segunda-feira, outubro 17, 2011

O Lado Errado da Noite

Desligo o computador, e o ecrã, onde a minha mulher vive, desvanece-se, deixando-me no escuro, sozinho no quarto. Avanço às apalpadelas até ao colchão e poderia ter decidido começar mais um capítulo da nova saga de Star Wars. Mas a verdade é que a minha mulher não ocupa só quela imagem no computador, a minha mulher ocupa também um vazio arroxeado que sou incapaz de penetrar. Pergunto-me onde estará ela, se ainda usa aquelas cuecas brancas com um lacinho na frente e os pintelhos a verem-se. Pergunto-me se um novo homem reparou nesse pormenor, ou se lhe seria indiferente a cor dos cabelos da sua amada. Dá-me tesão pensar nela com outro. Um tesão infinitamente triste. O que acontece, é que se me pusesse a pensar na quantidade de vezes que a vi a sorrir, nesta mesma cama, talvez isso me fizesse um pouco mais feliz. Mas seria à mesma uma alegre melancolia, porque ao final de contas ela também chorava muito. E cortava as pernas na minha ausência. E masturbava-se com os meus filmes pornográficos. E bebia-me com nojo. Era insuportável quando a via feliz ao meu lado. Porque o seu sorriso esticava, quase até aos lóbulos das orelhas, mas o seu olhar ficava perdido entre os rostos desconhecidos do café. E deixava de sorrir muito rapidamente para pedir mais um copo. Enquanto o empregado de mesa se aproximava ela sonhava, talvez comigo e ela noutro lugar, longe dali. A sua face brilhava através do licor, mas nada daquilo era real. Como daquela vez em que a levei por Lisboa à noite. Entrámos no bar, bebemos uns copos; na verdade eu sinto-me culpado por ela ver tantas mulheres em mim. Nessa noite ela pediu-me para morrer, com o corpo tombado nas escadas e a cabeça a bater continuamente contra a parede. Nada disso era real. O problema foi que ela também me pegou este vício das janelas e dos carris do metro. Em alturas como essas eu lembrava-me simplesmente que ela também me amava. E isso mantinha-me forte pelos dois. Pois era sempre depois de cairmos num precipício que eu a levava até junto do mar: para molharmos os sapatos enquanto ela inalava grandes quantidades de água. A sinusite desaparecia juntamente com o sorriso lacónico. Era bom quando caímos, porque depois subíamos, e éramos os melhores: nas melhores refeições partilhadas, nas melhores conversas, nas melhores fodas. Eu tinha medo que voltasse a mulher que jaz agora no meu ecrã, desligada. Então pendurava-a num baloiço e fazia de conta que sabia voar, como mais ninguém sabe. Por a ver cair tanto, deixei de ter medo de ser feliz quando podia ser feliz. E nesses momentos fui o mais feliz dos homens.

Podia lembrar-me do sorriso dela, mas na verdade não era isso que me fazia viver. Enrosco-me nos lençóis e penso em masturbar-me: talvez ela ainda volte para mim, a chorar as mulheres de outro homem.

domingo, outubro 09, 2011

A Personificação em Lígia Reyes


Agora sou melhor e pergunto-me
Se algum dia
Comerei a parte que me faltou escrever.

A materialização da elipse, do que fica por ser dito/escrito – algo que pode ser comido, é uma constante na poesia de Lígia Reyes. A sensualidade ligada ao facto de comer, aos sentidos, ao universo de significados da sensação que se cruza com a interpretação numa agilidade narrativa fora do comum. Desde logo o campo semântico do sémen, leite, branco fazendo adivinhar uma modernidade líquida. O Universo semântico é líquido, volátil e perene com os sentimentos que descreve. Tudo passa demasiado rápido, tudo se passa nos pólos, e outra vez o campo semântico branco a povoar os poemas. A assertividade, a capacidade de resumo de estados alterados, psíquicos de doença “porque esse sorriso não é teu; tentas-te consultar as bulas farmacêuticas”. A escalada das imagens surgem como aparição “A televisão faz-me engolir, /Mas não me sabe bem o seu pénis. / Na minha boca o comando tenta viajar”, é outra vez a personificação de objectos, tentam conduzir a viagem do sujeito poético, na elevação de tudo até ao humano, ao corpo físico/ à alma, à consciência.

