sábado, dezembro 31, 2011

4.

O encerramento de um capítulo é algo tão ténue, como a linha que separa o céu do mar, quando não sabemos quando acontecerá, apenas que acontecerá. Hoje encerro este capítulo, hoje encerro este diário com o teu nome. Não durmo à noites, não como à dias e permaneço neste estado apático. Eu só queria saber voltar ao princípio, quando nos imaginava até ao final dos tempos. Eu só queria voltar a ser feliz, eu só queria voltar a acreditar. Tento por a memória no bolso detrás das calças para que a memória não me atormente, tento com isto afirmar que o passado se enterrou. A culpa não é tua, a culpa é minha que estou tão danificada que já não consigo voltar ao início. Eu sou como negativos que a Vida deitou à água vezes sem conta. Sou aquelas fotografias desfocadas, aqueles beijos desbotados que vejo no cinema e que não consigo na realidade. Eu gostava de ser como os outros sabes? Sair e perder-me na noite, afundar-me em bebida e esquecer-me que existe amanhã, que existe o ontem. Eu sei que é um dia como outro qualquer, mas não para os outros. Hoje é dia 31 e eu estou a chorar, a chorar tanto que nem o fogo de artifício consegue iluminar-me o olhar, aliás, o fogo de artifício dilui-se nas minhas lágrimas. Como é que chegamos aqui? A esta vivência impossível, a esta dor aguda e perfurante? Como é que afastamos tudo da nossa vida? Eu tenho medo da afeição, do toque, do amor, da proximidade, da cumplicidade, eu tenho medo de sentir. Então como é que escreves? Perguntaste-me um dia. A verdade é que nem eu sei. Sou um naufrago, no meio do oceano. Serei sempre um naufrago no meio do oceano. Quem disse que Nenhum Homem é uma ilha? Eu sou meu querido Saramago. Eu sou a ilha que se perdeu na noite sem mapa para voltar a casa.

sexta-feira, dezembro 30, 2011

nada repousa dos dias quentes em mim
nas superfícies nada brilha
não perpassa sequer um brilho de lágrima um verão futuro
um pássaro passa e o que se prolonga é o ar
a ave desaparece
eu fico.
as temperaturas visitam-me o corpo como os perfumes da cidade
fulgura o dia o calor a noite o frio ou nada fulgura
há um relâmpago que o céu dispara e nada repousa
o atingido exaspera pelo inverno
o observador pelo verão
e eu caído nessa rede de guerra recomeço
para acabar breve
a sentir o que apenas a estética do frio sabe ensinar.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

3.

Mais uma vez as minhas mãos se esvaziam de ti. Hoje não tenho nada, hoje não sou nada e sinto tanta falta de ser algo, de me sentir algo, alguém. Gostava de não intelectualizar tudo, de ser louca de esperança e ver a Vida nas minhas mãos, acreditar no amanhã e não me ficar pelo hoje. Como eu queria ser diferente. Como eu queria que me fizesses sentir diferente e não como uma folha de papel que rasgas e deixas ir com o vento. Eu não sei o que é o amor, eu acho que não sei o que é o amor ou então és tu que não mo sabes mostrar. Estou cansada de ser nómada no meu próprio corpo, de que tu sejas a minha religião pois não cometi nenhum pecado para estar em penitência. Não sei como podes utilizar essa merda de expressão para sempre. Nada é para sempre e nem sei se viveremos para ver o amanhã. Eu sou tão culpada como tu. Comecei por ser aquilo que queria ser e não aquilo que era e agora cada vez mais me distancio do que tu querias que eu fosse e começo a tornar-me mais eu. Será que isso faz de nós seres de tribos diferentes? Será que isso faz com que o Inverno chegue mais cedo para mim e que me tenha que retirar do teu território, do teu corpo para rumar a locais onde o Verão nasce no horizonte? Eu não sei, eu não sei nada, nunca soube nada e no entanto tenho no peito todas as possibilidades de tudo, as quais não sei usar. O nomadismo dói-me como me dói o sol nos olhos, a tua repressão, esta dor que não sei calar e que grita em mim noite dentro e acorda todos os vizinhos que habitam nestas cidades que se erguem no meu corpo. Será que continuo a pagar pelo passado que cometi? Os erros que não têm o teu nome, mas sim o nome daqueles que não os mereciam? Há dias que não são dias e para mim nunca chegam os dias ou então sou eu que estou demasiado vazia para os deixar entrar.

terça-feira, dezembro 27, 2011

2.

Hoje à noite fazemos as malas, podemos finalmente ir para onde ninguém nos procurará. Mas no fundo, quem é que nos procuraria? Tu és uma utopia e eu um coração dilacerado. Quem procuraria por nós? E no vento vamos, como as palavras pelas ondas dos teus cabelos. Hoje à noite saímos do mundo que conhecemos e vamos para o Mundo. Eu não sei quase nada, sei fazer bem aos outros e aceitar o mal que me fazem como se tivesse sido feito do coração, sei contar nuvens, acolher corpos que se perderam no tempo, gelar memórias com o olhar, sei dar, mas não sei receber, sei dar tudo e não ter nada. E tu? O que é que tu sabes? Inventar poemas ao acaso, decorar caras que nunca viste, ver os outros como eles são e veres-me como eu posso ser. Hoje à noite saímos daqui, o que é que te prende? Nada, no fundo sou eu a única que te prende à vida. Hoje vamos e não voltamos, não mais perguntas, não mais porque, não mais como, não mais quando. O tempo são todos os momentos que estamos dispostos a perder por aquilo que amamos. Vamos fazer do tempo a razão do ser, vamos fazer da vida não mais que aeroportos dos quais não me lembro o nome, vamos fazer da parede o quarto um mapa gigante onde colocamos marcas nos locais em que já estivemos. Hoje vamos e fugimos a um mundo pelo qual não estamos dispostos a lutar. E se eu quiser voltar atrás não me deixes, não me deixes voltar a cair no hábito que me prende as asas e não me deixa voar, porque eu só sou eu com aquilo que faço e se não faço aquilo que faço então eu não sou nada, eu não sou ninguém. Hoje a noite deita fogo a tudo o que eu conheço e eu tenho que ser capaz de contemplar as chamas ao longe, de ver tudo o que fui reduzir-se a um incêndio do passado e depois a cinzas que por fim pisarei quando desaparecer para o outro canto do Mundo.

Diazepam


Um punhado de relva, na mão
A terra ainda está molhada
Sulcámos tudo em busca
De um tesouro que se esconde
No corpo; Desculpa,
Mas não volto a abrir
Estas marcas que vês.

Nunca tentámos as cidades
Há um café que fecha ao adormecer,
As tuas pernas enroscadas nas minhas,
O soar das doze badaladas,
Tantas promessas:
E nenhuma por cumprir;

Anda, bebe essa mistura hibisca
Que a minha solidão preparou,
Esta noite sinto-me tão frágil:
Fecha a porta e celebra
O meu corpo molhado:

De acordar e as madrugadas
Serem orvalho nos olhos.

1.

As mãos são poços de vazio onde finjo guardar-te. Finjo. Cheguei ao momento do fingimento, da dor acutizante de carregar não apenas a minha alma, mas também a tua. O meu coração é como as andorinhas que partem depois da Primavera, um ser vagueante que acaba e começa onde o mar e a terra se tocam. Nesta hora em que me encontro só reencontro o conforto dessa mesma solidão que corrompe o vento e as cidades. Os Homens pensam que é no perder que está a morte mais dolorosa; pois eu digo que o saber que se está a perder é que é a morte mais dolorosa. Saber que estamos a ir pelo caminho errado, mas não saber voltar a casa porque a casa, que um dia pareceu tão perto, hoje parece tão longe...e nem todas as horas...ouve-me quando digo que nem todas as horas nem as cinco letras do teu nome tatuado nas pálpebras do meus olhos me conseguiriam trazer novamente a casa. Eu sou um rio, que afogo todos os que me tentam atravessar, mesmo quando os quero deixar passar. O meu corpo é um deserto, são as paisagens de um Sudão que foi meu um dia, num daqueles sonhos em que chamei por ti e tu não vieste. Ouve-me quando te digo que tens que me salvar, tens que ser mar e as tuas ondas têm que ser braços com a forma da minha solidão pois só assim, só assim conseguirei sair deste vazio que me consome, destes dias que se começam ou acabam eu não noto. Levanto-me quando a manhã está a horas de chegar pensando que ela já chegou e quando me deito já a manhã tomou conta da noite. Talvez a felicidade esteja nisso mesmo. No meu corpo frio e despido de tudo o que um dia fui. Talvez a felicidade esteja em deixar este lugar onde tudo tem nome de tristeza. Os aviões são como as tesouras das costureiras a rasgar o céu. Rasgaram o céu e chegaram ao meu corpo, a este Sudão tão belo em que a terra tem tanta sede. E quando pensas em aterrar, quando pensas em chegar ao meu corpo apertas o cinto porque sabes que hoje, aterras na superfície da lua.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

há em ti
incógnita
uma estética pontual
um rumor das palavras que
se escutam perdidas
nelas pressente-se a mesma arte
de iluminar a vida
que dóceis flores nocturnas
o cheiro de partir
para terras tão distantes como tu
mas tão próximas
como quando pronunciadas.

