domingo, outubro 31, 2010

O Amor

Faço amor contigo depois
De te ver dormir, nessa altura
Explodes-me em mil faces Tuas
Perdidas em todos os lugares
Que de mim não sabes.

Como se me soubesses visitar
Na janela que outrora via passar
O Peter Pan - Ao amar-te cada vez mais
Procuro-te em todas as esquinas,
Mas de ti apenas descubro pedaços de mim:

Por vezes ao cruzar a data marcada
Não encontro a morte,
Só a cadeira de baloiço em que te vejo envelhecer.

O Quarto do Suicida

Vocês devem achar, sem dúvida, que o quarto esteve vazio.
Mas lá havia três cadeiras de encosto firmes.
Uma boa lâmpada para afastar a escuridão.
Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais.
Buda sereno, Jesus doloroso,
sete elefantes para boa sorte, e na gaveta - um caderno.
Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?

Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial,
Alegria, a faísca dos deuses,
a corneta consolatória nas mãos negras.
Na estante, Ulisses repousando
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os moralistas,
seus nomes em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Os políticos ao lado, muito rectos.

E não era sem saída este quarto,
aos menos pela porta,
nem sem vista, ao menos pela janela.
Binóculos de longo alcance no parapeito.
Uma mosca zumbindo - ou seja, ainda viva.

Acham então que talvez uma carta explicava algo.
Mas se eu disser que não havia carta nenhuma -
éramos tantos, os amigos, e todos coubemos
dentro de um envelope vazio encostado num copo.



Wislawa Szymborska

quarta-feira, outubro 27, 2010

segunda-feira, outubro 25, 2010

Campanhã

Doeu-me Campanhã nos ossos todos;
A minha sopa a arrefecer, só me apeteceu
Apanhar o combóio de volta a casa,
Mas quando cheguei só me lembrei
Que não comi tudo até ao fim.
Recordei um poema que escrevi

E até esse ficou incompleto.

Só gostava de te encontrar
Porque me dizias que poderia ser a melhor,
Poderia ser tanto,
Até a madrugada me ficou entalada na garganta:
O sol nasceu e os teus olhos eram esverdeados como os meus.

Agora sou melhor e pergunto-me
Se algum dia
Comerei a parte que me faltou escrever.

sábado, outubro 23, 2010

Ao anoitecer

Que tipo de música queres ouvir? Amigo,
Se não te importares vou-me embora,
Em tua casa o copo está sempre cheio
E a minha sede é um estado de espirito.
Eu sei o que fizeste na semana passada,
Desculpa não ter dito nada quanto a isso.
O problema de sermos os dois grandes
É nunca cabermos nos braços um do outro:
De cada vez que me dás a mão
Toda a gente morre.
Calhou voltar a encontrar-te
Já os meus cigarros se estavam a acabar,
Foi por isso que não voltei,
Porque nem sempre tenho esta sensação:

De que o mundo está sobrelotado.

sexta-feira, outubro 22, 2010

Em cada 100 pessoas:

Sabendo tudo mais que os outros:
⁃ cinquenta e duas,
inseguras de cada passo:
⁃ quase todas as outras,
prontas a ajudar desde que isso não lhes tome muito tempo:
⁃ quarenta e nove, o que já não é mau,
sempre boas porque incapazes de ser outro modo:
⁃ quatro; enfim, talvez cinco,
prontas a admirar sem inveja:
⁃ dezoito,
induzidas em erro por uma juventude, afinal tão efémera:
⁃ mais ou menos sessenta,
com quem não se brinca:
⁃ quarenta e quatro,
vivendo sempre angustiadas em relação a alguém ou a qualquer coisa:
⁃ setenta e sete,
dotadas para serem felizes:
⁃ no máximo vinte e tal,
inofensivas quando sozinhas, mas selvagens quando em multidão:
⁃ isso, o melhor é não tentar saber mesmo aproximadamente,
prudentes depois do mal estar feito:
⁃ não mais do que antes,
não pedindo nada da vida excepto coisas:
⁃ trinta, mas preferia estar enganado,
encurvadas, sofridas, sem um lanterna que lhes ilumine as trevas:
⁃ mais tarde ou mais cedo, oitenta e três,
justas:
⁃ pelo menos trinta e cinco, o que já não é mau,
mas se a isso juntarmos o esforço de compreender:
⁃ três,
dignas de compaixão:
⁃ noventa e nove,
mortais:
⁃ cem por cento, número que, de momento, não é possível mudar.

Wislawa Szymborska

Love and Caring





Olha-me só para o que fizeste. Voltaste a estragar a tua camisa
favorita nessa impaciência de me esqueceres,
A minha cama está aleijada, deixei de tomar banho
E agora a masturbação sabe-me a estupidez
Por me amares tanto e não me saberes tocar:
O meu coração pulsa no lugar do clitóris:
Tenho corpo todo do avesso, às vezes até
Só me sai merda pela boca.

quarta-feira, outubro 20, 2010

Óscar da Silva, Saudades





Vou voltar para o sítio de onde vim:
Algures entre o impressionismo e a leviandade.

quinta-feira, outubro 07, 2010

Plaid - Where?

Tenho dúvidas quanto a regressar...