quinta-feira, agosto 26, 2010

O Leite

O metro apinhado arranca por entre os túneis. Pingam sobre as carruagens gotas de sangue. O indivíduo que lê o jornal morde o lábio, ela descruza a perna e por entre a saia curta é possível ver que hoje vai oferecer o sexo mascarado de vermelho. Tingem-se as janelas dessa substância viscosa, como a gota de suor que lhe cai desde o lóbulo da orelha até ao fundo do pescoço. E simplesmente porque ao fundo do amontoado de cadeiras se notam uns joelhos curiosamente tapados com aquilo que parece ser cabelo. Ou serão os olhos esverdeados que não se deixam mostrar, e a franja cuidadosamente arranjada, caída sobre o mamilo esquerdo. Lembra-se dos seios da sua mãe, porque apesar de não serem belos lhe pareciam felizes. Mamou neles até deixarem de existir, por volta dessa altura teria cincos anos de idade. Nunca antes seios alguns lhe pareceram tão felizes quanto aqueles. Pareciam dizer-lhe olá ao acordar, com um beijo na testa. Pareciam capazes de lhe fazer companhia para o almoço. Mas estes, talvez tivessem o poder de o fazer esquecer o cheiro do leite, esse odor que se entranha no corpo inteiro e nos devolve, com a idade, o azedo de pensar. Registou subitamente essa fisionomia frágil de pele branca e vestes negras. Teve medo de olhar para os lábios e apaixonar-se subitamente por outra mulher qualquer. Nesse instante um bebé começou a chorar com medo que o abortassem. E a mãe que o carregava abraçou-o com medo de o perder. Pois quando ela se levantou uma mancha escura de menstruação sujava o padrão feio do banco do metro. E ele pensou que mais ninguém lhe serviria para além dos seus joelhos brancos e seios felizes.

O metro parou e nessa estação saiu o homem do jornal, a sangrar do lábio, e o bebé com fome, a pedir leite em seios cansados. O sangue continuou a escorrer, deixando o sabor metalizado nas demais bocas cheias de fome. Mas ela manteve-se de pé. Deixar-lhe-ia apenas um rasto pelo caminho que ele seguiria como Hansel e Gretel de volta a casa.

Pelo caminho não sentiu esse cheiro a azedo que o impregnava. Desde a infância que sofria de problema otorrinos. Aos cinco anos tirou ela os adenóides e as amígdalas, conservava-os num frasco com líquido em cima da mesinha de cabeceira. Depois disso partiu irremediavelmente a cana do nariz, numa queda que também lhe afectou a parte do cérebro ligada ao cheiro. A sua maior desilusão foi ter partido aí a sua bicicleta e nunca mais ter tido dinheiro para comprar outra. Aos quinze anos a sua maior prenda foi ter deixado de receber prendas, pois já não existia espaço no quarto para mais bonecas de porcelana. E por causa destes acontecimentos ela foi obrigada a confiar permanentemente em todos. Incluindo esse homem estranho que se dirigia pela mesmas ruas que ela, que a espreitava por entre os cantos dos olhos, sem nunca a entanto ver. Era incapaz de cheirar o espírito, da mesma forma que a amedrontava todos aqueles que focam o olhar, tal como as bonecas de porcelana fazem sempre. Mas No fundo era feliz, ainda que alguns lhe chamem ignorância.

