segunda-feira, março 28, 2011

Quando Deus castigou Eva



I

O que te parecem os olhos mais tristes de Lisboa,
se o acaso encontrou o melro mais negro, de bico mais alaranjado
As pernas mais feitas para o amor,
E de resto impossível, convictamente suicida
Como o fim último das mulheres:
A procriação exagerada até ao sangue
E durante o sangue:
Mimos, Mimos, Mimos.
Porque poderia ser mãe, mas no fim de contas
É apenas filha com tiques de homem,
Mas mais ninguém vê tanta felicidade
Na possessão, no aprisionamento junto
Ao cais do Tejo; Grilhões altos, maduros como o verão
Quase podres a esticar o Manifesto
Em direcção a palavras duras de educação;
Custa-lhe dizer o que sente,
Porque isso já foi dito muitas vezes
A homens de língua bifurca, a perderem-se lentamentamente
No fruto que grita com razão, por sua mãe,
Por perdão.

II

Um, dois, três
A minha mão segura a vela eterna
Das casas escondidas dentro de homens
Sem pontes elevadiças, sem barcos,
Um, dois, três
Bate a água junto aos cântaros
De uma mulher que planta chávenas de chá
E as manda para o outro lado da rua.
Um dois três
Tocam à campainha de vez em quando
Mas nunca entram, nunca se atrevem,
Porque a vela brilha
Um
A vela contamina
Dois
A luz extasia
Três
Os cacos como-os eu a todos
E ainda tenho tempo
De ler folhas de chá.
Três
Futuros
Dois
Toques à campainha.

III

Um - Uma Loucura, Uma só Loucura
Oh mulher dos olhos tristes
Vem e salva-me, porque ao menos tu
Tu sabes o que acontece quando
Os vidros perfuram os estomago
E o futuro incerto se descodifica
Como uma mentira - Tu conheces a lagarta
Da minha maçã, conheces o segredo
Que toda a gente suja de sangue
E abortos silenciosos.
Junto à sanita, só um homem morre
Aquele que não se atreve a contar
Uma vida inteira, E o outro
Que morre contando-a.
Os passeios são precipios à beira
- Poderia ser mar, mas está tão cheio de tainhas
Este rio que nos banha a cidade -
Gente, à beira gente, porque sem pontes
Elevadiças morre-se a tentar, morre-se
Ponto.

domingo, março 27, 2011

Atalhos



A Estratosfera progride
Em comer-nos a todos o termostato
E na hora da fazer calor,
Faz frio... Por muito que se limpe
O orgão, o orgão é como uma sola de sapato
Que sabe a casca de limão e dores de fígado;
Como se tudo que nos tivesse que sentir
Fosse palpável, expectável na decisão
Do atalho a seguir - E mesmo na falta
Do sentido, prossegue-se na esperança vâ
De que alguma coisa fique.

Alguma coisa há de ficar.

E o meu irmão já cospe labaredas
para mal da minha mãe, de instintos
Freudianisses que me ensinam com o rigor
Das coisas fáceis. Mas já estou habituada desde
Que me lembro, à pornografia dos afectos
E se antes era tudo uma questão moral
Hoje é política e estratégia:
Racionalização partida aos bocados
E servida num almoço ao luar da
Lampada fundida. Com direito a mosquitos
E mais o bicho feio que come à minha frente.

Na esperança vâ,
Alguma coisa há de ficar.

Principalmente para aqueles que têm
Diagnóstico certo e pílulas ao acordar
E ao deitar, mesmo antes do corpo se enjeitar
Na frigidez das histórias de encantar:
Como nos costumam os copos de água fria
A meio da noite, a meio das divisões perdidas
Da casa escura - Nunca nos falaram de cegueira
Para estes estados de espírito
Mas Melancolia dá sede e vontade de caminhar:
E provavelmente a cura passa por aí -
Porque o caminho também se faz à chuva.

E debaixo da chuva,
Alguma coisa há-de ficar.

quinta-feira, março 17, 2011

Paris

O sentimento desponta
Depois de um longo estado
De absorção do mundo.
E o resultado é viver
Para dentro.
Uma vez estive em Paris,
Mas não cheirei croissants,
Nem ouvi Jaquces Brel nas ruas;
Sem contar com daquela vez
Em que amei.
E é nesta produção
Ireegular, obtusa,
Que vale a pena Viver.
É só aqui,
Nestas palavras dos que me encontram
Que encontro o mundo
E tudo mais o que lhe falta.

quarta-feira, março 16, 2011

Primavera

As pessoas no metro, afastando-se lentamente, como que se deixando próximas.
São os rostos ínfimos que cruzam as cidades, cada cidade
Na Sintonia sonâmbula da palavra favorita
Alba de Al Berto, como quem canta
Feliz a tristeza.

terça-feira, março 08, 2011

sexta-feira, março 04, 2011

#2

A caminho da tarde, leve, sonâmbulo, estreito como o teu pescoço. Agora dizendo-me assim enquanto olho o copo vazio. A Cerveja bebida a tarde inteira, junto ao café da praia. O mar vai e vem, fecundando o aborrecimento, só as pessoas não notam este renascer entre nós. Tu a sorrires sempre e eu, bem, eu nem uma coisa nem outra. Nem nunca ninguém me disse que as cadeiras eram desconfortáveis, por serem pálidas como as pernas à sombra. Mais a areia no corpo, o gelado que caiu ao chão, as sacudidelas de toalhas de banho, os putos a berrarem por mais. E eu a berrar já nem sei o quê. Tudo por dentro, onde as vísceras se moem e desmoem por causa de um almoço pesado e da água fria. Tenho o coração a bater junto ás goelas, e tu sorris.

quarta-feira, março 02, 2011

In- Objecção

Acontece sem querer, os estados
de Inobjecção, parados
Acontece os mortos boiarem
E tudo o resto cresce na ânsia
Da fatalidade subjacente
A Nascer cego e começar
A olhar através dos olhos
De outra pessoa
Que em breve vai boiar.