terça-feira, dezembro 20, 2011

Folie à deux

Quando o princípio das coisas é mesmo o seu fim é ai que as nossas almas se encontram e se tocam. Eu não te conhecia, mas era como se te conhecesse desde sempre e sem saber muito bem como ou porque a fragilidade do meu eu cativava o teu naqueles momentos inteligíveis em que eu era a única que te compreendia, nos meus momentos de espírito livre onde a minha liberdade mental residia nas tuas mãos. Onde a tua liberdade mental residia nos meus bolsos, nos hojes que nunca chegavam a ser amanhãs. Aquilo que guardamos no fundo da alma é igual ao nosso conhecimento acerca dos oceanos que inundam a nossa terra. Eu e tu. Duas ilhas com pontes de palavras, de pedaços de alma e tu tudo o que eu acreditei e que não estava lá. Aquela casa branca naquele vale e nós. Tudo isso eram espectros que pintávamos à distância num amanhã que nunca seria nosso. Nós sabemos quando algo é diferente, quando algo está errado e é mais ou menos quando o mesmo sentimento como quando alguém se apaixona. Todos os pelos do corpo se arrepiam numa tentativa de escapar à nossa própria pele para poder mergulhar na da pessoa amada. Eu não sei como começou. Nós nunca sabemos o princípio de algo que está condenado desde o dia em que nasce. Se olharmos para trás, para as coisas que mais nos perturbam perceberemos que nem nos lembramos bem do inicio da dor, mas sim de todo o desfoque de pessoas, lugares, sentimentos que provêm desse momento. Um desfoque. Algo que não se entende. Uma confusão de uma fusão de coisas que provocaram a dor pura. A tristeza que nos devora um corpo no qual onde habitamos apenas. "Since the day I saw you I knew you were Jim to me and I was Pamela to you". Fui eu que escrevi nisto e acreditei tanto nestas palavras como quem acredita num Deus. E porque? Não sei porque, mas era mais fácil por por palavras escritas aquilo que me estava cravado na alma e que eu não sei como lá foi parar. Fumávamos cigarros deitados na relva falando de vozes que não existiam, do nosso crystal ship e todos nós estavamos filled with pain. Desenhávamos um futuro que nunca seria nosso, mas que ninguém nos podia tirar, desenhávamos pessoas, lugares, uma vida, desenhávamos sem saber que mais cedo ou mais tarde os nossos desenhos de fumo dissipavam no ar daqueles dias de verão. Do nosso último verão. Quando te despediste de mim naquele dia em que choraste na estação eu achei que eras realmente capaz de mudar, que éramos capazes de ficar juntos e não nos destruirmos um ao outro. Eu era (ainda o sou) tão frágil como os frutos demasiado maduros que pendem das árvores e tu frágil também nessa tua cobertura de loucura. Juntos ouvimos as vozes do silêncio, enquanto tu te escondias no armário e murmuravas poemas na ausência, juras de um amor obsessivo que se queimaria com o acordar dos dias. Os teus olhos no meu peito, o teu Mundo a meu pés e tu deitado assim nele como um combatente sem armadura, todo tu despido de loucura todo tu, todo tu mergulhavas-me na cabeça nos meus sonhos, nas mãos que dávamos na distância de uma estrada sem fim. Tu não tinhas dinheiro nem rumo e eu não tinha eu. E por isso nos juntámos e fomos namorados sem nada, namorados que se namoravam no silêncio, nas fotografias que gravaram. Dizem que o toque tem memória e eu acho que sim, porque era à noite que te relembrava melhor, quando tocava nas minhas mãos que tocaram nas tuas mãos, nos meus lábios que foram tocados nos teus beijos desajeitados e tão impossívelmente sinceros. Eras impossivelmente sincero comigo, sincero com o nós e no entanto fizeste-me tantas promessas que no fundo sabias que não podias cumprir, ou que pelo menos pensavas poder cumprir até teres posto aquilo cinto ao pescoço, até escrevinhares o teu ódio ao corpo que te transportava e à pessoa que és. Não sei como alguém como tu consegue amar alguém como eu e no fundo nem eu sabia, não por seres quem és, mas por te amar desta maneira, por te conseguir amar tanto. Eu afoguei-me contigo, naveguei no teu corpo, na tua obsessão que acabou por navegar em mim. Deitei tudo por terra por ti, para poder navegar no teu eu que me compreendia a mim e acabei por me deixar ir até às profundezas e morrer com as palavras, com os dias e com o nós. Quando acabou, quando acabou não acabou para o meu eu. Pois permaneceste como o ar nas brisas na tarde, que não se vê mas sente-se. Naquele dia 31, quando apanhaste aquele comboio para o nada eu soube que tinha que te deixar ir, eu soube que tinha que deixar o teu corpo boiar para longe do meu para me salvar e então tentei. Tentei salvar-me do que te destruía mas não consegui porque também eu estava destruída há muito. Eramos ruínas de um castelo que nunca se construiu, mas que caiu por terra. Ouve-me nesta hora em que te peço para não o fazeres outra vez, ouve-me nesta hora em que tento cortar o silêncio com as palavras para te impedir. Não vás, encontra um rumo que eu ajudo-te a ler as palmas das tuas mãos pois são elas o melhor mapa para dizer para onde vamos. Voltamos atrás no tempo, estamos novamente naquele armazém abandonado junto à praia onde a noite caí mais depressa que em qualquer lugar, onde o mar grita pelas paredes e tudo vai caindo no que é sombrio dos dias. Um cenário assustador, onde inventas vizinhos que não existem para combater a solidão e fumas cigarros esperando que a vida acabe mais depressa e me deixas aqui, neste porto onde não fazes tensões de voltar. Tu vivias ali e eu vivia aqui, mas no fundo não vivíamos. Às vezes sentava-me à janela do meu quarto no colégio e imaginava-te, imaginava a última imagem que tinha de ti, imaginava o que estarias a fazer, imaginava onde estarias naquele momento. Uma prolepse e estamos naquele telefonema, a voz abafada e o meu choro incessante. Tu sem nada de ti em ti eras o Jimbo e eles eram átomos, numa distância que não era minha de percorrer. O coração apertado. Tu completamente ferido, mutilado como quem mutila a alma, acabado, sem réstia de ti. Psicose, a morte nas tuas mãos e o vazio nos teus olhos, um inferno, um fogo que se queimou do teu eu que ardeu. Tu tão longe e eu tão mais longe ainda, o medo que se me desenhou no rosto e me levou anos, o medo que matou os meus amigos por dentro. Nesse dia tirei as nossas fotografias da parede porque não conseguia olhar para os teus olhos. Uma nova tentativa de desapareceres que levava parte de mim contigo. Olhei-te outra vez e fiz uma analepse ao dia em que nos tiraram essas fotografias. Eu morava em ti e achava que tudo era possível porque estava embrenhada no teu eu desfeito. Aquele cheiro a mar, eu junto a ti a cantar a the crystal ship. Fecho e abro os olhos e abandono essa pele que gelaram no tempo e retiro as fotografias da parede. Não dormia porque sempre que fechava os olhos via a tua imagem na ausência das minhas memórias. Um espaço onde a saudade tinha a forma daquilo que um dia sonhámos para nós. Não conseguia estar às escuras porque tinha medo que me aparecesses. Acendia a luz do quarto dela e enrroscáva-me na cama, demasiado assustada, esperando que o sono me viesse matar. De manhã acordava e parecia que nem tinha dormido. Às vezes perguntava-me porque nós? Porque isto? O sofrimento nunca vem só e todos os dias a chuva era oblíqua na minha alma. Outra analepse e estou a tentar soltar-me dos teus braços na Avenida porque tu nunca conseguiste aceitar o meu amor, porque tu nunca achaste que fosses suficientemente bom. Programei levar-te a todos os lugares que me eram queridos e fazer memórias contigo. Pediste-me tantas desculpas por arruinar o dia, mas o problema foi que não arruinaste o dia, nós já estávamos arruinados desde o início. Outra analepse e gelamos um primeiro beijo na estação e eu minto ao mundo, mas não ao Mundo porque esse eras tu, sobre o meu paradeiro. E no fim já ninguém sabe onde está, tudo isto se tornou meramente um amontoado de palavras e tu cortas o dia com a tua bicicleta e deixas tudo o que nunca tiveste para trás. Não se pode perder aquilo que nunca se teve, acho que sempre foi assim que pensaste. Hoje, definho nos meus pensamentos de um momento que não quero que chegue e ardo com a noite que existe sempre no teu quarto e com os teus olhos que queimas nas tuas fotografias.
we'll meet again.

Greg Haines - Moments Eluding

Greg Haines - The Spin by Kning Disk

acontece-te por vezes profetizar a vida em opúsculos
e em vão cruzar toda a resistência de corpos e matérias
que depostos se prolongam no exílio da vida.
à medida que o tempo avança sonhas com ametistas recolhidas num rio que nunca correu para o mar e o teu movimento não se dirige a ponto algum
mas antes se acomoda na cama de pedras nunca movidas.
escutas o chão
e se é certo que não procuras saber em que ponto nasce o rio ou o mar
colocas-te na posição de náufrago para reatares a vida
e da dissolução do mal despires o corpo das feridas.
em vão quiseste muitas vezes encontrar um deus
mas como ele nunca te fizeste presente
tão-pouco aceitaste a revelação profética da verdade nem mergulhaste
na abnegação de olhar as coisas com olhos reais.
a ténue verdade é que o tempo e a vida têm dias assim
próprios de uma existência áspera
em que o próprio corpo se exila longe de alexandria
e como o homem que um dia se achou sabedor de todo o mundo
também tu verás que o deus e o mundo vivem dentro de ti
e nunca nas fronteiras sinuosas
de um país distante.