O lobo escondia-se entre a floresta de betão. Feio, sujo, omnipotente. A corcunda atravessa-lhe o desejo. Sempre gostara dos dias reluzentes de verão, lembrava-lhe a puberdade, o cheiro a suor das meninas que ainda não sabem que são mulheres. Pareciam porquinhos a assar ao sol, sentadas nos baloiços de madeira. E a mãe tapava-lhe os olhos com medo que ele crescesse e se fosse embora. Que mais razões tem um homem para partir para além do amor? Ou da falta dele… E por isso de noite ainda lhe perguntava de mansinho se ele tinha fome, se lhe apetecia um copo de leite com açúcar e as aventuras de Tom Swayer e Hucleberry Finn. Aconselhava-o a viajar só nos livros, porque a cabeça de alguns homens não é tão boa quanto a dos escritores de contos infantis. O que ele não sabia é que até esse violam meninas por altura do pôr do sol. E durante noite o esperma saia-lhe sem querer, sem razão aparente. E a mãe batia-lhe com uma vara de madeira, que poderia ser tudo. Um remo, uma árvore, uma perna de menina, uma pila de um gigante bastante magrinho. Porque quando se é criança o mundo tem uma proporção geométrica perfeita e qualquer coisa nos seios felizes da mãe lhe faziam doer menos as pancadas. Talvez se resumisse a amor. Numa dessas noites ele quase morrera às mãos da vara de madeira. E enquanto lhe batia a sua camisola vermelha manchava-se de um liquido estranho a correr-lhe os mamilos. Como aquela gota de suor. Como o sangue menstrual. Como a obsessão. Foi aí que percebeu que ia acabar por o matar. Parou, tirou a camisola e deu-lhe de novo esse elixir da juventude. Como se tratasse de um milagre, uma oferenda de Deus, um caminho a seguir. E ele bebeu com sofreguidão esse liquido meio branco, quase transparente. Abriu-lhe o soutien desajeitadamente, como só um adolescente faz, e bebeu tudo o que a mãe lhe tinha para oferecer. E mais ainda. Bebeu tanto nessa noite que os cabelos dela esbranquiçaram, e a sua face ficou de tal modo magra que a pele se desprendeu dela, formando rugas de todas as formas e feitios. Os seus seios ficaram irremediavelmente feios e descaídos. Ele bebeu tanto dela que acabou por lhe roubar a sua própria juventude. No lugar dos ovários nasceram cancros a atrasarem-lhe a morte. Os olhos cegaram permanentemente com glaucoma e as suas pernas já não comandavam às suas ordens. No final ela sentou-se num sofá a ouvir para sempre as telenovelas da tarde e ele tinha-se tornado um homem da noite para o dia. O que nenhum dos dois sabia é que nessa noite morreram ambos.

Os joelhos brancos passam a porta de entrada e ele entra atrás. Diz-lhe que se apaixonou e pede-lhe um broche no hall de entrada. Ela ajoelha-se com uma máscara de coelho na cabeça e pede-lhe que a respeite. E com o tempo aperta-lhe o pescoço cada vez mais e mais até ela morrer. E mesmo no último minuto ela jurava-lhe amor eterno numa esplanada de um café perdido nesta cidade. A conta chega num papel esbranquiçado, quase a lembrar cartas de amor, e lá vinha assinalado: um batido de morango 2,50 euros. Ele paga e manda-a embora antes que o beba até ao fim.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Les jours tristes

o autocarro partiu sem ti
à decisão contra natura de ficar
porque de vez em quando espreitas o céu
e imaginas-te longe,
mas não tão perto quanto ir.
a loiça da cozinha ganha mosquitos
todos em número suficiente para serem teus amigos
e a cama desfeita nem parece tua
por seres habitado por toda a gente
menos pela lucidez;
e todos eles fumam
mas é a ti que te custa o catarro verde.
já perdeste pelo caminho as moradas que pretendias guardar
por isso mesmo que não quisesses
as tuas viagens são incertas.
nunca é bom dia para arrumar o quarto
existe o medo de encontrar um papel,
um poema, uma caminho de volta ao sorriso -
porque esse sorriso não é o teu;
tentaste consultar as bulas farmacêuticas
mas nada te convence de que solidão
seja doença,
e as prescrições são de há três anos atrás
e nessa altura até te apetecia morrer,
mas hoje nem isso.
podias deixar-te à fome,
mas aperta-te o espírito por algo bom
mas em vez de comeres masturbas-te.

Ao despertar

ouves o que te dizem, mas é quase cego
porque acordaste sem saber
se ainda sonhas ou se já vives
mas é quase cego, porque de vez em quando
se escolhe sonhar nas vezes de viver.
a almofada doí-te nos olhos acordados
e a tepidez arrasta a claridade
encharcando a face que se julga suada
pronta a devorar de novo o leito
como se o dia estivesse para acabar

infelizmente foi a manhã que acordou morta.