Há um efeito térmico, o calor humano que cruza todos estes poemas, ligado ao universo da cama onde a lucidez é gente, gente que habita. A revitalização do quotidiano, das relações no acto de agrupar/ organizar, sejam eles papeis, ou a vida toda surgem numa alegoria sobre a memória, “nunca é bom dia para arrumar o quarto/ existe o medo de encontrar um papel / um poema, um caminho de volta ao teu sorriso”. É de caminhos que se fazem estes textos, estar a caminho é a matéria orgânica do desequilíbrio da escrita, a procura, mais uma vez o líquido e a sede[1], são a forma destes textos de LR, uma procura maior, mergulhada no humano. de tudo à escala humana, a mais perigosa, a maior, aquela onde LR nada e aquela que sabe descrever ao pormenor e de forma acertiva. Os poemas de LR tem uma dimensão narrativa forte, neles contam-se histórias, o sujeito poético exprime sentimentos, materializa-os, tornando-os quase orgânicos, personificados, corporizados. A métrica irregular é fluida, a pontuação é corrida. Em caixa mágica, a ligação entre a afectividade / sexualidade e a doença como transbordo, fronteira é estruturada, “sempre me disseram que os estados depressivos / Chegavam no Inverno, Nessas alturas / Cheiro mais a esperma do que nunca.”

Também o espaço é corporizado, limitado /potenciado à escala humana, a do corpo físico, cabe uma estação na pessoa, e toda ela dói “Doeu-me Campanhã nos ossos todos; a minha sopa a arrefecer, só me apeteceu /apanhar o comboio de volta”. Ainda no espaço podemos encontrar paisagens debaixo dos sofás, imagens que invocam a questão da memória e do suporte de registo. Em LR o registo parece ser sempre o calor. Em “Eva” podemos perceber uma atenção enorme à discriminação de género nos países islâmicos e à tortura a ele associado, uma atenção para com o global “infelizmente cortaram-lhe a vagina – E isto poderia ter sido uma metáfora para o silêncio”: O questionamento do processo criativo é usado numa alegoria sobre o próprio acto de escrever que é examinado durante a criação, criação e interpretação da própria criação andam de mãos dadas “Mas o silêncio não se parafraseia”, concluí.

Outras personificações de estados em “o cio da pobreza” ou em “a menstruação dos sonhos” criam pequenas alegorias sobre a sensualidade humana num universo em que a mitologia é revitalizada e reinterpretada ganhando novos espaços e contemporaneidade. É o caso de Eva e de Édipo integrados num contexto islâmico de discriminação de género e castração sexual forçada. O calor humano é novamente invocado em espaços apertados, no metro, pingam gotas de sangue sobre as carruagens, o efeito líquido, fluído, também ele escorre rápido em “Leite”, “substância viscosa”, “Gota de suor”, no universo do espasmo, do líquido, da sensação de toda a anatomia humana que é reinterpretada neste texto de prosa poética,”o cheiro do leite”, pode-se dizer que todos os textos de LR se cobrem de branco, numa invocação, da mancha/cor/espessa/gorda que liga os géneros, a fertilidade, a sexualidade, o calor, a sensação em favor da interpretação “ a franja cuidadosamente arranjada, caída sobre o mamilo esquerdo” mostra o calor como registo, como suporte literário, o de toda a vida, o de todos os gestos “ e o bebé com fome a pedir leite em seios cansados”, “o cheiro a suor das meninas que não sabem ainda que são mulheres”, revela toda esta narrativa uma ânsia inteligente por tocar o pólo que é a humanidade no seu lado mais corpóreo e físico. É extremamente física, sobretudo táctil, mais que visual a sensação que impera nestes textos. Povoados de alegorias, povoados de referências, povoadas de mitos privados. A intromissão do mito rural no urbano (o lobo perdido no betão) procura humanizar o estado natural, todo o estado primário. Em poesia, o equilíbrio acontece sempre em tensão com o desequilíbrio[2]. E do desequilíbrio surge o caminho, a perca faz parte do caminho. É de sensações primárias que falamos, de sede, de tudo que é líquido, de tudo o que fluí nos textos de LR e se adivinha volátil e rejuvenescido. De outra forma poderia citar Mário Cesariny “Não te vou dizer mais do que o que lá está escrito. É aquilo”.

Nuno Brito, Outubro 2011.



[1] Em tua casa o copo está sempre cheio / E a minha sede é um estado de espírito. – Lígia Reyes , Ao Anoitecer.

[2] Rosa Maria Martelo, A Forma Informe: leituras de poesia. Lisboa, Assírio e Alvim, 2010, p. 11.