segunda-feira, dezembro 19, 2011

O homem do porto dos desenganos

No cais há um homem,
Esse homem vive naquilo que tu lhe deixaste, pouco mais que um porto de desenganos.
Fugiste à muito tempo, numas horas que roubaste ao tempo,
Com o seu coração no bolso.
Confinaste a sua liberdade ao teu tempo,
À espera de um navio que nunca chegou ao cais.
"Eu volto meu amor, eu volto" prometeste-lhe num fio de voz que puxaste da alma.
Eras tão perigosa como o maço de tabaco que trazias na mala,
Ele pediu-te muitas vezes para deixares de fumar, mas tu dizias sempre
"Eu fumo para queimar tempo" e ele não percebia, ele não percebia que imaginavas a vida como um cigarro que apagavas nas pernas quando puxavas o saiote para cima.
À noite nunca ias para casa, ficavas no porto e falavas com os outros homens que lá estavam nos silêncios das tuas conversas.
Ele via-te com aqueles homens, marinheiros de barcos que nunca chegaram a atracar
E quando chegava perto de ti dizia apenas "Vamos para casa".
Mas tu já não sabias ir para casa, tu já não sabias como caminhar nessa linha irregular que era a tua vida, então permanecias no cais.
Perguntaste-lhe muitas vezes "Porque é que não podemos levar o mar para casa? Podíamos mete-lo na banheira e assim não precisávamos de vir sempre aqui."
E nesses momentos os pássaros rasgavam os céus
E a alma dele também se rasgava como quem rasgava papel.
Quando tu morreste ele deitou-te ao mar, à tua "banheira"
E todos os dias as suas lágrimas tomaram banho contigo.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

And then it's you, and then it's you
O meu coração é um pequeno lugar onde tu habitas
O meu coração é o soar do teu nome pelos dias
Aquilo que eu queria eras apenas tu
E todas as tuas ideologias que ficam para lá da realidade
Somos infinitos, somos infinitos
As imagens de ti são infinitas
E na minha boca a tua boca
Nas minhas mãos as tuas mãos
E tu fundes-te em mim e juntos somos ∞

domingo, dezembro 11, 2011

Zé Bebé

Acabou-se, já teve o que queria: cona d'oiro. Mas ia-se embora e quando voltava lá vinha mais uma pachecada às antigas. Muitas turras, embrulhados e estouros faziam dele o Zé Bebé. De alcunha tinha muito pouco, já o nome que lhe davam, fazia juz à sua personalidade. Carnivoro, omnipresente e literato, era assim que se apresentava às moças. Umas vezes lá parava no café do bairro para beber um dedal de Porto, ficava-lhe bem, bebia o segundo e pagava o terceiro ao rapaz dos recados. Geralmente quem ficava recusava modestamente o tinto. Ele era assim, de humores, tanto se lhe dava bem como mal; e por isso todos ficavam na retaguarda da sua simpatia. Pena era apanhá-lo num dia não, depois lá vinha ele: "Vós sois todos uns filhos de uma bela puta". Mas ninguém abria a boca. Às vezes virava o Texas, quando um forasteiro chegava e se recusava a ter como mãe um belissima prostituta. Nunca era por mal que Zé Bebé dizia essas coisas, tirava-se-lhe um acento e dava logo para ver que tipo de homem era. Mas só quem era dali o sabia, e depois de tantos arrelios já não importava se bebia ou ser era só estúpido. Porém a fronha dele enganava: Carnivoro, omnipresente e literato. E só por causa do último adjectivo apanhava valentes tareias. No fundo todos queriam apenas provar que eram homens, de tal imensas liberdade como Zé Bebé a gozava.

sábado, dezembro 10, 2011

há palavras que te escrevo dispostas a suportar o peso da distância. são impulsos, quase sempre impulsos. quase sempre duas mãos a indagar o silêncio, a perguntar
à vida como se exercita o amor.
crio rumores que te chegam como um fio, um sopro
atrás do ouvido
onde te sopro nomes, paisagens reunidas em livros de horas, onde te sopro orações - a abóbada celeste, o teu coração.
há palavras que te escrevo que existem como um traço contínuo. como se o sentimento fosse demasiado vasto para invocar o silêncio, demasiado insistente para não responder à vida de volta.
invento as certezas do nosso amor, hoje digo-te uma certeza, amanhã outra e à hora de adormecer confesso-me
- hei de inventar a vida de volta
fazer da certeza um hábito. das palavras que te escrevo a oração diária.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Twice

Naquela noite, peguei na minha melhor faca e rasguei o céu porque me fazia lembrar de ti. Naquela noite, deitei fora o relógio e gelei o tempo. Odiei-o tanto que jurei que se o visse o matava como ele te matou a ti. Foda-se, pensei à medida que me embrenhava na noite como um animal numa floresta cerrada. Lembras-te daquele dia na praia? Daquela manhã em que apanhaste um caranguejo e tiramos aquela fotografia? Eu gosto da noite, porque na noite tudo parece outra coisa. A bebedeira parece alegria, a tristeza parece cansaço e a dor... Essa fica nos olhos de quem a tem e não nos olhos de quem a não vê. Vivemos tanto tempo juntos e juntos fomos a pessoa que nunca conseguirei ser só. Paro. Sento-me e acendo novamente um cigarro. O fumo na noite parece um castelo que saqueámos nos nossos sonhos e é no fumo que volto ao lugar. Fechei os olhos e os sons da cidade metamorfoseiam-se nos sons daquelas planícies que o sol queimou e o vento levou. A luz que me queima a cara por detrás das cortinas de onde te vejo no sofá. Sorris-me. Eu sempre guardei os teus sorrisos nos olhos para poder fazer deles meus caleidoscópios. Sento-me a teu lado. Vamos a contar una historia. Que historia? La nuestra historia. E os relógios paravam e eram horas assim, porque eu gostava de contar histórias porque assim eu não tinha que contar a minha. Podia ser quem eu quisesse. Había dos burros...E depois não me lembro de mais nada, apenas vagas memórias. Como eu gostava de contar histórias.. E eu podia contar todas as histórias que quisesse, mas não podia contar a tua porque achava que íamos viver mil anos para contarmos todas as nossas histórias. Tenho o pescoço a sangrar novamente. Agora faço isto quando estou nervosa, mas não penso sequer que o faço, apenas noto quando já estou a sangrar, percebes? Tenho a certeza que me perceberias porque se alguém conhecia o meu eu, esse alguém eras tu. Acendo outro cigarro. Volto à história. Eu achava que podia contar todas as histórias como eu queria. Se estivesses a levar a história num sentido que eu não queria, eu gritava e parava o gravador. Eu podia mudar todas as histórias do mundo, menos a tua que significava o Mundo para mim. Tu já estavas tão doente e eu não o sabia. No fundo acho que tu o sabias, apenas não mo quiseste dizer para eu não viver com isso.Mas no fundo, acabei por viver com isso e com todos os arrependimentos que repousam no teu nome, no qual não se fala em minha casa. Mas tu estavas doente e sabias como eu me assustava, como nos filmes de terror em que tinhas que me abraçar com muita força como se de alguma forma esse amachucar de corpos transmitisse a tua coragem do teu corpo para o meu. Mas, como eu estava a dizer, tu já estavas tão doente. E mesmo assim deitaste-te tantas vezes comigo e vivemos tantas vezes no céu a contar estrelas às quais dávamos nome de pessoas que amávamos e que já tinham partido. E depois um dia, um dia estava a olhar para o céu, só, e vi uma nova estrela. Era muito brilhante, nunca a tinha visto e durante meses perguntei-me sobre essa estrela. Meses mais tarde, soube que tinhas morrido. As pessoas que nos amam ocultam a verdade para não nos magoarem sem perceberem que é exactamente nesse momento, em que tomam essa escolha, que começam a magoar-nos. Desta vez, quando acendi o cigarro já só ficou o fumo porque alguém pegou fogo ao nosso castelo. Ardeste com ele e eu estava cá fora a ver as estrelas. É cruel, não é? Merecias viver mais que eu, merecias viver comigo, merecias viver em mim porque eras o meu castelo. Eras aquele mar que se erguia, para me cobrir de saudade. Agora parece tudo muito mais absurdo sabes? Toda a gente continuou a sua vida e ninguém mais dedicou um momento de pensamento ao que aconteceu, ou então evitam pensar no que aconteceu, é suposto eu saber? Também eu fingi que me tinha esquecido, até aos momentos em que vou no carro e sei que vou entrar no teu quarto. Morro por dentro. Durmo de olhos abertos porque o teu cheiro, o cheiro da tua pele está em todo o lado porque ninguém mudou o teu quarto. Parece que foste à cozinha beber água e que voltas em 5m. Então durmo de olhos abertos porque tu podes aparecer e eu não vou estar acordada para te ver. Nem todos os dias seriam suficientes para te trazer de volta. Quando venho de tua casa, durmo dias seguidos pelos dias que não dormi. Podias ter-te despedido. Podias ter-me dito adeus, podias ter-me dito onde guardaste as nossas cassetes de histórias porque é tudo o que me resta de ti. Porque é que tinhas que morrer aos 16 anos? Tínhamos a vida pela frente, quem sabe uma vida nossa pela frente. Foco apenas as luzes, apago o cigarro no braço porque a dor que carrego no peito dói-me muito mais.
E tudo o que ficou foram aquelas nossas cassetes de histórias. Fui tão estúpida, sempre me disseste que não podia contar a história da Vida e antes eu acreditava que sim.

quinta-feira, dezembro 08, 2011

Dezembro, 7

As luzes da Alameda apagam-se em mim como um cigarro.
Estamos todos sós, não estamos?
Percorro a rua acompanhada, mas estou só na verdade.
Boa noite.
Um sorriso desenha-se na cara daquela que agora é apenas um vulto na ausência.
Fechei a porta e ele ficou atrás de mim.
Não, a nossa confiança é meramente um dado adquirido para o meu cérebro o deixar entrar, por isso não. não confio em si. Já bastam todos os meus eu's que existem dentro de mim.
Escreva. Confia em mim?
Será que já passou muito tempo? Não sei, perdi a noção das horas como quem perdeu o norte.
Despersonalização da realidade.
Não oiço nada, parece que estou debaixo de àgua
E que as palavras são abafadas porque estou a ficar sem ar.
Acabaram-se as lágrimas, consigo focá-lo.
A brancura de um silêncio momentâneo.
Morrer?
Perder o controlo.
Pânico?
Cocei-me tanto de aflição que tenho o pescoço a sangrar.
Merda.
Uma mancha vermelha escorre-me pelos dedos.
Vozes. As vozes que nunca mais se silênciam.
Ou será que sou eu que me sinto pequena?
A cadeira parece o Mundo, é demasiado grande para mim, engole-me.
A porta.
O caminho.
Acho que vou vomitar.
Laura?
Um esquisso da cara daquela mulher loura que me recebe, um momento, uma simpatia que se perde nos meus dedos.
A campainha.
A náusea de viver.
E quando saí vi como a noite banhava as ruas da Alameda.
Eu não quero, eu não quero, eu não quero
Saí de casa e morri no metro
Dezembro, 7

