domingo, fevereiro 27, 2011

A beleza inunda o espaço que é preto

E branco, e no negro há quadros brancos,

E no negro Rosas brancas

E os quadros são felizes

E as flores são solitárias.

O espaço inunda a beleza

As paredes, os quadros, as flores

E só a voz a perfurar o restante campo.

E o piano, que ainda é grandinho,

Sou eu sempre tão pequenina de

Saltos altos & Blush, porque é bonito

O Espaço grande, pequeno, contigo.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Metamorfoses



Em que se converte esta palavra? Esta única palavra a compor um texto? De que se trata isto que se pode resumir a uma ideia, num jogo labiríntico entre palavras e significados. Frases e contos. Textos e vidas. Textos e tudo resto. Se escrever Morte, aplicando-a a esta actividade filiforme de debitar sem contexto ou razão, estarei a falar do acto de desaparecer? Ou simplesmente se trata de uma passagem, uma transformação: o que antes era vivo agora está morto. Pelo meio ficam inúmeras mensagens perpendiculares, a cruzarem uma informação estranha, de código. Se alteramos os algoritmos podemos criar um Frankenstein? Como aquela cena estúpida de ontem à noite. Que hoje é isso, estúpida. Mas ontem era Amor. Pelo meio a mensagem era mais simples do que as palavras que o texto continha. Por esta complexa razão até Ovídio, que tanto tempo dedicou ao seu poema, acabou por fazer nascer um monstro. A bíblia apoderou-se desse monstro. Darwin apoderou-se desse monstro. Nós apoderamo-nos desse monstro. E hoje em dia já é o monstro que nos controla a nós. Eu explico com mais clareza se me for possível. O que muda nos animais desde o seu afloramento na terra até hoje? Darwin descobriu a metamorfose? Porque a imaginação, um dos terríveis exercícios de pensar, levou a humanidade a um tempo anterior às suas expectativas (en)Deusificadas. E depois simplesmente imagina-se o que aconteceu. Sim há as provas científicas, como dizer que os seres humanos são naturalmente polígamos. Mas a razão principal de ser para o acontecer é perguntar, o que vem antes do nada? Antes das partículas de pó castanho a boiarem no céu; O que vem antes da escrita, da literatura, da ficção, ou da imaginação? Como começam os ciclos?

Como se repetem, criando este ser vivo contrário à nossa natureza de tempo limitado?

terça-feira, fevereiro 15, 2011

#1

Tu já sabias de antemão o que se passava. Aquilo era tudo menos normal. Ia de mal a pior. A pequena tossia a noite inteira, e a mulher só se preocupava com a pequena. Essa parte estava bem, mas depois, depois de ela acalmar. Ouvias a chuva a bater contra as telhas, a cama apertada, as traças a roerem os lençóis. E nem um abraço. E tu tossias por dentro também a noite inteira. Só te acalmava o espírito pensar, que uma mulher não pode ser mãe e amante ao mesmo tempo. Ou que ela decidiu ter só um filho, neste caso, uma filha, e não dois.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Filmes

Ele desatina a olhar para o horizonte. Meu Deus, como fica triste às vezes, quando se lembra. A memória tem destas coisas estranhas. Nesse instante disse-me aquilo que já lhe tinha passado pela cabeça nestes momentos. “Os sentimentos mudam”. Eu tinha acabado de pensar em mais uma história. A protagonista dirigia-se a uma cash converters e comprava os DVD’s porno todos da loja, e o empregado, impressionado com aquela devassidão, perguntou-lhe porquê tantos Dvd’s. Ela explicou-lhe que estava a fazer um filme cujo protagonista era um aficionado por pornografia e pretendia fazer um plano de câmara com aquilo tudo. A história desenrolava-se, entre um estranho desejo de escrever ou começar a fazer filmes. Ou imaginar. Mas os sentimentos dele tinham mudado, assim como o rumo das histórias. O empregado perguntava agora Porquê? Porquê gastar tanto dinheiro em algo tão inútil como a arte. Porquê fingir o tempo todo por algo tão inútil como o amor? Ficámos em silêncio. Gostava de lhe ter feito umas quantas perguntas, mas tive medo. O que não foi bom. Agora ficava um filme por fazer. Gostava que terminasse com os seus sapatos molhados e cheios de areia, porque ela queria ir ao mar e meter água no nariz. É bom nos filmes de amor a protagonista ser frágil como uma flor. Ter sinusite, usar óculos, ser levemente melancólica. Mas os sentimentos mudaram. Agora ele baixava-se e olhava longamente as pessoas no metro. A senhora alta de lábios pintados, as velhinhas que antes exalaram essa perfeição silenciosa. Eles a guardarem-nas, por serem mais mães e avós do que amantes. No melhor dos casos por serem a única pessoa com que podem falar. E eles aguentam todas estas divagações das mulheres. Filmes de amor. Filmes Pornográficos. É natural que os sentimentos mudem. Para além da outra razão a principal, mas dessas coisas a mulheres não falam. Só eles. Só eles se galvanizam com esse tipo de coisas. Mas nada é importante depois de se viver. Porque tudo deixa uma marca, a verdade é que dura tudo para sempre, excepto todos estes filmes e livros. Óptimos, mas que nunca se escreveram ou fizeram. E há sempre coisas mais importantes, como este traço descontínuo nas histórias. O momento em que o clímax se atinge, e todas as personagens conhecem a verdade, ainda que algumas ainda se julguem donas do seu destino. Há sempre quem julgue que os sentimentos são eternos.