemos que conseguimos mudar.
Uma dualidade de personalidades,
Uma dualidade de sonhos sem realidades.
Eu finjo que mudo, passo a fumar cigarros escondida de mim mesma,
Tu vens lá a casa, depois de uma viagem de comboio em que fugiste por mim
Fugiste por mim de mim mesma,
Porque eu sei que não consigo mudar.
Tiro a aliança e preparo uma última linha.
Pelo caminho paras numa cabine e dizes-lhe que eu não volto
E assim deixo que decidam o meu futuro por mim, como deixo sempre.
Foda-se esta depressão dá cabo de mim, penso.
E mais uma linha.
Quando abres a porta já estou pronta.
Há um desfoque de palavras vindo de ti, mas eu já não te oiço,
As luzes são tantas, a cabeça não pára e o meu eu acaba por se intersectar com o teu eu.
Tomas-me nos braços e eu quero-te tanto,
Mas não sei se este querer dos teus braços e apenas tão forte
Como a forte realidade de que não te posso ter.
Quando acabas dizes que me amas e que eu sou o teu Ian numa versão feminina.
Então já devias saber que eu não vivo em lugar nenhum e que também não viverei em ti.

sábado, novembro 26, 2011

Líquido


Estava a dar qualquer coisa na televisão. Sentei-me a enrolar um cigarro, distraída com o que se passava à minha volta. O Jorge levantou-se, já sabia que ia abrir mais uma garrafa de whiskey e declamar um poema em honra de Bukowski. Eu já estava suficientemente anestesiada, mas mesmo assim doía qualquer coisa. O João queria passar das palavras aos actos e por isso mudava continuamente os canais da televisão. Eu olhava como se o zapping fosse um programa televisivo que rodava apenas na minha cabeça. Uma enorme profusão de caras, animais, legendas, sons, tudo a tentar estimular os sentidos que já estavam cansados de mirar a mesma humanidade numa só pessoa. Jorge apercebeu-se que eu não estava lá. Pôs-se de gatas no chão e começou a miar. Um miar estranho, masculino, que não lhe ficava bem nem era sexy. Tirou-me os ténis com os pés e logo a seguir a peúga. “Cheiras mal”, dizia entre o miado. O João passou a mão pelo pénis murcho, era mais um comando remoto à distância para atiçar fêmeas. “Queres assim?”, perguntou Jorge enquanto me lambia o dedo grande do pé. “Como queiras…”, respondi-lhe secamente. “Serve-me whiskey numa taça de champanhe se faz favor”, disse-lhe logo, enquanto afastava o meu pé da sua boca. “Hoje estás estranha, de certeza que queres fazer isto?”. “Já estamos a fazer isto há muito tempo, só estou cansada da rotina…”. “Rotina era teres um namorado em vez de dois, dedicares-te completamente a uma só pessoa, magoares-te, chorares, terminares a relação por sms…”, dizia o João enquanto acariciava mais o pénis. “Se ela quer algo novo, podemos experimentar algo novo… O que deseja a Princesa?”. “Traz as facas…”, respondi-lhes convicta. O João foi buscar o faqueiro à cozinha e trouxe-o para a sala. Encheu logo de seguida um copo com whiskey e molhou a ponta de uma faca de tamanho médio. Veio trazer-me o liquido à boca, enquanto Jorge continuava a lamber-me os dedos dos pés. Eu lambi a faca, desde a ponta até ao cabo para logo de seguida ele passar a faca pelas minhas costas. “Escreve um poema”. “O quê?”, perguntaram em uníssono. “Sim, escreve um poema nas minhas costas”. Jorge levantou-se e meteu as mãos à cabeça, ficou subitamente triste. Os seus pulsos eram a moldura da sua tristeza. João pegava na faca com o cabo. Parecíamos figuras de plasticina a derreter ao sol. Eu de costas prontas à marca, o Jorge com a sua tristeza e o João a matutar no futuro. 

Insight

A vida é feita de portos, onde ancoramos as tristezas que nos afundam
Percorri todos os portos
Mas nem todos os portos seriam suficientes para largar as memórias.
Porque no fundo são as memórias que nos afogam, que nos prendem no fundo de algo
Ou de alguém.
Os anos que nos separam são feitos de silêncios desfeitos,
Caminhos obscuros sem mapa nem bússola.
És nómada no teu próprio corpo,
Vives num espaço que não me pertence, nem nunca pertencerá.
E eu lembro-me, eu lembro-me de quando nos perdemos no mar
O teu corpo em movimentos epilépticos para te salvares
Pelo menos para salvares o que restava de um corpo onde apenas habitavas.
Abrias os olhos, tentando conter a respiração
E eu abria os olhos para te ver deixares-me para trás.
Aquilo que nos afunda são as memórias,
Por isso mesmo é que só um de nós morreu.
Eu.

terça-feira, novembro 22, 2011

Legendas para Pensamentos


A borboleta desfalecia, lentamente
Tinha asas de Ícaro e vontade
De deus. Ganhava os dias voando,
Na certeza da sua perenidade
Morria, sabendo que era mais
Bela nas fracções de segundos
Antecedendo quedas abismais.