Infância nas Mãos


O barco vai, dá-lhe corda
Na música que me ofereceste
Paris ardia, remember?
Hoje os estragos são veleiro
De um laço que embrulha
A infância num sapatinho.
O pai bebia demais, anestesiava
As noites frias - E a mãe
Sorria num filme a sépia.
Lá dentro escondiam-se
Uma nave espacial que partia
Em direcção a torradas com manteiga;
Fugiamos com um biberon na mão
E um ursinho na outra - Era sempre
Tão bom, chegar ao teu quarto nua
E do corpo fazer uma história de amor.
Respiro, sopro às vezes essa pessoa
Que sou eu, está tão perto:
A assustar como o monstro
Do guarda-fatos; A cair
Vezes sem conta da bicicleta,
A cara no chão e o cheiro a terra molhada
Ali tão perto: Apanho-o, é natal,
É esta a prenda que te quero dar.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

J

Meu amor,
os dias em que vivo sem ti não são dias,
são como aquelas noites em branco em que os tipos bebem demais
e toda a gente lhes parece bela, mas não significam nada.
Os meus dias sem ti são assim,
são os tais dias de nada.
Escrevi-te tantas cartas,
talvez demasiadas cartas,
porque todo o meu corpo é um ser escrevente
e levei todas elas comigo,
com o meu eu saqueado
no qual habitas.
Levei-te para aquela cidade, aquela cidade queimada
que se queimou de paixão,
de amor,
pelo incêndio que tu és em mim,
pelo incêndio que são as palavras,
as tuas palavras,
mesmo as que nunca dizes.
Tu queimas o chão que piso,
cada vez que me tomas nos braços
e pegas fogo ao ar e ao Eu.
Hoje deixa o fogo lá fora,
deita-te comigo na cama e fala-me daquele filme que vimos.
Daquele filme de suicídio e de amor que passou naquela noite na cinemateca.
Hoje, existe em mim.
Mas apenas em lume brando.
é certo que haverá quem creia no amor como um excesso
eu mesmo,
quando finjo ter-te visto descalça a colher malmequeres no campo
e me acoberto de uma ausência ainda maior
achando que tudo o que é vasto se perde por ser tudo.
talvez tu também penses assim,
achando-te nas horas mais descobertas sem o prazer da
minha ausência
achando na razão do teu corpo que por existir a imensidão
nenhum olhar se pode deter numa única paisagem.
colidimos assim na mesma razão
e dóceis escapam-te das mãos como um segredo
as dezenas de flores que colhes do chão.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Sarabande


Agarra a pomba, que no bico
Trazia a boa-nova dos Cristãos
E um sermão barroco - a constelação
Indicava norte, a caminho de uma
Música que já não sei tocar:
As minhas penas são fartas
Em dualidades da tua personalidade.
Calhou-me O cromo mais feio:
Jesus Cristo chorava que se fartava
No departamento de Psiquiatria,
E Santa Maria ardia ferida
De tantos elevadores que só desciam.
A chuva caia amiúde enquanto
Uma mão afundava no deserto
E do outro lado o mar borbulhava
O teu corpo a desfazer-se em semén

Queriamos tanto acreditar,
Que acreditamos ver o Porto a ruir
No fogo da vela que alumiava teu rosto:
A minha mão na rosa e o Elliot Smith
No gramofone velho tocava sem parar
Num encontro infinito de uma palavra
Que já ninguém ousa dizer. O México
Logo ali tão perto, Reinado de uma
Princesa a viver num trailer van:

Estou intoxicada
E o veneno provém da cura.


Mil horas

As manhãs têm mil horas e os finais de tarde
Todas as horas da minha vida,
Em que as afogo no mar onde cabe na tua ausência.
Todo o mar cabe no vazio das minhas mãos sem o teu corpo.
Fizemos amor em muitas praias - minto- apenas numa,
Cujas areias da memória ainda conservam as marcas da minha pele.
Escuta-me esta noite, em que usamos a nossa melhor recordação
Para cortar esta solidão em dois.
Eu sempre tive o coração na ponta da língua e todas as tristezas de uma vida que nunca foi nossa nas mãos.
Mas sempre nos encontrámos naquele porto de desenganos
Quando decidiste por fim aos engates de esquina com os quais preencheste a tua existência,
A tua existência,
Um barco rasgado a custo numa fotografia de uma memória que não era tua.
Um barco desfeito cujo rumo eram todos os corpos do mundo banhados por um mar de salivas
Que deixei de contar pois a depressão já era grande.
Mas era como te dizia, encontrávamos-nos nesse mesmo porto
E tacteávamos os rostos um do outro para descobrirmos as linhas de um passado que nos esquecemos
Ou que simplesmente guardamos dentro do peito cheio de recordações,
Como as árvores de pássaros na Primavera.
Se eu te pudesse guardar com as minhas palavras,
Fazer delas prisões para que nem o tempo nem outros corpos te tirassem de mim...
Continuamos no porto.
É tarde, mas ninguém nos espera.
A tarde começa a escorrer-te pelas costas e o sol a mergulhar num reflexo dos teus olhos.
Olhas-me e sei que jamais ouvirei todos os passos ao longe no cais.
tac- tac- tac- tac- tac
Ouvem-se os passos ao longe no cais,
Mas eu nada oiço porque tenho no teu rosto todos os sons do Mundo.
Caí a noite como os bêbedos da cidade que caíem maduros como as uvas do seu vinho pelos passeios sem fim da Avenida.
Num momento a tua voz ao telefone,
Noutro a da madrugada:
tu- tu- tu- tu
Desligaste a chamada.
O meu nome não ficou na tua memória nem na saudade que alugou uma água-furtada
no teu coração,
Mas sim nos teus lençóis,
Que foram hoje com a manhã para lavar.
Agora a noite tem mil horas e nem todas as horas da noite seriam suficientes
Para dizer-Te que o meu sofrimento existe
Quando tu não existes em mim.
Entrámos em tua casa,
Tacteei todos os degraus porque acho que bebi demais.
Não me lembro.
E então apenas me lembro de agarrar os lençóis,
De encontrar o meu lugar nos teus braços,
E de sossegar por fim no desassossego de te ter dentro de mim.
É de manhã novamente,
E a manhã tem sono porque ontem não dormiu nos teus braços porque eu ocupei o lugar dela.
Estamos novamente no porto e tu esperas.
Dás-me a mão com força porque está vento e tens medo que eu voe como Saint Antoine Exupery,
Me despenhe e arda
E depois seja uma estrela nos seios do crepúsculo.
A manhã tem mil horas
tic- tic- tic
tic- tic- tic
O relógio do teu coração dá horas mesmo sem ter ponteiros.
Eu olho-te e nesse momento levo-te no meu peito,
Como te levarei até ao resto da minha vida e sigo o meu caminho para casa.
A manhã tinha
Mil horas.
E hoje mais do que nunca tive a derradeira certeza que jamais queria que os nossos caminhos para casa
Tivessem rumos diferentes.
não é simples nomear rotas
afinal passamos a vida a fingir fugir dos lugares
mas ficamos lá sempre
a caminho de uma voz que não nos chama.
simulamos os sulcos, a gesta da viagem, os vazios da saudade
mas tudo o que sobrevem por fim são restos de mapas
fragmentos de país a país que percorremos nunca.
não sei se é preciso querer pouco ou querer demais
se dia após dia é natural o desalento
no corpo na casa nas superfícies planas
ou se a preparação para o périplo da vida consiste apenas
em abrir os olhos
e não morrer antes de tempo.
não sei
não sei de que forma as realidades se esvaziam
se é por fissuras abertas pela inércia
ou se pela dor de termos fugido vezes demais.
é talvez essa ideia plana do mundo que ainda vive
essa terra deitada há tanto tempo
que quando decidimos partir
o corpo fica parado.
vai o espírito que não torna jamais.
e no fim somos apenas isso
aves migratórias esquecidas de voltar.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Delírio Húngaro

I.

Tal como a Morfina, tiro a dor ao homem
Quem me olha nos olhos nunca mais será livre
Sou a mulher mais bela de todas as mitologias
Sou o paraíso em vida – o mais perigoso de todos,
Sou loucura criadora
Patrícia, a Irmã de Deus
Os meus filhos são todas as coisas, todas as possibilidades
minhas filhas
Induzo os mais complexos suicídios,
Dou a vida e tiro a vida e não acho isso bem nem mal porque sou
uma flor e as flores não julgam – são indiferentes e tristes
Aconselho os românticos alemães a pegarem nas suas
espingardas e a lutarem por causas inúteis. Meto-lhes pólvora
nas armas,
Provoco-lhes os Maiores prazeres
Sou feita de carne e não de luz –
Sou Nossa Senhora do Pólo Norte
a ver o sol pingar sobre o gelo:
………………………………………………………………………………..

II.

