domingo, julho 25, 2010

Deixei de escrever poesia, porque
O barulho do tráfego já não parece música
E a música já não se ouve,
Lisboa está cheia de traficantes e putas,
Deixaram de existir sonhadores e amantes.
Porque já não me saem palavras da boca,
Ao invés de meter a palavra vómito a cada verso.

Tenho medo de me ter habituado à violência.

These Days

Se calhar devia estar sozinha. Mas já não o consigo fazer. Mesmo assim, assombram-me o teu passo seguinte, a próxima manobra. Que palavra terei eu de dizer para te fazer feliz. Hoje sonhei que era uma prostituta japonesa à espera do teu pagamento. O que me ensina a pior coisa do mundo. Ninguém consegue dar sem receber de volta. E o amor é uma doença sem perigo de contágio

quarta-feira, julho 21, 2010

Um café às 4 da manhã

Um dia tive um amigo que me disse que detestava a palavra solidão na poesia. Dizia-me que a solidão é algo que se descreve e não se inutiliza numa única palavra. Para mim na altura tanto me fazia, não entendia esses rigores. Ainda não sabia que a solidão era mais do que se estar desacompanhado. Ás vezes sorria simplesmente e continuava a minha vida. Porém as coisas chegaram a este ponto caótico de continuar a sorrir sem me apetecer continuar. Faço por me esquecer das minhas errâncias nocturnas em busca de companhia. Apago-me nos maços de tabaco e apesar de já não acreditar no amor, continuo a amar. Ás vezes detenho-me junto à cama e apercebo-me que estás tão só como eu. Geralmente dormes profundamente, sem te dares conta que me doem as cicatrizes. As tuas e as minhas. Porque por muito que nos estejamos a diluir em egos opostos, continuamos a espreitar a vida através das fechaduras do corpo. É assim mesmo que acontecemos. Toda a gente é assim, dizes-me. Acostumaste-te aos barulhos dos vizinhos. Acostumaste-te de tal forma que já não dás por eles, já não te magoam as paredes que te separam deles, tal como já não te magoa os corpos que nos separam. E entre todas as subtracções dou-me conta mais das limitações que dos prazeres. Hoje em dia já é necessário que me rasgues a pele para que me faças viver. Porque a maioria das vezes que me olhas já não me vês. Ainda bem que não o fazes.

(s)Ex-Alcool

Costumava existir uma diferença. Uma diferença vulgar que separavam os jantares dos jantares fora, das mesas de vidro e de madeira, o facto de o vinho ser bem amadurecido ou estar ligeiramente quente demais para a ocasião. Ou como acontecia a maior parte das vezes, o vinho chegava e logo a seguir pedia um recibo para as contas do IRS. Costumava ser assim. Umas vezes vinhas, outra chegavas atrasado. O problema destas coisas está muitas vezes na casta da uva, se é Douro, Dão, Tejo. Ou se o verbo vir é empregue literalmente ou com álcool à mistura. Sem contar se vamos acompanhar com amigos, amantes ou desconhecidos. Sublinhando o facto de o prato poder ser carne ou peixe, e haver quem prefira bacalhau, e haver igualmente quem prefira um bom bife da alcatra. É vinho. E quase que poderia ser outra coisa qualquer.