O mostrador apontava as 21:13,
Já se fazia tarde, e os cafés
Quentes dissolviam pastilhas
De Asas de borboleta:
O médico falou em cura,
Mas no final - Tudo isto
Só me tornava mais bela.

segunda-feira, novembro 21, 2011

Post-Punk Diversion


Na nossa lua de mel, as flores
Cairam de um céu a preto e branco:
Um homem tocava tambor e tu
Punhas a aliança no dedo errado;
Lá para o final ja pareciamos
Um Ian epiléptico em cima da cama,
Porque nos doia a cabeça de tanto
Solucionar este problema geográfico:
O Amor não salva ninguém.

sexta-feira, novembro 18, 2011

Ave



Onde estás pássaro, a piar de longe
Um piu fininho gravado em Vynil;
Ponho a tua música favorita a tocar,
Mas já se faz tarde e tu dormes
Os dias.

Será que sonhas comigo
Nessas viagens solitárias
Para onde vais tu?

As pastilhas da manhã adormecem
O coração já debicado, aguenta-se
Tanto, às vezes nem faz sentido
Anestesiar o amor para aquecer
Os raminhos onde as patas poisam.

Oh, pronto, está tudo bem.
Ao menos tens asas, não
Importa se fico ou vou,
Tu irás sempre.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Blur


Fotograma após fotograma
Não encontro esse filme que
Tanto falavas: Nós dois
A praia a escurecer;
O Mar molhava-nos os sapatos
Prendia-nos com fita
A sépia, desse mesmo dia
O filme pisado dos nossos
Pés a pisarem o rolo:
As nossas mãos num encontro eterno,
Desfocado, devanescido pelo
Toar de uma música Folk
E um trailer-van no horizonte
Quente de um princesa Mexicana.
O Homem sentado, a barraca azul e branca,
Embebia o tom amargo de
Bolachas maria com vinho branco
E uma recordação de infância:
A bicicleta já não tem uma roda
Usámo-la tristemente em discos
Cds, ouvidos no carro;
Socorria-nos essa viagem eterna
"There is a light that never goes out",
Como uma luz ao fundo do túnel;
Na verdade nem nos apercebemos
Já morriamos a caminho do futuro,
Inchando balões de ar sôfrego:
As nossas respirações descontroladas
Junto ao batimento cardiaco de
Corpos, vivendo de repente
O ontem na manhã seguinte.
A pintura impressionista gritava
O teu olho colado ao quadro:
Assim nunca vias o meu rosto
Que já se desmanchava na água
Das marés de Outubro.

terça-feira, novembro 08, 2011

Casa



Entra na cama quentinha;
As inicias de uma Tia-avó,
Marquemo-las de genética:
Uma semente nada só
Busca terra molhada;
Mas até neste lugar
Germina entre um abraço -

Aperta-me com mais força
Há muito tempo que ninguém
Entra em casa -

Esqueci-me de pagar as contas,
Água, Luz, Electricidade,
Sobra apenas o crédito em amor:
Vou até ao balcão de atendimento
E beijo a sociedade, fornico-a:
Tudo indicad que Vivo na margem,
Numa casa que é também o teu corpo.
O Rio bate aos teus pés,
Saltamos em cima do mar inteiro
Com as botas de um soldado alemão -
Vamos fazer de conta, vem
A dor é só mais um estimulo à vida.

A Ilusão chega de combóio,
Um quarto para as nove, espero-a
No quintal com uma colher de chá
A servir de norte a uma bussola
Que tu levaste para me encontrar.

O Azul Turquesa cobre o tecto,
Entra em casa,
Hoje faz Verão cá dentro.

segunda-feira, novembro 07, 2011

A Linha do Universo

Tudo cai, em constante proporção directa
à neve que se acumula no fundo;
Os Oceanos transbordaram, claros
Farinha para bolos e Tortas
De mel; As minhas abelhas
Vestem o pijama e dizem
Boa Noite - Até amanhã

Tenho medo porque o tempo existe;
Ás vezes por ser inventado, outras
Porque tudo cai - Até a Chuva
E palavras num poema
Cantado pela manhã turbulenta

Estou com dificuldades a acordar
Mas não receio a cidade a ruir,
Vamos brincar para os escombros.
Por baixo das pedras vive
Uma mulher que pintou a vagina de negro:
Está de luto pela Globalização
- Já ninguém deseja comer mais
Deste Pão, que Ronald Mcdonald
Destribui pelos fieis.

Tudo cai, amor,
Vamos cair também - De cabeça
Acordaremos assentes no fim do Universo.