Sou o sonho de um camelo deficiente,
o delírio das gémeas siameses
o pesadelo de quatro girafas recém-nascidas
A paralisia é o contrário de Deus – dizias
Por baixo das minhas saias, afago-te a cabeça -
Sou as cinzas de um ditador a voar no bico de um corvo
todos os vendedores de marmelada na fronteira do Iraque
Por baixo das minhas saias – Amo-te como uma perdida

III.

Sou a possibilidade – na minha boca os bois lavram os campos,
Deixam as marcas carolinas das suas patas
O arado escreve na minha língua uma rima de Petrarca
Em letra carolina da mais perfeita caligrafia
Escrevo que te adoro em fluorescente métrica nova
As fadas papistas de tule Lambuzam-se de geleia e compotas
Sonhos: os mais doces, por exemplo
África partiu-se ao meio
na minha boca África inteira
Link, link, link, link

IV.

O medo de ficar sozinha, com a deusa da fertilidade a roer-me o útero
Os desejos mais fundos – de um operador de gruas
A boca cheia de neve Os cabelos a arder ao som da música –
ruivos – os phones cor de rosa de Santa Cecília, a padroeira da música
As nuvens do sonho são menos bonitas
Flocos de neve em Bruxelas, os anjos aquecem-se
Percorro todos os dias uma auto-estrada de prata que vai até ao
centro da tua alma
O prazer está em cada átomo,
em cada átomo – o universo
Os pasteleiros batem a massa em toda a Hungria
na Alta Hungria e na Baixa Hungria
Amanhã os meninos húngaros, os mais gulosos –
os pasteleiros húngaros, os mais tristes
– Olha para mim nos olhos
tenho os olhos tristes, dizias:
Os mais tristes de todos


Nuno Brito

Filtros


Olha-me, cega, vestida com esse
Casaco de lã
Cujos fios são pontas tuas
De recomeços e tardes no jardim;
Fizemos um pacto com a memória
Onde já não cresce vinho, e as amendoeiras
Ficam em flor - sempre depois de
Chorarmos todos os gatos brincando
E cortiça inalada - Chamamos-lhe ponte
Quando os barcos iam e vinham
E nós passageiros do amor
Ficámos em terra - E da ligação
Ficou este telefonema - E das tuas palavras
Um acenar ao longe:
Até qualquer dia.

Set fire to the stars

Estende-me uma cigarrilha Café Creme,
Vamos sair deste quarto esta noite,
Destes lençóis que já têm a forma do nosso corpo de tanto fazermos amor neles.
Passa-me a caixa de fósforos,
Hoje ateamos fogo às estrelas,
Hoje não voltamos para casa, pois não há casa para onde voltar.
Casa é onde o nosso coração habita,
E como tal eu habito em ti.
Vamos descer as ruas da Avenida, a melancolia cravada em cada esquina.
Ainda temos cigarros nos bolsos,
As fotografias e as cartas que escrevemos um ao outro,
Amontoadas e atadas com um cordel gasto pelo tempo.
Anda, ainda podemos ver as luzes de Natal hoje,
E tu sabes como eu odeio o Natal, mas sabes como as luzes despertam algo em mim,
Gosto daquele momento em que semicerro os olhos para contemplar o desfoque de luzes,
Das pessoas, dos carros que passam e que não sei para onde vão.
Lembras-te daquele dia em que me tentei matar?
Encontraste-me no chão da casa de banho com aquele golpe na testa.
Viste a tua vida passar-te diante dos olhos, viste toda a vida que nunca verias passar-te diante dos olhos.
Lembras-te daquela casa junto ao mar? Aquela pequena casa branca e os longos passeios matinais que daríamos na areia, nessas manhãs nebulosas?
A ternura das tuas palavras é sempre tanta que esta consegue perdurar até nos silêncios que nos separam.
E no fim, no fim as minhas palavras são tão pouco,
As minhas palavras não são nada.
Sempre achei que tinha o Mundo nas minhas palavras,
Como tu achas que tens o Mundo nas mãos sempre que me tomas nos braços.
Lembras-te quando queria desaparecer?
Talvez porque amar seja morrer, quando morrer não basta.

Your hand in Mine

Chovia muito naquele dia, naquela manhã,
Naquele Nosso Querido mês de Agosto.
Acho que nunca achei a estação dos expressos tão pesarosa como nesse dia,
Em que choraste todas as lágrimas que tinhas em ti,
Os olhos sempre cheios e no entanto sempre vazios.
Aquele abraço quando chegaste, para me destruir mais o peito,
Aquele amor incontrolável que me tinhas como se no momento em que me tivesses visto
Tudo tivesse feito sentido num curto espaço de tempo,
Como se a tua vida deixasse de ser um ponto sem paragens,
Umas mãos ao vento,
Umas pernas que iam com o vento.
Quando eu cheguei, cheguei porque me tinhas dito Estamos a perder tanto tempo.
Então eu fui até ti para recuperarmos o tempo.
Sabes o que acontece quando se acende um fósforo?
Essa é a nossa definição.
Não sei como defini-la por palavras, talvez tenha acabado de o fazer, mas embora gostasse de a conseguir fazer melhor não consigo, porque tu não me deixaste.
Eu voltei à minha essência da qual sempre fugi,
Quando aquele descompasso do teu peito se encostou ao meu e me beijaste naquela noite.
Foi como acender um fósforo.
Se eu podia ficar contigo, oh se podia. Mas não. Não podia,
Porque tinha que voltar e quando voltasse sabia que morríamos os dois.
E naquela manhã, daquele nosso querido mês de Agosto,
Quando me vieste ver uma última vez, sabia que tu já tinhas morrido.
Os meus olhos diziam-me tudo,
As tuas mãos,
Your hand in mine.
Foi o abraço mais longo da minha vida e senti que a minha vida me escorria pelos dedos.
Olhaste uma última vez para mim e disseste Não vou olhar para trás.
Eu anui, pois sabia que era tão doloroso como eu olhar para a frente, mas isso não podia evitar.
Naquele dia, naquela manhã, daquele nosso querido mês de Agosto
Deixei-te para trás
E vi perderes-te para sempre debaixo daquela chuva miúda.

domingo, dezembro 04, 2011

Elisa Day



Cantava os dias sonhando
Com um homem entre mil:
Daqueles que vêm e vão
No metro de Lisboa;
Com um homem entre mil:
Daqueles que vêm e vão
A Porta de sua casa.
  
- O meu nome é Eddie
E o teu qual é?

Elisa Dias, como uma rosa
Ou um punhado de hortelã-pimenta
Que sirvo no chá à meia-noite
Do corpo quente de esperar
O silêncio que faz
As palavras serem frases,
E da beleza um corpo apenas.




Lugares do coração II

Existia uma casa, onde as paredes têm mais histórias para contar
Do que muitas pessoas em toda uma vida.
Um lugar onde se criam meninas, diferentes das outras na sua maior parte,
Onde o recreio tem a forma de um claustro,
Onde o "lá fora" é outra dimensão, outro espaço,
Onde as pessoas se conhecem na sua maioria pelo número,
Pelo nome,
Onde as pessoas que fazem parte da mobília existem, sempre disponíveis,
"Um mosteiro encantado" como algumas lhe chamavam,
Mas para mim o encanto não estava no mosteiro em si,
Mas sim nas pessoas, lugares dentro do mesmo e sobretudo os momentos que se escondiam nas carteiras de cada uma, ou debaixo das camas, atrás das cortinas da camarata.
Os gritos nos corredores, o que antes irritava e agora parece tão distante,
Os collants que arranhavam no meio das pernas,
Os sapatos que ficavam largos ou eram muito apertados,
Acordar e ver aquelas pessoas, as mesmas pessoas, as mesmas caras.
Eu gostava de saber fazer um poema mais bonito para este lugar,
Porque este lugar merecia coisa melhor,
Mas não consigo porque a emoção que deposito em cada palavra é tanta,
Pois tudo me marcou,
Todas as pequenas coisas, as pequenas grandes pessoas,
Aquelas noites em que tinha medo de ir ao gabinete porque tinha que atravessar o corredor escuro como breu,
As noites em que dormi na cama com outras pessoas e embora mal porque as camas eram tão pequenas, jamais me esquecerei do conforto que sentia naquele desconforto.
A quinta, as grandes amizades, o amor que ficou,
Os segredos dentro dos bolsos, o olhar pela janela e sentir que a vida nos passava ao lado todas as quartas-feiras em que vivíamos a vida dos outros através de uma janela.
É demais e não o posso explicar,
Porque nem todas as minhas palavras fariam jus a este lugar,
A este lugar do Coração.
Dizem que home is where your heart is.
Talvez seja por isso que ainda vagueio todos os dias naqueles corredores.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

o medo foi outrora esse silêncio esguio
essa pátria de penumbras onde os portos nunca foram cidades
e as trocas nunca passaram de um longo simulacro de leves sussurros.
remendado do avesso de sonhos insustentáveis
o medo balouça-se vasto no barco
da primeira à última viagem
onde foi outrora esse salvo-conduto
a palavra piedosa impressa nos dedos
para que pudesses alcançar
a liberdade dentro de ti.
quando se tornou leve e sustentável desceste
ao chão
e ainda que não vejas isso na fotografia que tiraram de ti
enquanto alguém anotava a hora da tua morte
a ausência do medo falou no teu rosto
contando a história do navegador
que morreu sentado à espera
que da terra lhe levasse o mar.

