sexta-feira, abril 29, 2011

O Inferno


Vejo-nos a correr atrás do lado oposto. É verdade que nunca fomos bons em coisa alguma, talvez exceptuando as doenças de ego. E depois de tanto que já passámos volto a encontrar-nos no principio. Aquilo que chamavas de labirinto era apenas um circulo perfeito, cujo tamanho aumenta a cada dia que passa. É por isso que já é tão raro encontrarmo-nos face a face, mão a mão, no mesmo ponto, no mesmo momento. Eu procuro uma saída. Tu apenas esperas que ele aumente mais, que se torne cada vez mais raro o momento em que o começamos a caminhar juntos. Para em breve nos separarmos novamente, ora porque eu corro mais rápido na ânsia de nos ver morrer. Ora tu, que caminhas mais lentamente, na expectativa de que já estamos mortos. E de cada vez que nos encontramos somos a face do cadáver que o outro vê em si. Tu desfigurado, caíram-te velas em cima enquanto fazíamos amor. Eu sem pernas, sem braços, sem olhos, mutilada de tanto provar as tuas lâminas. Tu enterrado até ao tutano nas obrigações normais do quotidiano. Eu sem perceber nada acerca desse tipo de coisas. A tua cara exibe as valentes cicatrizes de quem ama; apalpo-as com o que resta de umas imaginárias mãos. Mas até já isso custa. Eu ligo a aparelhagem, inundando as divisões da casa com uma música negra: o meu silêncio quando a televisão está ligada. E passa um estranho filme sobre um casal que não se quer esquecer um do outro, e mesmo assim acabam juntos no final. Porque percorrem o mesmo círculo, só que inversamente cada vez menor. No intervalo falo-te abreviadamente sobre o constrangimento de vivermos em corpos separados. Como se estivéssemos amaldiçoados. Mas tu entendes apenas a palavra corpo soletrada pela metade e pensas que o problema está lá fora. Onde vivem todas as mulheres do mundo, com as suas ratas e membros não decepados.

A propósito disso contei ao meu melhor amigo que Abril era o mês mais cruel. T.S Elliot tinha razão, respondeu-me. E ficámos calados eternidades, só de julgar pelo tempo que passou entre os comboios irem e virem. Todo o mundo estava condenado a um timetable, e nós condenamo-nos ao mesmo fuso horário porque lhe queríamos pertencer. Queríamos viver o amor de que tanto nos falam. Ao invés entramos e saímos, como quem está sempre no mesmo lugar à mesma hora, à espera de alguém. E na verdade o que dói é encontrarmos alguém em nós mesmos, dentro daquilo que os amantes lhes julga escapar. Ou o dados ficaram viciados de tantas vezes que os jogámos. A morte de um lado, tu do outro. O mundo lá fora. O círculo infernal a reproduzir-se vezes e vezes sem conta, seja em que pessoa for. As duas metades da mesma laranja, que se comem depressa, a medo de se estragarem cedo demais. O sumo escorre pela garganta, evocando a mais sumarenta das doenças, o mais pérfido dos fluidos. Os corpos abandonam-se necessariamente uns nos outros, mas a razão é desconhecida. Foi por isso que inventaram a palavra amor.

terça-feira, abril 12, 2011

A Floresta II

Tu já sabias de ante-mão
As figurações desnecessárias para
Crescerem flores nos jardins,
Mas ficou por falar acerca dos comboios
Que iam e vinham, e paravam em todas as paragens
Em que tu descias docemente
Após um tragos de cerveja quente
E cigarros - tantos cigarros - fumados
Na sentinela do que poderia ser o amor
Mas depois vieram os comprimidos,
O prazer gasto,
E os poemas mal-escritos
Sobre um homem que não eras tu -
Antes vivesse eu na cidade iluminada
De néons e cores, sempre ofuscada
Pelo lado errado da noite.

domingo, abril 10, 2011

Primavera II


As amendoeiras já estão em flor, nestes tempos
De esquecimento e imagens desconexas,
Perdidas no selo de cartas sem envelope.

O que te aconteceu desde então?
Agora que já passaram os anos
E as tuas promessas resistem
No silêncio dos envergonhados

Deste lado de cá as amizades mudaram,
Perdidas num espaço contíguo,
São como fantasmas à minha procura. Ou serei eu que os busco?
E o cheiro dos citrinos espalha-se
Encosta-se aos lábios que subitamente se beijam;
As mãos poderiam tudo, mas estiveram longe
A tocar outros corpos, a silenciar quantas bocas mais
E por isso fiquei eu brilhante em doce
Num eterno estímulo solitário
Como quem lê no metro.

sexta-feira, abril 08, 2011

Quando parece não existir uma fronteira,
Uma ténue linha entre o amor e as cidades
Fica-se com o gosto na lingua
A enlatados e fritos: Coisas da infância
Quem me dera poder dizer que não, mas faço de conta
Tão facil como escrever estas coisas
que parecem doer tanto e no final
São apenas: COISAS. A água está quente
Ouve-a a correr, o banho imerso
Quente, húmido. Como o meu ventre a dilacerar-se
Em espiritos orgásmicos
De sabores alaranjados e prazeres fundos
E nesse buraco imundo gritam-me
Todas as coisas silentes, remanescentes
Das viagens que não fiz, dos amigos que não conheci
Em plenas orgias de lágrimas e imprevistos
Na sordidez da solidão carinhosa
Que é o meu corpo e o teu : mesmo estando tão juntos.