segunda-feira, junho 27, 2011

Mais do Mesmo



Os parapeitos das janelas
Incendeiam-se de ideias e beijos
Porque cada cigarro, é o fumo,
E o travar levemente de uma boca.
Era assim que andavam os dias
Contando a quem passava o que acontecia lá dentro
Mas toda a gente o entendia
Como não se entende poesia;
Cabulando esta luz brilhante
Feita de alcatrão como as cidades
E nicotina como os vicios
Sempre tudo, marcando o compasso
De uma leitura triste à luz do candeeiro:
O poeta só falava do que julgava ter
Até a mulher era mitológica;
Quanto mais as mãos que so seguram livros
E os mosquitos zzzumzumbindo dizendo
Ser Verão demais para uma noite tão cansada.

domingo, junho 19, 2011

Hero

A verdade tocava-o graciosamente, abria-se no centro da testa, de onde saiam elefantes indianos com príncipes e diamantes. Era uma verdade onírica, proveniente desse ponto, lugar comum de todos os sonos. O escritor usava-se dessa referência para combater a solidão, como um x que marcava um mapa em branco. O escritor procurava J. em cada mulher, como se fosse imperioso conhece-las a todas para descobrir que aquela estava apenas em si mesmo. Por isso abria os braços, e das cicatrizes saíram peixes de todas as cores, inclusive aquele que pertencia a Herberto Helder. O que ele não sabia é que todos eles murmuravam palavras, que lhe eram contadas ao ouvido, e quando morriam deixavam asteriscos nos olhos. Obedecendo a uma estranha e singular maneira de ver a morte. Os peixes morriam, mas não a água em que boiavam. O sangue desfazia-se em cubos de gelos que rapidamente se evaporavam em direcção aos lençóis de água de todo mundo. E eu bebia, juntamente com todos os outros, sofregamente o sepulcro porque me alimentava em vida. E a vida é paixão. Era paixão. Até ao momento em que se desconstruiu em mil alicerces de futuro.

O presente abandonou-nos mais rápido do que seria de esperar.



quinta-feira, junho 16, 2011

Half a Person

Morrisey

Já era tarde quando chegou às imediações daquele edifício. Estava em Londres e corria o ano de 1986.Tinha as orelhas cheias de furos e uma tatuagem no braço que dizia “long live the queen”. Apresentou-se na recepção como Ruben, “Ruben à procura de Maria”. Era esse o seu nome já há muito tempo. A senhora que estava a atender apressou-se a dizer que aquele não era um lugar para um rapaz. Mas ele recordou o lema da organização sem fins lucrativos: stop discrimination. Ela entendeu e disse-lhe para se dirigir até ao YMCA, porque aquele lugar era destinado exclusivamente a mulheres. “Mas não entende, eu estou à procura de mulher, veja nos seus registos se não está aí nenhuma Maria”. A senhora fez-lhe a vontade e por fim disse: “até poderia estar uma Maria, até mais do que uma, mas neste momento não está ninguém com esse nome”. Nesse instante viu-a passar mesmo ao seu lado. Vinha a dar a mão a uma mulher mais velha. Coxeava e tinha o lábio aberto, assim como diversas cicatrizes ao longo da face. Ele gritou “Maria”. E ela olhou para ele com um certo espanto e perguntou-lhe, “quem és tu?”. Para logo de seguida dizer, “desculpa, mas tenho que me ir embora”. Ele apressou-se a dizer “Fica pelo menos 5 segundos e eu conto-te a história da minha vida”. Olharam-se mutuamente e ela julgou já ter visto aquele rosto em algum lado.

Sentaram-se nuns sofás junto à recepção e ele recomeçou a falar, “podes-me chamar mórbido ou obsessivo, mas há seis anos que te procuro…”. “Onde é que já nos encontramos?”, perguntou ela. Foi então que ele começou a discorrer uma longa história.