Fast Car

Abre a janela, deixa-me por a cabeça de fora
E gritar em plenos pulmões até Thionville,
Ser novamente criança, filha da neve e daquele lago de suicídios.
Abre a janela, prega a fundo,
Vamos deixar tudo para trás, fugir desta pele que nos consome e envelhece em nós,
Vamos deixar tudo o que trazemos nos bolsos e que nos pesa a alma.
Prega a fundo, prega a fundo!
E vamos pela estrada fora, vamos pela estrada da vida,
As linhas das nossas mãos são os melhores mapas pois elas contam o que somos.
Prega a fundo,
Não pares agora e beija-me, beija-me, deixa o mundo nos meus lábios,
Faz do Mundo os meus lábios,
Perde-te nos meus caminhos, nos caminhos do meu corpo quando este se funde com as dunas do Saaara,
Deixa-te levar pela bússola viciada que te mostra o que queres ver,
Que me mostra o caminho para dentro de ti.
Vamos por Esternac, pelas estradas em que o céu é vermelho,
Já é Outono e a copa das árvores tão densa e tão vermelha, como o batom que uso nos lábios.
Tu mantens-me viva e esta viagem faz-me descobrir o Mundo nas folhas que piso
Como alguéns que não tinha conhecido.
And we were driving, driving in your car
Mais rápido, eu já não vejo a estrada,
Desfoques de palavras, desfoques de toques, desfoques de ti e de mim,
Neste local onde o fim e o início do mundo se tocam.
No nós.
Anda, vamos mais rápido
Vamos continuar a conduzir noite dentro,
Por ti dentro,
Por mim dentro,
Vamos continuar esta viagem onde o final é apenas onde tudo começa.
Take your fast car and keep on driving

The Tallest Man on Earth

Um, dois, três,
Vamos dois de cada vez.
Tínhamos os bolsos cheios de sonhos,
A mente de ideologias purificadoras do mundo,
Caminhámos muito, no entanto quietos,
Desenhando círculos perfeitos, onde pintávamos o mundo.
A minha liberdade começando apenas onde as tuas palavras começam,
Como um mar que não conhece terra.
Lançámos garrafas ao mar,
Deixámo-las boiar, com os nossos eus desfeitos,
O descompasso de tudo o que ficou, de tudo o que se perdeu,
Dentro daquelas garrafas que se afogavam nas ondas.
Olhávamos o céu e achávamos que era possível,
Achávamos que era possível achar,
Mudar o Mundo com palavras.
Não mudámos o Mundo, mas mudámos o nosso Mundo
E talvez este fosse o mais importante mudar.
A ternura das palavras na brisa,
Morrendo com a noite.
Demasiado sós estávamos nós,
No Mundo de cada um, que no fundo nunca tinha sido de nenhum,
O nosso Mundo era das palavras e as palavras eram do
Nós.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

1

”Não conseguir esquecer” sobe
Por baixo da pele: futuro quente
A enrolar-se em cada célula
As meninas dos olhos têm um espasmo por segundo
O mundo começou agora
Quem o guia é o desejo
Aqueces, o milagre é que aqueces
Só nos falta inventar o chão

quarta-feira, novembro 30, 2011

Lugares do coração I

Ontem passei no Terreiro do Paço,
Já eram tarde e más horas e o sol escorria pelos prédios.
Eu apaixono-me sempre no Terreiro do Paço,
É sempre a primeira vez,
É sempre tudo outra vez,
Uma analepse de tudo o que morreu no entretanto
E jaz hoje na memória.
Aqueles dias de chuva e nós de lomo na mão,
Filmámos a chuva para aquela curta que estávamos a fazer
E hoje sei dizer-te que foi o momento mais belo da minha vida.
Dissolvi-me com a chuva, nas pedras da calçada
E fiz delas os meus sonhos acabando por os pisar todos os dias.
Aqueles dias, todos aqueles dias,
Aquelas noites, aquelas luzes,
Aquelas pessoas, sempre as mesmas pessoas,
A água a molhar-nos os pés e nós fugíamos ali à beira rio.
O frio, que gelava o coração,
Mas talvez não o coração porque todo o momento era como se me ateasses fogo ao peito.
Hoje ficam as palavras que não trocámos,
Os risos que foram levados pela água do rio,
O amor e a amizade que voaram nas asas de uma gaivota que por ali passou.
Se eu pudesse voltar atrás,
Nesses dias tinha levado a lomo novamente,
Gelado cada um dos nossos movimentos naquele dia,
Naquele dia que parecia saído de um romance do Carlos Ruiz Záfon,
Aqueles céus de chumbo e a chuva que arranhava as janelas do nosso eu.
Tinha levado a lomo, mas teria tido mais cuidado,
Para não deixar dissolver o nosso rolo numa das poças de lágrimas daquele céu,
Que cobria aquele lugar do coração,
Aquele Terreiro do Paço.

I can't make you love me

Quando chega a noite, o meu coração esvazia-se de Ti,
Passam os dias, as horas e especialmente os momentos
Em que permaneço só, à espera um comboio que já não passa na estação.
A minha pele é um deserto, inabitado
Uma planície esquecida nas palmas das tuas mãos.
Esqueceste-te de mim.
A memória está sem dúvida do teu lado e nunca do meu,
Porque sou eu que deixo que ela me afunde, me deite por terra
Como as palavras que nunca me disseste.
Permanecer. Eu permaneço em ti, coabito no teu coração com o teu egoísmo
E nem sei se eu própria não serei fruto do mesmo.
Só me amas na cama,
Quando te deitas sobre mim e achas que tens o Mundo nas mãos.
Mas não tens meu Amor, porque se eu fosse o teu Mundo
Levar-me-ias dentro de Ti para todo o lado,
Como eu caminho contigo dentro de mim,
Confinando a minha liberdade a esta vivência do entretanto, mais uma vez.
O entretanto. A minha vida.
Era tão mais fácil deixar-te no lugar onde te encontrei, só, coberto de vergonha e solidão
Tão mais fácil reaver a minha liberdade.
Mas quando penso em tal, falta-me o ar
Pois tu és todo o ar de que preciso,
Todo o corpo de que preciso,
Todo o eu de que Eu preciso.
No fundo, não sei se sou infeliz por te não ter quando te não tenho
Ou se por te não ter quando te tenho.

terça-feira, novembro 29, 2011

The Passenger


Corre, corre, que se foi para
El Norte, o pequeno anjo
E seu coraçao miúdo - és minha
Bussola; Trago-te sempre em mim,
Às vezes até é demais: Porque
Me pesam as tuas tristezas e
Ficamos sós - 
Engole-me
Tal como quando te provaste
E viajámos por todos os bares:

Vimos todos os piratas desembarcarem
Jóias e rum no Cais de Sodré.

A tua mão ligada à minha,
Como se fossemos uma extensão da cidade;
As suas luzes cegavam-nos,
Era extasiante tudo o que se conseguia
Ver na escuridão. Agora Restamos
De nós resta o restar, Brilhando
Na escuridão amigos felpudos
Que a infância teima em resgatar.

Esta noite juro que te esqueço
Em veneno sincero para o meu
Coração que mente de tanto Amar 

segunda-feira, novembro 28, 2011

Quando o Rato do Campo encontrou o Rato da Cidade


Sinto nostalgia, sempre
Em raios e sois em demasia
Cheira-me a terra molhada 
O teu abraço é um salto
Só em direcção aos caminhos
De ferro e carne ainda quente
De matutar um futuro incerto
Cheio - Quero mergulh arte
Acordar e cantar o som
De Santa Apolónia no teu chegar:
As malas, escondendo-me
Um dedo cortado levado
Para nos calar tanta tristeza
No olhar ficar, mesmo que parta
Mais uma tigela de cereais
Frescos, colhidos na madrugada
Citadina. O homem está perdido,
Cruzes, que se me dói A tua voz
Farta de me procurar: Estou aqui
Amor, vem, e rasga essa linha
Invisivel que delimita - e limita -
O Universo possível de falharmos
E dos cálculos errados, Arranjarmos
Um 38 para a mudez. Sorte essa,
O Rigor tem um nome estranho,
Incompatível com a loiça 
Que se amontoa em montanhas
De neve, presas por um fio
De loucura - Cuidado, devagarinho -
Que tenho medo do vago 
Incerto da fruta que se colhe
À Entrada da primavera Angústia:
Doiem-me os cestos de palha fina
Que uma mulher negra carrega,
Qual Atlas doméstico - Tanto
Filho para criar, Tanto tempo
A Parir um Mundo novo; 
Multicolor, quando a verdade
Fala da criação - só uma casa
Se faz no teu corpo doce - Feito
De dourado alimento para
Uma boca cansada de beber 
Homens fortes e trabalhadores:
É que na verdade
Vive uma aldeia inteira cá dentro.

Cameroon

Fala-me outra vez daquela estrada,
Daquela estrada dos meus sonhos.
Aquela África para onde fugimos os dois naquele dia sem o apoio de ninguém.
Conta-me outra vez essa história de amor e sinceridade,
Conta-me outra vez esse momento em que vimos a nossa vida passar diante dos nossos olhos.
O aeroporto. Eu adoro aeroportos sabias?
Os aeroportos são um sinónimo de toda a minha vida,
Porque são os locais do entretanto, os locais entre uma vida e outra,
Os locais entre o que se deixa para trás e o que vai connosco.
É nos entretantos que eu vivo, nas Zonas Neutras como lhes chamaria Roland,
No Café da Juventude Perdida.
Eu não quero viver mais nos entretantos das coisas, eu quero viver as coisas,
Por isso conta-me mais uma vez aquela história daquela estrada,
Daquela África minha e tua.
Conta-me mais uma vez essa história,
O nosso First breath after coma.
Conta-me mais uma vez a história daquela tarde nessa estrada,
Em que o sol morria dia a dentro e que a tua pele se transformava numa ilha
E como nenhum Homem é uma Ilha, eu fundia-me em ti num abraço
Gelado no tempo pela aquela minha lomo nas mãos daquele negro.
Afinal sempre podemos gelar histórias no tempo.
Conta-me outra vez aquela história daquela estrada com destino àquela aldeia remota.
Conta-me outra vez o bem que lá fizemos.
Conta-me outra vez tudo o que é nosso, mas jamais o que deixámos para trás,
Naquele aeroporto perto de Kumbo.

