quinta-feira, setembro 30, 2010

Uninvited

Não destruas a minha flor,
Agora tu, que entras em casa
E apenas pediste um copo de água.
Não destruas a minha flor,
Viva da mesma tepidez
A que te alastra a garganta fresca
Fazendo borbulhar o teu estômago
E as suas pétalas.
A minha flor é a mais bonita,
E tu que vives da beleza
Já cobiças a minha flor.
Não a mates, peço-te, se me amas,
Não mates a única flor que guardei no jardim.
Espera-me todas as noites no teu regaço;
As flores não se preocupam em pensar,
Só precisam de água, sol
E um jardineiro. E tu só precisas de mim,
Não da minha flor.

terça-feira, setembro 28, 2010

Quando escrever dói

Tu já sabias que o tempo
Urgia do lado de lá,
Atrás das escadas, porque as desces
E cá em baixo encontras toda a gente
Menos alguém. As tuas mãos tornaram-se
Incapazes nas teclas, apercebeste-te
Que estás tão longe, que talvez o problema seja esse:
Não tens que ir a lado nenhum.
E sem dares conta já passaram
Dois Outonos, outra coisas,
E o silêncio é na verdade outros diálogos.
o que te obriga a pensar numa solução
Para a falta de paixão, e de novo ouves uma velha frase:
só se escreve na solidão.
Aprendeste a não fazer rimas,
Mas a propósito delas, lançavas uma corrida
Até ao fundo do corredor:
Perguntando-te o que seria afinal poesia.
Deste por ti a receber o epíteto:
Cultor de palavras, mas de nada te servia
Para ouvir música e ler livros.
Muito menos para amar.
E por te faltar tamanho entendimento
Os jardins à tua volta floresceram
E abraçaste a nobre a profissão de Jardineiro.

Infância

O sol embrutece, atirando a bola
Junto aos olhos gastos em tardes
De verão e postais com paisagens.
A mãe preparava momentos, nessa
Solução líquida, engolia a menina
E de arrasto, raramente os relógios
Se moviam. Porque nos era infinita
A infância e o trago de coca-cola.
Manejando lentamente o pó voador
Apenas verificável junto aos traços
De luz vindo da brechas.
Raramente nos fechavam a persiana,
Para mal dos nossos males, os ramos
Sempre pareceram homens estranhos,
De narizes grandes e protuberâncias
Porque os armários da roupa seriam
De pinho não limado, à prova de água,
Mas não de estupidez. Geralmente era
Ai que alguém caia!
Para mal dos nosso males
Ninguém se importava.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Reminiscências I

As flores das laranjeiras
Levaram ao peito um poema sobre Lisboa
Onde jamais cresceram árvores, de qualquer tipo.
Era nesse espaço que o sol se atrevia a pôr
Largando à meia-noite um ovo
Que não floresceu em amor eterno,
Porque até os pássaros morrem.
E era com isso que se contava:
Os dias mentindo acerca de tudo,
Inclusive do tempo disponível para amar.
Tempo infelizmente gasto em poemas.
Pois dá-me agora a ideia de que te vais embora
E no entanto,

Já te fiz Imortal.