A verdade é que ele tinha apenas 16 anos quando chegou aquele mesmo lugar. Vinha porque não tinha mais nenhum sítio onde ficar. Os pais expulsaram-no de casa; ao principio por causa das drogas e depois por ser homossexual. Sentia-se pior que um rato de esgoto, e foi então que estas mulheres o acolheram. Primeiro porque ele era menor de idade e segundo porque a sua situação era demasiado deplorável para que o mandassem para outro sítio qualquer. E lembrava-se dela nessa altura, lembrava-se do seu corpo franzino coberto por longas vestes islâmicas. Nada tinha mudado, exceptuando o rosto marcado. Seria da vivência atroz ao lado de um homem, ou seria ela apenas uma rapariga que gostava de se meter em confusão? O que é certo é que se tinha apaixonado pela sua fragilidade, assim como se apaixonara por aquele lugar. Alguém lhe tinha contado que o seu nome era Maria e que tinha 16 anos como ele, com a diferença de ter os órgãos genitais mutilados. Sentiu-se impotente por lhe querer tocar e não poder, a natureza de ambos não os deixava. Ela porque só sentia dor, ele porque não a queria magoar. Ficara muitos dias a pensar como lhe deveria falar, como lhe devia contar que ela não era apenas metade mulher. Porém, no dia em que se decidira finalmente falar-lhe ela tinha desaparecido sem deixar rasto. E novamente alguém lhe contou: “a família levou-a”. Subitamente sentiu-se mal, sentiu que chegava tarde demais. Pela primeira vez na vida percebeu que os contos de fadas não existem e nem sempre tudo acaba bem.

E agora estavam os dois juntos, novamente. Ela não chorava, apenas olhava para ele com uma certa afinidade. Abraçou-o e disse-lhe “Nunca tenhas medo, nunca te cales e continua sempre à procura da Maria”.




quarta-feira, junho 08, 2011

A parte do Gigante II

Em Maio de 1954, aterrava em Lisboa um estranho calor. A Dona Mina ia batendo de porta em porta, Mouraria acima, para vender cosméticos. A conversa era sempre a mesma, “ai que lhe faz bem à pele, olhe só, e vem de Espanha… Vamos por aqui um pouquinho na testa para ver a diferença…”. E as senhoras vaidosas mas cansadas, sem dinheiro ou na maioria das vezes, sem jeito para aquelas coisas lá iam deixando a dona Mina fazer o seu trabalho. “Mas olhe lá óh menina, veja como ficou logo mais suave, e é bom, não é como essas coisas que vai ali à esquina comprar. Lá porque é barato não quer dizer que seja bom. Pelo contrário!”. Geralmente compravam-lhe cremes em tubinhos pequenos, porque ora era o que fazia mais jeito até para meter nas cicatrizes da criançada, já para não falar de que a bonita dona Mina vendia bem o seu produto. Se não tivesse sido vendedora teria sido advogada. O que ela não sabia naquele tempo é que haveria de ter um neto Doutor, filho da sua única filha. Mas por enquanto ia só sonhando com essas coisas, e às vezes, apesar de casada, até sonhava com um homem muito rico e viajado. Mas nada de príncipes e cavalos brancos, esses homens para além de não existirem só serviam para catraias. Estava ela nas suas deambulações diárias quando bateu numa estranha porta já para os lados de Alfama. Ela sabia que ali a sorte não haveria de ser muita. As mulheres andavam sempre mais preocupadas com as suas próprias vendas, o peixe, a fruta, as flores para os mortos, do que propriamente em tratar da pele. Tocou duas vezes à porta, de madeira velha. Quando de preparava para se ir embora uma senhora abriu a porta. Tinha a pele extremamente enrugada e uns olhos castanhos, mas profundos. “Entre depressa, se não as borboletas fogem!”. Subiram as duas por uma escadinha estreita e íngreme, entrando depressa e silenciosamente na pequena divisão da Dona Alzira. Toda ela em madeira onde pequenas borboletas esvoaçavam por todo o lado. Do lado de lá, da janela fechada alguém tocava acordeão. E as borboletas, assustadas, meias cegas, iam batendo contra sininhos pendurados no tecto. “Eu só lhe queria vender…”. “Eu não quero nada minha senhora, só que me ajude, ela estão todas a morrer, duraram cerca de três ou quatro dias. Agora vai ser uma trabalheira limpar a casa toda desta mortandade”. A palavra morte ecoou pelo espírito da Dona Mina. “Então é melhor eu ir-me embora…”. “Não vá, agora diga lá o que queria…”. “Não deixe estar, com tanto animal aqui isto só pode ser obra de bruxa. E olhe que comigo essas coisas não pegam, ai não pegam não que o meu santo António guarda-me sempre”. “Oh mulher deixe-se lá disso… Eu não sou bruxa, sou poetisa, é quase a mesma coisa, um pouco para o diferente. E para além disso tinha uma série de bichos em casulos. Melhor que ter gatos, elas então, no tempo do cio é uma chiadeira que nem se pode… Venha comigo”. E a agitar as borboletas já ofegantes de voarem, atravessaram o pequeno arranjo que era a casa da Dona Alzira. Sentaram-se à janela não para falar de beleza mas sim sobre o futuro.