domingo, novembro 27, 2011

Dead Souls

A essência que faz de nós o que somos nunca nos deixa
Por mais que achemos que conseguimos mudar.
Uma dualidade de personalidades,
Uma dualidade de sonhos sem realidades.
Eu finjo que mudo, passo a fumar cigarros escondida de mim mesma,
Tu vens lá a casa, depois de uma viagem de comboio em que fugiste por mim
Fugiste por mim de mim mesma,
Porque eu sei que não consigo mudar.
Tiro a aliança e preparo uma última linha.
Pelo caminho paras numa cabine e dizes-lhe que eu não volto
E assim deixo que decidam o meu futuro por mim, como deixo sempre.
Foda-se esta depressão dá cabo de mim, penso.
E mais uma linha.
Quando abres a porta já estou pronta.
Há um desfoque de palavras vindo de ti, mas eu já não te oiço,
As luzes são tantas, a cabeça não pára e o meu eu acaba por se intersectar com o teu eu.
Tomas-me nos braços e eu quero-te tanto,
Mas não sei se este querer dos teus braços e apenas tão forte
Como a forte realidade de que não te posso ter.
Quando acabas dizes que me amas e que eu sou o teu Ian numa versão feminina.
Então já devias saber que eu não vivo em lugar nenhum e que também não viverei em ti.

sábado, novembro 26, 2011

Líquido


Estava a dar qualquer coisa na televisão. Sentei-me a enrolar um cigarro, distraída com o que se passava à minha volta. O Jorge levantou-se, já sabia que ia abrir mais uma garrafa de whiskey e declamar um poema em honra de Bukowski. Eu já estava suficientemente anestesiada, mas mesmo assim doía qualquer coisa. O João queria passar das palavras aos actos e por isso mudava continuamente os canais da televisão. Eu olhava como se o zapping fosse um programa televisivo que rodava apenas na minha cabeça. Uma enorme profusão de caras, animais, legendas, sons, tudo a tentar estimular os sentidos que já estavam cansados de mirar a mesma humanidade numa só pessoa. Jorge apercebeu-se que eu não estava lá. Pôs-se de gatas no chão e começou a miar. Um miar estranho, masculino, que não lhe ficava bem nem era sexy. Tirou-me os ténis com os pés e logo a seguir a peúga. “Cheiras mal”, dizia entre o miado. O João passou a mão pelo pénis murcho, era mais um comando remoto à distância para atiçar fêmeas. “Queres assim?”, perguntou Jorge enquanto me lambia o dedo grande do pé. “Como queiras…”, respondi-lhe secamente. “Serve-me whiskey numa taça de champanhe se faz favor”, disse-lhe logo, enquanto afastava o meu pé da sua boca. “Hoje estás estranha, de certeza que queres fazer isto?”. “Já estamos a fazer isto há muito tempo, só estou cansada da rotina…”. “Rotina era teres um namorado em vez de dois, dedicares-te completamente a uma só pessoa, magoares-te, chorares, terminares a relação por sms…”, dizia o João enquanto acariciava mais o pénis. “Se ela quer algo novo, podemos experimentar algo novo… O que deseja a Princesa?”. “Traz as facas…”, respondi-lhes convicta. O João foi buscar o faqueiro à cozinha e trouxe-o para a sala. Encheu logo de seguida um copo com whiskey e molhou a ponta de uma faca de tamanho médio. Veio trazer-me o liquido à boca, enquanto Jorge continuava a lamber-me os dedos dos pés. Eu lambi a faca, desde a ponta até ao cabo para logo de seguida ele passar a faca pelas minhas costas. “Escreve um poema”. “O quê?”, perguntaram em uníssono. “Sim, escreve um poema nas minhas costas”. Jorge levantou-se e meteu as mãos à cabeça, ficou subitamente triste. Os seus pulsos eram a moldura da sua tristeza. João pegava na faca com o cabo. Parecíamos figuras de plasticina a derreter ao sol. Eu de costas prontas à marca, o Jorge com a sua tristeza e o João a matutar no futuro. 

Insight

A vida é feita de portos, onde ancoramos as tristezas que nos afundam
Percorri todos os portos
Mas nem todos os portos seriam suficientes para largar as memórias.
Porque no fundo são as memórias que nos afogam, que nos prendem no fundo de algo
Ou de alguém.
Os anos que nos separam são feitos de silêncios desfeitos,
Caminhos obscuros sem mapa nem bússola.
És nómada no teu próprio corpo,
Vives num espaço que não me pertence, nem nunca pertencerá.
E eu lembro-me, eu lembro-me de quando nos perdemos no mar
O teu corpo em movimentos epilépticos para te salvares
Pelo menos para salvares o que restava de um corpo onde apenas habitavas.
Abrias os olhos, tentando conter a respiração
E eu abria os olhos para te ver deixares-me para trás.
Aquilo que nos afunda são as memórias,
Por isso mesmo é que só um de nós morreu.
Eu.

terça-feira, novembro 22, 2011

Legendas para Pensamentos


A borboleta desfalecia, lentamente
Tinha asas de Ícaro e vontade
De deus. Ganhava os dias voando,
Na certeza da sua perenidade
Morria, sabendo que era mais
Bela nas fracções de segundos
Antecedendo quedas abismais.

O mostrador apontava as 21:13,
Já se fazia tarde, e os cafés
Quentes dissolviam pastilhas
De Asas de borboleta:
O médico falou em cura,
Mas no final - Tudo isto
Só me tornava mais bela.

segunda-feira, novembro 21, 2011

Post-Punk Diversion


Na nossa lua de mel, as flores
Cairam de um céu a preto e branco:
Um homem tocava tambor e tu
Punhas a aliança no dedo errado;
Lá para o final ja pareciamos
Um Ian epiléptico em cima da cama,
Porque nos doia a cabeça de tanto
Solucionar este problema geográfico:
O Amor não salva ninguém.

sexta-feira, novembro 18, 2011

Ave



Onde estás pássaro, a piar de longe
Um piu fininho gravado em Vynil;
Ponho a tua música favorita a tocar,
Mas já se faz tarde e tu dormes
Os dias.

Será que sonhas comigo
Nessas viagens solitárias
Para onde vais tu?

As pastilhas da manhã adormecem
O coração já debicado, aguenta-se
Tanto, às vezes nem faz sentido
Anestesiar o amor para aquecer
Os raminhos onde as patas poisam.

Oh, pronto, está tudo bem.
Ao menos tens asas, não
Importa se fico ou vou,
Tu irás sempre.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Blur


Fotograma após fotograma
Não encontro esse filme que
Tanto falavas: Nós dois
A praia a escurecer;
O Mar molhava-nos os sapatos
Prendia-nos com fita
A sépia, desse mesmo dia
O filme pisado dos nossos
Pés a pisarem o rolo:
As nossas mãos num encontro eterno,
Desfocado, devanescido pelo
Toar de uma música Folk
E um trailer-van no horizonte
Quente de um princesa Mexicana.
O Homem sentado, a barraca azul e branca,
Embebia o tom amargo de
Bolachas maria com vinho branco
E uma recordação de infância:
A bicicleta já não tem uma roda
Usámo-la tristemente em discos
Cds, ouvidos no carro;
Socorria-nos essa viagem eterna
"There is a light that never goes out",
Como uma luz ao fundo do túnel;
Na verdade nem nos apercebemos
Já morriamos a caminho do futuro,
Inchando balões de ar sôfrego:
As nossas respirações descontroladas
Junto ao batimento cardiaco de
Corpos, vivendo de repente
O ontem na manhã seguinte.
A pintura impressionista gritava
O teu olho colado ao quadro:
Assim nunca vias o meu rosto
Que já se desmanchava na água
Das marés de Outubro.

terça-feira, novembro 08, 2011

Casa



Entra na cama quentinha;
As inicias de uma Tia-avó,
Marquemo-las de genética:
Uma semente nada só
Busca terra molhada;
Mas até neste lugar
Germina entre um abraço -

Aperta-me com mais força
Há muito tempo que ninguém
Entra em casa -

Esqueci-me de pagar as contas,
Água, Luz, Electricidade,
Sobra apenas o crédito em amor:
Vou até ao balcão de atendimento
E beijo a sociedade, fornico-a:
Tudo indicad que Vivo na margem,
Numa casa que é também o teu corpo.
O Rio bate aos teus pés,
Saltamos em cima do mar inteiro
Com as botas de um soldado alemão -
Vamos fazer de conta, vem
A dor é só mais um estimulo à vida.

A Ilusão chega de combóio,
Um quarto para as nove, espero-a
No quintal com uma colher de chá
A servir de norte a uma bussola
Que tu levaste para me encontrar.

O Azul Turquesa cobre o tecto,
Entra em casa,
Hoje faz Verão cá dentro.

segunda-feira, novembro 07, 2011

A Linha do Universo

Tudo cai, em constante proporção directa
à neve que se acumula no fundo;
Os Oceanos transbordaram, claros
Farinha para bolos e Tortas
De mel; As minhas abelhas
Vestem o pijama e dizem
Boa Noite - Até amanhã

Tenho medo porque o tempo existe;
Ás vezes por ser inventado, outras
Porque tudo cai - Até a Chuva
E palavras num poema
Cantado pela manhã turbulenta

Estou com dificuldades a acordar
Mas não receio a cidade a ruir,
Vamos brincar para os escombros.
Por baixo das pedras vive
Uma mulher que pintou a vagina de negro:
Está de luto pela Globalização
- Já ninguém deseja comer mais
Deste Pão, que Ronald Mcdonald
Destribui pelos fieis.

