quarta-feira, dezembro 08, 2010

Chuva de Neve

O Escritor

As tijoleiras do quintal, tornadas sorrisos, e uma grande guerra. A terceira guerra mundial chega em bonequinhos verdes, de plástico, com os seus tanques e armas. Os últimos presentes de um último natal. No inverno a seguir tudo estava arrumado pela Dona Flores, e o menino tinha sido internado. Ao princípio desconfiou-se que talvez tivesse levado um tiro numa dessas batalhas infindáveis. Depois aperceberam-se que tinha uma mão a mais a crescer-lhe no lugar do pénis. O médico assinou o atestado de Escritor e mandaram-no para casa sem medicação.

Os primeiros tempos foram difíceis. A Dona Flores dava-lhe banho e ele brincava com o patinho de borracha amarelo. As águas tingiam-se de um verde marinho, morno e por entre as mãos enrugadas cresciam sereias a prometerem amor eterno. “Tudo o que eu quero é um jardim”, e a Dona Flores, preocupada com a loucura e sodomia deixava-o ao frio. Era a mulher que mais amava aquela criança, mais do que a própria mãe. Mas não lia. Não lia a macieira que se enchia de neve, e essa tristeza profunda de não existirem maçãs em todas as alturas do ano. Ficava o escritor, à neve, a comer maçãs invisíveis, com os pés frios sobre os azulejos da casa de banho. Eram as melhores maçãs do mundo, só porque as podia imaginar. A Dona Flores era incapaz de ler tais coisas que o Escritor já delineava dentro dele.

Um dia perguntei-lhe qual era afinal o grande problema. E ele falou-me de uma mulher que amava e que ele amava, mas que só se viam às escondidas. Mas depois ele respondia para si próprio “era bom que estes fossem todos os problemas do mundo”. Era esse, e os restantes. Os restantes problemas só tornavam este pequeno facto o maior problema. Se não houvesse ninguém para amar de que valiam todas as outras preocupações? O Ambiente, a política, a guerra, os recursos naturais, estudar, trabalhar… Desde então tornei-me Cristã. O escritor por norma não ia à Igreja. Dizia que amar um Deus é egoísta, com tanta gente para amar. Numa dessas conversas cujo tema voltava inevitavelmente ao Amor, um ser estranho juntou-se aos sonhos. Dizia-se economista. Contou-nos que tínhamos um tempo disponível para amar: o tem de se viver. Ainda por cima um tempo que não era mensurável por ninguém saber a data da sua morte. Era necessário proceder Carpe Diem. Pessoas para amar eram mais do que as que o tempo permitia para se deixarem Amar, para Amarmos. E por isso se devia simplesmente viver. O Escritor emborcou a cerveja de um trago, apagou a beata e foi-se embora da mesa de café. Horas mais tarde recebi no telemóvel uma mensagem: Sempre podes escrever um livro e deixar que ele ame por ti, seja amado em vez de ti. Eu, como boa Cristã, respondi: se procuras uma extensão da tua natureza faz um filho. E depois lembrei-me da morte, da Chuva de Neve.

A Morte

As Macieiras estão no planalto, onde todas as maçãs são as melhores do mundo, e a Neve não queima porque é água. E a Água num dos seus estados pode ser morna como a chuva que cai no México. E Desta forma tanto o corpo pode ser a maçã, porque é comida, digerida, e os seus nutrientes absorvidos. Porque quase tudo é celular. E quando me dei conta da terrível infâmia que era a morte, julguei estar a enlouquecer. E foi então que alguém me falou do Livro Tibetano dos Mortos. Decidi mudar de perspectiva, enquadrar-me: era Budista até ontem ao amanhecer. Porém, pelo caminho matei por querer um ser vivo. O meu peixe laranja na última semana ganhou umas manchas estranhas, castanhas. Já quase não conseguia respirar, as suas guelras enchiam-se de uma baba estranha. O Aquário ficou esverdeado, por muito que mudasse a água, e limpasse, limpando de hora a hora as tonalidades da esperança, voltava a morte à estaca zero. O Peixe, sem a minha certeza absoluta, encontrava-se a caminho das macieiras, ou talvez pertencesse ele próprio à água, eram Uno. Como Deus, como o egoísmo: os filhos, os livros. Matei-o a medo de o ver morrer e transformar-se noutra coisa qualquer. Se calhar podia ser a sua metamorfose. Um dia seria uma sereia capaz de amar o Escritor.

Julguei ver-me a enlouquecer uma vez mais. Mudei-me de perspectiva para ser uma Ateia convicta da Eutanásia, do Aborto, do Suicídio.

O Amor

O Escritor chorou meses a fio quando lhe falei destes estranhos acontecimentos. Depois disso liguei-lhe a dizer que seria impossível estar presente na entrega do prémio. “Não faz mal, eu também não vou, preferes ir tomar um café?”. “Só se for um café no México”. Duas semanas depois de ter desligado aquela chamada bebia um whisky na Praça de Londres, o mais parecido com o combinado era a Mexicana. Parecia que morríamos os dois naquele estado de inutilidade dos sonhos. E tudo se parecia ao mesmo tempo com felicidade. Apetecia-me dizer-lhe que fui campeã de natação, na classe de juniores, mas estaria a mentir redondamente.

Estavam cerca de quarenta graus em Lisboa mas em vez de o levar a ver o mar para encontrar sereias voltámos a casa. Os azulejos da casa de banho falavam de uma miúda que estava sempre bêbada e pedia auxílio para se lavar. Como a Dona Flores lhe fazia quando ele era criança. Não era o meu caso. Depois de escorregar e magoar a banheira ele ficou a olhar-me longamente. E no corpo procurava cicatrizes com a profundidade das suas. Mas a pele branca desembaraçava-se facilmente do abandono: a água apenas estava fria como sempre. Só os dias como estes me ajudavam. Não contava sequer com o Escritor, apenas com o calor. E enquanto passava champô pelo cabelo ele escutava o bater do coração. Que era igual em todo o lado, dizia ele. Dizia ele que os corações dos mexicanos batem da mesma maneira. E enquanto morria pensava em Chuva Morna – estando a água fria como a neve.

As mãos dele dilaceravam aos poucos. Porque é que nunca aprendi a nadar? Porquê? Ouvia os sussurros das maçãs e das sereias. Ele dizia-me que o meu corpo estava castanho, impregnado de merda de solidão. Deste modo seria impossível beber de um trago a infância porque eu era parecida com a sua mãe, mas quem ele procurava era a Dona Flores. O médico já me tinha prescrito a Eutanásia há muito tempo. Quase a conseguir ver uma luz ao fundo do túnel ouvi um diálogo à porta do Labirinto:

- Eu sou Escritor
- Se tu és Escritor que sou eu?
- Tu és um Anjo.

A Vida

É melhor que acabem com o meu sofrimento agora.
Não lhe chames isso, essa palavra é feia.
Então de que estamos nós a falar?
De Mártires, pessoas que dão a vida por uma causa, fazendo viver outros, vivendo para além da morte. Vivendo para sempre.
Mas eu quero morrer.
Nem sempre podemos ter aquilo que queremos.

E tu que queres Escritor?
Amar

quinta-feira, dezembro 02, 2010