Era simples, Maria Alzira tinha nascido a ver o Tejo de uma pequena janela. Tinha sido vizinha da Amália Rodrigues, vira inclusive, quando ela, ainda uma garota, tentou engolir fósforos para se matar. Foi nesse dia que começou a escrever, para simplesmente relatar esse acontecimento. E talvez se deva a Maria Alzira que hoje em dia se saiba tal coisa acerca de tão grande fadista portuguesa. Depois de ter crescido a ver o mar mandaram-na para a terra, numa altura em que toda a gente vinha para a cidade. Depois de aprender a escrever, aprendeu a olhar, com olhos de ver, sentir, cheirar. Tudo em demasia. Decidiu ficar solteira por não saber distinguir entre o sentir de amar tudo e o amor a uma pessoa só. Mas isso não invalidava as paixões, os corpos, o silêncio das cartas. Foi por isso que decidiu fugir.

“Encontrei um gigante nesta vida. Quase como Deus…”. A Dona Mina sentiu pena da velhinha que estava a ficar louca. “Vá-se embora Mina, não está aqui a fazer nada… que passar o resto da sua vida a vender cosméticos?”. “Bem, eu tenho uma filha…”. “E que idade tem?” “Dezassete.”. “Faça mas é as suas opções, que a sua filhinha fará as suas, quem sabe não lhe passe pelo caminho um gigante, um homem com dois metros de alturas que fuma, fuma, e do fumo dos seus cigarros grandes nuvens se formam”. “Bem, mas eu tenho marido…”. “E ama-o?” “O que é isso do amor?”. E ficaram as duas em silencias, um silêncio abismal de uma diferença de idades de quase trinta anos. Tudo enquanto as borboletas iam morrendo.

quinta-feira, junho 02, 2011

A parte do Gigante

Há uma certa pureza no seu corpo. Como se nos tivéssemos desfasado da cama, dos lençóis brancos. Como se tivéssemos perdido a pele, a carne, os ossos e o seus tutano. E dentro, na mais ínfima partícula do ser, restasse o simples. Perdemos o tempo com os seus comboios. Já não corríamos à procura do ponto máximo, da perfeição, do incomum. Nunca é momentâneo quando julgamos ser para sempre, mas até do imediato nos tínhamos desfeito. As sensações misturavam racional. Ela falava de poetas que se apaixonaram por Descartes. Para depois me perguntar se nos filmes pornográficos acontecia isto. Isto Acontece? Porque já não comia há três dias, nem tinha vontade de saborear – Já não sentia vontade de experimentar o doce depois do salgado, embrulhado no crocante... Tenro e temperado. Os cheiros das flores, os eucaliptos, nem os jardins da morte, lhe causavam ânsia. O tacto despojava-se das coisas suaves e hidratadas. Já não corríamos atrás da infância, nem do futuro. Nem atrás de um do outro. Nem com medo de nós mesmo, muito menos para sentir. A multidão ligava a televisão para ligar a multidão… Tudo misturado na crença fácil de que somos todos iguais e a informação acessível. Fácil, mas complexo. Como a economia, a política, o Direito. Vamos construir o simples, disse-lhe. Os gregos e os filósofos estão errados, minha querida. Estão todos errados. Edificámos uma sociedade inteira no pressuposto da busca, do caminho, do tempo, da escassez dos recursos. Vamos inibir o que sabemos e parar de colher os frutos, porque ao fim de contas, os frutos acabam sempre por cair das árvores. E o fruto dela caia-me na boca, no estômago, no sistema digestivo inteiro. Revolvia-me o corpo para me tocar num lugar inacessível, impossível de se procurar.