Tudo cai, amor,
Vamos cair também - De cabeça
Acordaremos assentes no fim do Universo.

segunda-feira, outubro 17, 2011

O Lado Errado da Noite

Desligo o computador, e o ecrã, onde a minha mulher vive, desvanece-se, deixando-me no escuro, sozinho no quarto. Avanço às apalpadelas até ao colchão e poderia ter decidido começar mais um capítulo da nova saga de Star Wars. Mas a verdade é que a minha mulher não ocupa só quela imagem no computador, a minha mulher ocupa também um vazio arroxeado que sou incapaz de penetrar. Pergunto-me onde estará ela, se ainda usa aquelas cuecas brancas com um lacinho na frente e os pintelhos a verem-se. Pergunto-me se um novo homem reparou nesse pormenor, ou se lhe seria indiferente a cor dos cabelos da sua amada. Dá-me tesão pensar nela com outro. Um tesão infinitamente triste. O que acontece, é que se me pusesse a pensar na quantidade de vezes que a vi a sorrir, nesta mesma cama, talvez isso me fizesse um pouco mais feliz. Mas seria à mesma uma alegre melancolia, porque ao final de contas ela também chorava muito. E cortava as pernas na minha ausência. E masturbava-se com os meus filmes pornográficos. E bebia-me com nojo. Era insuportável quando a via feliz ao meu lado. Porque o seu sorriso esticava, quase até aos lóbulos das orelhas, mas o seu olhar ficava perdido entre os rostos desconhecidos do café. E deixava de sorrir muito rapidamente para pedir mais um copo. Enquanto o empregado de mesa se aproximava ela sonhava, talvez comigo e ela noutro lugar, longe dali. A sua face brilhava através do licor, mas nada daquilo era real. Como daquela vez em que a levei por Lisboa à noite. Entrámos no bar, bebemos uns copos; na verdade eu sinto-me culpado por ela ver tantas mulheres em mim. Nessa noite ela pediu-me para morrer, com o corpo tombado nas escadas e a cabeça a bater continuamente contra a parede. Nada disso era real. O problema foi que ela também me pegou este vício das janelas e dos carris do metro. Em alturas como essas eu lembrava-me simplesmente que ela também me amava. E isso mantinha-me forte pelos dois. Pois era sempre depois de cairmos num precipício que eu a levava até junto do mar: para molharmos os sapatos enquanto ela inalava grandes quantidades de água. A sinusite desaparecia juntamente com o sorriso lacónico. Era bom quando caímos, porque depois subíamos, e éramos os melhores: nas melhores refeições partilhadas, nas melhores conversas, nas melhores fodas. Eu tinha medo que voltasse a mulher que jaz agora no meu ecrã, desligada. Então pendurava-a num baloiço e fazia de conta que sabia voar, como mais ninguém sabe. Por a ver cair tanto, deixei de ter medo de ser feliz quando podia ser feliz. E nesses momentos fui o mais feliz dos homens.

Podia lembrar-me do sorriso dela, mas na verdade não era isso que me fazia viver. Enrosco-me nos lençóis e penso em masturbar-me: talvez ela ainda volte para mim, a chorar as mulheres de outro homem.

domingo, outubro 09, 2011

A Personificação em Lígia Reyes


Agora sou melhor e pergunto-me
Se algum dia
Comerei a parte que me faltou escrever.

A materialização da elipse, do que fica por ser dito/escrito – algo que pode ser comido, é uma constante na poesia de Lígia Reyes. A sensualidade ligada ao facto de comer, aos sentidos, ao universo de significados da sensação que se cruza com a interpretação numa agilidade narrativa fora do comum. Desde logo o campo semântico do sémen, leite, branco fazendo adivinhar uma modernidade líquida. O Universo semântico é líquido, volátil e perene com os sentimentos que descreve. Tudo passa demasiado rápido, tudo se passa nos pólos, e outra vez o campo semântico branco a povoar os poemas. A assertividade, a capacidade de resumo de estados alterados, psíquicos de doença “porque esse sorriso não é teu; tentas-te consultar as bulas farmacêuticas”. A escalada das imagens surgem como aparição “A televisão faz-me engolir, /Mas não me sabe bem o seu pénis. / Na minha boca o comando tenta viajar”, é outra vez a personificação de objectos, tentam conduzir a viagem do sujeito poético, na elevação de tudo até ao humano, ao corpo físico/ à alma, à consciência.

Há um efeito térmico, o calor humano que cruza todos estes poemas, ligado ao universo da cama onde a lucidez é gente, gente que habita. A revitalização do quotidiano, das relações no acto de agrupar/ organizar, sejam eles papeis, ou a vida toda surgem numa alegoria sobre a memória, “nunca é bom dia para arrumar o quarto/ existe o medo de encontrar um papel / um poema, um caminho de volta ao teu sorriso”. É de caminhos que se fazem estes textos, estar a caminho é a matéria orgânica do desequilíbrio da escrita, a procura, mais uma vez o líquido e a sede[1], são a forma destes textos de LR, uma procura maior, mergulhada no humano. de tudo à escala humana, a mais perigosa, a maior, aquela onde LR nada e aquela que sabe descrever ao pormenor e de forma acertiva. Os poemas de LR tem uma dimensão narrativa forte, neles contam-se histórias, o sujeito poético exprime sentimentos, materializa-os, tornando-os quase orgânicos, personificados, corporizados. A métrica irregular é fluida, a pontuação é corrida. Em caixa mágica, a ligação entre a afectividade / sexualidade e a doença como transbordo, fronteira é estruturada, “sempre me disseram que os estados depressivos / Chegavam no Inverno, Nessas alturas / Cheiro mais a esperma do que nunca.”

Também o espaço é corporizado, limitado /potenciado à escala humana, a do corpo físico, cabe uma estação na pessoa, e toda ela dói “Doeu-me Campanhã nos ossos todos; a minha sopa a arrefecer, só me apeteceu /apanhar o comboio de volta”. Ainda no espaço podemos encontrar paisagens debaixo dos sofás, imagens que invocam a questão da memória e do suporte de registo. Em LR o registo parece ser sempre o calor. Em “Eva” podemos perceber uma atenção enorme à discriminação de género nos países islâmicos e à tortura a ele associado, uma atenção para com o global “infelizmente cortaram-lhe a vagina – E isto poderia ter sido uma metáfora para o silêncio”: O questionamento do processo criativo é usado numa alegoria sobre o próprio acto de escrever que é examinado durante a criação, criação e interpretação da própria criação andam de mãos dadas “Mas o silêncio não se parafraseia”, concluí.

Outras personificações de estados em “o cio da pobreza” ou em “a menstruação dos sonhos” criam pequenas alegorias sobre a sensualidade humana num universo em que a mitologia é revitalizada e reinterpretada ganhando novos espaços e contemporaneidade. É o caso de Eva e de Édipo integrados num contexto islâmico de discriminação de género e castração sexual forçada. O calor humano é novamente invocado em espaços apertados, no metro, pingam gotas de sangue sobre as carruagens, o efeito líquido, fluído, também ele escorre rápido em “Leite”, “substância viscosa”, “Gota de suor”, no universo do espasmo, do líquido, da sensação de toda a anatomia humana que é reinterpretada neste texto de prosa poética,”o cheiro do leite”, pode-se dizer que todos os textos de LR se cobrem de branco, numa invocação, da mancha/cor/espessa/gorda que liga os géneros, a fertilidade, a sexualidade, o calor, a sensação em favor da interpretação “ a franja cuidadosamente arranjada, caída sobre o mamilo esquerdo” mostra o calor como registo, como suporte literário, o de toda a vida, o de todos os gestos “ e o bebé com fome a pedir leite em seios cansados”, “o cheiro a suor das meninas que não sabem ainda que são mulheres”, revela toda esta narrativa uma ânsia inteligente por tocar o pólo que é a humanidade no seu lado mais corpóreo e físico. É extremamente física, sobretudo táctil, mais que visual a sensação que impera nestes textos. Povoados de alegorias, povoados de referências, povoadas de mitos privados. A intromissão do mito rural no urbano (o lobo perdido no betão) procura humanizar o estado natural, todo o estado primário. Em poesia, o equilíbrio acontece sempre em tensão com o desequilíbrio[2]. E do desequilíbrio surge o caminho, a perca faz parte do caminho. É de sensações primárias que falamos, de sede, de tudo que é líquido, de tudo o que fluí nos textos de LR e se adivinha volátil e rejuvenescido. De outra forma poderia citar Mário Cesariny “Não te vou dizer mais do que o que lá está escrito. É aquilo”.

Nuno Brito, Outubro 2011.



[1] Em tua casa o copo está sempre cheio / E a minha sede é um estado de espírito. – Lígia Reyes , Ao Anoitecer.

[2] Rosa Maria Martelo, A Forma Informe: leituras de poesia. Lisboa, Assírio e Alvim, 2010, p. 11.

sexta-feira, julho 29, 2011

But i'm gonna love you anyhow

Carne com carne, latente,
Fecha a boca, cala-te e beija-me.
Disse ele enquanto me perdia.
Uma velha estranha falava das melancias,
Como estão boas nesta altura do ano
E eu colhia só aquela chamada que não atendeste.
Deixei no atendedor as sementes que germinavam no bolso
E Elas cresceram num pedido de regresso a tempo
De ver tudo não morrer na terra.

A água escoavaa através de longos
Lençóis;
Cavernas silenciosas, estalactites e estalagmites,
É para o fundo da terra que te quero levar
E o céu será as raizes dos frutos que este verão não comeremos
Mas as raizes das árvores, como estrelas brilhantesm abrigam-nos
Da maré cheia, fria, no meu vestido branco e na tua carapaça tatuada.
Faremos amor, como só os insectos o fazem:
No final partiremos para tão longe conseguirmos ir
Porque esta é a nossa casa, e o mundo o nosso jardim;

O atendedor continua impedido,
Queria dizer apenas para vires cá ter.