The Funeral

A chuva cai lá fora e alguém do lado de lá acena. Apetecia-me dizer adeus, como aqueles adeus com certezas absolutas. Mas raramente se faz isso, é politicamente incorrecto dizer adeus para sempre. É socialmente incorrecto, nas cidades grandes, acenar-se se quer. Os desconhecidos passam uns pelos outros sem se aperceberem de cada um é como o outro. Mas isso também não choca ninguém. A pior coisa que pode acontecer é alguém chorar na via pública. Um dia aconteceu-me isso e ninguém disse nada. Tal como ninguém diz Adeus para sempre. Nunca sem estar carregado de uma última foda, ou de um último jantar, ou de uma cama de hospital, ou com flores à volta do nosso corpo pronto para ser atirado de volta à terra. É socialmente incorrecto dizer-se adeus para sempre noutras circunstâncias. Existe também aquele homem em Lisboa que fica à porta das estações de metro a acenar às pessoas. Dizem que está louco. Eu tenho-o como lúcido, talvez um pouco parvo por acenar várias vezes à mesma pessoa em dias diferentes. Ou serei eu parva, nem sempre se acena para dizer adeus, também há quem diga um olá. Fragilidades do destino ou conveniências do Karma, a última vez que voltei a mudar de casa passei a ter esse homem como vizinho. Acena-me todos os dias: é o mais bem-educado dos que vive ali na zona de Arroios. Custa-me saber se diz adeus, se diz olá, só tenho a certeza que esse não está louco. Esse não diz adeus para sempre. Eu sou um caso diferente. Já disse adeus para sempre. Raras vezes aconteceu para sempre. Em dois casos particulares, até agora contam como sempre. Nos dois casos não houve grandes formalismos à volta da coisa. Se os voltasse a encontrar na rua seria à mesma adeus para sempre. As pessoas não acabam, excepto se morrerem, tirando isso o que acaba são as situações. E há situações que têm prazo de validade, uns mais curtos, outros mais longos. As que marcam mais deveriam merecer funerais, mas desisti de ritos sociais há muito tempo. Na verdade choca-me o Adeus explicito porque esse geralmente não significa o fim de nada. Muitas vezes há quem viva para além do funeral. Há quem viva para sempre, mesmo depois do prazo de validade das situações. E contra isso não há nada a fazer. Não existem velas suficientes no mundo para chorar as memórias e esquece-las de uma vez só. Às vezes penso que o melhor mesmo era deixar os corpos mortos, as recordações, a apodrecerem à porta das estações de metro. E deixar-nos levar pelo cheio nauseabundo da decomposição das situações. Só para nos mostrarem que ainda existem e agora estão inutilizáveis. Gostava de ver os entes falecidos levantarem-se das suas tumbas como se fossem mortos-vivos. É bom que o que morreu continue morto. E por isso é bom, às vezes, matar propositadamente: para que nem vivo se levante da sua tumba.

A primeira despedida foi algures no tempo, sem direito a funeral. A segunda teve um funeral tácito. Lembro-me que lhe reproduzi no braço as teclas de um piano. Estávamos numa velha estação de camionagem, e os dois sem termos um sítio a que pudéssemos chamar casa. Fragilidades do destino. A partir do momento que subi no autocarro soube que nunca mais o voltaria a ver. A primeira despedida já foi diferente. Prometeu-se que não haveria funeral, nem que seria uma despedida. Infelizmente já estávamos decepados e não existia reconhecimento possível.

Existem funerais que custam mais que a morte. E mortes que custam mais do que funerais.

sexta-feira, julho 09, 2010

Tenho um amigo que adora falar sobre Nada.

Ele pega na sua bebida e explica-me que a realidade é a consciência de nós mesmos. Quase nunca acredito nele. ACreditei uma vez, quando ele disse que me amava. Mas na verdade também já não sei se acreditei em mim ou nele. Depois do terceiro copo voltou ao tema central com mais lucidez. Disse-me que lhe tinha sido detectada uma esquizofrenia. Não interessa o tipo. Eu julguei que fosse inteligência e não doença. "Se calhar sofro do mesmo", disse-lhe. Ele perguntou-me pelas alucinações. "Alucino paixões". Sim, é o mesmo problema, pensámos ambos. "Nunca entres num psiquiatra, eles vão fazer-te tomar medicamentos que não são importantes, ao invés aprende a viver com as paixões". E ficámos em silêncio, quase uma eternidade. Porque de facto não era importante, as palavras têm o mesmo efeito que os anti-psicóticos.